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segunda-feira, 4 de março de 2013

2M: O POVO É QUEM MAIS ORDENA!

O dia 2 de Março foi histórico. Em 40 cidades, um número nunca antes visto de pessoas saiu à rua para dizer "Que se Lixe a Troika, o Povo É Quem Mais Ordena", e para exigir a demissão imediata do governo.

O governo de Passos, Gaspar e Relvas ficará na história como aquele que conseguiu, num espaço de quatro meses, trazer para a rua manifestações quase diárias de contestação ao governo, assim como as duas maiores manifestações de que há memória em democracia - como se já não bastasse o registo de ser responsável pelos piores níveis de desemprego, pobreza e descalabro dos serviços básicos de sempre!

Mas a sede de bater recordes é insaciável, pelos vistos: nunca antes um governo ou uma maioria ignoraram tão completamente a expressão da indignação popular, mostrando o desprezo pelas pessoas que é já apanágio desta política. O mundo fala na indignação que tomou conta das ruas de Portugal, e o governo tem para oferecer apenas o silêncio em que se prepara para anunciar os cortes de 4 mil milhões de euros que teve medo de revelar antes de 2 de Março.

No meio deste silêncio ensurdecedor, que diz o Presidente da República? O mesmo que o governo: nada. Junta-se ao desprezo pela cidadania que o governo faz questão de exercer. No sábado, as ruas deste país (e não só) encheram-se de esperança. E essa esperança traduz-se, para já, numa exigência clara: Demissão! Quem não dá ouvidos a tamanha maré de vontades é cúmplice assumido destas políticas, e deve arcar com as consequências. Nós não nos esquecemos de que, em democracia, o povo é quem mais ordena.


[fotografia: ©Jorge Humberto, "filmes do ar"]

Texto de António Mariano

Na manhã do «dia inicial inteiro e limpo», então com quinze anos, fui até ao Seminário de Almada dedicar-me a uma das minhas actividades favoritas: «dar uns toques» numas bolas de basquete, enquanto espreitava a saída da bela fragata do meu pai rumo a Itália. Surpreendido, assisti a algumas manobras para fundear ao largo, de frente para a Praça do Comércio. E por ali, imóvel, ficou. Naquela hora não percebi que estava a presenciar o momento mais importante das nossas gerações de portugueses. Desisti de tentar perceber e regressei a casa. Passada a incerteza inicial quanto ao que realmente se passava, escutados os comunicados e canções da rádio, uma alegria natural invadiu-nos a todos e viemos para as ruas festejar a liberdade. Ficavam para trás silêncios e sussurros inesperados e muitos dos tabus que por cá vagueavam, pesados. O meu pai, que nunca chegou a conhecer a Itália, contou-nos depois como a fragata quase podia ter deitado tudo a perder se tivesse varrido a ferro e fogo a nossa baixa pombalina, e todo aquele dia sem mácula tivesse acabado diferente. Mas um punhado de marinheiros decidiu não entrar em confronto com os seus irmãos, um punhado de homens valentes liderados por Salgueiro Maia. Naquele dia e seguintes, aprendi o valor supremo da liberdade, o direito à indignação que a conquistou e como um, vários, imensos grupos de mulheres e homens, conseguiram tomar nas mãos o rumo das suas vidas, nas cidades e nos campos, nas fábricas, nas minas, por todo o lado.

Meia década depois mergulhei no mundo da estiva e vivi toda a precariedade imposta pelas centenárias famílias de senhores feudais que dominavam os portos. Os esquemas humilhantes, de braço no ar, à espera do jeito do padrinho para conquistar o ganha-pão diário já estavam mitigados, mas a precariedade ainda era rainha. Meio ano passado, deu-se a nossa pequena grande revolução. Ganhámos estabilidade, segurança para constituir família, escolher os espaços de intimidade, almoçar nos mesmos restaurantes dos patrões. Porque nascemos no mesmo mundo e todos temos direito a usufruir dele. Decorreu uma década até que — no tempo do governo daquele que agora faz de Presidente — as condições laborais no mundo da estiva se começaram a degradar. Passados tão poucos anos de alguma estabilidade queriam fazer-nos regressar ao horror da incerteza. Queriam comprar os pais com promessas para que deixassem cair os filhos no passado de miséria de que tínhamos a memória bem fresca. Alguns «sindicalistas» aceitaram vender os filhos porque, diziam, «eles também vão desenrascar-se». Alguns de nós gritámos basta e cometemos um enorme crime. O crime de lutar contra as tendências, contra a fatalidade. Impusemos a dignidade, a segurança, acordámos regras sensatas, criámos condições para que filhos de professores, de militares, de desempregados, de estivadores — cerca de duzentos jovens — tivessem sido admitidos para substituir os mais velhos que iam descansar de uma vida dura. Nos últimos meses assistimos ao ajuste de contas dos mesmos senhores feudais com a nossa história recente. Perdemos uma primeira batalha, a da prepotência, da calúnia e da corrupção. Mas a guerra ainda não acabou porque os estivadores nunca desistem de lutar.

Ando e continuarei a andar nas ruas com todos os portugueses que protestam contra esta forma de governação excelliana, comandada pela alta finança. Recuso o pagamento dos desfalques do casino em que alguns tornaram o mundo, porque apenas nos estão a obrigar a pagar os desvios que muitos continuam a esconder nas Caimões. Combato este poder ilegítimo baseado em mentiras descaradas, repetidas até à exaustão, com desfaçatez, por profissionais na arte do logro. Mentiras escritas pelos consultores das agências de comunicação, a quem ainda por cima pagamos, para que a mentira seja melhor assimilada pelos nossos cérebros, bombardeados por notícias reproduzidas como serigrafias. Recuso ficar refém desta simulação de democracia, porque os portugueses delegaram o poder com base em promessas violadas diariamente e têm o direito exigir o fim desta vigarice, deste regime de terroristas sociais.

A desumanidade desta gentinha é o que mais me revolta. Por muito que estejam instruídos e convictos das maquinações que levam a cabo, como podem ficar indiferentes a toda as mortes que provocam à sua volta? A morte daqueles que se vêm obrigados a fugir do seu país para enfrentar um mundo desconhecido e em crise. E a morte das famílias e amigos que deixam para trás. A morte daqueles que diariamente, qual zombies, se encontram nas filas dos subsídios, que o tempo resolve matando-os de vez. A morte dos que sobrevivem com os restos dos caixotes do lixo dos outros. A morte dos idosos, e menos idosos, que se descobrem um dia no meio da rua, muitos deles sem perceberem o que lhes está a acontecer, porque não foi este o mundo que construíram. A morte daqueles que todos os dias são obrigados a fazer escolhas entre a comida ou os medicamentos, a sobrevivência ou a escola dos filhos, a energia dos radiadores ou a renda de casa, a dignidade ou a esmola. A morte dos que desistem. Ao mesmo tempo que os vampiros vão vendendo o país enquanto tratam do branqueamento dos milhões que desviaram, e que nos querem obrigar a pagar.

Os tempos desumanos que vivemos obrigam-me a reviver o passado. Eu já tinha estado naquela fragata, na base do Alfeite, quando íamos fazer companhia ao meu pai nalgum dos domingos em que ficava de serviço. Recordo um seu camarada que um dia, à mesa, disse que não iria ter filhos porque não lhes queria deixar um mundo pior do que aquele que lhe tinham deixado. A frase marcou-me, mas nessa altura só pensei que os meus pais eram uns heróis por nos terem dado a oportunidade de viver, a mim e ao meu irmão. Hoje compreendo melhor o que ele queria dizer, mas quero lutar para que ele não tenha razão. Matar o planeta é uma forma de matar a Humanidade, mas agora estão a matar humanos, de muitas formas e a sangue-frio. Impunemente.

