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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Texto de Rui Zink

1
Acredito no poder do diálogo. Por isso vou à manifestação de 2 de Março.

2
Sou ou tento ser uma pessoa de diálogo. Acredito que o diálogo é a melhor das formas de confrontar pontos de vista sobre o bem colectivo. Que país queremos? Quais as prioridades? Como calibrar liberdade e responsabilidade? Onde investir? Que aspectos do Estado são essenciais e acessórios? São questões destas que interessam ao cidadão que sou — que tento ser. Sou dos que acreditam que «o poder não deve cair na rua». Mas os corredores do palácio também não me parecem melhor sítio para o poder cair. E nem se trata de cair ou fazer-cair, trata-se de construir: uma manifestação pode ser uma bela forma de construir. As manifestações de que gosto são tanto protesto como prova de vida. Ou seja, prova de esperança. Há neste momento uma discussão acesa (bem melhor que um monólogo apagado) acerca das prioridades para esse bem colectivo chamado Portugal. E dando de barato que no governo eleito — apesar de com outro programa — haverá tendências e pessoas que desejam de facto o bem comum, uma manifestação pública é a forma de outras tantas pessoas defenderem que há outras vias, quiçá mais eficientes, de atingir esse objectivo. Ninguém pode falar em nome de todos: mas se isto é verdade para quem vai à manifestação, mais verdade ainda é para quem (a meio do mandato) se divorcia até mesmo dos seus próprios eleitores. Não sei quantas vozes eu represento ao ir à manifestação, mas sei que tenho menos voz se não for.
Desta manifestação vai sair alguma coisa? Boa pergunta. Posso dizer uma coisa: quando nos manifestamos há a remota possibilidade de a nossa voz se fazer ouvir. De a outra parte saber que não detém o monopólio da razão, ainda que reclame para si o monopólio da força. E, a menos que a telepatia já tenha sido inventada, caladinhos é que não vamos a lado nenhum.
Ainda assim, é certo que, neste Portugal acinzentado «cada um sabe de si». Ora eu, pelo menos, sinto-me mais cidadão quando dou a voz ao manifesto, e uma vez por outra gosto de ter gente ao meu lado.

Texto de Ricardo Morte

Tenho pensado muito nisto. No tempo que vivemos. Sei que este é o tempo. Este é o nosso tempo. Tempo de assumir o combate, tempo da audácia, tempo de olhar para o lado e ver sempre mais um de nós, mais um que enfrenta esta engrenagem cínica com que nos procuram triturar e fazer desistir.
Desistir. Adormecemos e acordamos a pensar porque é que somos poucos nas ruas. Porquê? Não se justificaria outro tipo de resposta? Outra forma de estar? Talvez… Mas se o verbo é desistir, nós dizemos insistir. Se o verbo é abandonar, nós dizemos lutar. Dizemos persistir, abraçar, dizemos caminhar, lado a lado, ombro a ombro. Quantos seremos? Verdadeiramente não importa. Sim, são assim os homens e mulheres de esquerda.
Mas o medo. O medo. O medo é cancro… o medo germina… ganha raízes… medo que se espalha, que tudo contamina. Medo do futuro. Medo de não conseguir viver. Medo de não conseguirmos sustentar os nossos filhos. Medo de falhar a vida… deixá-la passar por nós. E ela corre. Corre rápido. Amanhã é tarde. Perder. Medo de lutar. Medo de dar a cara. O medo tira-nos das ruas. Medo de ficar sozinho na luta. Quantos seremos?
Coragem. A única coragem que nos pedem hoje é a coragem cínica de passarmos por cima do nosso vizinho e concorrente por aquele lugar, aquele trabalho, aquele ordenado… como vamos derrotar o medo? Onde vamos arranjar coragem para sermos dois? Bastam dois.
Voto. Votaste neles. Acontece. O embrulho seduz. A resposta está lá sempre, infalível, certa como a falácia. Não tenhas medo de o assumir! Não tenhas medo de o assumir! Mas hoje não tenhas medo de gritar bem alto que eles não te enganam de novo. Acabou. Nunca mais. Eles todos. Eles, os mesmos de sempre transmutados nesta safra imbecil de neoliberais penteados de risco ao lado que neste momento nos governam… No dia em que lhes virares as costas… em que fores milhões… eles vão olhar para ti.
Convocam-se. Convocam-se os «ajustados», os desesperados, os «consolidados». É urgente um novo sentido na vida. Resistência. Os «remodelados», os «emprateleirados», os que não têm comida para dar aos filhos. Os que não têm dinheiro para remédios, ou que aviam as receitas parcialmente… à medida da miséria em que vivem. Tantas palavras novas que entraram nas nossas vidas… palavras como a fome.
Perguntar. Tempo de perguntar. Qual é o vosso limite? Quantos mais desempregados serão precisos? Qual é o limite? Um milhão e quatrocentos mil não chegam? Quantos mais suicídios? Quantas mais empresas destruídas? Quantas mais vidas destruídas? Quantas mais depressões? Quantas mais crianças às quais é negada uma infância? Quantas? Quantas mais pessoas desesperadas, pessoas sujeitas a um recolher obrigatório cínico, que não existe formalmente, mas existe de facto, pois as pessoas não podem sair de casa, porque não têm dinheiro para sair de casa?
Nossos. Eles não são dos nossos. Em cada simples escolha, eles optarão sempre pela defesa dos interesses dos seus, do seu grupo, da sua casta. Quer seja banca, quer sejam grandes empresas, quer seja nas privatizações desenfreadas, na venda dos anéis e de parte dos dedos. Eles não são os nossos. Não são como nós. Não sofrem como nós. São uma casta à parte. Não bebem a vida da mesma forma que nós. São de plástico. São canalhas.
Limite. Quando vamos atingir o limite? Quando iremos ver o milhão de desempregados nas ruas? Quando iremos ver os desalojados de punho erguido? Os precários? Os que sentem que brevemente estarão sem tecto? Os pais e mães, hoje sós, de todos os jovens que tiveram que emigrar, pois Abril não se cumpriu para eles? Onde estão aqueles aos quais é negada a saúde?
Estamos, como país, à beira da tragédia. Esperam que nos deixemos dominar com mansidão… serenidade. Até porque o povo é sereno, dizem...
Vamos ser cúmplices, ou vamos mudar isto? É que, como Victor Hugo um dia disse, «entre um governo que faz o mal e o povo que o consente, há certa cumplicidade vergonhosa». O tempo é hoje. O nosso tempo é agora! Dia 2 estou na rua.

