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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Texto de André Freire


Efeitos positivos da crise: o despertar da cidadania para a importância da política

Uma das poucas coisas positivas com a crise económica e financeira internacional, começada em 2008 nos EUA, é que muitas pessoas começaram a despertar para a importância da política e da cidadania. Isso é visível em manifestações, petições, abaixo-assinados, etc., sobretudo nas formas de mobilização que extravasam o controlo das organizações sociopolíticas tradicionais. E foi visível em manifestações como a de 12 de Março de 2011 ou a de 15 de Setembro de 2012, onde era possível encontrar gente de todas as idades e estratos sociais, bem como em iniciativas como as dos Indignados ou de vários grupos e tertúlias para o debate e a (in)formação políticas. Claro: nem tudo são rosas, seja porque será bom «não deitar o bebé fora com a água do banho» (as organizações sociopolíticas tradicionais são ainda os veículos centrais da representação política), seja porque falta muitas vezes capacidade propositiva a estas iniciativas mais inorgânicas, seja porque, por vezes, o criticismo anti-partidos e anti-classe política roça o populismo antidemocrático. Porém, globalmente, diria que o balanço geral é ainda bastante positivo.

Texto de Lúcia Gomes

Desta vez, mais uma que tomo as ruas, tomo-as por ti, pai.
Porque destruíram o SNS. Porque em nome da gestão e do lucro te recusaram tratamentos. Porque te tentaram prostrar e tu disseste sempre não. Mesmo sabendo que para eles és um «bem sem valor de mercado», impuseste a tua dignidade e a tua resistência. Não podes vir à manifestação, mas levo-te comigo.

Levo-te a ti também, irmã, doutorada, 12 anos de trabalho, sempre a recibo verde sem que soubesses o que é o direito ao subsídio de férias ou de natal, subsídio de desemprego, e porque a troika te obriga a procurar trabalho a milhares de quilómetros da tua família e te diz que aqui o teu conhecimento não tem lugar. E tu dizes que tem, e sais à rua comigo, unida, como os dedos da mão.

Levo-te a ti, meu pequeno ser. Minha irmã com 4 anos, para que saibas que o povo quando se junta é invencível. A maré de força, de luta, de convicção, de recusa firme às inevitabilidades e de resistência tudo move. E quero que vejas este povo lutar. E que saibas, querida irmã, o que é a liberdade de poderes manifestar-te e de poderes sonhar com o futuro e transformar o sonho em vida."

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Texto de Zé Pedro

Vivemos tempos difíceis, todos sabemos, e que continuam os abusos de poder também sabemos, que é uma injustiça diária o que vemos nas notícias, todos também sabemos. Por toda esta situação que tanto nos revolta, devemos gritar bem alto que BASTA, que JÁ CHEGA, que JÁ NÃO TOLERAMOS MAIS. Nestes tempos, como noutros, a nossa voz tem de ser ouvida.

Podemos pensar que não serve para nada, mas serve. Sou da opinião que eles estremecem de cada vez que saímos à rua, e eles não conseguem controlar ou atribuir a uma força política a reunião de tantas pessoas descontentes É a arma que temos, sair à rua e GRITAR JÁ CHEGA!

Texto de Helena Dias

Quando o mês de abril aqui chegou, encontrava-me eu a meio do curso, frequentando o sistema de ensino público: uma escola autoritária, acrítica e elitista, em que sempre me senti desajustada.

Quando o mês de maio começou, também eu acreditei que, enfim, tudo isso fazia parte de um sonho mau que já passara, e entre a reivindicação e a festa, foi nas ruas da minha cidade que soltei as inúmeras esperanças. No verão já colheríamos o pão, que tudo se passa à velocidade fácil do voluntarismo, quando se é jovem.

Mas com a minha filha mais velha já na escola, vi-me nos anos seguintes a sofrer as ziguezagueantes decisões de governos sucessivos, numa desorganização que às vezes tocava o intolerável. Tudo estava bem, no entanto, que o percurso era o que nos levaria, por fim, a uma escola nova.

A realidade é, porém,  mais lenta que os nossos sonhos. As mazelas de décadas tinham criado um sistema resistente à mudança,  que afinal nunca tinha sido socialmente justo, pese embora algumas boas vontades e tentativas mais ou menos sérias de o garantir. Esta foi a razão que me levou, enquanto o meu filho frequentou as escolas básica e secundária, a envolver-me no movimento associativo dos pais e mães, em que me mantive até à sua entrada na universidade.

Todo este tempo, em tudo o que participei com outros companheiros e companheiras, em todas as ações que organizámos, discussões e reflexões que promovemos, era essa a preocupação que nos movia: construir uma escola pública inclusiva e de qualidade, com os meios adequados e diferenciados, que garantissem  as respostas certas a todos em geral e a cada um em particular. Nunca nos questionámos se valia a pena tanto crer. Sabíamos que o valia.


Chegou agora a vez de os meus netos entrarem para a escola e eu descubro todos os dias, tristemente, que nada do que tínhamos dado como adquirido o era. E embora às vezes me seja até difícil entender esta realidade deslizante, a grande velocidade, para um buraco negro que julgava arrumado no passado, vejo infelizmente como o sistema de ensino cada vez mais se parece com o que eu frequentei há décadas!

A falta de meios provoca, por cortes sucessivos,  ruturas no funcionamento das escolas; os professores, com um número de alunos ingerível,  tornaram-se desmotivados e tristes, vivendo um desespero quotidiano; os assistentes operacionais não conseguem cumprir, pelas mesmas razões, as tarefas de que os incumbem; os alunos e as suas famílias, no meio de preocupações da vida que se tornou muito mais difícil,  são ameaçados com uma gratuitidade a prazo, apesar de todas as garantias constitucionais.


Não posso pactuar com esta situação. Ficando calada e quieta, como  mais uma vez nos querem, estarei a ser cúmplice deste retrocesso civilizacional. Não ficarei! Nem calada, nem quieta.


No dia 2 de março, com estas razões e todas as outras que cada um de nós transporta, acredito que  encheremos, uma vez mais, todas as ruas da cidade, gritando a nossa revolta!

Texto de Raquel Varela

As manifestações são historicamente formas de «votar com os pés». Esta particularmente surge num momento em que a dívida pública se tornou um garrote sobre a vida de quem trabalha. Apoio-a pela suspensão do pagamento da dívida, que é uma renda privada, e a reboque da qual se está a destruir o Estado Social.

Texto de Vicente Alves do Ó

Saímos à rua para não dar em loucos. 

Saímos à rua para perceber se mais gente pensa como nós, se tudo aquilo que andamos a ler na imprensa, a ver na televisão, a ouvir nos cafés não é simplesmente uma fantasia triste e desapegada que a nossa cabeça inventou. 

Saímos à rua para acreditar ainda que podemos mudar as coisas, que a nossa vontade com a vontade dos outros faz sentido e que a vida nãoserá apenas uma soma de derrotas ou ilusões perdidas. 

Não vale a pena fazer de conta. Já não há dinheiro, nem tempo, nem ideias ou desculpas para fazer de conta. Há quem o faça, como se a vida de todos os dias pudesse esconder o inevitável. Como se a vida fosse programável tal e qual um comando da televisão: quando alguma coisa não nos agrada, mudamos de canal. Mas infelizmente ou felizmente, não podemos mudar de vida, ou pelo menos, se amamos o país em que vivemos e é aqui que queremos continuar a viver, não podemos mudar de vida. 