Passados alguns anos, estive presente na estreia dos Capitães de Abril. Alguém afirmou que, sobre o 25 de Abril, poderiam ser feitas mil e uma histórias diferentes. Mas optaram por aquela. Amélia, uma criança de 6 anos, era a Maria de Medeiros daquele dia inicial. Para mim fiquei sempre a olhar aquela criança como um símbolo de Liberdade. A Liberdade que emerge em todos nós nos 25 de Abril. A Liberdade que, em nome de todas as Amélias que nós algum dia fomos, é urgente reconquistar. Estou a escrever estas linhas na minha viagem entre Lisboa e Atenas. Quero transmitir toda a nossa solidariedade ao povo grego nesta hora insuportável. A minha vida na estiva pesa muito quando se trata de solidariedade internacional. Por isso não vou estar nas ruas de Lisboa no dia 2 de Março, mas venho para as ruas de Atenas. Nas dezenas de cidades onde a nossa canção vai protestar, não interessa a língua, porque a Humanidade é só uma e quer fazer parte daquele Mundo-Grândola-Cidade onde O Povo É Quem Mais Ordena.

No próximo dia 3 quero imenso regressar a um País em festa porque a Maré Alta da Liberdade voltou a passar por aqui, por aí.

sábado, 2 de março de 2013

1 Milhão e Meio nas Ruas. 800 Mil em Lisboa

Temos dados de 30 cidades. Ainda faltam algumas, mas já podemos garantir que pelo menos um milhão e meio de pessoas se manifestou contra a troika e o governo neste dia histórico.

Angra do Heroismo 50 | Barcelona 30 | Beja 1000 | Braga 7000 | Caldas da Rainha 3000 | Castelo Branco 1000 | Chaves 200 | Coimbra 20000 | Entroncamento 300 | Estocolmo 15 | Faro 6000 | Guarda 1000 | Horta 160 | Lisboa 800000 | Londres 100 | Loulé 800 | Marinha Grande 3000 | Paris 100 | Ponta Delgada 500 | Portimão 5000 | Porto 400000 | Santarém 500 | Setúbal 7000 | Sines 120 | Tomar 200 | Torres Novas 250 | Viana do Castelo 1000 | Vila Real 1800 (em actualização).

Texto de Sara Figueiredo Costa

A quem pergunta pelos motivos para sair à rua no dia 2 de Março apetece devolver a interrogação, mas com novos termos: que motivos não haverá para sair à rua no dia 2 de Março?

Se os mais cépticos precisam de números, demos-lhes números: diz o Jornal de Notícias de há poucos dias que «54 % da população activa estão sem trabalho, não constam nas listas dos centros de emprego mesmo estando desempregados, são subcontratados ou têm ligações precárias às entidades contratantes». Há outros números por onde escolher, do abandono escolar às crianças que passaram a ir para a escola de barriga vazia, dos doentes sem dinheiro para medicamentos aos velhos que deixaram de sair de casa porque já não podem pagar o passe. O problema dos números é que, por aparecerem todos os dias nos noticiários e por servirem de discórdia retórica no parlamento (onde há sempre um contraditório qualquer que os desmente parcialmente, deixando o resultado mais ou menos na mesma), começam a não produzir grande efeito. Lembrar que os números escondem pessoas de carne e osso é uma verdade de la palisse, mas ainda servirá para alguma coisa. Por cada pedaço dessas percentagens infames conhecemos alguns ou muitos rostos de gente sem trabalho, de gente com operações marcadas e sucessivamente adiadas, gente sem dinheiro para chegar ao fim do mês, gente que já prescindiu da electricidade e do gás e já não sabe onde cortar mais. E tudo isto enquanto banqueiros sem escrúpulos nos dizem que aguentamos, empresários que deslocaram os seus impostos para o estrangeiro nos dizem que devíamos ser empreendedores, governantes com pensões vitalícias nos dizem que os sacrifícios estão quase a valer a pena.

Sabemos o que dizem os cépticos: que as manifestações não servem para nada. E sabemos o que dizem os paladinos do respeitinho muito lindo: que este governo foi eleito democraticamente e que não faz sentido andar na rua a pedir a sua demissão. Será preciso lembrar que aquela viagem às urnas de quatro em quatro anos, que os cépticos acreditam ser a nossa única forma de participar na democracia, serve para votar um programa de governo e não o conjunto de rostos que o vai executar? E será preciso lembrar que o último programa de governo escrutinado não previa esta austeridade, estes impostos ou esta chacina dos serviços públicos, e muito menos a entrega das nossas vidas à troika em troca de mais empréstimos?

Nos autocarros e nos cafés há quem brade contra a política e os políticos, colocando-se naquele patamar de pureza ingénua que assegura ausência de responsabilidade pelo futuro, em troca de um bode expiatório, neste caso a política, o mesmo bode expiatório que tantas vezes abriu portas aos paizinhos de uma qualquer verdade absoluta para que viessem tomar conta, por nós, daquilo que a nós diz respeito. Talvez não valha a pena repetir. Estamos cá, temos cabeça para pensar, palavras para discutir e voz para levantar.

Se as ruas ocupadas por milhares de vozes não dizem nada ao governo e à troika, não será por isso que a eficácia da ocupação das ruas se torna menor. Milhares de vozes a gritarem juntas produzem sempre algum efeito. Se o efeito é uma dor de cabeça ministerial ou um pequeno desvio no eixo de rotação da terra, não temos como saber antes de sair à rua, mas creio que o resultado mais importante, aquele que os telejornais não têm como medir, é a certeza sobre o que podemos fazer quando nos organizamos. Com isso havemos de fazer mais do que uma enorme manifestação, mas para já, comecemos por algum lado.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Texto de Diana Andringa


Dizem-nos por vezes: «não vale de nada fazer manifestações — “eles” não nos ouvem». Mas como certamente não nos ouvem é se ficarmos cada um em sua casa
(os que ainda a têm),
evitando as notícias que doem
(aquela família que não pode pagar a renda, a mãe que gostaria de dar leite ao seu filho, a operária que chora a fábrica deslocada — «fazíamos coisas tão bonitas, às vezes nem sabíamos como aquilo saía das nossas mãos» — o homem que se suicidou deixando uma nota a pedir desculpa aos seus credores)
esperando que nunca, nunca, sejamos nós ou os nossos a notícia, distraindo-nos com pequenas coisas para evitar pensar,
com medo de pensar, de dizer, de agir, divididos entre nós ao sabor da propaganda
(«a culpa é dos velhos, que recebem pensões que os novos já não vão poder receber; dos jovens, esses piegas que, em vez de irem trabalhar para as obras noutros países, querem ser úteis estudando no nosso; das mulheres, que por quererem estar na produção negligenciaram os filhos; dos imigrantes, que vieram disputar-nos empregos; dos médicos, que recomendam exames e medicamentos a pessoas descartáveis; dos trabalhadores, que ousam fazer greves»),
dormindo mal, esgotando ansiolíticos e maravilhando governantes e estrangeiros com a brandura dos nossos costumes.
Poupemos, pois, nos ansiolíticos:
gritar alto, cantar, unindo as diferentes vozes, é melhor para a saúde.
Até porque, como escreveu Gabriel Celaya, «as palavras que todos repetimos sentindo como nossas voam».
E, vindo tão a propósito, copio aqui esse poema:

LA POESÍA ES UN ARMA CARGADA DE FUTURO
Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmado,

como un pulso que golpea las tinieblas,
cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades:

las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.
Se dicen los poemas
que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
piden ser, piden ritmo,

piden ley para aquello que sienten excesivo.
Con la velocidad del instinto,
con el rayo del prodigio,
como mágica evidencia, lo real se nos convierte

en lo idéntico a sí mismo.
Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,

para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.
Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.

