Mostrar mensagens com a etiqueta apelo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta apelo. Mostrar todas as mensagens

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Texto de Ana Carla Gonçalves

Decides aflito deixar o quarto. Carregas contigo as noites iguais aos dias, o último despedimento que com bondade decidiste carregar como mais um falhanço teu com a vida. Carregas as noites em branco entre fumos, o cão, a tua música que compões como se não houvesse amanhã e já não sabes se é segunda-feira ou domingo. A universidade está cara e o trabalho já não procuras. A tua tristeza tem o peso da tua idade: 25 anos. Em menino tinhas luz dentro dos olhos e a vida era toda tua quando, cuidadosamente, agarravas nas mãos um escaravelho para observares de perto e aprenderes com ele os mecanismos da natureza. Depois tiraram-te a natureza, os escaravelhos esconderam-se debaixo do asfalto e a luz escureceu à volta de todo o teu rosto. O cerco apertou-se à tua volta e tu começaste a acreditar que se o mundo, o país, a cidade, não te davam a mão, era porque tu não merecias. As feridas do mundo tomaram todo o teu corpo e fechaste os olhos como quem acredita que sempre falhou e que já nada vale a pena. Com 25 anos apenas perdeste de vista o futuro e deixaste de acreditar.
Mas é o dia 2 do mês de Março e por isso  decides deixar o quarto. Não vais levar nenhum cartaz. Sem gritar vais estar a reivindicar a possibilidade de voltares a sonhar e de teres uma comunidade em quem podes confiar e que podes merecer. Estarás na rua pela possibilidade da luz voltar aos teus olhos libertando todos os escaravelhos presos debaixo do asfalto.
E eu vou estar contigo.
Decides deixar a casa. Estás ansiosa. Tens 35 anos e fizeste tudo como te mandaram: estudaste, trabalhas porque ainda tens trabalho, mas sabes que não será por muito tempo, e agora, com menos dinheiro porque te roubam no salário, vais talvez ter de deixar a casa. Desde menina adoeces, porque vês as coisas e as entendes e sonhas muito. E não há sonho que se realize. Não podes fazer teatro, porque não há maneira de pagar a casa e para a cultura não há dinheiro e os teatros fecham e a cultura adoece. O inimigo está por aí como sempre esteve, mas agora com menos pudor, a roubar, a destruir, a insultar a tua e todas as dignidades. Queres ir embora, pensas nisso todos os dias, mas as saudades apertam ainda antes da partida. E roubam-te o filho que querias ter. Porque para o teu filho tu querias árvores e uma escola com dignidade.  Porque para um filho é preciso ter um futuro.
No dia 2 de Março vais estar na rua. Com muita vontade de chorar. Pelo teu filho que tem de continuar à espera, pelo teu irmão, pelo teatro, pelo teu avô, pela água e pelas árvores, pelos medos e angústias que te enchem o peito, pelos meninos de todo o mundo da Palestina e da África e da Grécia e daqui.
E eu vou estar contigo.
Cresceste a olhar para a rua. Amas a cidade e sais com ela todos os dias, desde os 18 anos, para trabalhar. Sabes de cor o que é a vontade prepotente dos patrões e ganhas, de cabeça erguida, o salário pequeno para tantas horas de trabalho. Desde menino sonhas com a tua vida entre a música e a vontade de ficar absorto a olhar para o mar. Nove horas de trabalho por dia desde os 18 anos e os sonhos adiados. Amas demasiado a cidade e o país para poderes partir. Depois, a empresa fecha, e mudam-te de lugar e tu vais e mudam-te os horários e tu vais e trocam-te as funções e tu fazes. Perdes direitos, reviram-te a dignidade, a tua raiva cresce e já não sabes contra quem a atirar. Lês no comboio, na camioneta, uma hora até chegar, e o outro dia será igual e o dinheiro será menos e às vezes em casa tudo parece ruir à tua volta. Sempre acreditaste em comunidades. Aconchegas-te na esperança de a encontrar. Agitas-te, consomes-te, reivindicas. Tudo à tua volta está por um fio: o trabalho, a casa, a música.
No dia 2 de Março vais estar na rua. Queres reencontrar a dignidade nas caras como no dia 15 de Setembro viste. Queres estar de braço dado na comunidade que sonhas. E gritarás O POVO É QUEM MAIS ORDENA e terás lágrimas nos olhos, porque milhares gritarão contigo e porque poderás continuar a acreditar na mudança.
E eu vou estar contigo.
Eu vou estar na rua no dia 2 de Março porque uma tristeza enorme pesa sobre o mundo.
Vi , com 11 anos, o meu pai ser preso. Odiei a pide, o salazar, o marcelo, o colonialismo, o capitalismo, fui perseguida, quase expulsa da faculdade, escrevi, fugi à polícia, tive falsos nomes e identidades, lutei, vi África e a Palestina, roguei pragas e fui camarada e companheira e professora e vi a escola pública adoecer e vi os meus alunos com fome de pensamento e de pão e vi e tornei a ver gente a ser torturada e perseguida. E a besta ainda aí está travestida de FMI, BCE, Comissão Europeia, ulriches, passos e companhia e a guerra continua e as prisões devem abrir-se para que eles entrem, para que nos deixem respirar e beber a água que é de todos e para que os meus netos possam nascer ao pé das árvores, para que o meu filho saia do quarto a acreditar na sua vida e na Amazónia que também lhe pertence, para que não seja pecado o meu amor fazer música e mesmo assim viver e a minha filha fazer teatro e mesmo assim viver com dignidade, pão na mesa, serviço de saúde, direitos.
QUE SE LIXE A TROIKA! Que se lixem bancos e banqueiros, que se lixe o belmiro e o relvas, que se lixem todos os bem comportados que nunca viram o infinito.
Vou estar na rua para que eles oiçam e saibam e nunca esqueçam que O POVO É QUEM MAIS ORDENA!