Podemos mudar a forma como pensamos, a forma como agimos, podemos estar onde estão os outros que pensam como nós e não estão loucos como pensamos que estamos. A solidão nas cidades é a maior inimiga do colectivo, da ideia de comunidade. Andamos fechados em agendas, compras, horários e esquecemo-nos da força que somos e da força que temos. O egoísmo e o consumismo, o prazer do dinheiro pelo prazer do dinheiro alteraram por completo os nossos comportamentos, os nossos princípios e as nossas condutas. Convenceram-nos de que o sucesso e a felicidade são uma mão cheia de coisas. Somos feitos de coisas: casas, carros, roupa, gadgets, restaurantes e ilhas paradisíacas onde nos dizem que podemos descansar e aproveitar a vida. Mas há uma vida na cidade e no país que precisa de nós: a vida de todos. E todos, apenas todos, podemos dizer que não estamos loucos, que não estamos ausentes, nem deslumbrados, nem fomos ainda comprados por tudo aquilo que nos dizem que devemos.

Devemos isto e aquilo, entre dívidas e deveres. Apenas isso. Uma espécie de aposta diabólica, troca por troca: dão-nos as coisas que nos convenceram a ter e em troca somos aquilo que eles precisam que sejamos. 

Eles. O fosso aumentou e estigmatizou-nos. A nós. Como se não pudéssemos ser mais nada senão o que somos e eles pudessem ser tudo porque são quem são. E quem são eles, senão uma parte nossa? E quem são eles, senão uma vontade nossa? É nisso que temos que acreditar duma vez por todas e é isso que lhes temos que dizer duma vez por todas. 

Saímos à rua porque a política somos nós.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Texto de Paula Nunes


ENCONTRAMO-NOS NA RUA!

É na qualidade de cidadã preocupada e indignada, sem partido nem sindicato, que subscrevo o manifesto e apelo à união para a convocatória de 2 de Março.

Entretanto, falemos de factos. Mais de 2,5 milhões de portugueses estão a viver em risco de pobreza ou exclusão social, entre os quais as crianças, mais de 418 mil, são as que correm maiores riscos; a privação material severa atinge cerca de 900 mil portugueses, sendo cada vez mais visível o aumento do distanciamento entre a população com mais e menos recursos; mais de 35 mil portugueses usufruem de um Rendimento Social de Inserção que poderá baixar de 189,50 € para 176,15 €; no final do ano transacto foram assinalados 870 mil desempregados e as previsões nada animadoras apontam para uma taxa de desemprego de 16,7 % em 2013 e 17 % em 2014, contrariando como sempre qualquer previsão desta ludibriosa desgovernação.

As medidas anunciadas são uma cilada miserável que conduzirá a um enorme retrocesso nas condições de vida da maioria dos portugueses. São medidas violentas, que atentam contra a dignidade de quem vive ou viveu do seu trabalho. E os profetas das folhas de cálculo, que só se interessam pelo regresso aos mercados financeiros, dizem que estamos no bom caminho. É por este caminho que queremos seguir? De mãos dadas, como se nada fosse, com milhares de desempregados, com a precariedade, com reformados a quem são extorquidos os seus diminutos rendimentos, com crianças esfomeadas, com a miséria que diariamente atira para a rua centenas de pessoas, com a morte das funções sociais consignadas na constituição?

Caminhamos sim, e a um ritmo alucinante, para o empobrecimento colectivo, retrocedendo décadas em todos os índices de desenvolvimento social. Dizem que é legítimo o roubo dos direitos conquistados e o desprezo pela constituição, sempre justificado pelos tempos difíceis em que vivemos. E a nossa liberdade, mais condicionada e desvalorizada, é tratada como uma regalia, um luxo acima das nossas possibilidades e da qual temos que nos livrar.

Não bastando, e para todos os problemas causados por este povo que viveu acima das suas possibilidades, a quadrilha oferece-nos dois bálsamos milagrosos: a emigração e o empreendedorismo. De facto, responsabiliza-nos pela criação de emprego ou pelo desemprego que enfrentamos, como se vivêssemos num país repleto de oportunidades. É difícil, diria eu, pensar em empreendedorismo quando moramos na rua ou chegamos a meio do mês sem dinheiro para comer: 4,488 milhões de portugueses auferem menos de 420 euros mensais.

E para os que acreditam que este caminho será frutuoso, convém estar atento às projecções do Banco de Portugal que, ao contrário das previsões dos economistas de serviço, revê em baixa o crescimento económico para 2013. Por enquanto não sabemos o que irá acontecer em 2014, mas já nos avisaram que é necessário arrecadar 4 mil milhões de euros e delinear medidas suplementares para cumprir objectivos orçamentais. Mas uma coisa sabemos. Nós continuamos a cair!

Não nos deixemos enganar com discursos agradáveis que não têm mais nenhuma finalidade que adormecer consciências e imprimir mentiras em prol da estabilidade política, como um valor que está acima de tudo e de todos.

A gravidade do momento exige um enorme sentido de responsabilidade e o processo não pode ser de transição, mas de ruptura com um modelo e uns gestores que não praticam nem a participação, nem a pluralidade e muito menos a transparência. Se queremos fazer parte de um valor universal que dê sentido à nossa presença neste espaço e neste tempo, deveremos responder a esta agressão contra as nossas crianças, os nossos pais e avós.

Então, o que fazemos? Aceitamos a pobreza e cada um defende a sua parcela, com a equívoca crença que salvará o seu barco ou juntamo-nos com a certeza de que podemos travar esta cadeia de irresponsabilidades?

Pela minha parte, não acredito na seriedade e lucidez desta gente que nunca acerta, nem mesmo quando se engana e levanto a voz pela demissão do governo, repudiando todas as medidas que resultam no roubo continuado e desigual dos rendimentos do trabalho e no ataque às funções sociais do estado.

Posso perder muita coisa, mas uma coisa é certa, há coisas que não se podem roubar e uma delas é a esperança. E essa não ma tiram. A esperança de que através de uma luta persistente, organizada e consequente é possível travar esta ofensiva, inverter o caminho e derrotar estas políticas. Se não perdermos a esperança haveremos sempre de derrotar a gente que não quer saber da sua gente.

A rua deixou de ser um espaço festivo para converter-se não só na casa de muitos, mas num espaço de luta, onde demonstraremos o nosso desacordo e reivindicaremos a nossa liberdade. E não há tempo de descanso.
E é nessa rua que me podem encontrar!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Texto de Paulo Raposo


Nada é impossível de mudar!

«Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.»

Estas são palavras do dramaturgo alemão Bertold Brecht. Vivia então a Europa tempos difíceis. Tempos igualmente difíceis como os que vivemos agora. Mas, como antes, como sempre, não necessariamente imutáveis.

Muito do que consideramos, sentimos ou vivemos como coisa natural não deve portanto parecer natural. Como antropólogo, aprendi a pensar que para entendermos melhor o mundo que nos rodeia devemos justamente desnaturalizar o que tomamos como natural, óbvio, habitual. Naturalizar significa atribuir qualidades essenciais ao que na verdade é fruto de actividades humanas, pelo contrário, desnaturalizar significa explicitar a artificialidade de construções sociais e culturais concebidas como naturais.