Estamos tocando el fondo.
Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.

Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.
Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.
Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas

personales, me ensancho.
Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso con técnica qué puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero

que trabaja con otros a España en sus aceros.
Tal es mi poesía: poesía-herramienta
a la vez que latido de lo unánime y ciego.
Tal es, arma cargada de futuro expansivo

con que te apunto al pecho.
No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es algo como el aire que todos respiramos

y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.
Son palabras que todos repetimos sintiendo
como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado.
Son lo más necesario: lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo, y en la tierra son actos.


Texto de João Reis

Conheço uma série de pessoas que têm medo. Têm medo de se comprometer. Umas porque não se revêem em determinado tipo de manifestações, outras porque preferem estar caladas e ver o que acontece, outras ainda porque encontram forma ou formas mais singulares e solitárias de manifestar o seu desagrado. Mas tudo isto somado é ainda muito pouco para entender esse medo. O comprometimento não configura nenhuma espécie de coragem participativa, nem nenhuma obsessão pelo insulto, nem tão pouco o desrespeito pela opinião dos outros. Haverá ainda muitos portugueses que não acordaram para uma espécie de morte anunciada da Europa e do país. Uns porque não acordaram mesmo e os outros porque sendo muito cépticos não acreditam em cenários alternativos e credíveis ao rumo que estamos a tomar. Em Itália, o cenário pós-eleições revelou o descrédito dos cidadãos em relação à classe política em geral e às suas políticas em particular. Como dizia um amigo meu, economista silencioso, políticas de "caixão à cova". Não se pense contudo que o cenário em Itália pode anunciar algo de profundamente esperançoso. Não. Pode aliás, e até, anunciar a catástrofe, a catástrofe que há-de vir. Uma das coisas maravilhosas da manifestação de 15 de Setembro, foi a transversalidade social e política que a caracterizou. Parecia que afinal nem andávamos a dormir e tínhamos todos (ou quase todos ) vontade própria e sentido de indignação e repulsa pelas políticas que antecipadamente nos empurram para a "cova". Isto ( e o isto aqui é muito grande) tem mesmo de acabar, tem mesmo de mudar. Mas não se pense que o que queremos ver transformado em mudança há-de acontecer por inspiração divina ou por acervo crítico em conversas de café. O que queremos mudar exige comprometimento e responsabilidade.Exige que possamos falar e dizer basta, na rua, livres de preconceitos! Porque o medo come a alma.

Texto de Joana Saraiva

O tempo que demoro a escrever cada linha é o reflexo de uma experiência comum: a de haver cada vez menos palavras para descrever o que está acontecer, a cada um de nós individualmente e ao espaço comum que habitamos. É difícil descrever a asfixia, o cinzentismo, a mediocridade. É difícil descrever a sensação de que nos queimam tudo, a vida por dentro e o país por fora.
Enquanto tudo arde e queima, eu quero acreditar que podemos ainda salvar das cinzas o que é nosso. Porque, ao contrário do que preconiza quem lucra com a miséria alheia, eu sei que não aguento nem mais um dia sem horizonte ou esperança.
No dia 2 de Março saio à rua, porque o que nos resta não pode ser só trabalhar a custo cada vez mais baixo para enriquecer cada vez mais cada vez menos gente. O que nos resta não podem ser os olhos sempre postos no chão, as bocas caladas, os gritos todos contidos e o olhar vazio a agradecer o pão nosso de cada dia; afinal, como alguns insistem em dizer-nos, «não se morde a mão que nos dá de comer» e «mais vale assim do que pior».
Saio à rua contra a hegemonia de um discurso mastigado, que poupa e sacrifica sempre os mesmos e que prega a inevitabilidade da miséria e da indignidade. A inevitabilidade é contrária à ideia de democracia, porque pressupõe a anulação da discussão, da proposta e do pensamento.
Saio à rua contra o moralismo que contaminou o discurso e que nos ensina como viver sem pedir mais, que nos ensina a aceitar como natural que o salário não chegue para o bife e que nos explica como podemos ser mais felizes na desistência de sermos inteiros e exigentes.
Saio à rua contra a ditadura de uma dívida que nos dizem termos de pagar, doa a fome a quem doer. Uma dívida que não foi contraída em nome dos que a pagam e que resulta em parte da injecção de capital em bancos privados, que apostaram e perderam dinheiro em especulações imprudentes e brincadeiras de casino.
Saio, porque a falta de casa e de comida nos são vendidas como danos colaterais no jogo dos alunos cumpridores.
Saio e sairei sempre contra os burocratas penteados, os especialistas bem mandados, os mentirosos, os obedientes e os sanguessugas. Saio também contra os «só estou a cumprir ordens», os «não exageres», os «mais vale não levantar ondas», os «vamos andando». Que se lixem, que se lixem, que se lixem.
Saio pela minha avó, que todos os dias envelhece com muito menos dignidade do que aquela que merece. Saio por um irmão afogado no medo e na desistência. Saio pelos sonhos da minha irmã. Por cada um dos amigos que emigrou. Saio pelo meu avô, que me ensinou os valores fundamentais da solidariedade e da justiça e pelos olhos da minha mãe a lutarem contra o susto (estou contigo, minha mãe, na coragem que me ensinas todos os dias). Saio pela angústia surda do meu pai e saio por ti, meu amor. Saio pelo meu filho, ainda à espera de um dia mais radioso para nascer. Que se lixem, pai e mãe, eu sinto em mim forças de sobra para dizer bem alto que resistiremos. Que se lixem, avô, eu juro que defenderei a água e os hospitais, as escolas e os jardins, os teatros e os museus, a terra e a nossa vida. Que se lixem, meu irmão e minha irmã, contem sempre comigo na luta pelo direito ao sonho.
Sei que, mesmo muitos, seremos poucos para travar a barbárie, mas sei também que somos cada vez mais a saber que qualquer poder eleito que não sirva para nos representar, não serve para nada. Somos cada vez mais a saber que é o povo quem mais ordena e que esta há-de ser ainda a terra da fraternidade.
Que se lixe a troika e o governo. Que se lixem todos os troikistas e a austeridade criminosa.
Por muito que os interrompamos, eles ainda falam demasiado sem nos dizerem nada. No dia 2 de Março sairemos à rua para os calarmos de vez.