Texto de Paulo Varela Gomes


A lição de Gandhi

A mais conhecida frase de Gandhi é:
«Não há qualquer causa pela qual esteja disposto a matar. Mas há causas pelas quais estou pronto a morrer.»
Estas palavras resumem a perspectiva de luta com que hoje se defrontam centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, mas em especial no Ocidente (Europa e continente americano). Estamos na última das extremidades: está em jogo a vida das pessoas. Primeiro seremos reduzidos à pobreza. Depois farão de nós o que bem lhes aprouver.
A maioria das pessoas no Ocidente já há duas ou três décadas percebeu aquilo que a esquerda ocidental mostra extrema relutância em aceitar: que não vale a pena nem é possível combater apenas por meios legais o capitalismo sustentado parlamentarmente.
A maioria das pessoas pensa que os políticos são uns aldrabões ou corruptos, que o sistema judicial está ao serviço deles e que só os ricos e poderosos se safam. O chamado «descrédito do sistema político», assunto sobre o qual se têm tecido profundíssimas reflexões, é simples de explicar: o sistema está desacreditado porque não merece crédito. As pessoas já perceberam. Uma parte delas continua a votar por desfastio, a outra vota com os pés.
A esquerda parece estar convencida de que escapará entre as gotas desta bátega torrencial de desilusões recorrendo à luta dentro do sistema: o discurso parlamentar, as eleições, a ocasional coluna nos jornais ou prestação televisiva, etc. Triste engano. A maioria das pessoas não distingue um deputado do PCP de um do PSD, para referir casos portugueses. Estão todos no mesmo sistema. Dizer coisas como esta pode parecer o regresso a um dos mais velhos debates da esquerda ocidental: como combater o sistema capitalista e o seu parlamentarismo? A partir de dentro ou a partir de fora?
Parece, mas não é. Pela primeira vez desde o século XIX, o sistema não tem alternativa nem teórica nem prática, quer dizer, não pode ser substituído. Mas têm alternativa os seus governos e regimes mais injustos e corruptos. É indispensável resistir-lhes, desgastá-los, desregular-lhe os mecanismos de funcionamento, derrubá-los. Para resistir desta maneira não se pode agir apenas com os meios que o sistema permite. Quando se convoca a greve geral nº 354, a grande manifestação nº 1723, ou se assina o manifesto nº 10 655, só se está a desacreditar a greve geral, a manifestação e o manifesto, respectivamente.
Todavia, as greves e as manifestações podem atingir uma dimensão verdadeiramente surpreendente se pararem de facto o país, se encherem de facto as cidades. É por isso que vale a pena investir em manifestações como a de 15 de Setembro ou a de 2 de Março próximo. Para surpreender e assustar os poderosos. Deve pensar-se que a resistência armada ao sistema está sem qualquer dúvida na ordem do dia e será uma realidade mais cedo do que tarde. Todavia, é muito perigosa tanto do ponto de vista ético como político. O passado demonstrou-o muitas vezes.
Mais importante e efectiva é a resistência desarmada, a resistência passiva. É preciso seguir o lema de Gandhi.
Em vez de termos cinco mil pessoas em frente de S. Bento, é preciso ter cinquenta mil, deitadas nas escadas em levas sucessivas, sofrendo as cacetadas da polícia, aguentando os canhões de água, sendo presas.
Há cinquenta mil pessoas em Portugal dispostas a isto?
Não me parece. Nem sequer cinco mil.
E porquê?
Por muitas razões que todos conhecemos e uma que nos recusamos a reconhecer: porque a esquerda é vítima do seu servilismo parlamentar e acredita só poder existir enquanto tiver lugares no parlamento e aparecer na televisão ou nos jornais a apertar a mão do PR. De facto, a esquerda não promove e até condena a resistência passiva. A primeira coisa que diz um sindicalista ou dirigente da esquerda após convocar uma manifestação é que será «pacífica». A primeira exclamação que lhe sai da boca mal alguém se agita é «calma camaradas!»
Esta é a responsabilidades negativa da esquerda.
Olhemos agora para as suas responsabilidades positivas:
É sua estrita obrigação política e ética apoiar, promover e assumir o rosto da resistência passiva. Se o fizer dará o exemplo e a resistência poderá crescer. Para isso, os seus representantes, e com eles os intelectuais de esquerda e os independentes que estão contra o sistema, terão que estar prontos para resistir.
Se não há cinquenta mil pessoas dispostas a aguentar em frente do Parlamento, há dezenas de deputados que deveriam estar dispostos a: boicotar activamente sessões parlamentares, impedindo o Parlamento de funcionar; não pagar impostos e incitar ao não pagamento; sentar-se numa linha férrea em ocasião de greve dos comboios, etc., etc., etc.
Perdiam o mandato? Iam presos?
Nas presentes circunstâncias, vivendo nós sob um regime ilegítimo eticamente e tirânico politicamente, o lugar mais honroso onde podem estar Jerónimo de Sousa ou Catarina Martins é a prisão.
(Pessoalmente, sentir-me-ia muito mais contente comigo mesmo e com este texto se tivesse saúde para agir em conformidade com o que aqui escrevi.)

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Texto de Carlos Pereira

Eu participo na manifestação de 2 Março, porque estou indignado, revoltado roubado, assaltado e observo que os meus sonhos de jovem com as conquistas do 25 de Abril estão há muito a ser postos em causa!