Esta é uma questão de natureza analítica para os cientistas sociais, mas é também uma questão política para todos nós. Uma questão política, porque implica procurar situar e explicitar os processos através dos quais tais naturalizações são construídas em sociedade. E muitas das naturalizações, como as referentes à diferença entre sexos, entre classes, entre culturas, etc. que se aceitam como naturais, são precisamente difundidas, ensinadas, transmitidas para produzir e sustentar certas desigualdades, que por sua vez também se tornam naturalizadas. Por isso pensamos que as pessoas são consideradas «normais» quando são consensualmente intelígiveis os seus modos de ser, os seus actos e discursos, o que quer dizer basicamente que consideramos esses modos de ser, actos e discursos como naturais e naturalmente adaptados ao que aprendemos e a que nos habituamos. Mas se queremos ser justos e profundos na forma de entender o mundo, então teremos de aceitar o exercício proposto por Brecht, todos os dias, em cada instante da nossa vida. E teremos ainda de procurar agir em conformidade: nada deve parecer natural, tudo é fruto de um contexto e de processos de construção particulares.

Quando após a madrugada de 24 para 25 de Abril de 1974 se abriu um imenso rio de possibilidades para este pequeno país, nada foi natural. Nada era aliás natural antes, no Fascismo, mas sim fruto de modelos e de concepções do mundo que procuravam naturalizar a pobreza (e a riqueza), o analfabetismo (e a literacia elitista), os brandos costumes (e o sacrifício colonial), o moralismo maniqueísta (e a perseguição à luta política), a autoridade do triângulo Deus/Pátria/Família (e a censura e repressão). E foi porque várias gerações de resistentes acreditaram que nada era natural, que o imenso rio de possibilidades se franqueou e contagiou um povo inteiro. Porque justamente nada foi tomado como inevitável e impossível de mudança. Mas obviamente nada tem sido natural em Democracia, nestes últimos quase 40 anos. Sou daqueles que herdaram esta conquista de possibilidades, a minha vida desenrolou-se fundamentalmente nestes anos de Democracia, não precisei de lutar para a conquistar, mas isso não a torna um coisa natural, um hábito.

Vivemos tempos difíceis mas não naturais, tempos que me fazem pensar agora no meu filho e na filha que se avizinha, provavelmente com a mesma preocupação e angústia com que meus avós e meus pais pensaram nos seus filhos e filhas. E por isso, não entendo como natural que portugueses, ou gregos, ou espanhóis, ou um qualquer povo, tenham de aceitar naturalmente a sua condição e o seu destino.

A crise e a austeridade não são naturais, a dívida e o empobrecimento não são naturais, o Memorando da Troika e os interesses financeiros e especuladores não são naturais, as políticas e os modelos governamentais não são naturais, o capitalismo sem freio não é natural, a destruição do bem comum e do planeta não é natural. Nada, em tempo de confusão sangrenta e desorganização organizada deve ser pensado como natural. Porque tudo isto é fruto de opções e decisões de alguns, de arbitrariedade consciente e de humanidade desumanizada de personagens que, como outrora, procuram a todo o custo, com meios poderosos e poder desmedido, naturalizar a miserável existência, o empobrecimento e a perda de direitos da larga maioria (os tais 99 %) e a inevitabilidade de políticas que servem apenas um pequena parte dos habitantes deste planeta.

Esta Democracia em que vivemos, refém de interesses económicos e especulativos, confeccionada e gerida por muito poucos e sobretudo por quem não nos representa, que limita a participação e a voz da cidadania e a multiplicidade de modelos e formas de organização social, tem de ser desnaturalizada. Tem de ser revelada na sua artificialidade.

E é por isso que a 2 de Março, como em tantas outras vezes nestes últimos anos, sairei à rua, ao lado de todos aqueles e de todas aquelas que entendem que nada é natural, e sobretudo que percebam que nada é impossível de mudar. 


Texto de Ângela Fernandes

Chamo-me Ângela, 35 anos, por agora lésbica, estudante, trabalhadora precária e nos tempos quase livres, quando o bichinho ataca, e ataca sempre, activista de rua, de pessoas e de causas. Sou uma das subscritoras desta moção. Estas simples frases iniciais estão carregadas de identidades mutantes de luta e em luta. Nelas ficam estampadas tramas de ânsias, de receios e de esperanças com que muita gente se identifica. Gente que como eu cedo se habituou a ouvir discursos cheios de verdades incontornáveis, inevitabilidades, insustentabilidades e infalibilidades. Primeiro, a verdade incontornável do domínio masculino, depois a insanável caixa da heterossexualidade imposta e universal, a seguir a inevitabilidade de uma identidade de género associada ao sexo biológico com que nascemos e por último a inevitabilidade dos comportamentos que se querem apropriados à condição de ser mulher.

Do mesmo modo que muitos como eu nunca encaixaram e nem aceitaram estas ditaduras sociais que nos foram impostas, também não estamos agora dispostos a cruzar os braços e a sucumbir perante esta suposta e inevitável ditadura financeira dos mercados e esta crise artificialmente criada. Se somos contra a discriminação somos contra qualquer tipo de discriminação, se lutamos contra uma ditadura, lutamos contra todos os tipos de ditadura. Como estava escrito num cartaz de protesto, não somos os filhos da democracia somos os pais da próxima revolução.

Não aceitamos uma vida que não seja vivida. Não aceitamos uma vida não vivida e dividida em duodécimos, uma vida não vivida e alimentada com fome dos alunos que desmaiam a meio das aulas e que às escondidas vão encher a mochila para poderem jantar, uma vida não vivida e alimentada nas cantinas universitárias que fecham, uma vida não vivida e com fome dos estudantes com marmitas às costas, porque no orçamento familiar pesa a refeição na cantina. Uma vida não vivida e sedenta de água pública que se pretende privatizar, uma vida saudavelmente não vivida através de cuidados de saúde básicos que se tornam incomportáveis, uma vida renascida e não vivida através da maternidade que fecha, uma vida não vivida através dum programa de prevenção da sida cuja distribuição de preservativos é criminosamente interrompida. Uma vida não vivida em que os números de camas dos hospitais diminuem por causa do excesso de oferta. Uma vida não vivida, a trabalhar sem prazo para receber um salário miserável, uma vida não vivida, onde as mulheres ganham menos que os homens, uma vida não vivida à custa da ajuda financeira dos pais, uma vida não vivida, no meio de ginásticas de matemáticas domésticas para o pagamento das contas no fim do mês, uma vida não vivida, no meio de escalões de IRS mal calculados, uma vida não vivida «do piegas que emigra», uma vida não vivida daqueles que lutaram e contribuíram para o estado social, que está hoje a ser destruído e cujas pensões de miséria estão sujeitas ainda a mais cortes, uma vida não vivida daqueles que não conseguem pagar as rendas de casa e que por isso são desalojados. Uma vida não vivida sem apoio à cultura, que nos deixa de pés e mãos atadas para o pensamento crítico e para a liberdade de expressão e de emancipação.