Texto de Mariana Avelãs

«Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho.»

Quando a fúria descamba em mera apatia, tudo fica na mesma. A culpa é dos filhos da puta dos políticos? Ficar em casa a apontar o dedinho é política em estado puro: a política de quem deixa acontecer. Se o que não te chega para o pão é migalha em fortunas de aldrabões que sustentas, se foste aos mercados mas continuas sem emprego, se já estás de malinha feita à laia de pontapé no cu, só tens duas hipóteses: agir em linha com as previsões do governo, nas fileiras do silêncio cúmplice ou… mandar a apatia à merda e sair à rua a 2 de Março. Já deu para perceber que sacrifícios só geram mais sacrifícios, não? Este círculo vicioso sobrevive à custa daqueles que confundem moral com o próprio cu (Eugénio dixit), e ficam em casa a dizer que as manifs não mudam nada. Filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos, não é?

Psssiu! O respeitinho é muito bonito. Pois é. E que respeito vais ter por ti se ficares em casa a 2 de Março?

Texto de Pedro Barroso


Santos Silva quer que «alguém envie para Belém» a canção Acordai.

...seja pela inconveniência, pela quebra de protocolo, seja até pela própria desafinação motivada pelos nervos dos contestantes, a Grândola tem sido de novo emblema e de novo musicalmente estropiada, por grupos de bem intencionadas pessoas, que com isso pretendem preparar o advento de uma-qualquer-coisa-que-não-sabemos mas vai ter que surgir. E vai acontecer, estamos certos.
Habituado a mandar por decreto, agora o sempre-ex-ministro-de-alguma-coisa dá recados urbi et orbi... e ordena-nos, muito revolucionário, que alguém o faça.
...pois bem. Na minha qualidade de músico veterano sugiro que ele próprio o faça. Que vá ele; e cante. Mal, mas cante.
Só que a vida está tão difícil aqui para este lado, com tanta falta de contratos decentes, que eu prontifico-me, mediante uma verba a combinar - de acordo com as suas modestas posses de profissional da política há 40 anos - a dar-lhe umas breves noções de colocação de voz e solfejo, pois a partitura do meu conterrâneo Graça é, como sempre, exigente. E o provecto presidente - coitado, provavelmente já falecido ou retirado, não sabemos... - pelo menos acordaria sem gritarias e desafinações desordenadas.
Mas se, com isto, V.ª Ex.ª julga que nós já esquecemos o autismo socrático com que fomos derrubados, pela triste realidade de os cofres estarem rapados e não haver taco nem para pagar à PSP, nós não esquecemos.
Vocês foram os distribuidores do vírus. Vocês puseram o país no chão. Pior. A pedir; no último degrau da esquina da Europa e de chapéu roto na mão. Um país com mil anos de História, viagens, cultura e pergaminhos!...
Vocês venderam Portugal.
Estes sujeitos de hoje - que muito justamente insultamos - são o braço violento da «esmoler» Europa financeira. Os troncos da cobrança. Odiamo-los. MUITO. Roubam-nos todos os dias.
Mas essa condição e essa dependência começou e foi imposta com o vosso descalabro, o vosso corporativismo a vossa complacência.
Constâncio não sabia o que estava a acontecer? Todo o país sabia e o Banco de Portugal não?! Claro que sabia, mas quem viesse atrás que fechasse a porta.
O nojo que me dão é o mesmo.
Portanto o Acordai deve ser cantado no PAÍS todo, de alto a baixo.
Quantos Jardins, quantos Loureiros serão ainda necessários para que isto rebente e o país finalmente aprenda todos os velhos cantos das novas lutas, e a gente acorde finalmente por nós próprios, sem que ninguém nos mande?
Quem precisa de acordar é o povo. Esse é que anda adormecido.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Texto de Rui Dinis

Vou sair à rua e irei contigo, com quem sempre tenho ido, mesmo que não vá mais ninguém.
Contigo também que, da última vez, sem saberes bem o que te empurrava porta fora, sem saberes bem que besta é esta, que nome lhe dar, essa mesmo que te vem sugando a vida, palmando a vontade, matando o desejo, comendo o pão e agora até a água te cobiça, foste à rua para te juntares. Para saberes afinal como é essa coisa de nos juntarmos a outras mulheres e a outros homens. Para saberes se o teu grito pode ou não ser o grito de outros.
Sairei à rua. Sairemos à rua.
Nos primeiros instantes seremos poucos. O Marquês será ainda rotunda quando olharmos os primeiros rostos. Meia dúzia de pessoas, ali de volta dum cartaz que estão a pintar, acenam a um carro que apitou enquanto gritam o que escreveram: «JAMAIS SEREMOS VENCIDOS!» Em volta não param de chegar. Vêm em grupos de dois, de três, muitos pela primeira vez como tu vieste também: sós. Uns com mochila às costas. Outros com os filhos. Tiveram de cortar o trânsito e agora ocupas a estrada, tu e as centenas que já não consegues contar. Já não cabemos nos passeios, grita alguém que não vês. Queres dar uma volta e subir a um banco ou a um poste, mas agora já não interessa, porque são muitos e vêm de todos os lados, porque ficas com medo de perder o grupo. «JAMAIS SEREMOS VENCIDOS». Mas entretanto vês outros com um cartaz a dizer «O POVO É QUEM MAIS ORDENA» e de novo perdes o medo. Por todo o lado há pontos de exclamação e desistes da investida, porque já não queres saber quantos são, contar às vezes é estúpido, pensas agora que os rostos estão mais perto, quase colados.
É Março, mas a luz faz lembrar a de Setembro, naquele dia, lembras-te? Sim, eu sei que escolheste ficar em casa nesse dia e ficaste a pensar «por que diabo é que não fui», mas não faz mal, porque eu sabia e foi como se lá estivesses estado e o ar estava febril antes de arrancarmos e depois éramos tantos que ninguém mais parecia saber onde tudo tinha começado. Então percebes que estás em Março, que afinal não sentes medo nenhum e que aquelas pessoas estão ali, porque só podem querer as coisas que tu queres e que portanto algum sentimento de justiça as move a elas também. E claro, claro que sim, é evidente agora o que logo nos primeiros instantes tinhas avistado nas expressões de todos os rostos com que te foste cruzando e te parecera, à chegada ao Marquês, novo e inesperado: os homens e mulheres desta terra conhecem a justiça e hão-de fazer ouvir a suas vozes. Desta terra que a cada um de nós pertence e que agora, a pretexto dum mercado onde nunca entraste, onde não tens banca, não podes vender nem comprar e muito menos discutir os preços, é queimada. Queimam esta terra como se fosse a terra deles, queimam a terra e dizem que é assim, que tem de ser, que é para o teu bem e para o bem do teu pai e da reforma que ele não vai ter, porque lha vão tirar antes de ele lá chegar e que há é que agradecer porque lá se vai mantendo o emprego, mas tu vês os outros à tua volta e vês a tua irmã mais velha que queria tanto ter um filho, mas aguarda colocação talvez para o ano.