Depois de uma vida de trabalho, em que durante 44 anos, e de acordo com as regras definidas pelo estado, quer eu, quer as minhas entidades patronais, entregámos através da Segurança Social as respectivas contribuições para a formação da minha pensão, que com base na lei tem de ser paga durante 14 meses, tendo sido estas contribuições seguramente capitalizadas ao longo dos anos.

Pensava eu que tinha reunido todas as condições e que o estado, como pessoa de bem, iria assumir os seus compromissos pagando a pensão que me é devida.

Contrariando esta minha anterior convicção, assisto ao desrespeito unilateral por parte do Estado das regras que ele próprio definiu e as quais eu e as minhas entidades patronais cumprimos na íntegra, o desrespeito é visível: cortaram 1,5 % na pensão no tempo do Sócrates e agora com o actual governo o roubo é total. Confisco dos subsídios de férias e de natal e ainda uma contribuição extraordinária de solidariedade de 3,5 %, para além obviamente do assalto fiscal no IRS, do aumento no IMI, do aumento no Imposto de Circulação Automóvel e da redução do meu poder de compra, porque vários serviços como a electricidade, a água e outros produtos aumentaram, além de que o relatório do FMI prevê novos cortes nas pensões!

As pensões não podem ser apenas consideradas como despesa do estado, pois tratam-se de obrigações assumidas pelo este, sendo que na minha opinião os reformados são credores do estado no valor da sua pensão.

Neste contexto reafirmo que me sinto roubado, razão pela qual luto contra o empobrecimento, por uma vida digna e pelo respeito dos direitos e interesses dos reformados.

Para alcançar este objectivo, aderi à APRe!, a voz dos aposentados, pensionistas e reformados.

Como cidadão estou inteiramente contra as políticas de austeridade que têm conduzido à quebra de rendimento das famílias e ao consequente desastre económico, com falências de empresas todos os dias e os despedimentos inerentes, os 4 000 milhões previstos cortar nas funções sociais do estado, que a acontecer vão seguramente destruir o estado social e dificultar o acesso à saúde e à educação, agravando a vida dos Portugueses em geral.

Estou preocupado com o futuro do país, dos portugueses em geral e dos reformados em particular!

Estou preocupado com o futuro dos meus filhos e netos!

Por todas estas razões, reafirmo que vou participar na manifestação de 2 de Março em Lisboa.
Que se lixe a troika! O Povo é quem mais ordena!

Texto de Tatiana Moutinho


Quero o meu direito a sonhar.

Sou uma das subscritoras da convocatória da manifestação do próximo dia 2 de março.
Muita gente tem já escrito, provavelmente melhor, acerca do que os leva a juntar-se ao protesto. Compreendo todas as razões. Solidarizo-me com todas. As minhas razões também são as mesmas.
O que me junta a todos os outros é precisamente uma questão de solidariedade. Não viemos todos do mesmo sítio e não pensávamos todos ir para o mesmo sítio. Mas, de repente, deixámos de pensar para onde poderíamos ir. Já não há espaço para pensar, muito menos para sonhar.
Passámos a viver o dia-a-dia, a tentar reduzir as perdas ao mínimo. Estamos em plena sobrevivência e isto não é vida para ninguém.

Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque vida só tenho esta. Tenho quarenta anos e mereço algum sossego.
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque tenho uma filha e ela merece uma vida.
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque tenho avós que, de lágrimas nos olhos, me dizem: «não foi para isto».
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque tenho uns pais que dedicaram uma vida inteira ao serviço nacional de saúde e me dizem: «estão a matar tudo».
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque diariamente há gente que perde o seu emprego.
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque diariamente há gente que perde as suas casas.
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque se amontoam as pessoas a dormir nas ruas.
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque há gente com fome.

Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque a democracia também se cumpre na rua.

Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque eu preciso de mais do que simplesmente chegar a casa e estar a escrever textos para serem publicados no site do «que se lixe a troika».
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque eu necessito de chegar a casa e sonhar.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Texto de Joana Manuel

Temos tudo já escrito e já dito. E no entanto somos nós agora que estamos vivos e temos de o continuar a dizer e a escrever. Temos tudo nas estantes, nos livros e nos discos e nos filmes, no legado de vivos e de mortos. E no entanto somos nós agora que estamos vivos e temos de continuar a viver. Temos os bairros negros e os brejos da cruz na nossa rua, temos ainda, ou voltámos a ter, meninos que comem luz. Não imaginávamos que ainda fosse possível, alguns de nós ainda duvidam que o seja, ainda se negam a ver o óbvio, que não estamos em guerra, mas que estão em guerra connosco. Temos filhos e sobrinhos e pais e amigos e novos e velhos a perguntar que tempo é este, que farsa é esta, em que a milenar escravatura da dívida nos é apresentada como novidade salvadora e redentora, que pelo nosso sacrifício vai enriquecer mais e mais os nossos carrascos. Um mecanismo de saque generalizado que se serve da política que deveria ser nossa para nos submeter a lógicas exploradoras que matámos uma e outra vez ao longo dos séculos, mas que sempre se regeneraram às costas da nossa indiferença, da nossa alienação, do nosso medo. Dos nossos medos.