Texto de Alípio de Freitas


O povo é quem mais ordena

Tenho estado muito atento a tudo o que se tem dito e escrito sobre a manifestação popular do dia 2 de Março, contra a TROIKA, e ainda aos comportamentos dos políticos e seus próximos frente ao seu «enfrentamento» com a canção de Zeca Afonso Grândola, Vila Morena. Nada que me tenha surpreendido, uma vez que a maioria, repito, a maioria dos políticos da nossa praça e também a sua corte de seguidores já fizeram várias, muitas revisões do 25 de Abril. A situação é tão caricata, que hoje todo e qualquer bicho careto se diz herdeiro do 25 de Abril. A direita, a esquerda, o centro, os «jotas», os boys, os revisionistas, os «entreguistas», os traficantes de todas as coisas e influências e sei lá que mais, todos se apresentam como defensores do 25 de Abril, sobretudo dessa democracia que aí está e que outra coisa não é mais que uma «bastardia» do 25 de Abril. O povo tem de sair de novo à rua. Não nos serve uma democracia que ande de braço dado com banqueiros corruptos e ladrões, não nos convém uma democracia que, com políticos a soldo e de saldo, usurpe os direitos do povo e destrua toda a sua esperança. Não nos convém uma democracia que se propõe matar de fome, desprezar e abandonar os seus velhos e convida os jovens a emigrar, para que as poupanças do seu trabalho, em terra estranha, sustentem os que cá ficaram por já não poderem emigrar. Não nos convém uma democracia onde a justiça e a iniquidade se confundem, onde a prepotência substitui a lei, onde se penaliza quem trabalha, quem é pobre, quem é jovem, quem é doente ou quem é velho. Não queremos uma democracia guardada, protegida e sustentada por mercenários. Queremos que as forças de segurança sejam constituídas por pessoas livres, cidadãos exemplares que defendam o povo e os seus legítimos interesses. As forças de segurança terão sempre de ter presente nas suas mentes que são constituídas por filhos e filhas do povo, que quem lhes paga e garante a sua existência e eficácia é o povo trabalhador e não os banqueiros, a TROIKA ou aqueles que em nome da paz e da segurança destroem países e governos, rapinam recursos e humilham, com os tacões dos seus mercenários, quem se atreva a contrariá-los. Queremos forças de segurança que no dia do seu juramento se comprometam apenas e tão somente a servir com lealdade o seu povo.
Sou abertamente favorável a todas as manifestações em que o povo expresse a sua vontade. Ninguém, quer se trate de organizações ou pessoas, expressa hoje em Portugal a vontade do povo. Nem os partidos políticos, qualquer deles, nem a Igreja, nem um cidadão ou um grupo de cidadãos organizados se pode armar em representante ou porta-voz do povo. Mas é bom que se comece a pensar nisso. Sempre haverá cidadãos descomprometidos com o pântano em que se transformou a vida política portuguesa, sempre haverá alguns cidadãos cujo presente e passado os credibiliza para a urgente tarefa de tirar este país da servidão. E não me venham os «democratas bunda suja» que por aí se acotovelam dizer que o meu apelo à organização e acção do povo, tendo à frente quem o ajude na tarefa de construir outro país, tem cheiro de totalitarismo ou coisas que tais. Disso e de falsas democracias como esta em que vivemos e que não passa de um pântano fétido, disso entendo eu, que durante uma boa parte da minha vida estive exilado, vivi na clandestinidade, fui combatente revolucionário, sobrevivi à tortura e somente ao fim de dez anos de vários presídios fui posto em liberdade. É esta memória de mais de sessenta anos que se cravou em mim como uma cicatriz profunda, que me ensinou a «livre pensar», estar atento ao que se passa no mundo e sempre presente em todas as manifestações, apesar da minha cegueira quase total. Portugal não precisa de mudanças mais ou menos coloridas como aquelas de que os papagaios da Assembleia da República tanto palreiam. Não. Portugal precisa urgentemente de resgatar as promessas de Abril que, mal despontaram, logo começaram a ser roubadas pelos ladrões do costume. O 25 de Novembro foi o acto final de uma revolução que não houve e o primeiro da tragédia em que hoje estamos mergulhados. Porquê? Porque o Presidente da República e o primeiro-ministro saíram como exilados de luxo para o Brasil, os ministros desapareceram do país sem que ninguém os incomodasse e foram viver de rendimentos no estrangeiro, os membros da PIDE foram soltos sem julgamento e mais tarde alguns deles foram condecorados por serviços prestados à nação, os banqueiros, capitães de indústria e latifundiários acoitaram-se em países vizinhos e no Brasil, para depois regressarem e serem indemnizados por perdas que nem haviam tido, no Ministério de Negócios Estrangeiros, que durante a ditadura serviu como agente da propaganda fascista nas colónias de imigrantes portugueses, não houve um único saneamento, os juízes e os tribunais plenários, que agiram como juízes torcionários do poder fascista, passaram directamente desses tribunais para os tribunais comuns em todos os níveis. Ninguém foi responsabilizado ou condenado por qualquer crime cometido contra o povo. Seria um rosário imenso enumerar tudo aquilo que a Revolução de Abril não fez, vá-se lá saber porque razões, mas serviu para organizar a contra-revolução.
Provavelmente a maioria daqueles que organizam todas estas lutas que se vêem por todo o país e que escolheram Grândola, Vila Morena como seu grito de guerra nem sequer eram nascidos no 25 de Abril. Pouco importa. Eles ouviram o apelo da história e do povo. E ainda bem, porque se eles não tivessem ouvido esse apelo, Portugal e os portugueses possivelmente passariam à história das coisas não acontecidas, que uma bruxa má chamada TROIKA teria feito desaparecer num golpe de mágica.
Vamos lixar a TROIKA!!!

Texto de Paula Marques

Sou a Paula Marques, 39 anos, do Porto, filha e neta de professoras, pequena burguesa de origem, muito mais viva que morta (obrigada Zé Mário…), mas com a mostarda já ao nível da intoxicação! Sou actriz, produtora, autarca. Sou precária há exactamente 21 anos!
A Habitação, a Saúde, a Educação são direitos. A felicidade, no modelo que cada qual entender como o seu, é um direito! Não são benesses que uma qualquer administração resolveu atribuir. A Constituição da República Portuguesa não é letra morta!
Nunca vi tanta gente com olhar vazio a cruzar as ruas. Ontem pela primeira vez vi crianças com adultos, no apoio alimentar, na rua.
Não quero este país em que o trabalho, quando o há, já não chega para sobreviver.
Não quero este país onde tenho que escolher entre comer ou tomar os medicamentos, entre pagar a renda ou viver com luz e água.
Não quero este país onde as pessoas têm permanentemente de se defender do estado. Porque é desigual! Porque se eu não pagar a Segurança Social, mesmo que não tenha trabalho, os juros montam. Oh, se montam! Mas se o estado me ficar a dever… os juros estão onde?
Não quero este país em que o estado, personificado nas pessoas que constituem este governo, parte sempre do princípio de que as pessoas são vigaristas, aldrabonas ou criminosas. Não quero um país em que se vai ver se a pessoa A ou B é ou não sindicalizada! Se a pessoa A ou B tem um passado de activista.
Ninguém pode exercer a sua cidadania plena se lhe estiverem permanentemente a coarctar os direitos fundamentais. Não há cidadania e luta que resista à fome!
Fizemos alguns avanços no que toca ao respeito por diferentes ideias e vivencias, por aquilo que é diferente de nós, ou da percepção que temos de nós. Não percamos, em tão pouco tempo, o que tanto custou a construir. Não quero cortes no meu salário e muito menos que os cortes do meu salário vão engrossar os BPN desta vida.
A aprendizagem e o exercício da democracia não se fazem unicamente de 4 em 4 ou de 5 em 5 anos, nas urnas. Fazem-se nas ruas, no associativismo, no activismo, no exercício da liberdade individual. Na luta mais organizada, na luta mais inorgânica. Da convergência das várias formas de luta é que nasce a vitória.
Sou defensora do respeito pelo voto, livre e informado. Mas este governo, ainda que tenha sido eleito e tenha a legitimidade formal, deixou há muito de ter legitimidade moral, legitimidade anímica, legitimidade do povo para governar! Chega de sermos sangradxs pelos interesses económicos e financeiros nacionais e internacionais!
Salgueiro Maia disse: «…como todos sabem, há diversas modalidades de estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos».
Porque um dia um amigo/camarada/cúmplice chamado Fernando, o meu pai, me disse: «não desistas, não deixes que te roubem a vida!». Porque todos os dias uma amiga/camarada/cúmplice chamada Manuela, a minha mãe, me diz: «já chega! É que já é demais!».
Como Fernando e Manuela saíram à rua quando foi preciso, também nós saímos à rua em Março, em Abril, em Setembro, em Novembro e de novo em Março. E sairemos quantas vezes for preciso!
No dia 2 de Março, onde quer que estejas, sai à rua! Diz que já chega! Resiste!