E porque hoje, 2 de Março, tanto nos faz o dia, tanto nos faz a cidade, porque somos todos do Porto e de Évora e também de Lisboa e de Grândola e somos de Fortaleza e de Londres e de Rabat e Boston e somos muitos, quase todos. Agora que erguemos a cabeça e vemos a dignidade na cara de cada um (essa que parecia termos esquecido), agora que deixámos todas as máscaras em casa e parece assim que podemos ter esperança, porque eu vejo, eu juro que vejo que juntos somos uma força enorme e que não tenho de ter medo. Quando chegar a casa será tarde e estarei muito cansado, mas ainda vou ligar a televisão e verei, verei que lá também estiveram na rua, em todas as cidades, noutros países, nem vou acreditar no que vejo, mas saberei, porque também lá estive e vi. Vou ver as imagens na televisão e surpreender-me-ei por serem insuficientes as imagens para contar como tinha sido, e agora eu sei, eu sei que jamais seremos vencidos. Sei , porque lá estive, que JAMAIS SEREMOS VENCIDOS!

Depois a televisão será desligada. No outro dia sairemos de novo. Iremos de novo para a fábrica, para a escola, rumaremos ao centro de emprego, ao escritório. Conduziremos de novo os táxis e os autocarros e os comboios. Sentar-nos-emos em bancos de jardim, no bar do hospital. Iremos a consultas e a reuniões que já estavam marcadas, mas nunca mais adiaremos, um dia que seja, a saída para a rua. Porque agora já sabes e voltarás as vezes que forem precisas. Porque agora já sabes e viste com os teus próprios olhos que «dentro de ti ó cidade, O POVO É QUEM MAIS ORDENA!»

Texto de Jorge Silva Melo

Não podemos deixar que nos matem, nos roubem esta felicidade de estarmos vivos e juntos, não podemos adiar a nossa vida, não queremos esta vida assim, queremos apenas ser amigos uns dos outros — e livremente pensarmos e livremente viver. É difícil. Mas queremos, e assim faremos tudo para deitar abaixo quem nos impede a vida e essa coisa a que chamamos amor.

Texto de Nuno Bio

Na televisão, depois do rol de novas medidas de austeridade, o Ministro das Equivalências recebe a sua enésima vaia, um senhor pensador resume a máxima do governo, «isto é privado, não há direitos!», enquanto expulsa os resistentes cantores.
A nossa inacção colectiva levou-nos ao estado a que isto chegou. Embriagados pelas acções de marketing político, fomos levados a acreditar que o estado gere mal, que os mercados são sábios, que o privatizado é que é bom e com vantagens e que o capitalismo é um paraíso na terra.
A nossa ignara parvoíce levou-nos a eleger representantes numa democracia de fachada que nos retira os valores e os direitos que são pilares da sociedade. Igualdade, Fraternidade e Liberdade são letra morta, apenas palavras bonitas. As promessas eleitorais são prontamente esquecidas e não cumpridas e as acções tomadas são o rigoroso oposto do prometido.
Conseguimos eleger duas vezes para presidente da república o primeiro-ministro que destruiu o nosso tecido produtivo na década de 90. Elegemos, numa estupidificadora alternância, os partidos plutocratas da mesmíssima política, a que nos deixa mais longe de uma comunidade avançada.

Fomos perdendo, um atrás de outro, os direitos que nos conduziam a uma sociedade mais igualitária e justa. A uma sociedade sustentável. Foi tão rápida a sua derrota, foi tão célere a destruição do pouco que tinha sido conquistado. Conquistado com luta, com greves, com manifestações, com sangue. Fomos precarizando a vida e deixando de ter futuro.

Parámos de pensar, deixámos de reflectir nas soluções alternativas que existem para alterar o estado de coisas. Aceitámos o inevitável e ignorámos quem nos dizia que era inviável. Quando o inevitável se torna evidentemente inviável, a nossa resposta de pânico é ameaçarmos voltar ao alterne costumeiro. A actual situação é fruto, em parte, do nosso alheamento e das nossa más decisões colectivas.

Chegámos a um impasse e os impasses são historicamente períodos curtos.

Dois caminhos se colocam à nossa frente: ou a resistência activa contra quem nos quer destruir consegue alterar este sistema caduco, ou a austeridade de ideias e políticas vai triunfar, apoiada no autoritarismo repressivo que já começou a mostrar as garras.

Temos que estar presentes nesta verdadeira luta e escolher se pretendemos ser marionetas dos famigerados mercados, se queremos ter vergonha de olhar a próxima geração nos olhos, ou se, pelo contrário, queremos poder controlar e gerir a nossa própria vida, construindo uma sociedade diferente: verdadeiramente democrática, participativa e representativa da sociedade.
Os nossos pais construíram Abril e os nossos filhos exigem-no, não os podemos desapontar. Temos de tomar a nossa felicidade e o nosso futuro de novo nas nossas mãos.

Se o povo é quem mais ordena, temos que sair à rua dia 2 Março e sempre que for necessário.
Este governo tem que ser demitido a bem ou a mal. Se este governo só sair à força, arranjemos a forma de o fazer. Temos que garantir que as troikas internacionais e o triunvirato de partidos nacionais deixam de servir os seus interesses, escravizando-nos pelo caminho, e que largam o poder.