Porque não me quero adaptar e aprender a sobreviver, vou sair para rua. Eu quero é viver, porque recuso verdades incontornáveis, inevitabilidades e tolerâncias. Porque recuso-me a ser espectadora da minha própria vida. Recuso-me a ver a liberdade de expressão e de protesto censuradas. Recuso-me a ver activistas perseguidos e criminalizados. Recuso-me a ver direitos sociais, laborais e humanos há tanto tempo conquistados serem agora retirados sob esta capa mágica multi-abragente, que todos os propósitos serve, por governos, por troikas, por FMI e bancos centrais europeus. Direitos esses que levarão décadas a ser recuperados. Por isso eu vou para a rua gritar. Porque ir para a rua não são só meros slogans que se gritam a plenos pulmões e peças de teatro mal encenadas que voltam ao vazio no dia seguinte. Ir para a rua é o antes, é o durante e é o rescaldo da manifestação. Ir para rua é o reclamar das nossas vidas, o reclamar dos nossos sentimentos, é o reclamar de identidades, é o reclamar do outro e é sobretudo o reclamar da nossa própria humanidade. Porque esta «austeridade» não só impede de construir o novo, como destrói o que já foi construído e impede que se façam planos para construir o que há-de vir. Não resisto: troika??? Troika só na cama! E 2 de Março é na rua!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Texto de Ana Margarida Esteves

Faz quinze anos que resido fora do país. Mas não é isso que faz de mim menos cidadã, nem menos comprometida com o futuro de Portugal. Nem menos interventiva. Não é a distância física do meu país que faz com que me importe menos com o que nele se passa. Pois os afectos não têm fronteiras. Nem a identidade, nem a esperança. E o desejo de voltar, de um dia poder ser feliz no país que é meu não diminui com os anos, nem com tudo o que se ganha e perde numa década e meia de emigração.

Embora não possa estar presente fisicamente na manifestação de 2 de Março, estarei lá em espírito e pensamento. E em voz. E em braços erguidos, em punhos cerrados. Em passos firmes e abraços dados. Estarei na voz, nos braços, nos punhos e nos passos das pessoas que amo que aí estarão. E que são muitas. Pessoas que dão sentido ao meu trabalho e à minha jornada pelo mundo. Pessoas às quais me quero juntar em breve, e definitivamente, para construirmos junt@s um Portugal que nos mereça. O Portugal que merecemos.

Pois não há «polvo» que resista ao poder da Solidariedade, da Esperança e de uma Vontade Firme. E não há «polvo» que resista também à Força de um Povo. De um Povo consciente do seu valor e das suas capacidades. Um Povo que não se deixa manipular pelo discurso da «inevitabilidade» nem pela verborreia orweliana que chama de «criação de oportunidades» à destruição dos fundamentos para uma vida digna, «empreendedorismo» à transformação de tudo aquilo que nos torna humanos em mercadorias.

É urgente voltar a encher as ruas. Pois não somos carne para canhão. Não somos ratos de laboratório. O nosso sentido de dignidade é mais do que suficiente para estarmos plenamente conscientes de que a construção de um país digno, onde valha a pena viver, onde se possa garantir a felicidade colectiva é objectivo supremo da nossa existência comum.

Texto de João Camargo

São tempos horríveis. Feios, sujos, mentirosos. Mesmo as pessoas habituadas a engolir sapos já não conseguem mais. A mentira ocupou o discurso público. Mentiras simples, muito simples e curtas ocuparam o centro dos debates: «o estado é insustentável»; «devemos abdicar da nossa soberania»; «vivemos acima das nossas possibilidades»; «devemos ter a saúde que conseguirmos pagar»; «há professores a mais»; «a reforma do estado vai melhorá-lo». Quem as profere, dia após dia, de canal em canal, de sintonia em sintonia, de cartaz em cartaz é ignorante ou está de má-fé. Haverá alguns ignorantes. A maioria sabe bem o que faz e para onde quer levar-nos. A concretização que decorre dessas mentiras simples é a destruição das vidas de milhões, aqui em Portugal, como em toda a Europa.

São tempos horríveis, em que pessoas com mais de 80 anos são despejadas de suas casas, porque as rendas tinham que ser modernizadas. Em que os estudantes têm de deixar as escolas por não terem dinheiro para pagar a sua educação. Em que, em pleno inverno, bairros são demolidos e as pessoas atiradas à rua, para «embelezar» as cidades. Em que se corta o número de camas disponíveis nos hospitais, apesar de já faltar capacidade de atender doentes. Em que se aumenta o tamanho das turmas nas escolas para «rentabilizar» os poucos professores ainda disponíveis. Em que os medicamentos são racionados e os doentes não podem tratar-se. Em que se salvam os bancos para que estes ponham a economia a funcionar, o que não fazem. Em que pais se suicidam com as suas crianças por estarem desempregados, sem apoios e na iminência de perder as casas. Em que nas noites das cidades centenas de pessoas se amontoam pelo chão, contando apenas com o calor do corpo ao lado para aguentar o frio. Em que se registam ilegalmente imagens das manifestações. Em que se identificam e detêm de forma avulsa pessoas nas ruas. Em que mais de dois terços da população não conseguem pagar as suas contas todos os meses. Em que mais de metade das pessoas que trabalham está desempregada ou é precária. São os tempos da mentira universal, da brutalidade universal e da ascensão de um ódio profundo à comunidade e à sociedade, concretizado pelas troikas internacionais e pelas suas representações permanentes nos países, os governos da austeridade. Não há já dúvida de que o que querem é um novo regime. Um regime de trevas, injustiça e desigualdade. Um regime de exploração, de espoliação e de regressão. O regime da austeridade.

Vivemos, portanto, numa nova época terrível da longa história humana. Mas acreditamos, como Galeano, que este mundo podre, sujo e mentiroso está grávido de outro mundo. E acreditamos nesse outro mundo. Temos de acreditar. Ele não é só possível. Ele está ao alcance das nossas mãos. Está ao alcance da nossa capacidade de articulação, de organização, de empreendermos a tarefa mais importante das nossas vidas: a de resgatarmos um futuro para nós e para a nossa sociedade.

Não pedimos favores à troika ou ao governo. Não lhes pedimos clemência ou piedade, esmola ou razoabilidade. Sabemos não ser essa a sua natureza e não ser essa a relação que um movimento de resistência tem com um movimento de ocupação e saque. Sabemos estar do lado certo pois o mundo que nos propõem, o da miséria e da injustiça para a maioria, com o privilégio e o luxo para uma minoria, é e será sempre errado. Já demos passos sérios para deixar essa situação: já derrubámos monarquia e aristocracia, já abolimos escravidão e servidão, já espezinhámos ditaduras e tornámos a liberdade e a democracia a norma. A história não pode voltar para trás. Não a deixaremos voltar para trás. Temos de continuar a evoluir para sermos mais, melhores, justos, solidários e humanos. Eles são o passado, a paz podre das cortes e dos tribunais inquisitórios, a medicina das sangrias e a censura da liberdade. Lutamos e lutaremos contra este inimigo terrível, de mil caras e mil mentiras. Não lhe vamos dar paz, não vamos aceitar voltar atrás, não vamos vergar ou contemporizar. Não vamos negociar uma paz podre a pagar pelos nossos filhos e netos, por nós mesmos, que trairia a memória daqueles que no passado lutaram para que chegássemos aqui. Vamos atacar estes tempos horríveis com o futuro, a justiça e a democracia no peito e na cabeça.