Texto de Paula Gil

Enrolo um cigarro e olho para a mesma folha em branco.
Não sei o que escrever, nem onde começar. Sei que não quero falar de política.
Não quero falar de política. Quero falar da dona Maria («bom dia minha filha!» — diz-me quando passo por ela na rua), que vai perder a casa por não conseguir pagar a renda com o novo aumento.
Não quero falar de política. Quero falar do Sr. Luís, que fechou esta semana a mercearia: «mais de 50 anos à frente deste balcão, ainda o meu pai geria a Florida» — diz, como se a loja tivesse personalidade — «e já eu ajudava depois das aulas». Os clientes diminuem, «já não dá para as despesas…» — diz de lágrima no canto do olho.
Não quero falar de política. Quero falar da Filipa, que está à minha frente na fila para pagar a Segurança Social, trabalhadora a recibos-verdes, que ganha 485 euros por mês e, depois de pagar os impostos, não consegue quase alimentar a Joana, a filha de um ano e meio que traz ao colo: «quanto é que ela já deve à troika, sabe?» — pergunta-me. Voltou para casa dos pais com o marido.
Não quero falar de política. Quero falar do António, que desistiu da universidade, porque não consegue pagar as propinas nem arranjar trabalho. Lembro-me de ser estudante e ter pago o curso a trabalhar… «A educação agora é só para quem pode» — diz entre dentes.
Não quero falar de política. Quero falar de quem entrega os filhos, por ser incapaz de os alimentar.
Não quero falar de política. Quero falar da dona Rosa, cuja reforma «mal me dá para os medicamentos» — queixa-se...
Não quero falar de política. Quero falar da minha mãe, que está desempregada e sem subsídio de desemprego e é «demasiado velha para o “mercado”». E tem 48 anos!
Não quero falar de política. Quero falar da Ana e do João, que dependem do apoio dos vizinhos: «ai! Se a Dona Lurdinhas não me convidasse para jantar, não sei o que faria»… A Ana trabalha, o João ficou desempregado, têm dois filhos.
Não quero falar de política. Quero falar daqueles e daquelas que revertem todo o seu ordenado para pagar uma dívida que não é nossa e que nos oprime.
Não quero falar de política. Quero falar das pessoas que dormem um pouco por todo o lado nas ruas de Lisboa, do Porto e que «aguentam».
Não quero falar de política. Quero falar daqueles e daquelas de quem ninguém fala, enquanto há força, enquanto há esperança.
Não quero falar de política. Quero que a política fale de nós, seja feita para nós e nos sirva. Quero que a política traga no seu coração o povo e que o povo seja quem mais ordene, dentro de ti, ó país.
Não quero falar de política. Quero falar de um sonho de futuro que nos roubam. Quero falar da esperança que ainda tenho.
Não quero falar de política, mas acredito que ela só pode ser feita por todos e todas nós, de cidadania em punho, em cada pessoa.
Não quero falar de política, mas tudo é político, e esquecer isso é esquecer que somos parte dela. Não quero falar de política, mas falei. Quero falar de ti, de mim, de nós e ter o teu ombro lado a lado comigo nas ruas neste dia 2 de Março.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Texto de Myriam Zaluar

Um dia, tudo isto terá passado. Um dia, todo o pesadelo que temos vivido será apenas uma recordação dolorosa que tentaremos encaixar numa lógica qualquer. Os historiadores estudarão, perplexos, os tempos em que a democracia foi suspensa e o Estado deixou de ser uma pessoa de bem para se tornar num escroque. Os nossos filhos, os nossos netos ouvirão, incrédulos, as histórias verdadeiras que lhes contaremos, sobre a forma como direitos já conquistados há décadas pelos nossos avós e bisavós e consagrados nas tábuas da lei fundamental tiveram de ser novamente disputados, arrancados a ferros de algozes disfarçados de economistas. De como, em pleno século XXI, fomos obrigados a ocupar escolas e hospitais e fábricas e padarias e supermercados e campos e casas, porque nos haviam tentado — e em muitos casos conseguido — roubar a paz, o pão, a habitação, a saúde, a educação. De como tivemos de deitar muros abaixo e de construir pontes onde já só restavam fossos. De como abolimos fronteiras e demos as mãos aos que, do outro lado, apenas aspiravam a uma vida digna. De como erigimos uma terra sem amos e resgatámos os nossos sonhos. E saberão que foi por eles que o fizemos, por eles e por nós, porque ansiávamos pelo sal e pelo mel, porque nos tinham tapado o sol e secado a terra, porque já não aguentávamos ver as nossas vidas por um canudo, por mil canudos, sem os quais afirmavam nada valermos, mas que, após dura obtenção, só nos garantiam o direito a emigrar, a exilar-nos.

Um dia, tudo isto que passamos será passado, marca, cicatriz. Não conseguirão fazer-nos esquecer, mas transformaremos as nossas dores em árvores de fortes raízes. Penduraremos os recibos verdes em paredes antiquíssimas de museu e contaremos aos nossos netos que um dia, há muito, muito tempo, os que mandavam neste país quiseram condenar-nos a pagar impostos sobre dinheiros que nem sequer ganhávamos. Que quiseram deixar-nos à míngua, fazer-nos pagar por bens que eram nossos, que depois de destruírem o que produzíamos nos fizeram comprar a outros todos os víveres de que precisávamos para sobreviver. Que nos quiseram matar à espera de tratamentos nos hospitais, que tornaram o saber num luxo incomportável, que afastaram as nossas crianças das escolas, que acabaram com os caminhos de ferro e com os comboios, que limitaram as redes de transportes públicos, enfim, que tudo fizeram para que deixássemos de nos divertir, de sair à noite, de ir ao teatro e ao cinema. Que puseram aqueles de nós que tinham empregos a trabalhar por dois, por três, por quatro e que despediram os outros, de forma a que os primeiros caíssem de exaustão e os segundos de frustração, de desânimo e de isolamento.

Contar-lhes-emos como um dia fomos obrigados a abolir pela segunda vez a escravatura, pois tentaram convencer-nos que era normal trabalharmos para aquecer, para fazer currículo, tendo de provar uma vez e outra e outra o nosso mérito, as nossas capacidades, enquanto outros tudo tinham, muito embora ninguém percebesse muito bem de onde lhes vinha a fortuna. Explicaremos aos nossos netos que aos pais deles foi roubada parte da infância, porque, sorrateiramente, um bando de malfeitores mascarados de especialistas nos conseguiram durante algum tempo persuadir que termos casa e carro e telemóvel e dinheiro para acampar no verão e ir ver a neve no inverno era um luxo ao qual não nos podíamos dar, porque éramos pecadores e criminosos, embora não nos conseguíssemos lembrar o que raios poderíamos ter feito de tão grave para que os nossos filhos merecessem tal castigo. E eles espantar-se-ão e perguntarão como foi possível que nos sujeitássemos, tão pouco tempo após a sua conquista, a perder direitos tão fundamentais como o direito a trabalhar e a viver no país onde nascemos. O direito a simplesmente querermos ser felizes.

E não saberemos o que responder-lhes. Porque na verdade teremos nós próprios dificuldade em perceber como chegámos nós um dia ao ponto a que chegámos. Mas saberemos sim que um dia dissemos basta, que um dia, com toda a força e veemência da nossa razão e da nossa vontade exigimos o que é nosso. E nos erguemos, já não como rios, mas como marés, como mares, como oceanos de certeza.