Se o povo é quem mais ordena, que demonstremos no dia 2 Março e sempre que o possamos fazer, e pelos meios que consideremos mais correctos e eficazes: noutras manifestações, em paralisações, em greves, nas vaias e nos apupos, a cantar, a dançar, a desenhar, nas estruturas em que participamos, nas eleições, nas ruas, no trabalho, em casa...
Sempre que houver uma oportunidade devemos resistir activamente. Se nos matam uma sociedade, se nos destroem a comunidade, se tudo vale para nos escravizar, não temos direito de contra-atacar. Temos o dever.

Que seja refodam as Troikas!

Texto de Rita Veloso


Quousque Tandem Abutere Patientia Nostra?

Quando eu era criança, o meu pai vivia num forte que parecia um castelo.
E isso era normal — normal, quer dizer, era extraordinário! Mais ninguém tinha o pai a viver num castelo, rodeado de mar!
Era normal apanhar o comboio ou a camionete, de madrugada, aos fins de semana, para ir ao castelo visitar o meu pai. Ele enchia-me de prendas (que afinal era a minha mãe que levava), fazia-me desenhos, emoldurava os que eu fazia para ele e eu gostava. Era normal falar com ele através de um vidro com uma rede de metal e só raramente conquistar um colo, amansando com os meus lindos olhos de azul inocente o agente que vigiava a entrada do parlatório.
O meu pai era um preso político, o que queria dizer que não tinha sido preso por roubar bancos ou carros. Quando mais tarde prenderam um primo meu não percebi o alvoroço familiar: estar preso era normal.

Um dia houve uma revolução e eu percebi que afinal normal era as pessoas não estarem presas e os colos serem um direito.
A liberdade tornou-se normal e isso queria dizer que já podia cantar em todo o lado aquilo que dantes só podia cantar em surdina ou em casa. Já não era preciso baixar a voz quando chegava à parte do «ou vai-te embora, pulga fascista». Nessa altura, toda a gente saía à rua para participar na liberdade; reuniam, planeavam, decidiam, envolvendo-se naquilo que dantes era normal ser decidido por outros.
Passou a ser normal a política ser feita por todos, que todos tivessem os mesmos direitos e que a riqueza de um país fosse usufruída em igualdade; bastava ser-se humano, já não era preciso pertencer a elites. Fez-se uma constituição para garantir que seria assim.
Para nós, crianças, isso significava que o mundo deixaria de ter dois lados, um com «prédios bem altos e mais jardins floridos muita luz e muitas cores», outro com «barracas escuras feitas nem sabe de quê e miúdos a chorar e onde os brinquedos são pedras e a lama são os jardins», como o Zé Pimpão mostrou à Maria-dos-olhos-grandes. Só podia ser normal querer que houvesse apenas um lado do mundo, «com todos do mesmo lado», e que, se não houvesse jardins para todos, se dividissem os canteiros e, se os canteiros não chegassem, uma flor para cada um e, se as flores fossem poucas, haveria pétalas, enfim, cheiro, mas todos teriam igual. Fomos pelo sonho e o mundo tornou-se a nossa casa.

Depois vieram as eleições e afinal não era normal que todos quisessem partilhar as flores ou as enxadas. Não fazia mal, mais tarde ou mais cedo haveriam de perceber que a Maria-dos-olhos-grandes tinha razão.
Mas não. Pouco a pouco, começaram a convencer-nos de que a política se fazia apenas por quem percebia do assunto e o assunto era muito complicado. E as pessoas confiaram. Confiaram que podiam viver as suas vidas e que os partidos em que votavam se encarregavam da política. Para muitos, a política tornou-se uma chatice. A esquerda voltou a ser o bicho papão, que só queria virar o país do avesso, com essas ideias radicais de dividir jardins, canteiros, flores, pétalas, enfim, cheiros, por todos os seres humanos. E o PS e o PSD, com ou sem CDS, passaram a revezar-se no trono, como os únicos partidos que garantiam que o país não se virava do avesso e que quem tinha jardins os podia guardar só para si. E muitos deixaram de votar. Para quê, se já se sabe que eles só se interessam em ajudar os amiguinhos? Para quê, se nada muda?

Mas aos poucos muito ia mudando. De revisão constitucional em revisão constitucional, de lei em lei, de governo em governo, fomos perdendo direitos e ganhando obrigações, fomos passando de senhores a vassalos. As contribuições que fazíamos para garantir que todos vivêssemos com qualidade, em igualdade de direitos, foram-se transformado em rendas a pagar pelo privilégio de existir e viver neste país.
Aos poucos, o Estado tinha sido privatizado e as eleições serviam apenas para definir os accionistas-governo que iriam assegurar a gestão nos quatro anos seguintes. E os accionistas começaram a especular na bolsa com a riqueza que devia ser nossa — que é nossa! E sentiram-se impunes. Aliaram-se aos comparsas internacionais mais poderosos e, avidamente, decidiram estrangular a galinha dos ovos de ouro. Sofregamente, quiseram transformar os vassalos em servos. Em pouco mais de um ano empobreceram milhares para aumentar as fortunas de dezenas, transformaram direitos em favores, a serem usados com parcimónia. Começaram a vender bens públicos aos amigos para pagar as dívidas que contraíam ao jogo nos mercados. Como garantia, os amigos exigiam que nos reduzissem ainda mais os direitos, que tivéssemos de pagar os favores — o favor de estudarmos, de termos assistência na saúde, o favor de existimos. Em coro, asseguram-nos que é tudo normal e que os protestos são coisa de arruaceiros.

A mudança foi tão brutal que um dia olhámos em volta e não reconhecemos o país. O normal tornara-se absurdo. E o absurdo entra-nos em casa diariamente. Há nababos com riquezas pessoais de milhares de milhões de euros enquanto famílias são desalojadas, crianças passam fome, milhares de jovens são obrigados a emigrar e muitos, novos e velhos, ficam sem assistência médica. Perdoam-se distracções na declaração ao fisco de milhões de euros em rendimentos e perseguem-se aqueles que não têm dinheiro para pagar descontos obrigatórios mas injustos, já que não têm vínculos laborais nem rendimentos estáveis para assegurar a própria sobrevivência. Condena-se quem rouba duas latas de comida para animais e enaltece-se quem enriquece, de forma corrupta, à conta do estado.
Nada do que vemos é normal, mas até quando iremos esperar passivamente que tudo se resolva? Quando iremos perceber que temos de resistir e combater o absurdo, saindo à rua e defendendo os nossos direitos?
O que leva um povo massacrado a dizer «basta!»?
Quanto mais tempo passar, mais dolorosa será a nossa luta: a mesa do comércio, ainda posta e já gasta, poderá acabar como jangada para evacuar fugitivos da fogueira incendiada pelos outrora cativos.