Saio à rua mais uma vez no dia 2 de Março. Porque me orgulho de uma Constituição que me defende e portanto quero continuar a defendê-la. Porque não há política sem mim-cidadã, sem ti-cidadão. Porque só tenho medo de viver no medo e um dia descobrir que já não vivo, que só respiro, e a custo. Porque a água é minha e os ventos são meus e as escolas são minhas e a polícia é minha e os hospitais são meus, não me são dados, são feitos do meu esforço, do meu trabalho, da minha contribuição. E esta terra é minha e dos que a escolheram para ficar, habitar, construir, lutar. É minha como dos milhares que já se viram forçados a sair para poderem respirar melhor e que connosco sairão à rua também por todo o mundo onde há ecos deste chão. Saio à rua porque é a nossa vez de abater as quimeras do atraso, da injustiça social, do crime feito política, da política feita crime contra cada um de nós. Porque não sou cúmplice. Porque ombro a ombro, contigo quero começar em Março uma nova primavera. Uma nossa primavera.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Texto de Iolanda Batista

Lembro-me bem do dia que marcou o fim da ditadura em Portugal.
No dia 25 de Abril de 1974 era eu uma criança. Recordo que à data foi uma alegria não haver aulas, fecharam a escola e mandaram-nos para casa. Soube depois que se estava a fazer uma revolução. Como era miúda, não tinha a menor ideia da importância do momento, apenas escutava as conversas dos adultos e via as imagens das notícias que eram difundidas pela televisão.
Para mim, o que marcou o início dessa nova era foi ver «derrubarem muros», o que num sentido literal significou o derrube do muro da escola que eu frequentava e que dividia o recreio onde rapazes e raparigas não se podiam misturar. Muro esse que não teria mais que 60 centímetros de altura, mas nos impedia, às meninas, partilhar o mesmo espaço físico com os rapazes. Depois desse dia o nosso recreio passou a ter o dobro do tamanho e foi-nos permitido usufruir de um espaço que era de todos, sem limitações nem diferença de género. Foi deste modo infantil e ingénuo que senti que algo estava a mudar, que as regras eram outras.
Começava então um novo ciclo na História de Portugal com a implementação de um estado livre e democrático.

Para os que não viveram esta época e nasceram após a Revolução dos Cravos, o que acabo de descrever poderá ser pouco ou nada significante. Contudo, é bom lembrar que se hoje temos liberdade de expressão e de mobilidade, se vivemos em condições sociais semelhantes às de outros povos europeus, foi porque alguns homens e mulheres, há quase 39 anos, tiveram a coragem e a ousadia de lutar contra o sistema político vigente, ditador e fascista.

Cresci e foi com as Artes do Espectáculo que me identifiquei. Esta tem sido a minha área de trabalho, na qual me formei e profissionalizei há mais de vinte anos. Viver da minha profissão em Portugal é um verdadeiro desafio, senão um acto de coragem, que só aguenta quem realmente ama o que faz e é suficientemente louco e persistente para suportar as dificuldades inerentes a esta escolha.
Pertenço a uma classe profissional socialmente desprotegida. Nunca tive direito a protecção na doença, nem subsídios de férias ou de Natal. Sou uma trabalhadora precária, a recibos verdes, uma malabarista da vida. Uma trabalhadora intermitente, mas valente, porque não baixo os braços e me desdobro para poder sobreviver. Sim, sobreviver. Porque neste país, e agora com esta classe política, pouco mais nos é permitido.
É nesta qualidade de alguém que se diz lutadora, apartidária, que não aceita ver o seu país a definhar e que com tristeza se apercebe de como diariamente atentam contra a obra e os direitos construídos e conseguidos ao longo destas quase quatro décadas de democracia, que no dia 2 de Março vou estar presente na manifestação Que se Lixe a Troika, O Povo é Quem Mais Ordena.

Gostaria que fossemos muitos e que juntos pudéssemos lutar contra estas políticas que estão a matar o nosso país e as vidas da nossa gente. Não podemos permitir que a luta daqueles que nos legaram a democracia seja esquecida. Por eles, por nós, levantemos as vozes para gritarmos «Basta»!

Texto de Tiago Mota Saraiva

Do julgamento do BPN, submarinos ou Freeport, o povo foi sempre o único condenado. Pensar que ficam por aqui é tão ingénuo quanto pensar que Franquelim Alves é apenas incompetente, não se tendo apercebido do carnaval bancário quando foi administrador da SLN. Mas, tal como não serão os banqueiros a decidir o que o povo aguenta, não serão os seus representantes que nos defenderão da sua gula.
As crises são o mais fiel instrumento de liquidação dos direitos dos povos. Urge demonstrar a decadência do sistema, denunciando as suas diferentes declinações genéticas, como a corrupção, o compadrio, a repressão ou a justiça de classe. Urge denunciar os sucessivos ataques à democracia, aos direitos dos trabalhadores, à Constituição e à soberania. Urge combater a venda dos bens naturais e públicos que a todos pertencem e que nenhum governo tem o direito de privatizar.
A política não se esgota de quatro em quatro anos colocando um voto numa urna. Faz-se todos os dias.
Com o aumentar da miséria e da violência, o seu território principal é a rua. Quanto mais tarde tomarmos as ruas para fazer esta batalha, mais difícil será o nosso futuro.
É preciso unir esforços. Multiplicar activistas, reforçar as ligações, construir pontes e aumentar a militância combativa para fazer frente a todos os ataques. Juntar cidadãos, movimentos e partidos que não acreditam que nos devamos restringir a pregar por uma exploração mais fofinha. Juntar quem se opõe às políticas da troika e todos os que se declaram intransigentes na defesa da liberdade, igualdade e democracia. Juntar quem está disponível para o choque e para o confronto. Juntar para lutar, resistir e construir uma democracia plena.
Tomemos as ruas. Rompamos o silêncio.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Texto de Margarida Vale de Gato, Jaime Rocha e José Mário Silva


Sobressalto

Desinclinadas as vozes

um peixe agoniza
no duro asfalto, é um país pequeno,
está virado para as casas e esquece
que tem uma sombra para o mar. Treme-se na rua

e há pessoas a quem acontece
querer terminar a sede do espaço na boca
e do pouco ar disponível
a um coro comum.
Onde se quer, que se torne, ao interior,
à inquieta vaga na orla,
à criança antes da manhã onde faz
ainda escuro, se atenda ao múrmuro peixe,
desmanchado mas aberto arranje-
-se Portugal futuro.