Nesse dia, sairemos das nossas casas aquecidas e mostrar-lhes-emos os caminhos que desbravámos juntos: caminharemos pela República, da José Fontana à Praça de Espanha. Desfilaremos nas Avenidas que são da Liberdade e desembocaremos de novo nos Terreiros que são do Povo. Com eles, entoaremos Grândola Vila Morena, duas vezes senha, duas vezes sonho, e as lágrimas brilharão nas nossas vozes e os versos ecoarão nas nossas memórias como ecoaram um dia nas escadarias e corredores dos Passos Perdidos, sob o olhar embargado dos polícias que só desejavam poder connosco cantar. Recordaremos o 2 de Março, o 13 de Outubro, o 15 de Setembro, o 12 de Março e de novo o 1º de Maio e o 25 de Abril, uma vez e outra e outra ainda, um dia, a chorar de alegria, de alívio precoce e intranquilo, com a certeza de que todos os invernos vão dar à primavera e de que os homens que dormem acordam sempre um dia. Um dia...

Texto de Sérgio Godinho


Maré alta

Em 1971, para encerrar o meu primeiro disco, Os Sobreviventes, escrevi uma canção com uma das letras mais curtas:
«Aprende a nadar, companheiro, que a maré se vai levantar, que a liberdade está a passar por aqui. Maré alta maré alta maré alta». Às vezes o menos é mais.
Estávamos então em pleno marcelismo, e digo-o com letra pequena porque era uma versão já semi-inerte do fascismo. E no entanto, havia ainda uma polícia política, agora com três letrinhas apenas, DGS, que se dedicava às mesmas nobres actividades da PIDE sua mãe. Vigiar, prender, torturar, nada de novo. Havia uma guerra colonial que se arrastava pelos campos minados de África, campos imensos sem fim à vista nem esperança de solução. E muitos mortos e feridos e enlouquecidos. Havia censura de peneira fina, e havia a emigração dos pobres, uma peneira de furos largos a deixar fugir o melhor de nós.
E no entanto a liberdade estava a passar por aqui. «O solo que pisamos é livre, defendamo-lo» foi o que pensaram e fizeram muitos resistentes, novos e antigos.
Havia um velha adivinha que perguntava: «Qual é a altura do Salazar?» E respondia-se: «É a altura de se ir embora». O mesmo valia para a sua herança e os seus descendentes. Era altura de se irem embora.
Foi nesse conjunto de pensamentos e acções que se chegou à luminosa manhã do 25 de Abril. Vim então de longe, como muitos de nós, para ver e acreditar nos meus olhos e em todos os meus sentidos. E para cantar pela primeira vez no centro do redemoinho de uma maré alta onde todos pudemos vir à tona e navegar à vista longínqua.
Passados todos estes anos, sabemos como o país está em maré intencionalmente esvaziada e sangrada, e assim estará nos tempos mais próximos, aconteça o que acontecer.
Mas não interiorizemos o medo escuro nem o conformismo pardo. O presente tem «o acesso bloqueado»? Cabe a nós encontrarmos novas chaves, novos atalhos, novas formas activas de o usufruir. Queremos as nossas vidas, sim, por difícil que seja habitá-las neste presente sombrio.
O solo que pisamos é livre, e desde há muito terreno libertado. Defendamo-lo.
A liberdade está a passar por aqui.

Texto de Rita Red Shoes

O medo faz parte da minha vida.
Desde pequena que a falta de liberdade me assusta. O não ter espaço para a minha voz e para os meus movimentos. O medo do escuro no preconceito, na desilusão, na falta de harmonia. Na solidão. São medos que, com o tempo, tenho vindo a aceitar como condição para viver esta vida.
Mas ter medo do estado é coisa pouco bonita. É coisa feia. E é coisa que veio ocupar espaço a mais no meu lado negro, como uma inevitabilidade. É o que agora sinto. Não como menina pequenina mas como mulher que sonhou com uma vida aqui, onde há história dos meus pais, dos meus avós e dos meus amigos.
O medo que a bondade e a justiça não existam de todo e que a crueldade, a frieza e os números ditem os afazeres no meu país. O fazer desfazer. O desfazer pessoas.
Tenho medo que a tristeza nos assole de vez. Que as vozes esmoreçam por falta de forças. Que os movimentos se toldem por amarras perversas. Que nos isolemos e que o amor não chegue.
Que estado é este? Um vento forte que derruba as árvores e as casas, de Norte a Sul, que não pede licença e leva as sementes para fora dos campos? Que põe montanhas fora dos seus lugares e que tapa as vistas com destroços? Que estado é este? Para onde é que vai tão apressado? O que restará? E parece tão perdido. Vazio.
Este estado não me representa. Não me representa como cidadã e pessoa. Não tem o meu orgulho nem compreensão. Este estado envergonha-me porque os seus valores não se encontram com os meus. Este estado que se desculpa com o estado a que as coisas chegaram. O estado dos bons meninos cumpridores que eu não consigo desculpar.
O que me ilumina é saber que somos muitos. É perceber que a dor que, deste lado sentimos, é sentida na pele e não num papel. É real. Faz mossa e entristece. E isso faz com que se cante, que a voz soe e que os movimentos se libertem. Calar o medo. Calar o medo. Calar o medo.

Texto de Ana Nave

Dia 2 de Março vou para a rua juntar-me a todas as pessoas que, como eu, já não aguentam mais ser governadas por quem insiste em tratar-nos como se fossemos números.