Queremos fazer a luta com cravos, mas não deixaremos de a fazer se os cravos não forem eficazes. Os nossos pais não tiveram medo e mostraram-nos que vale a pena.

No dia 2 de Março sairemos à rua gritando «basta!» e exigiremos que nos devolvam o nosso país. Nesse dia, levaremos cravos.

Texto de António Costa Santos

Dia 2 de Março, eu vou e é fácil explicar porquê. Quase que chegava dizer: «eu vou porque sim».
Vou porque tenho filhos e quero que possam continuar a estudar, a crescer, quero que tenham outra perspectiva de futuro que não seja pirarem-se daqui para fora. Vou porque quero um dia almoçar com os meus netos todas as semanas.
Vou porque tenho pais velhos e não quero que poupem no aquecimento, nos remédios e na comida para sobreviverem, não quero que sofram ainda por cima por não poder ajudar os novos e que acabem por morrer angustiados com o país que deixam aos filhos e aos netos.
Vou porque tenho vizinhos desempregados, que não vêm na estatística, porque há lojas fechadas no meu bairro e fiscais da Câmara a cortar a água.
Vou porque anda gente a comer restos e a vasculhar o lixo.
Vou porque andam miúdos no comboio a fugir ao revisor, porque os pais não têm dinheiro para o passe.
Vou porque conheço famílias que tiveram de entregar a casa ao banco e eu tive de vender o carro para pagar o assalto aos BPN, enquanto os culpados andam na farra a contar os milhares das mais-valias.
Vou porque há gente doente obrigada a optar entre tratar-se e pagar a renda de casa.
Vou porque o regabofe tem de acabar enquanto ainda há alguma coisa para salvar.
Vou porque tem de haver moral. Vou porque temos mesmo que ir, porque já chega de gozarem com a nossa cara.
E vou porque quero continuar a poder olhar para o espelho sem vergonha.

Texto de Francisco Duarte

Ao contrário do que afirma o início do manifesto do partido comunista, o que percorre hoje o mundo não é apenas um espectro, mas toda uma intempérie incontrolável. Um vento invisível agita-se pelas praças e ruas, salta do Kasbah de Tunes para os arranha céus de Wall Street; as fábricas ocupadas da Argentina ressurgem em Atenas; as canções de 74 são cantadas em Madrid; no Cairo surgem colectivos inspirados nas tradições activistas dos anos 80 europeus. O «partido comunista» que atemorizava a Europa nos tempos do manifesto tornou-se difuso, descentralizado, imprevisível, veloz como um pássaro e ágil como um felino: a sua vanguarda salta rapidamente de quem interrompe Relvas no ISCTE para quem abre uma clínica auto-gestionada em Atenas, o seu comité central estende-se dos subúrbios do Cairo às banlieues de Paris.

O silêncio dos média sobre todos estes processos não nos deve preocupar, nem sequer as suas tentativas de criminalização encomendadas pelo estado. Porque o que está verdadeiramente a ser silenciado pelos média é o pânico e a cobardia do poder perante o chão que lhe foge debaixo dos pés. Porque a passividade ensaiada de Passos Coelho apenas esconde o medo de Relvas, porque todos vimos Vítor Gaspar a mover-se cercado por um batalhão de guarda-costas com o dobro do seu tamanho, porque se multiplicam os boatos sobre as casas clandestinas e planos de contingência ante a possibilidade de insurreição popular.

Que as figuras de proa do partido socialista sejam as únicas a censurar as interrupções aos ministros, mostra bem a amplitude da crise no sistema político: sabem perfeitamente que a contestação deixou de ser a um governo em particular para se estender a toda uma forma de organização e orquestração do poder. Porque na verdade os campos que esta crise opõe não são as diferentes expressões do poder que alternam na chefia do estado, mas um sistema podre e corrupto e um movimento que se tem vindo a constituir nas ruas. A «união das esquerdas» e a «sociedade civil» a que todos apelam tem vindo a ser construída quotidianamente em todas as manifestações e encontros dos últimos dois anos, num processo complexo e nem sempre fácil, em que as lutas começam a juntar aquilo que o capitalismo separou. Dos militantes de toda a vida aos putos com máscaras do Guy Fawkes, passando pelos estivadores, da avó sem medo ao feirante barulhento, passando pelos anarquistas de liceu há um partido invisível a pôr tudo e todos em causa.

E é por aí que o governo deve cair. Torna-se cada vez mais claro que a degradação do executivo de Passos Coelho irá rapidamente dar lugar a um pacto de regime que assegure os interesses que governam o país e a exploração de grande parte da população e que o único modo de o evitar é fazer com que estas ruas, estes movimentos e esta dimensão colectiva que partilhamos volte a afirmar-se enquanto verdadeiro poder constituinte. A solução para a crise nas nossas vidas deverá ser a mesma que para a crise no sistema político: somos nós que temos que tomar as nossas vidas, e qualquer solução que não passe por uma reformulação deste «nós» numa dimensão de poder colectivo será apenas uma dança das cadeiras da qual estamos à partida excluídos. Que se torne óbvio que são eles que têm medo. Que se deixe de pedir e se passe a tomar posse. Que desta vez se faça realmente algo de extraordinário e, finalmente, como dizia o El Pais na semana passada, «Que se joda la troika».

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Texto de Sandra Monteiro

No dia 2 de Março, quando nos encontrarmos na rua, não estaremos apenas a lutar por um futuro melhor. Nesse tempo em que escolhemos estar ali, lado a lado, contrariando a desesperança e a armadilha do «cada um por si», somos já um presente melhor. E isso transforma-nos, logo ali, não se limita a mudar o que o futuro pode ser.