(Este poema iniciou-se num exercício em torno de «O Portugal Futuro» de Ruy Belo, com Jaime Rocha e José Mário Silva, no dia da manifestação de 15 de Setembro de 2012, e foi entretanto continuado)



Texto de Miguel Cardina

Ao contrário do que ouvimos dizer tantas vezes, acho que «isto vai lá com manifestações». Basta olharmos para o passado: quantas afrontas ao poder dominante foram precisas para que se vivesse num lugar menos injusto? Quantas palavras de ordem foram gritadas até que o direito à greve ou a um horário de trabalho menos penoso se pudesse tornar realidade? Quantos gestos de coragem foram necessários para que os escravos e as mulheres pudessem ser gente, para que povos pudessem ter direito à autodeterminação, para que caíssem ditadores e ditaduras?

Façamos um outro exercício: o que diremos a quem nos perguntar, num futuro qualquer, o que fizemos quando se cortava como nunca o rendimento de quem trabalha ou trabalhou uma vida? O que fizemos quando se preparava a privatização da saúde e se encolhia a escola pública? O que dissemos quando banqueiros que enriqueciam à conta do Estado e de todos nós nos mandavam aguentar à imagem de um sem-abrigo? O que propusemos quando a narrativa sobre a necessidade de «honrar os compromissos» mantinha a dívida impagável e servia para dar cabo do estado social? Diremos que a melhor forma de intervenção política em 2013 consistia em ficar em casa?

«Ir um dia para a rua não chega», dirão os cépticos. Talvez não chegue. Talvez o governo não caia a seguir a esta manifestação e sejam necessárias outras. Mas o golpe que lhe desferirmos depende da nossa força na rua. «Sair à rua não basta», dirão os sisudos. Talvez não baste. Talvez seja necessário fazer cruzar e interagir o plano dos protestos ao plano das propostas. Mas é preciso ter bem claro, a este respeito, que as boas propostas só se materializarão se tiverem a suportá-las a força do protesto.

É este o segredo que será revelado a 2 de Março: o povo é quem mais ordena. Vítor Gaspar demonstrou-o de forma cristalina quando, na sequência da manifestação de 15 de Setembro, elogiou com cinismo o «melhor povo do mundo». Ele sabia que a rua faz qualquer governo tremer e que é sempre má política afrontar um rio de gente erguida. Sabia, no fundo, que isto pode ir lá com manifestações. E nisso tem razão.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Texto de Rui Borges

A 2 de Abril de 1976 era aprovada e decretada pela Assembleia Constituinte a Constituição da República Portuguesa.
Como dispositivo a ser utilizado em caso de emergência, como manual e palavra-passe para combater uma ameaça à persecução de um país mais justo, livre e fraterno por que lutamos, como salvo-conduto que a todos abra passagem, nesse dia, nessa primavera, ficou gravado na carta que nos rege enquanto comunidade, no seu Artigo 21.º, o direito de resistência:
«Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.»

Quase 37 anos passaram desde esse dia, quase 37 anos depois estamos perante um inimigo que se posicionou para submeter, à sua vontade, esta mesma carta, esta terra, esta gente e o seu bem comum.
Quase 37 anos depois, os pilares do edifício democracia, investida após investida, ameaçam ruir, sepultando sob os escombros a luta e a luz de gerações.
Quase 37 anos depois, quando um governo declara guerra a um povo, está assim legitimado o direito desse mesmo povo à resistência.

A força consagrada neste direito será a força da união deste povo, dos despojados do trabalho, das terras e dos mares, dos das vidas adiadas, dos que fazem as malas da partida, dos que, pela calada da noite, vão ao assalto do alimento da manhã seguinte, dos fardados e descamisados, dos operários e dos funcionários de um estado sitiado, dos bravos renegados disfuncionais de um estado que o não é, dos que calam, dos que rugem, dos que dormem, dos que, feridos de austeridade, resistem, dos que, perdendo o medo, recusam o inevitável.
Que nos chamem então vagabundos da utopia, porque é dos vagabundos o direito a contemplar a terra inteira, não meros espectadores, mas construtores deste tempo único, o tempo de tomar a paisagem, o tempo de, nesta Europa que se esvai, mostrarmos que estamos vivos, que há outro caminho e que estamos dispostos a percorrê-lo. Duro, de obstáculos feito, a rasgar, mas esse outro caminho É. Porque este povo É quem mais ordena.

Eu, pai, filho e neto, amigo, colega, vizinho, sonhador, cidadão, resistente, lá estarei, um afluente que se une a afluentes para, juntos, gerarmos o mar.

Texto de Fernando Mora Ramos


Pelo fim da ditadura da dívida, um 2 de Março gigante

O 15 de Setembro prometia, e penso que promete, como manifestação, em dois sentidos: como expressão de um desejo maioritário de mudança no país e como ocupação algo espontânea (sem tutela ordeira nem decibéis descontrolados de palavra única) do espaço público, sempre sujeito a regras funcionais sistémicas, isto é, como modo de escrever na cidade, com os corpos, uma outra possibilidade de sociedade, outra vida, a tal vida que queremos e que não é apenas aquela vida que já foi melhor e que tivemos.