Uma vez mais nos lançamos nesta luta. Cada vez somos mais e mais organizados. Levamos nas nossas vozes e nas nossas bandeiras o espírito da nossa irreverência, do nosso inconformismo e da nossa coragem. Que se oiça em todo o lado, em todas as ruas de todas as cidades: «O POVO É QUEM MAIS ORDENA». E então será ele mesmo a ordenar.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Texto de Pedro Vieira

O que me abre a boca de espanto é poder estar a escrever um testemunho pró-manifestação com tanta largueza, a uma distância tão confortável a minha preguiça até aplaude de pé, uma largueza que até é desconfortável, quase sem deadline, como se não fosse urgente sair para a rua nem que fosse para a semana, ou já na próxima sexta, ou agora, o que é que estou a fazer entre quatro paredes quando podia estar muito bem na rua a gritar, a ficar rouco, a dar corpo, couro e cabelo à minha chateação, como dizem os brasileiros, eles que até vão fazendo uma revolução tranquila e com um acordo ortográfico que não admite o vocábulo crise, gostava de largar os activismos de sofá, tão cómodos, mea culpa, preteri-los em favor das calçadas, das ladeiras e avenidas, até quando será possível aguentar com cinismo, sarcasmo e relativismo e fúria meramente digital e ainda pós-moderna as estocadas que nos vão dando, as bofetadas que nos vão assestando, seja por via dos relatórios, dos barros atirados à parede que testam a nossa docilidade, dos cortes e das incisões feitas à nossa dignidade, das atoardas lançadas por banqueiros que no fundo são mesmo quem manda, o eleito de Massamá faz só de guarda-livros provisório e bem amestrado, não abatam o Pedro porque ele só ladra (em público) enquanto os que mandam mordem pela calada (e também à vista de todos), perdeu-se a vergonha, cabe-nos a nós não perder a inquietação, a cidadania, a intolerância à filhadaputice, como se diz em ciência política, a comunidade é nossa, as ruas são nossas e a responsabilidade, pois. Da última vez que me agitei nas massas com preceito voltei para casa com seis pontos na testa e menos vinte euros na carteira e com os olhos cheios de um país que não quero (re)ver, razão pela qual voltarei a sair e voltarei a sair e voltarei a sair e voltarei a sair, risca o disco e toca o mesmo, até porque está na hora de serem eles a terem medo de sair à rua. Eles, não nós. A 2 de Março, em não podendo ser antes.

Texto de Isabel Louçã

DIA 2 DE MARÇO VOU À MANIFESTAÇÃO…
· porque sou professora e desespero quando vejo frio nos ténis sem meias ou fome nos olhares aflitos dos meus alunos/as;

· porque tenho colegas que, depois de dez anos ou mais a ser necessários/as, ano após ano, estão agora desempregados/as. E continuam a fazer falta nas escolas;

· porque com turmas de 28 ou 30, dificilmente o sucesso é para todos/as;

· porque com muito menos professores/as e com os mesmos alunos/as, falta espaço para a diferença e a deficiência;

· porque o despedimento de milhares de professores/as envenenou o ensino das técnicas (artes ou não) ou o apoio pedagógico a quem tem necessidades educativas especiais;

· porque este governo se está nas tintas para a qualidade da escola pública.


DIA 2 DE MARÇO VOU À MANIFESTAÇÃO…

· porque me irrita a caridadezinha que entende a humilhação dos pobres obrigatória e a solidariedade social dispensável;

· porque me enfurece a inutilidade da procura dos que tentam o primeiro emprego: sem experiência não servem e sem emprego não arranjam experiência;

· porque me revolta que haja quem não tenha melhor solução do que tentar uma sobrevivência falada noutra língua, longe de amizades e amores, como se apanhar um avião e refazer a vida fosse coisa simples;

· porque os meus impostos andam a servir para salvar bancos e eu prefiro salvar serviços públicos;

· porque podia ficar aqui até dia 2 a contar, sem parar, e não me faltariam as razões para dizer: QUE SE LIXE A TROIKA, O POVO É QUEM MAIS ORDENA!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Texto de Luís Bernardo

Perder o medo e ganhar a rua

Perco o medo quando vou contigo para a rua. Perco o medo quando me dás ânimo e me fazes acreditar no tal país de luz perfeita e clara. Perco o medo quando vejo o teu rosto e penso que podemos fazer qualquer coisa, qualquer outra coisa, porque o estado a que chegámos não é irreversível ou inevitável. Depende de ti, de mim e de nós. Inventámos a política para domar a fúria de quem acha ter-nos aquietado, domado, amansado. Perco o medo quando nos reconheço novamente, de voz firme e alma flamejante, porque isto vai. Isto vai.

Há dois anos que vivo entre Lisboa e Berlim. Dois anos de luta contra a incompreensão e contra uma Europa egoísta, sádica e infeliz, essa Europa de Bruxelas e Frankfurt que deseja transformar-nos em cifrões e atiça povos contra povos. Dois anos de fúria e raiva a crescer-me nos dentes, às vezes de corpo distante, sempre com o pensamento presente naquele lugar onde procuram tolher-nos de medo e nós começamos a dizer não. Onde, em Abril, se disse não. Aquele lugar onde perco o medo porque estou contigo. Em todos os aviões, em todas as noites passadas em branco à procura de notícias, em todos os momentos de raiva e madeira esmurrada, quando a derrota e o medo parecem instalar-se, penso em ti e em todos os dias que nos farão juntar os ombros, as vozes e os punhos. É isto que me move. É por isto que falo do que enfrentamos em todas as cidades que atravesso, em todas as línguas que conheço, gesticulando e chorando de raiva (se necessário). É por isso que levanto a voz quando me dizem que somos gente preguiçosa, incapaz, desiludida. Ou um povo estúpido e incapaz de governar-se. O povo não ordena, diz-se (em surdina cada vez menos surda). Lembro-me de ti e dos nossos ombros. Lembro-me dos teus sonhos e dos meus. E, de rompante, levanta-se a minha voz sem que precise de ordenar-lhe. Faz faísca, porque já não basta ficar em casa à espera da bonança. A tempestade está aí e, se queremos o nosso dia inicial inteiro e limpo, é preciso mais. É preciso que sejamos mais punhos e mais vozes. É preciso domar o medo e olhar para quem julga estar acima. Porque andámos demasiado tempo a olhar para o lado com desconfiança. Eu prefiro olhar para ti, juntar o meu ombro ao teu e unir a minha voz à tua. Será assim que ganharemos o nosso futuro.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Texto de Helena Pato

Nós, que não apagámos o passado, nem podemos esconder as suas cicatrizes, temos a obrigação de não passar ao lado desta fractura na Democracia