Um presente que esteja mais em sintonia com o que achamos que deve ser uma sociedade decente não existe apenas, é certo, quando nos encontramos na rua. Acontece em todos os actos do nosso quotidiano, por invisíveis que sejam, em que escolhemos ser comunidade e recusamos ser silenciados, espezinhados, postos uns contra os outros pela pequena minoria que enriquece semeando pobreza e apostando no isolamento do desespero. Mas quando nos encontramos na rua, em números que não podem ser ignorados, e nos unimos para tornar possível uma vida que nos entusiasme, estamos também a reconhecer-nos uns aos outros. A mostrar-nos que temos com quem fazer caminho e a construir-nos como sujeitos de uma história que nos torne mais livres, mais iguais. Ganhamos poder, e isso assusta os poderes que hoje nos desprezam e para os quais somos meras variáveis de ajustamento.

Quando nos encontramos, activando a solidariedade e a cooperação, negamos com os nossos corpos e as nossas ideias esse «homem novo» sem saída que a engenharia neoliberal está a tentar criar, pelo mundo fora, desde a década de 1980. Mostramos que a «lei da selva», na versão «crise austeritária» ou noutra qualquer, está a anos-luz da humanidade que queremos e podemos ser. O que vale uma comunidade se não garantir iguais oportunidades para todos — em função das suas necessidades e não dos seus recursos —, activando todas as formas de solidariedade entre gerações e entre territórios? Que sentido tem organizarmo-nos sem ser para limitar e redistribuir a riqueza de modo a que todos tenham uma vida digna? O que é existir, se o tempo de vida não for bem repartido, em cada um de nós, entre o trabalho, o descanso e o lazer? Como podemos deixar de cercear os apetites — devoradores de um futuro comum sustentável — daqueles que se apropriam da riqueza, esmagam o trabalho, devoram recursos, privatizam serviços públicos e bens comuns?

Tudo isto corrói a democracia há décadas. Não é uma engenharia social nova, está apenas a aproveitar a crise — e a contar com a inacção de quem se esgota em tarefas de sobrevivência — para impor um estado de excepção que tudo justifica, da recessão económica à regressão social, laboral e ambiental. Recusar este projecto é defender alternativas às respostas suicidárias que estão a ser dadas à crise e que só a aprofundam, numa espiral recessiva e recessiva Mas é também recusar, em Portugal e na Europa, o projecto neoliberal que nos trouxe até esta crise.

Os neoliberais dizem-nos insistentemente — com a ajuda de uma comunicação social nada plural —, que os seres humanos são atomizados e deslaçados por «natureza». Que só há uma lei nas sociedades, a da selecção «natural» que premeia os comportamentos competitivos, abandonando à sua sorte os mais frágeis. No quadro desta narrativa não há espaço para nada que se assemelhe a solidariedade e confiança, a objectivos de redistribuição da riqueza, combate ao desemprego ou consolidação de um estado social de qualidade e para todos. Nela só há espaço para a construção de liberdade para os mercados — em particular os de capitais —, sem constrangimentos ou regulações que limitem os lucros. Só há lugar para políticas públicas que promovam a sobreexploração do trabalho e dos recursos, para que a riqueza se acumule no topo, e que garantam a captura dos estados, para que capitalistas medíocres possam investir sem risco, à custa do estado.

Esta narrativa neoliberal não é nada «natural». É uma poderosa construção política que tem vindo a edificar-se sob os nossos olhos e à custa das nossas vidas. É a antítese da terra da fraternidade. É a criação de um mundo em que o poder financeiro é quem mais ordena. Para funcionar, precisa que nós, a grande maioria dos cidadãos, acredite que o mundo «é e será assim» e que perca a confiança no seu colega de trabalho, no seu vizinho, no seu concidadão. Precisa que em cada rosto vejamos um inimigo, um competidor, e nunca alguém com quem possamos construir uma sociedade mais igual, mais funcional, mais vantajosa para todos. Para funcionar, esta narrativa precisa que alarguemos essa visão do outro à escala global e que abdiquemos de exigir solidariedade entre classes e entre territórios. Precisa que consideremos não ter discussão nem alternativa a inserção numa arquitectura europeia e numa moeda que todos os dias mostra ser disfuncional e só querer usar o garrote da dívida para impor empobrecimento e subdesenvolvimento a países como Portugal.

Recusar este projecto neoliberal, hoje um embuste e um falhanço clamoroso à vista de todos, e resgatar a sociedade para finalidades solidárias, igualitárias e democráticas, vai exigir a união de muitos esforços e vontades. Porque, pelo menos por agora, a crise está a reforçar a exploração e as desigualdades, fortalecendo a hegemonia neoliberal, e porque reorientar a sociedade para aquelas finalidades também não é uma construção que nasça «naturalmente» do nada. Será sempre uma construção colectiva para a qual teremos de ocupar todos os espaços em que ocorrem escolhas — trabalho, estado, cidadania… —, defendendo sempre o bem comum em detrimento dos interesses privados.

Mas nada disto se faz sem estarmos disponíveis para reconhecer no outro aquele com quem podemos construir um presente e um futuro de dignidade para todos. Quando nos encontrarmos na rua, a 2 de Março, olhemos em volta. Ao que sabe reconhecer em cada rosto um sujeito da mudança que já tarda? Ao que sabe a fraternidade? Que cada um partilhe essa energia para transformar a vida de todos os dias. Que os poderosos de hoje, quaisquer que sejam os seus rostos amanhã, percam a esperança de nos ver calados, explorados, desunidos. É aí que renasce a esperança.

Texto de Aquilino Machado


Romper o silêncio aflito

A rua é o território preferencial da acção política. A mobilização colectiva que nela ocorre é o legado mais democrático construído numa cidade. Determinados locais desenvolvem uma memória colectiva perdurável, sítios com história, que gerações e gerações de pessoas os percorreram ou ainda percorrem, conjugando uma mescla de acções de celebração e confronto de ideias. São espaços de forte carga simbólica e, pela identidade histórica que deles emana, devem ser sempre apropriados quando sentimos que os nossos direitos se encontram em perigo.

Esta geografia consolidada de acção colectiva é a mais bela e poderosa narrativa que um povo pode usar no combate às consequências das actuais políticas neoliberais. Um poder sinistro que tolhe, encolhe e desgraça as funções sociais do estado e que, por isso, se torna fonte das mais infames desigualdades e injustiças.

O silêncio aflito é o mais agreste traço de submissão. Uma forte mobilização para o próximo dia 2 de Março torna-se assim um imperativo de cidadania democrática, mas também um tributo de enorme valor simbólico a todos aqueles que, ao longo dos tempos, se apropriaram corajosamente das ruas, lutando pelos direitos colectivos de um povo.