Texto de José Reis Santos


Requiem for Portugal

When, on the dawn of April 25, 1974, Radio Renascença played Zeca Afonso’s Grândola Vila Morena, few knew that the song was the final password for the coup d’état that would overthrow Portugal’s 48 years long right wing authoritarian regime, and that we were listening to a last Mass of a defunct regime. That was the dawn Portugal waited for, “the initial and long day, which emerged from the night and the silence, to inhabit the substance of time” — as Sophia de Mello Breyner so brilliantly poeticized. It was the dawn of all hopes, all dreams and utopias. The dawn when the Portuguese people finally restored their rule, in their cities, seeing in every corner a friend, “in each person equality”. Portugal became, on that same dawn as the coup evolved to a social revolution, a “land of fraternity”, as Zeca Afonso wished, and a land of liberty, as everyone desired.
Within a generation we endowed the country with a political system suitable to fit the demands of last century’s formal democracies. We withdrew our people from a forced and obscure illiteracy and a rigid social stratification, built the most qualified generations of our history, and instilled the idea that we would enforce a culture of merit suitable to the demands of our contemporaneity. Likewise, we empowered our women and gave our minorities the rights of majorities, finally adding Equality to Freedom and Fraternity. We dreamed about a rainbow country, politically modern and economically and socially progressive, after 48 years of medievalism, painted in shades of black and dark greys.
We believed that the future would bring more equality, more equity and more social justice. For this, we tolerated the deterioration of our party system, widespread clienteles and nepotism, the return of our oligarchic and egocentric elites, the consecutive mismanagement of public affairs, and even the advent of an unprepared and ill-skilled political elite. We took it all, until our current right-wing (liberal) government, sheltered by the IMF and the Barroso Commission, cynically targeted labour rights, public services, the National Health Service and all that we built during 38 years of democracy; hitting hard our hearts, stomachs and wallets. As a result, our economy stagnated, unemployment grew, precariousness became social normality and emigration rampaged. Meanwhile, the government sponsored wild privatizations, dismantling the state and public sectors, while selling profitable public enterprises for a friendly penny. Their aim is to privatize our lives and reduce all labour costs in benefit of big companies and profits for the markets and their CEO’s.
Our livelihood and our dignity were taken away. Hope became a plane ticket or the belief that somehow we will survive this shock therapy designed by autistic economics professors obsessed with excel files — this collective coma induced by crazy Ivy League fanatics detached from social reality. Behind this treatment is the troika (and the Barroso Commission), an unelected government that decides our present and conditions our future; that condemns our dreams to death and our life to a pitiful and impoverished daily search for bread and ways to pay our rent. Troika’s aims are clear: to increase our debt, impoverish our country and the majority of our people, annihilate the economy, reduce common wages and acquired rights, destroy the social state, while enriching a minority of selected few. Their success depends on our misery.
As such, today we can no more believe in the ability of those who hold our key institutional positions. They sell our country cheap to a foreign economical occupation. Besides, our government consecutively lies and fails all targets, the President (who could dismiss the government) does nothing, and the opposition rests in its inefficiency. All we have left is the sheer force of our resistance, of our protest, of our indignation. Today, one way to preserve our dignity and fight for an alternative, progressive and fairer society, is through social protest and collective indignation.
It's not enough anymore to ask us to blindly trust the polls when mediocre elites are regularly elected. “Democracy” is not, and cannot be, an institutional excuse to convince us that the legitimizing value of the people exists only on a magic piece of paper. “Democracy” is to be lived every day, in every act of government, in each objection and counter-proposal by the opposition, in each protest or demonstration of civil society, organized or otherwise. And because Grândola Vila Morena gauges the quality of our civility, the essence of Portuguese progressiveness, we need to sing it daily, as this Mass cannot wait another four years to be sung.
The question of the day is: what to do when a government lies and deceives, when the opposition is ineffective and indecisive, when the system key holders don’t react? What are the alternatives to social indignation? Promote a riot or a general insurrection? Accept the inducted coma and lay down? Or wait for 2015, the date for Portugal’s next general elections? I do believe it is imperative to have some caution, to quickly detach us from the induced coma and demonstrate, singing with full lungs to our supreme magistrate (i.e. Portugal’s President of the Republic), that the regular working-mode of our (political) institutions are at risk, that the system is facing institutional meltdown. And therefore he needs to intervene. Urgently.
Meanwhile, I urge all European citizens, from all political spectrums, with or without political party, with or without employment, with or without hope, to join us on our peaceful protest, because what’s happening to us, in Portugal, it’s either happening to you as well, or soon will be.
And if we manage to take to the streets the noise and fervour of our indignity; if we demonstrate our unrest and just claims and display — through the strength of our numbers and the common sense of our proposals — that the boundary between bad government and institutional and social illegitimacy cannot be crossed, we will win this historical fight. We can tolerate bad governments, and vote them out when we have the chance. But governments that constantly lie, flip-flop on their electoral platform to install a minimalist, ideology-based program, annihilating our social welfare state (only to benefit the markets and their owners) — that, we cannot tolerate. Not anymore.
Civil society must then continue its noisy Requiems, this time for Portugal, critically intervening in public affairs, in order to force a regeneration of both the political and the party systems throughout Europe. That’s why you must hit the streets on March 2, and transform an announced Missa pro defunctis into an idea of the future — always to the sound of all the “Zeca Afonsos” existing throughout our indignant Europe.

 

Grande Oficina Popular

No sábado vamos fazer uma Grande Oficina Popular junto à estátua do Marquês, às 14h00.
Qualquer manifestante pode fazer, ou pedir aos designers e artistas que lá estarão, o seu cartaz, lona, faixa ou bandeira, com as frases e imagens que desejarem.
Se quiserem participar levem:
- cartões, cartolinas, lençóis, lonas
- Tintas de Spray, Marcadores, Tintas e pincéis, Fita-cola preta
- Paus de vassoura, de bandeira, madeiras para suportar cartazes
- Escantilhões de letras (daqueles antigos), "Stencil", recortes de imagens do Passos Coelho, Relvas, Portas, Cavaco....
e tudo o mais que a vossa imaginação se lembrar!

Texto de Joaquim Paulo Nogueira


Salvar os países começa por ser salvar a Europa. 
 
Dia 2 de Março é mais um passo no percurso de fortalecimento da nossa participação cidadã que começámos a trilhar mais intensamente a partir do 12 de Março de 2011. Não será o último. A urgência deste percurso é ditada pela consciência de que vivemos uma rápida degeneração política da vida em democracia na Europa.
Não sei se há outra definição para a ideia do abismo político em que nos encontramos
: condicionados a escolher governantes que se apresentam a eleições com um determinado programa político, sabendo eles, e sabendo nós, que eles vão governar através de memorandos políticos firmados com o BCE, o FMI e a Comissão Europeia.
A política europeia foi sequestrada por um pensamento e uma doutrina onde a lei do mais forte é imperativa e substitui a ideia comunitária. Salvar os países começa por ser salvar a Europa.
Parece um objectivo inalcançável, não parece? Não foi assim que o pensaram aqueles que perceberam que para matar a Europa tinham de começar a destruir aquilo que era o elemento diferenciador da presença política europeia: a solidariedade, seja lá o nível ou o âmbito - local, nacional ou global – pelo qual a encaremos. É uma existência paradoxal, sempre: a força da Europa, a sua união politica e económica é também o ponto de partida para a sua imensa vulnerabilidade.
Face a esta verdadeira catástrofe política em que a Europa está mergulhada, e quando o sistema político parece só conseguir replicar a tragédia da política, a questão é de natureza cultural: como não nos encontrarmos? Como não descermos juntos as ruas? Como não enchermos connosco as nossas praças? A questão não será tanto em torno das razões que temos para sair à rua, elas multiplicar-se-ão exponencialmente por toda a nossa diversidade política, cultural, social, a questão é outra: como poderemos ficar em casa quando todo o nosso mundo está a ser destruído?
No dia 2 de Março descerei a Avenida da Liberdade com muitas pessoas que exigirão a demissão do Governo. Não sendo isso para mim uma questão essencial – este governo não me desiludiu em nada, infelizmente - não me incomoda nada dar as mãos a todos os que querem o seu fim. Este é um governo que perdeu toda a legitimidade política para poder governar e que já não estaria em funções se em Belém tivéssemos um Presidente que vigiasse o exercício governamental. Ou se tivéssemos já interiorizada uma cultura e uma ética política em que os governantes se sentissem responsáveis perante a comunidade. Em vez de exigir a demissão deste Governo, prefiro pensar que a rua irá dar àquele vasto campo político a que costumamos chamar Esquerda, forças, ideias e dinamismo para criar uma alternativa política.
Talvez haja condições muito particulares para isso: em primeiro lugar, a destruição do Estado Social, nos seus diferentes domínios, saúde, educação, justiça, cultura, já não se situa no plano da querela ideológica entre Esquerda e Direita, foi transposto para um plano tão descarado da pilhagem dos recursos públicos que até a base ideológica da direita cora de vergonha e desaprova o saque.
Depois, a destruição da economia está a ser feita através de uma subordinação cega a planos e programas económicos cuja legitimidade não decorre daquela credibilidade de natureza económica que a direita gosta de exigir como seu pergaminho político. Apenas se funda no uso férreo de um autoritarismo e poder discricionário do Estado no aumento da colecta de que tanto se envergonha o liberalismo económico. E ainda, pelas condições muito particulares em que o sonho de uma Europa se transformou rapidamente no pesadelo de um totalitarismo financeiro que — incompreensível ou paradoxalmente — parece basear o seu cerco, a sua tutela e a sua força na incapacidade de responder positivamente às questões existenciais das pessoas, das comunidades e dos povos.
Por isso também é tão importante sair à rua em 2 de Março, anunciando a primavera que aí vem: não há esquerda credível sem uma rua forte, sem uma rua em festa, sem uma rua participada e cidadã. E desde o 12 de Março muito tem sido feito para reacender esse fogo comunitário. Pese embora a verdadeira destruição de grande parte da nossa actividade cultural e artística nos últimos anos, o que em si é uma tragédia para o desenvolvimento da comunidade e também da nossa cidadania, tem sido nos movimentos de cidadãos — onde avulta para mim a Auditoria Cidadã à Dívida — que tem surgido uma dinâmica cultural e de participação política que fortalece a comunidade.
Porque o pesadelo que estamos a viver é também uma consequência da intensa manipulação ideológica em que mergulhámos e que é tão mais violenta quanto vive de um contexto em que o manipulador é também o manipulado. Criámos um paradigma mistificador que é o condicionador da nossa vida política: para nos encontrarmos temos de ter alternativas, temos de ter razões, temos de ter ideias. E deveria ser exactamente o contrário: deveríamos encontrarmo-nos para construirmos alternativas, para pormos em causa as nossas razões, para começarmos a pensar de outra maneira.
É essa vaga que este mar anónimo e manifestante que tem oposto à Europa dos jogos de títeres e da usurpação política a ideia de uma Europa das Pessoas tem trazido. É difícil assim encontrar razões para não sairmos de casa. Juntos temos menos medo, juntos metemos mais medo ao medo que por aí começa a querer andar descaradamente em forma de intimidação, de interrogatório, de inquietante perversão do uso dos meios públicos de segurança. Eles não sabem que o autoritarismo pode fazer da vida de cada um de nós um pequeno inferno existencial mas só consegue tirar de cada cidadão a sua liberdade se este já tiver, previamente, abdicado dela. É isso que a rua nos faz, é isso que nós fazemos na rua. O povo é quem mais ordena, dentro de ti, ó cidade.