É muito tarde para eu colocar o curso da vida entre parêntesis, mas assim está. Escrevo-vos na primeira pessoa. Sou uma entre muitas, mas agora sou diferente até de mim própria. Deixei de rir às gargalhadas e receio. Mas «receio» já não é a palavra que melhor se ajusta ao que sinto.
No meu bairro, tal como na minha vida, tudo caminha aparentemente sem grandes mudanças. Perto da rua onde vivo, a escola onde dei aulas durante 36 anos parece a mesma. Alguém se apercebe de que têm sido lançadas granadas de longo alcance sobre décadas de construção de um sistema democrático de educação? O sistema educativo dá sinais de começar a esboroar-se. Sem estrondo, inteligentemente destruído aos poucos (não é exagero meu, é experiência de ensino!)…
A mercearia em frente de casa desapareceu e o pequeno restaurante, onde às vezes íamos almoçar, fechou as portas. Por todo o lado, surgem como cogumelos, multiplicam-se as mini-lojas de compra de ouro e prata, para o empobrecimento envergonhado de gente que não estava no fim da linha, muitos idosos, lisboetas que ainda detinham algumas posses, meia dúzia de coisas de valor (a salva que foi presente de casamento, a pulseirinha de bebé, o cordão do relógio do avô: uma lástima!)… De paredes-meias com o meu bairro, a freguesia dos Anjos envelhece e desfaz-se em pobreza. Os mais pobres dos pobres espalham-se pelos bancos do jardim da igreja, à espera da refeição que lhes servem caridosamente na «cantina do Sidónio» (triste memória dos anos da guerra!), ou a fazerem tempo para uma noite enregelada sobre caixas de cartão, debaixo das arcadas da Avenida Almirante Reis (aguentam!)…

Tirando os ricos (onde param?) e tirando os bancos (logotipados sinistramente pela cara de Ulrich do BPI), quem não estará na bicha da entrada para o inferno? Eu estou. E esqueço que estou, sempre que fico com o coração a estoirar e o pensamento obcecado pelas imagens dos mais velhos dos velhos, a quem tiram a saúde e atiram para a pior das misérias (pensionistas, reformados, um roubo, um escândalo!). 
No campo do jogo neoliberal, é a todos nós — gente sem eira nem beira ou explorada até ao tutano pelo capitalismo — que, agora, o Governo e os seus apoiantes (mórmones com fatinho de finanças…) vêm atirar culpas, como pecados. Pecados em remissão: gastámos de mais, produzimos de menos, blá-blá-blá… e, porque assim foi, é preciso pagar a conta celestial e em contrição permanente. Levam-nos o prato, levam-nos o ensino, a casa, a saúde, o carro e os direitos sociais. Levam-nos os filhos para lá das fronteiras da pátria. Enquanto eles (os sem pátria) fincam os pés e ficam; e com uma missão ideológica, numa cruzada.
A crise agrava-se e, na comunicação social, é tão intimidatória a girândola de informação técnica e de opiniões; e são tantas as ilusões, diariamente aí induzidas, que os portugueses regressam (alguma vez terão de lá saído?) à atitude de conformismo dos seus avós e bisavós. São muitos os que se atordoam e, sem verem pela frente um projecto político alternativo consistente e credível, sentem-se entalados entre as cruéis medidas de austeridade que nos vêm sendo impostas e o medo de que a desgraça se possa tornar ainda maior (maior? Nada mais enganador!)…

Vivi décadas da minha vida num regime que julgávamos afastado para sempre. De repente, deparamo-nos com o regresso de medidas políticas e de concepções sociais desse tempo, despudoradamente expostas por estranhos na nossa casa (a casa da Democracia de Abril)…
Nós, aqueles que não apagámos o passado e que nem podemos esconder as suas cicatrizes, temos a obrigação de não passar ao lado desta fractura na Democracia. Evocar, em lamentos, o saudoso 25 de Abril é pouquinho! (cá por mim, morrer antes de ficar incapacitada, não!). Há dias, há horas, momentos, em que o presente é tão assustador e tão humilhante que, para os da minha geração, tem reflexos da ditadura (afinal, companheiros, enganámo-nos: parecia arrumada nas páginas da História, não era?). Os atropelos à liberdade de expressão, a emigração (outra vez, os exílios), os cortes nos direitos de quem trabalha e nos apoios sociais, a progressiva perda do poder de compra, o desemprego que nos rodeia e avança (como uma peste que, por ora, não entrou a minha porta: haja deus!) são o retrocesso, em escalada, nas conquistas da civilização europeia do pós-guerra (ó céus, como é possível?). Aos meus olhos, é pior do que uma derrocada. Vejo o filme a andar para trás: volto às situações contra as quais lutámos e que, e nalguns casos, ainda antes do 25 de Abril, superámos, festejando as vitórias (é difícil acreditar, não é?)…
Transformar o empobrecimento generalizado numa perspectiva estratégica de solução para um país que precisa de mais riqueza é um absurdo. O desmantelamento do estado social e a perda de direitos dos trabalhadores representam a negação de Abril (não pode ter sido em vão que tantos cantámos Grândola!). A degradação da escola pública e do serviço nacional de saúde, a privatização de empresas públicas em sectores de interesse estratégico nacional, como a água, não podem deixar-nos indiferentes. A rua ainda é um lugar calmo, que nos pertence e que espera por nós.

Só o inverter desta trajectória de empobrecimento e o fim deste ajuste de contas ideológico (aguenta-te, Constituição!) nos colocarão novamente na rota da esperança. A subordinação do estado aos mercados financeiros não é solução. 
Tenho medo do futuro (claro!), não tanto por mim mas pelos nossos filhos, pelas nossas crianças e, sobretudo, por alguns amigos idosos que vejo entre a depressão e o desânimo; e já convivo dificilmente com o pânico dos mais frágeis. 
Agora juntou-se a raiva. Um tipo luzidio (parecendo ser português) chega-se à beira das câmaras da televisão e vomita frases sobre nós, sobre os gregos e os sem abrigo (tudo «gentinha» que lhe infecta o ar que respira)… «Ai aguentam, aguentam!» – diz o banqueiro, com os bolsos atafulhados de centenas de milhões de euros de lucros. Com um descaramento sem par. É a infâmia. Provocação? Apenas sobranceria? Parecerá estranho, mas ao ouvi-lo qualquer coisa mudou em mim. Como se um nó se desfizesse no meu peito e por perto soasse um grito de guerra. Pois que seja este mais um empenhado combate! (e comecei a escrever estas linhas)
Vamos lá outra vez!

Tal como durante a luta que travámos durante décadas para acabar com o regime fascista, temos naturalmente pressa na mudança. Mas a incerteza acerca do modo e do tempo em que ocorrerá essa mudança não pode paralisar-nos no que temos de melhor: a capacidade de acreditarmos que é possível e de agirmos para alcançar um outro dia. Grândola? (signos!) Talvez. Seguramente, o povo é quem mais ordena! 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Texto de António Pinho Vargas

Apoio a manifestação de 2 de Março por várias razões. A democracia parlamentar tem-nos mostrado as suas insuficiências e os seus limites. Os partidos políticos têm certamente um papel a representar, mas são evidentes dois factores: a crise de confiança das populações no sistema democrático actualmente existente é geral na Europa; e existe no país um bloqueio que se manifesta de dois modos: a desejada, desde Sá Carneiro, junção governo-maioria-presidente impede o equilíbrio interno do sistema político; e a divisão histórica entre os partidos das várias esquerdas não dá sinais de se alterar.

Mas a política não se circunscreve aos seus profissionais e diz antes respeito a todos os cidadãos. A crise da democracia representativa é manifesta e só se poderá resolver através do seu aprofundamento em várias direcções que poderão ir da democracia participativa até à consideração de novas e criativas formas de participação cidadã.