Confrontar ideias, valores e proposições políticas no espaço público é pugnar pelo não esquecimento de uma memória. Porque ao perdermos o nosso mundo, apagamos também a memória de muitos que souberam resistir.

Texto de Bruno Carvalho

Regresso ao Futuro

As palavras de amor sobram em tempos de guerra. Enquanto os bancos despejam os pobres das suas casas, os ricos banqueteiam-se. Para que o dinheiro lhes continue a chover nos bolsos, nós temos que aguentar a miséria que nos impõem. Portugal é um país do terceiro mundo travestido. De todas as que nos levaram, a única fábrica que resta é a que produz esse imenso exército de desempregados. Quem nos vendeu a ideia de que com a destruição da indústria, das pescas e da agricultura se abririam as portas do futuro, sabia que estava a pavimentar o caminho de regresso ao passado.

Em 1926, os banqueiros, os industriais e os agrários encontraram no fascismo a solução para submeter os trabalhadores ao seu mundo de terror. À frente do país, estavam os seus representantes políticos encabeçados por Salazar e Caetano. Depois de 1976, refeitos do susto revolucionário, o poder económico apostou em Mário Soares e Cavaco Silva. Foram eles que falaram do futuro para nos levar ao passado. Acenaram-nos com a CEE como se fosse um letreiro de um casino de Las Vegas e omitiram-nos que eles próprios eram o croupier de um jogo viciado.

PS, PSD e CDS-PP são os tentáculos políticos do polvo económico que nos afoga nesta tragédia sem nome. Eles são a cara. O FMI, União Europeia e Banco Central Europeu são a coroa. Duas faces de uma bala que tem o nosso nome. São os que destroem as funções sociais do estado e que privatizam para uns poucos o que é de todos. Mas eles sabem que unidos podemos derrotá-los. É por isso que inventam conceitos que juntam ricos e pobres, patrões e trabalhadores. Precisamente para que pensemos que eles nos representam.

No fundo, não há quem lixa e quem é lixado: somos todos cidadãos e todos responsáveis. Os mesmos que querem que paguemos as suas dívidas e que nunca se preocuparam em partilhar os seus lucros tentam misturar o sem-abrigo com o banqueiro, o que trabalha no andaime com o que administra um grupo económico. Por isso é que assumirmos orgulhosamente a condição do que realmente somos —maioria, 99 %, trabalhadores, proletários, explorados, precários, lixados, fodidos, humilhados — é a forma de dizermos que nada temos de comum com eles.

Quando era pequeno, intrigava-me o facto de o filme Regresso ao Futuro ser uma viagem ao passado. Mas é um título que se adequa à nossa história. Se pensarmos que 1974 é futuro e 2013 é passado tudo faz sentido. Naquele tempo a que temos de regressar, o povo uniu-se para derrotar o fascismo e abriu as portas a um futuro de justiça social e progresso. Não se trata de qualquer celebração saudosista. Trata-se de recuperar o poder político e económico para as mãos de quem trabalha. Não temos Zeca Afonso, não temos Salgueiro Maia e não temos Vasco Gonçalves. E todos eles, se estivessem vivos, diriam que isso não importa. O que importa é a massa que deu corpo à consigna que fez tremer o chão ao fascismo. Ali estaremos, a 2 de Março, para gritar que o povo é quem mais ordena.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Texto de Joana Lopes


Os velhos que paguem a crise?

Receio que uma das poucas vitórias que este governo venha a averbar no seu currículo póstumo seja a de ter conseguido aumentar o fosso intergeracional no nosso país.

Ano após ano, mês após mês, chegam cortes de milhões atrás de outros cortes, aos quais podem escapar algumas camadas da população, mas nunca a dos reformados. É bom ter presente, por exemplo, que a chamada CES (Contribuição Extraordinária de Solidariedade) só atinge esta categoria de portugueses e é uma verdadeira monstruosidade que nem as mentalidades mais perversas podiam ter imaginado que um dia viesse a existir.
Em paralelo, o primeiro-ministro e os seus ajudantes não se cansam de afirmar que penalizam os reformados para evitarem que os jovens suportem o pagamento de pensões que eles próprios nunca poderão vir a ter. E, ao contrário do que talvez se pudesse esperar mas que se compreende, este argumento vai fazendo o seu caminho e é bem provável que uma vasta camada da população jovem acabe por interiorizar a posição do governo e, mais ou menos secreta ou inconscientemente, esteja mesmo a aprová-la.

Este modo de o poder considerar hoje como parasitas as gerações mais velhas, para além de ser injusta e ilegítima, é uma estranha forma de «recompensar» aqueles que agora estão revoltados (e de que maneira...) porque lhes rasgaram um contrato que tinham feito com um estado ao qual tinham confiado os descontos de toda uma vida e até poupanças individuais. E falo de «recompensa», porque se trata de pessoas que viveram décadas em fascismo, que nasceram e cresceram com 24 horas por dia de censura e de polícia política, homens que na sua esmagadora maioria passaram anos na guerra colonial ou no exílio, mulheres subalternizadas que aguentaram as famílias durante a ausência dos pais, dos maridos e dos filhos, antifascistas perseguidos e torturados pela PIDE e até militares de Abril que nos ajudaram a conquistar a liberdade. E se é verdade que foram muitos os que nunca lutaram contra a ditadura, não deixaram por isso de nela viver mergulhados.

Ceder a esta tentativa de deixar cavar o fosso intergeracional é tanto mais grave quanto a unidade de todos é indispensável para fazer frente a tudo por que estamos a passar. Por isso, os mais velhos, que se indignam e se manifestam contra o desemprego e a precariedade dos mais novos, contra a emigração inevitável de muitos e tudo o resto que é conhecido, contam agora com a tal geração mais preparada de sempre e fazem notar que ela é também a mais privilegiada do último século, precisamente porque nasceu ou cresceu já em liberdade — bem que herdou e que não tem preço.
E dizem aos mais jovens que continuarão a estar com eles em todas as frentes, que irão com eles encher as ruas no dia 2 de Março, mas que sabem que é às novas gerações que estão a entregar o testemunho, nesta triste corrida de estafetas de um país ainda formalmente democrático mas já socialmente totalitário. E que os esperam lutas que poderão vir a ser muito duras, mas que lhes compete, agora prioritariamente, encontrar as formas de combate para o momento que passa.