As manifestações são relevantes por isso, porque são essa outra vida no tempo em que acontecem e são propulsoras dessa possibilidade alternativa de sociedade. E uma forma combativa de afirmar alternativa, alternativas. Há uma harmonia na diversidade ampla dos propósitos, que expressa sem ceder ao modo como o mercado compartimenta as pessoas, supostamente de acordo com as suas preferências «identitárias» ou mesmo de outro tipo, insignificantes, muitas vezes apenas simulacro de qualquer coisa, o mercado que nos diz que personaliza as suas soluções, mas que não resolve nem a questão do desemprego, nem a crescente desigualdade entre ricos e pobres, muito menos o exercício generalizado de um poder cuja legitimidade é só aparente e que no fundo é corrupto, ligado à alta finança especuladora globalizada e às ditaduras e organizações criminosas. Não esqueçamos que a experiência neoliberal de referência é o Chile de Pinochet, que não foi criticamente condenado do lado económico, como resultado do golpe político, e que teve o FMI comprometido, como se sabe.

O que é comum, nesta manifestação do 2 de Março, sobrelevará os particularismos, e todos e cada um, no campo político, entenderão que a oposição comum a formas de autoritarismo e a formas existentes e já totalitárias de práticas sociais em instituições e fora delas são questões que nos unem para além das diferenças e que unem essas diferenças nessa riqueza de todos, que é um propósito de sociedade alternativa e verdadeiramente democrática.

O que me parece, entretanto, essencial e decisivo é que estas manifestações, e espero que o 2 de Março se agigante como o maior protesto de rua de sempre em Portugal, dêem lugar a formas organizadas de participação política, formas que não têm que cumprir o figurino partidário, mas que têm que ter sujeito e mecanismo organizativo em formação, não podem ser apenas pontuais e informais. Com a precariedade organizativa pode bem o poder instalado, as suas polícias e os seus serventuários em todas as frentes e instituições que dominam. Ao estado policial organizado não nos podemos opor pela via apenas da expressão pública do protesto na rua, ciclicamente, é necessário criar as condições de derrube da pandilha instalada, a quem nenhuma suposta legitimidade por via eleitoral resta. É necessário opor organização a organização, criar uma verdadeira capacidade de protesto e de criação de alternativa. O exercício da alternativa é mais que a expressão do desejo da alternativa. Olhemos o exemplo da Islândia e o modo como um pequeno povo, nem por isso perdendo a qualidade de ser referência, tomou em mãos as rédeas do seu próprio destino.

Texto de Belandina Vaz


QUE SE LIXE A TROIKA! O POVO É QUEM MAIS ORDENA!

Não falharam. Não correu mal. Simplesmente, mentiram sobre as causas, mentiram sobre o remédio, mentiram sobre os seus efeitos. No final de fevereiro, os responsáveis da troika vêm a Portugal para nos dizer que vamos no bom caminho. Eles sabem o que estão a fazer a Portugal.

A AVALIAÇÃO DA TROIKA É: MAIS DO MESMO E PIOR.

Atacar primeiro os indefesos, idosos e desempregados.
Tornar o trabalho mais barato e o trabalhador mais pobre.
Taxar até à ruína o trabalho, o comércio e as pequenas empresas.
Introduzir o racionamento nos hospitais.
Vandalizar escolas e universidades.
Convidar a arte ao silêncio e o povo à emigração.

A RIQUEZA ASSIM ROUBADA É ENTREGUE
Aos banqueiros podres que faliram os seus bancos.
Aos amigos que o estado trata como parceiros privados.
Aos bancos estrangeiros que nos destruíram a economia em troca de empréstimos.
Aos bancos nacionais intermediários desse negócio.
A todos os que passaram a pagar menos pelo trabalho dos outros.

TROIKA E GOVERNO, CONSIDEREM-SE AVALIADOS

O produto deste roubo não lhes pertence.
Sabemos que a ruína não nos salva.
Há alternativa, porque a destruição nunca é alternativa.
A alternativa chama-se liberdade, cultura, democracia, bem comum, saúde, educação.
Há alternativa.

O povo do 15 de Setembro, os que já se manifestaram e quem sai à rua pela primeira vez, diremos: estamos aqui!
Para uma aliança dos povos tomados como reféns pela especulação financeira, Grécia, Espanha, Itália, Irlanda, Portugal.
Para defender o que é nosso.

Multiplicaremos as iniciativas e as redes para a acção cidadã, contra a troika e as medidas ilegítimas contra o povo.
Dirigimo-nos a todas as pessoas e a todas as organizações, movimentos, partidos, associações, sindicatos, ONG.

E a 2 de março, quando a troika e o governo estiverem reunidos em Lisboa na «sétima avaliação» do memorando da troika, conspirando contra o estado social e as nossas vidas, vão ter de ouvir a nossa voz!


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Texto de Paula Cabeçadas


Que se lixe a Troika! Queremos as nossas vidas!