A manifestação de 15 de Setembro de 2012 mostrou com clareza a importância das manifestações de massas, abertas e apartidárias e, no contexto agravado pelo anúncio da medida da TSU, desempenhou um papel decisivo no recuo do governo nessa altura. Mas o governo tem vários outros recursos e, com algum cinismo pelo meio, pôs em prática novas medidas que acabam por conduzir, no essencial, ao mesmo projecto político de fundo em curso: a transferência de dinheiro dos mais pobres para o pequeno grupo dos mais ricos. Passa pelo empobrecimento generalizado das populações, por cargas brutais de impostos sobre a classe média e pensionistas, mesmo os de mais baixos rendimentos, e por um claro favorecimento dos bancos e grupos financeiros, locais ou globais. Este projecto global, que esmaga os vários países do Sul da Europa, sob a orientação dos países ricos do Norte e as suas instituições financeiras associadas às políticas neoliberais (que se transferiram parcialmente dos EUA para a Europa) deve ser combatido. As suas consequências são já devastadoras e serão difíceis de recuperar face ao enorme grau do retrocesso. A crise-pretexto aumenta as desigualdades, a pobreza, a dificuldade de viver com a mínima decência e dignidade para muitas pessoas, quebrou o contrato social e as bases de um Estado Social que caminhe na direcção da justiça e da igualdade. É um projecto político que divide a própria base social de apoio dos partidos do governo, capturados por um grupo radical de direita ultra-liberal na ideologia, interesseiro nos negócios e mesmo imoral na forma como trata os mais deserdados do mundo.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Texto de Luís Varatojo

No dia 15 de Setembro de 2012 fui à manifestação. Já não ia a manifestações há muito tempo; sou músico e gosto muito do que faço, por isso passo a maior parte do tempo a pensar em música, não tenho disponibilidade nem vontade de me envolver em política, mas voto. Como eu, está a maior parte da população activa, que trabalha, produz riqueza, participa no desenvolvimento do país e espera que os governantes eleitos cumpram o que prometeram em eleições e governem para o bem de todos. É certo que, em quase 40 anos de democracia, nem tudo foi perfeito, mas para resolver essas imperfeições temos instituições como os tribunais, o Parlamento ou o Presidente da República que, até agora, têm funcionado com alguma eficiência. Sim, até agora. Porque desde que este governo tomou posse, parece que tudo está posto em causa, inclusive a liberdade conquistada em Abril de 74. São vários os casos de censura, repressão e abuso do poder. É interminável a lista de medidas que configuram um retrocesso de décadas nos mais elementares direitos dos cidadãos de um país desenvolvido. É alarmante a facilidade com que se transfere dinheiro do trabalho para os bancos através dos impostos. É inacreditável como um grupo de pessoas incompetentes e irresponsáveis destrói o país e como as instituições nada fazem ou nada podem fazer… Por isso, em 2012 não consegui concentrar-me exclusivamente no meu trabalho, na minha família e amigos e saí para a rua. Comigo saiu um milhão de portugueses, que trabalham como eu, que nunca viveram à conta do estado, nem acima das suas possibilidades. E resultou. O governo recuou porque sentiu o poder da quantidade. Mas estes governantes são daquela raça do «quero, posso e mando», ditadores agarrados ao poder, e o pequeno recuo serviu para preparar um assalto ainda maior. Desde aí e até agora, os pacotes de medidas sucederam-se e a situação agravou-se bastante: muito mais desempregados, economia em recessão, a dívida pública a crescer, salários e pensões cada vez menores, impostos cada vez maiores, repressão policial, controlo dos meios de comunicação, educação e saúde públicas em vias de extinção, cultura em degradação acelerada. Nunca vi nada assim. Em dois anos, Passos e o seu gang arrasaram uma boa parte do que demorou décadas a construir. Perante isto, ninguém pode ficar indiferente. Ninguém consegue produzir, trabalhar, criar riqueza, sabendo que todos os sacrifícios servem única e exclusivamente para alimentar bancos e credores. Perante isto, ninguém pode estar descansado, mais tarde ou mais cedo pode ter a polícia à perna porque disse, escreveu ou cantou o que não devia. Perante isto, ninguém pode estar optimista quanto ao futuro, sabendo que Portugal será um ermo, pelo menos nos próximos dez anos, e que qualquer actividade económica que não passe pelas mãos de grandes empresas estará destinada ao fracasso. Perante isto, ninguém pode ficar sentado no sofá de braços cruzados a assistir ao seu próprio enterro. Eu não fico, não consigo ficar. Não sei se dia 2 de Março vamos ser um milhão (em Setembro também não sabia), mas vou voltar à rua, porque, apesar de muito já ter sido destruído, ainda há muito para salvar e quero continuar a fazer música tranquilamente.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Texto de Luísa Ortigoso

Corria o mês de Novembro de 2012 e o neto de uma amiga, do alto dos seus quatro anos, pergunta-lhe: «Avó, eu era bebé, agora sou crescido, qualquer dia sou grande como tu. E depois como é? Acaba o Mundo?»

Sou subscritora do apelo à manifestação de 2 de Março. Vou estar presente. Vou gritar com todas as vozes que lá estiverem: «Que se lixe a troika. O povo é quem mais ordena!» Porquê? Porque quero poder responder àquele menino e a todos os meninos que o Mundo não acaba, mas que vai ser diferente.

Que vai ser um Mundo justo e em que se pode sonhar, mesmo sendo grande. Que vai ser um Mundo que chega para todos. Que vai ser um Mundo em que todos têm trabalho e recebem um salário justo, com justas condições para o fazerem com empenho e alegria. Que vai ser um Mundo em que a escola é para todos, onde alunos e professores fazem o caminho da descoberta como quem escreve poemas no futuro. Que vai ser um Mundo em que todos têm acesso a cuidados de saúde, porque o simples facto de se ser um cidadão o garante. Que vai ser um Mundo em que ser-se velho é a alegria de viver devagar, saboreando os dias. Que vai ser um Mundo em que os mercados importantes são aqueles onde vamos ao sábado de manhã comprar a fruta e os legumes frescos da «dona Filipa», que nos recebe com um sorriso e se despede com um ramo de hortelã para nos perfumar o prato, a casa e o dia. Que vai ser um Mundo em que as riquezas naturais são de todos e para o bem de todos. Que vai ser um Mundo em que todos respeitam a natureza e contribuem para a preservar, porque dela são parte. Que vai ser um Mundo em que todos participam para o bem comum e dele usufruem. Que vai ser um Mundo em que todos se respeitam e se ouvem e colaboram. Que vai ser um Mundo de Paz. Que vai ser um Mundo com Teatro, com Música, com Dança, com Livros, com ARTE para todos, para que todos possam sonhar. Que vai ser um Mundo em que aquele menino e todos os meninos sorriem, quando olham o futuro. Que vai ser um Mundo em que todos — mulheres, homens, crianças e bichos — podem ser felizes.

É utopia? Talvez. Mas, como diz Fernando Birri (pensador, realizador, o «pai» do novo cinema latino-americano), tantas vezes citado sobre o tema por Eduardo Galeano (maravilhoso escritor, poeta e pensador uruguaio), «A utopia serve para caminhar».