Texto de Cristina Cavalinhos

47 anos de vida, 30 a ser actriz.
O meu pai sempre me disse que desde que eu corresse atrás dos meus sonhos, desde que batalhasse, ia conseguir.
Ele batalhou por este país, correu atrás de um futuro melhor. E eu assim fiz, batalhei, corri atrás, fiz teatro, televisão, cinema, dei aulas, trabalhei em bares, escritórios. Nunca tive subsídio de férias nem de Natal. Mas nada disso me demovia do meu sonho e da minha batalha.
E agora? De que me serve batalhar e sonhar num país sem futuro?
Não, Não!!! Eu vou continuar!

Texto de Tiago Torres da Silva


PORQUE É QUE EU VOU À MANIFESTAÇÃO DE 2 DE MARÇO

Porque é que eu vou à manifestação de dia 2 de Março?… Pela mesma razão que fui a todas as outras. Porque vejo um povo sem futuro, sem esperança, sem nenhuma possibilidade… Porque vejo a corrupção celebrada como uma fatalidade do destino e não acredito nisso… porque escuto os meus semelhantes… ouço-lhes os gritos, as revoltas… e sinto-me irmão deles, ainda que eu seja um privilegiado porque, apesar de pobre, ainda tenho um telhado sob o qual dormir e uma refeição à mesa… mas já não ligo os aquecedores quando está frio… já vou dormir mais cedo para poupar na conta da luz...
Todas as pessoas que conhecem o teatro que escrevo e enceno sabem que, mesmo quando eu falho, ele é sempre uma tentativa de dar voz a quem não tem voz. No meu teatro dei voz a prostitutas, travestis, sem-abrigo, actores sem trabalho, yuppies solitários, velhos, soldados deixados para trás em guerras que eles próprios desconheciam. Penso que a Arte é o lugar que pode existir como contraponto do poder instituído por governos feitos por políticos criados nas «jotinhas». Mete-me nojo saber que as próximas eleições, por fatalidade, serão ganhas pelo Partido Socialista e as que vierem a seguir serão ganhas pelo PSD. Alguma coisa terá de mudar e, no entanto, sei que bater nestes nossos governantes é quase como gritar com o caixa do supermercado por causa das políticas dos seus superiores. Quem manda nisto tudo, o nosso maior inimigo é o poder financeiro, as empresas de rating que colocam seus apoderados em lugares chave um pouco por todo o mundo. Vencê-los é a única vitória que poderá trazer um bocadinho de justiça e harmonia ao mundo. Nunca o valor da vida foi tão baixo. Nunca valemos tão pouco como agora e por isso é este o momento de bater nos caixas do supermercado para que estes levem o nosso protesto aos seus superiores e estes a outros e aí por diante até que todas as Goldmans & Sachs e quejandas tremam de medo.
Gosto muito de ver documentários sobre a natureza. Muitas vezes vejo ataques de três ou quatro leões contra uma manada de búfalos. Os búfalos, muito maiores, em maior número e mais fortes, fogem e, por isso, três ou quatro leões conseguem matar a presa que lhes parece melhor. Mas, algumas vezes, os búfalos unem-se e reagem. Na força de serem muitos, viram-se contra os leões e dizimam grupos inteiros. Vão fêmeas, machos, crias… Vai tudo pelos ares… e o rei da selva é aniquilado...
Os poderosos deste mundo são meia dúzia e contam com o nosso medo para fugirmos cada um para seu lado e assim ficarmos à mercê do seu desejo de carnificina. Mas vai haver um dia em que nós vamos dar as mãos e vamos investir contra eles. Nesse dia, tenham cuidado, Senhores Leões, porque não vai haver dó ou misericórdia. Nós somos uma manada e uma manada em fuga é o mais fácil de dominar. Mas quando nós pararmos, olharmos uns para os outros e dissermos: «agora, vamos marrar!» não vai haver leões que nos parem.
Eu vou à manifestação de dia 2 de Março como fui a todas as outras. Sou presa nas mãos de predadores ferozes, ignóbeis e cruéis. Vou para olhar nos olhos das outras presas, para dar as mãos às outras presas. Quero estar presente no momento em que nos vamos entreolhar todos e, porque já não teremos nada a perder, perceberemos que chegou a hora de marrar!, marrar!, marrar mesmo sabendo que alguns de nós perecerão nesse momento, porque os leões têm muita força… alguns de nós ficarão… mas os leões ficarão todos caídos por terra, surpreendidos por as presas se terem tornado predadores de um momento para o outro.
Eu vou à manifestação do dia 2 de Marco porque sei que esse momento está a chegar.

Texto de João Paulo Cotrim

Entre 8 e 80

O meu pai tem mais de 80 anos, gastou a vida fazer casas, a conduzir gente, a semear e a colher. Não foi político, mas motorista, de um serviço que ele entendia como público mesmo antes de o ser. Não foi político, mas tem saudades do Diário de Lisboa, seu jornal de sempre, por junto com o Jornal do Fundão, onde aprendi a ler Drummond de Andrade. Há dias retiraram-lhe com simpatia o direito a circular sem pagar nos autocarros que conduziu anos a fio. Tentei suavizar a coisa, o preço não era assim tanto, podíamos pagar essa nova portagem. Com justa indignação, como se eu tivesse 8 anos, explicou-me: quando começou a ter salário de gente na cidade, a simples ideia de 8 horas de trabalho por dia, dias de folga ou de férias era coisa revolucionária e extravagante. Foram raivas, revoltas, greves e desobediências, com preço pago no corpo ao longo de uma vida (notem bem, tudo isto numa só vida!), que tornaram aquelas ideias mera banalidade. O passe de velho não era benesse, mas fronteira derrubada. Por momentos também eu , achando que eram apenas trocos. Sem valor, mas possuindo supremo valor. O meu pai, não sendo político, mas lendo jornais de antigamente, voltou a explicar-me o lugar da cidadania, algures 8 e 80: uma horta pode tornar-se castelo, um trovão a voz do indivíduo e a coluna vertebral um dos mais altos faróis. Continuará a olhar a adversidade nos olhos, sem que nada o cale ou lhe colha os frutos das árvores ou da terra. Entalado entre ele, de 80, e os outros, de 8, vou dizer cantando e dançando no dia 2 de Março que o povo é quem mais ordena dentro de ti, minha cidade.