No próximo dia 2 de março vou estar, mais uma vez, na rua, tal como em 15 de setembro passado.
A crise social, económica e política que o país e a Europa estão a viver não se compadece com «paninhos quentes».
É absolutamente necessário que os cidadãos se libertem das grilhetas da política partidária tradicional, que levantem a voz e digam a tod@s @s polític@s que a vida existe para além do parlamento e das sedes dos partidos.
É absolutamente necessário que o governo e o Presidente da República compreendam que o mundo existe para além dos seus discursos incompreensíveis.
É absolutamente necessário que a «Europa» e a sua comissão percebam que os cidadãos são pessoas e não números.
É absolutamente necessário que tod@s percebam que não é possível prosseguir com um projeto político e económico que tem como único objetivo o empobrecimento da população, para que a banca possa continuar a acumular lucros, que os países mais pobres continuem esmagados pela ditadura do neoliberalismo.
É absolutamente necessário defender os valores do estado social: a escola pública, o direito a um serviço nacional de saúde universal, o direito à justiça.
É absolutamente essencial a exigência de uma democracia mais participativa.
É absolutamente essencial que o contrato do estado com os cidadãos seja cumprido.
É absolutamente essencial que os corruptos vão para a cadeia.
É absolutamente essencial uma ética democrática e republicana que trate os cidadãos como iguais sem descriminações.
É absolutamente essencial que digamos NÃO! Isto não pode continuar!

Texto de António Avelãs

Claro que vou estar no 2 de março: QUE SE LIXE A TROIKA! O POVO É QUEM MAIS ORDENA. Quero fazer parte daqueles que vão gritar, que não se resignam a que as suas vidas sejam imoladas aos luxuriosos interesses dos mercados financeiros, numa frustração que só a coragem impede de ser depressiva.

Sou professor. Tenho sobre os meus ombros o dever de formar cidadãos exigentes para consigo próprios, cidadãos que não cedam um milímetro na sua dignidade, uma dignidade que desague em espaços de solidariedade de combate. E o 2 de MARÇO vai ser mesmo isso: um amplo espaço de combate solidário, um encontro de desejos que têm uma ponte comum: a de não desistir de ser pessoa, a de não aceitar ser trucidado por um governo desumano para quem o desemprego, a fome, a ausência de qualquer futuro são apenas «danos colaterais», dados sem valor, desde que se cumpra o objetivo de tudo subordinar ao poder do lucro, dos agiotas, dos poderosos.

2 de MARÇO: O COMBATE DE QUEM NÃO DESISTE DE SI PRÓPRIO.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Texto de André Freire


Efeitos positivos da crise: o despertar da cidadania para a importância da política

Uma das poucas coisas positivas com a crise económica e financeira internacional, começada em 2008 nos EUA, é que muitas pessoas começaram a despertar para a importância da política e da cidadania. Isso é visível em manifestações, petições, abaixo-assinados, etc., sobretudo nas formas de mobilização que extravasam o controlo das organizações sociopolíticas tradicionais. E foi visível em manifestações como a de 12 de Março de 2011 ou a de 15 de Setembro de 2012, onde era possível encontrar gente de todas as idades e estratos sociais, bem como em iniciativas como as dos Indignados ou de vários grupos e tertúlias para o debate e a (in)formação políticas. Claro: nem tudo são rosas, seja porque será bom «não deitar o bebé fora com a água do banho» (as organizações sociopolíticas tradicionais são ainda os veículos centrais da representação política), seja porque falta muitas vezes capacidade propositiva a estas iniciativas mais inorgânicas, seja porque, por vezes, o criticismo anti-partidos e anti-classe política roça o populismo antidemocrático. Porém, globalmente, diria que o balanço geral é ainda bastante positivo.

Texto de Lúcia Gomes

Desta vez, mais uma que tomo as ruas, tomo-as por ti, pai.
Porque destruíram o SNS. Porque em nome da gestão e do lucro te recusaram tratamentos. Porque te tentaram prostrar e tu disseste sempre não. Mesmo sabendo que para eles és um «bem sem valor de mercado», impuseste a tua dignidade e a tua resistência. Não podes vir à manifestação, mas levo-te comigo.

Levo-te a ti também, irmã, doutorada, 12 anos de trabalho, sempre a recibo verde sem que soubesses o que é o direito ao subsídio de férias ou de natal, subsídio de desemprego, e porque a troika te obriga a procurar trabalho a milhares de quilómetros da tua família e te diz que aqui o teu conhecimento não tem lugar. E tu dizes que tem, e sais à rua comigo, unida, como os dedos da mão.

Levo-te a ti, meu pequeno ser. Minha irmã com 4 anos, para que saibas que o povo quando se junta é invencível. A maré de força, de luta, de convicção, de recusa firme às inevitabilidades e de resistência tudo move. E quero que vejas este povo lutar. E que saibas, querida irmã, o que é a liberdade de poderes manifestar-te e de poderes sonhar com o futuro e transformar o sonho em vida."

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Texto de Zé Pedro

Vivemos tempos difíceis, todos sabemos, e que continuam os abusos de poder também sabemos, que é uma injustiça diária o que vemos nas notícias, todos também sabemos. Por toda esta situação que tanto nos revolta, devemos gritar bem alto que BASTA, que JÁ CHEGA, que JÁ NÃO TOLERAMOS MAIS. Nestes tempos, como noutros, a nossa voz tem de ser ouvida.

Podemos pensar que não serve para nada, mas serve. Sou da opinião que eles estremecem de cada vez que saímos à rua, e eles não conseguem controlar ou atribuir a uma força política a reunião de tantas pessoas descontentes É a arma que temos, sair à rua e GRITAR JÁ CHEGA!

Texto de Helena Dias

Quando o mês de abril aqui chegou, encontrava-me eu a meio do curso, frequentando o sistema de ensino público: uma escola autoritária, acrítica e elitista, em que sempre me senti desajustada.

Quando o mês de maio começou, também eu acreditei que, enfim, tudo isso fazia parte de um sonho mau que já passara, e entre a reivindicação e a festa, foi nas ruas da minha cidade que soltei as inúmeras esperanças. No verão já colheríamos o pão, que tudo se passa à velocidade fácil do voluntarismo, quando se é jovem.