Ir para a rua no dia 2 de Março faz parte do caminho da luta por um País livre e justo, por um Mundo feliz. Lá estarei, de mãos dadas e coração aberto ao futuro que nos desejo a todos, com todos os que quiserem dar as mãos. Lá estaremos para, todos juntos, gritarmos a uma voz que se fará ouvir de Norte a Sul do nosso País de Água: «Que se lixe a troika. O povo é quem mais ordena!»

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

QUE SE LIXE A TROIKA. O POVO É QUEM MAIS ORDENA!



Em Setembro, Outubro e Novembro enchemos as ruas mostrando claramente que o povo está contra as medidas austeritárias e destruidoras impostas pelo governo e seus aliados do Fundo Monetário Internacional, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu – a troika. 
Derrotadas as alterações à TSU, logo apareceram novas medidas ainda mais gravosas. O OE para 2013 e as novas propostas do FMI, congeminadas com o governo, disparam certeiramente contra os direitos do trabalho, contra os serviços públicos, contra a escola pública e o Serviço Nacional de Saúde, contra a Cultura, contra tudo o que é nosso por direito, e acertam no coração de cada um e cada uma de nós. Por todo o lado, crescem o desemprego e a precariedade, a emigração, as privatizações selvagens, a venda a saldo de empresas públicas, enquanto se reduz o custo do trabalho.

Não aguentamos mais o roubo e a agressão.

Indignamo-nos com o desfalque nas reformas, com a ameaça de despedimento, com cada posto de trabalho destruído. Indignamo-nos com o encerramento das mercearias, dos restaurantes, das lojas e dos cafés dos nossos bairros. Indignamo-nos com a Junta de Freguesia que desaparece, com o centro de saúde que fecha, com a maternidade que encerra, com as escolas cada vez mais pobres e degradadas. Indignamo-nos com o aparecimento de novos impostos, disfarçados em taxas, portagens, propinas… Indignamo-nos quando os que geriram mal o que é nosso decidem privatizar bens que são de todos – águas, mares, praias, território – ou equipamentos para cuja construção contribuímos ao longo de anos – rede eléctrica, aeroportos, hospitais, correios. Indignamo-nos com a degradação diária da nossa qualidade de vida. Indignamo-nos com os aumentos do pão e do leite, da água, da electricidade e do gás, dos transportes públicos. Revolta-nos saber de mais um amigo que se vê obrigado a partir, de mais uma família que perdeu a sua casa, de mais uma criança com fome. Revolta-nos o aumento da discriminação e do racismo. Revolta-nos saber que mais um cidadão desistiu da vida.

Tudo isto é a troika: um governo não eleito que decide sobre o nosso presente condicionando o nosso futuro. A troika condena os sonhos à morte, o futuro ao medo, a vida à sobrevivência. Os seus objectivos são bem claros: aumentar a nossa dívida, empobrecer a maioria e enriquecer uma minoria, aniquilar a economia, reduzir os salários e os direitos, destruir o estado social e a soberania. O sucesso dos seus objectivos depende da nossa miséria. Se com a destruição do estado social a troika garante o financiamento da dívida e, por conseguinte, os seus lucros, com a destruição da economia garante um país continuamente dependente e endividado.

A 25 de Fevereiro os dirigentes da troika, em conluio com o governo, iniciarão um novo período de avaliação do nosso país. Para isto precisam da nossa colaboração e isso é o que não lhes daremos. Porque não acreditamos no falso argumento de que se nos “portarmos bem” os mercados serão generosos. Recusamos colaborar com a troika, com o FMI, com um governo que só serve os interesses dos que passaram a pagar menos pelo trabalho, dos bancos e dos banqueiros, da ditadura financeira dos mercados internacionais. E resistimos. Resistimos porque esta é a única forma de preservarmos a dignidade e a vida. Resistimos porque sabemos que há alternativas e porque sabemos que aquilo que nos apresentam como inevitável é na verdade inviável e por isso inaceitável. Resistimos porque acreditamos na construção de uma sociedade mais justa.

A esta onda que tudo destrói vamos opor a onda gigante da nossa indignação e no dia 2 de Março encheremos de novo as ruas. Exigimos a demissão do governo e que o povo seja chamado a decidir a sua vida.

Unidos como nunca, diremos basta.

A todos os cidadãos e cidadãs, com e sem partido, com e sem emprego, com e sem esperança, apelamos a que se juntem a nós. A todas as organizações políticas e militares, movimentos cívicos, sindicatos, partidos, colectividades, grupos informais, apelamos a que se juntem a nós. De norte a sul do país, nas ilhas, no estrangeiro, tomemos as ruas!

QUE SE LIXE A TROIKA. O POVO É QUEM MAIS ORDENA!


Ada Pereira da Silva, Adriano Campos, Alex Cortez, Alexandre Abreu, Álvaro Faria, Ana Carla Gonçalves, Ana Margarida Esteves, Ana Maria Pinto, Ana Nicolau, André Studer Ferreira, Ângela Cerveira, Ângela Fernandes, António Alves, António Avelãs, António Costa Santos, António Louçã, António Mariano, António Pinho Vargas, António Simões do Paço, Armando Sá, Belandina Vaz, Bruno Cabral, Bruno Carvalho, Bruno Gonçalves, Bruno M. Neto, Camilo Azevedo, Carla M Cardoso, Carlos Mendes, Chullage, Cristina Cavalinhos, Cristina Paixão, Daniel Godinho, Diana Póvoas,
Diogo Gaivoto, Diogo Varela da Silva, Fabíola Cardoso, Florian Charioux, Francisco Calafate, Frederico Aleixo, Frederico Duarte, Guadalupe Simões, Helena Borges, Helena Dias, Helena Pato, Helena Romão, Inês Meneses, Inês Subtil, Inês Tavares, Iolanda Baptista, Isabel Louçã, Jaime Teixeira Mendes, Jakilson Pereira, Joana Azevedo Viana, Joana Manuel, Joana Saraiva, João Afonso, João Balão, João Camargo, João Gustavo, João Mineiro, João Vasco Gama, Jorge Falcato, José Gema, José Luís Garcia, José Reis Santos, Laura Diogo, LBC Soldjah, Luanda Cozetti, Lúcia Gomes, Luís Bernardo, Luís Ribeiro, Luís Varatojo, Luísa Ortigoso, Luna Nicke, Madalena Ávila, Magda Alves, Marco Neves Marques, Maria Barradas, Maria José Alves, Maria Luísa Cabral, Mariana Avelãs, Marta Silva, Miguel Cardina, Miguel Reis, Milé Sardera, Myriam Zaluar, Nuno Gomes dos Santos, Nuno Ramos de Almeida, Nuno Serra, Nuno Viana, Octávio Raposo, Paula Gil, Paula Marques, Paula Nunes, Paulo Pato, Paulo Raposo, Pedro Alves, Pedro Feijó, Pedro Rocha, Raquel Gonçalves, Ricardo Morte, Ricardo Santos, Rita Veloso, Rosário Gama, Rui Borges, Rui Dinis, Rui Eugénio, Samuel Quedas, Sandra Monteiro, Sandro Mendonça, São José Lapa, Sara Boavida, Sara Ferreira, Sara Figueiredo Costa, Sara Gonçalves, Sara Goulart, Sérgio Vitorino, Sofia Gomes, Tatiana Moutinho, Tiago Figueiredo, Tiago Mota Saraiva, Tiago Rodrigues, Tiago Torres da Silva, Vítor Ferreira, Zé Neves