Mas com a minha filha mais velha já na escola, vi-me nos anos seguintes a sofrer as ziguezagueantes decisões de governos sucessivos, numa desorganização que às vezes tocava o intolerável. Tudo estava bem, no entanto, que o percurso era o que nos levaria, por fim, a uma escola nova.

A realidade é, porém,  mais lenta que os nossos sonhos. As mazelas de décadas tinham criado um sistema resistente à mudança,  que afinal nunca tinha sido socialmente justo, pese embora algumas boas vontades e tentativas mais ou menos sérias de o garantir. Esta foi a razão que me levou, enquanto o meu filho frequentou as escolas básica e secundária, a envolver-me no movimento associativo dos pais e mães, em que me mantive até à sua entrada na universidade.

Todo este tempo, em tudo o que participei com outros companheiros e companheiras, em todas as ações que organizámos, discussões e reflexões que promovemos, era essa a preocupação que nos movia: construir uma escola pública inclusiva e de qualidade, com os meios adequados e diferenciados, que garantissem  as respostas certas a todos em geral e a cada um em particular. Nunca nos questionámos se valia a pena tanto crer. Sabíamos que o valia.


Chegou agora a vez de os meus netos entrarem para a escola e eu descubro todos os dias, tristemente, que nada do que tínhamos dado como adquirido o era. E embora às vezes me seja até difícil entender esta realidade deslizante, a grande velocidade, para um buraco negro que julgava arrumado no passado, vejo infelizmente como o sistema de ensino cada vez mais se parece com o que eu frequentei há décadas!

A falta de meios provoca, por cortes sucessivos,  ruturas no funcionamento das escolas; os professores, com um número de alunos ingerível,  tornaram-se desmotivados e tristes, vivendo um desespero quotidiano; os assistentes operacionais não conseguem cumprir, pelas mesmas razões, as tarefas de que os incumbem; os alunos e as suas famílias, no meio de preocupações da vida que se tornou muito mais difícil,  são ameaçados com uma gratuitidade a prazo, apesar de todas as garantias constitucionais.


Não posso pactuar com esta situação. Ficando calada e quieta, como  mais uma vez nos querem, estarei a ser cúmplice deste retrocesso civilizacional. Não ficarei! Nem calada, nem quieta.


No dia 2 de março, com estas razões e todas as outras que cada um de nós transporta, acredito que  encheremos, uma vez mais, todas as ruas da cidade, gritando a nossa revolta!

Texto de Raquel Varela

As manifestações são historicamente formas de «votar com os pés». Esta particularmente surge num momento em que a dívida pública se tornou um garrote sobre a vida de quem trabalha. Apoio-a pela suspensão do pagamento da dívida, que é uma renda privada, e a reboque da qual se está a destruir o Estado Social.

Texto de Vicente Alves do Ó

Saímos à rua para não dar em loucos. 

Saímos à rua para perceber se mais gente pensa como nós, se tudo aquilo que andamos a ler na imprensa, a ver na televisão, a ouvir nos cafés não é simplesmente uma fantasia triste e desapegada que a nossa cabeça inventou. 

Saímos à rua para acreditar ainda que podemos mudar as coisas, que a nossa vontade com a vontade dos outros faz sentido e que a vida nãoserá apenas uma soma de derrotas ou ilusões perdidas. 

Não vale a pena fazer de conta. Já não há dinheiro, nem tempo, nem ideias ou desculpas para fazer de conta. Há quem o faça, como se a vida de todos os dias pudesse esconder o inevitável. Como se a vida fosse programável tal e qual um comando da televisão: quando alguma coisa não nos agrada, mudamos de canal. Mas infelizmente ou felizmente, não podemos mudar de vida, ou pelo menos, se amamos o país em que vivemos e é aqui que queremos continuar a viver, não podemos mudar de vida. 

Podemos mudar a forma como pensamos, a forma como agimos, podemos estar onde estão os outros que pensam como nós e não estão loucos como pensamos que estamos. A solidão nas cidades é a maior inimiga do colectivo, da ideia de comunidade. Andamos fechados em agendas, compras, horários e esquecemo-nos da força que somos e da força que temos. O egoísmo e o consumismo, o prazer do dinheiro pelo prazer do dinheiro alteraram por completo os nossos comportamentos, os nossos princípios e as nossas condutas. Convenceram-nos de que o sucesso e a felicidade são uma mão cheia de coisas. Somos feitos de coisas: casas, carros, roupa, gadgets, restaurantes e ilhas paradisíacas onde nos dizem que podemos descansar e aproveitar a vida. Mas há uma vida na cidade e no país que precisa de nós: a vida de todos. E todos, apenas todos, podemos dizer que não estamos loucos, que não estamos ausentes, nem deslumbrados, nem fomos ainda comprados por tudo aquilo que nos dizem que devemos.

Devemos isto e aquilo, entre dívidas e deveres. Apenas isso. Uma espécie de aposta diabólica, troca por troca: dão-nos as coisas que nos convenceram a ter e em troca somos aquilo que eles precisam que sejamos. 

Eles. O fosso aumentou e estigmatizou-nos. A nós. Como se não pudéssemos ser mais nada senão o que somos e eles pudessem ser tudo porque são quem são. E quem são eles, senão uma parte nossa? E quem são eles, senão uma vontade nossa? É nisso que temos que acreditar duma vez por todas e é isso que lhes temos que dizer duma vez por todas. 

Saímos à rua porque a política somos nós.