Finalmente: por muito importante e grande que seja a próxima manifestação (e vai ser), é preciso que seja vivida por todos nós como (mais um) ponto de partida e não de chegada. Um arranque para o dia seguinte, um «3 de Março» que não será de festa mas de resistência, passiva e activa, para que não se perca definitivamente o que foi conquistado numa quinta-feira de Abril. Serão os mais novos a liderar as próximas lutas que não serão nada fáceis, como as nossas não o foram. Não se iludam. Nem nos desiludam.

Texto de Francisco Calafate Faria

Vivo em Londres há mais de 9 anos. No dia 15 de Setembro de 2012 ajudei a organizar e participei numa manifestação junto da embaixada de Portugal no Reino Unido, que se juntou ao Que se Lixe a Troika: Queremos as Nossa Vidas. Nesse dia, ali mesmo na Belgrave Square, formou-se um grupo de emigrantes portugueses que continua a associar novos participantes. Desde então temos organizado protestos, debates e acções em conjunto com colectivos espanhóis, gregos, ingleses e outros. No dia 2 de Março vamos voltar à rua e entregar na embaixada as cartas de emigrantes portugueses que estamos agora a compilar.

O 15 de Setembro de 2012 (15S) foi um dia histórico para Portugal. Pela primeira vez desde 1974-75, sentimos que a força de uma multidão na rua, com a razão do seu lado, pode provocar mudanças na política do governo. Quem passou por dez anos de manifestações e greves contra a política de um primeiro-ministro que não lia jornais nem ia ao parlamento sabe que isso não é coisa pouca. Quem viu esse governo e os seguintes ignorar as vozes que diziam que se estava a desperdiçar os apoios comunitários e a destruir as fontes de recursos do país, percebe a urgência de intervir. Quem assistiu às manifestações contra a guerra no Iraque e viu o governo britânico insistir na mentira das armas de destruição massiva, agora provada, percebe que não se pode desistir.

O recuo na TSU foi uma transformação muito pequena para o que se reivindicava em Setembro, mas abriu um caminho. É certo que o governo insistiu num rumo errado, errático e que se apresenta como a única opção. Mas a força do 15S mostrou que a soberania não foi entregue nem ao Governo, nem a qualquer entidade supra-nacional e muito menos a instituições financeiras. Quando elegemos um parlamento e um governo, não entramos em hibernação política. Continuamos a ser soberanos.

Acredito que o 15S levou muita gente para a rua, não por causa do «não à Troika», mas por causa do apelo à reconquista nas nossas vidas. O «que se lixe» é mais do que uma rejeição; é um apelo à irrelevância. O que é mesmo importante são as nossas vidas. A nossa vida colectiva. O texto da convocatória expressa isso mesmo. O tom positivo, construtivo e poético abre caminho para a confiança de que necessitamos para fazer propostas. Só assim poderemos parar com a destruição de tudo o que é de todos e com a condenação de tudo o que gera outros valores que não o retorno financeiro imediato. Não é preciso saber falar a linguagem dos tecnocratas para o fazer. Nem é preciso concordar com todas as opiniões dentro de um grupo para nos associarmos a ele, ou com todos os versos de uma canção para a podermos entoar em conjunto. O que é preciso é mostrar que há muitos caminhos possíveis para o nosso futuro colectivo. E aprender rapidamente a mostrá-los, discuti-los e a trilhá-los. Em 2 de Março vamos poder abrir espaço para que isso aconteça. E como é urgente que o façamos! Como dizia o manifesto de 15S: «É preciso fazer qualquer coisa de extraordinário! É preciso convocar de novo as vozes, os braços e as pernas de todas e todos os que sabem que nas ruas se decide o presente e o futuro. É preciso vencer o medo que habilmente foi disseminado e, de uma vez por todas, perceber que já quase nada temos a perder…»

Muitos portugueses que não moram em Portugal vão juntar-se também. Fazemos parte de um espaço comum e vamos continuar a participar nele. E vamos continuar a construir pontes com cidadãos de outros países para procurar movimentos internacionais verdadeiramente democráticos, para os problemas que não cabem em fronteiras nacionais.

Texto de José João Louro

Não é tempo para recriminações. Muitos deixaram-se enganar. Agora é um tempo de mobilização contra a apatia e contra a aceitação do sofrimento colectivo. É um tempo de abandonar as televisões e as telenovelas e ir para a rua protestar. É um tempo de participar em todas as manifestações de protesto, sejam convocadas pelos sindicatos ou por pessoas anónimas. Não é tempo de ver quem está ou quem não está, é tempo de estarmos todos.

O protesto popular contra a troika tem de se ampliar, porque foi no acordo com a troika que se definiu uma estratégia neoliberal para o país.

Protestámos a 12 de Março quando ainda governava Sócrates, protestámos a 15 de Setembro. Protestamos a 2 de Março contra o engordar pela banca da economia-casino; contra os buracos do BPN e da Madeira; contra a arrogância neoliberal do PSD e do CDS; contra a obediência cega à ditadura dos mercados.

Muitos de nós somos reformados pobres, excluídos pelo sistema. Esperamos o despejo das nossas casas pela agressiva lei dos senhorios, partimos para a emigração desesperados por deixar o país. Fazemos parte da longa fila dos sem emprego ou com emprego precário.

Só nos resta partilhar a dignidade do protesto.

Nem todos pensarão como eu, nem todos terão as minhas escolhas.

Muitos nos enganámos a votar...

Mas todos daremos as mãos num verdadeiro protesto popular.

Texto de João Gustavo


Muda de vida

“Muda de vida, se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há Vida em ti a latejar”

António Variações

Perdoar-me-ão que neste texto não me refira à Troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia).
Nem ao grupo de pessoas que ocupa o lugar de governo deste país.
Nem à pessoa que ocupa o lugar de Presidente da República.
Nem aos poucos que, no seu ilusionismo especulativo, imoral e quantas vezes ilegal, lucram milhões enquanto a rapaziada anda a fazer pela vida, a descobrir novos limites de sobrevivência (ou mesmo não-vivência).
Como devem supor, considero tudo isso bastante relevante e muito há a dizer sobre estas matérias. Mas confio que os leitores deste texto estão suficientemente informados, e outros textos neste âmbito debruçam-se sobre estas temáticas (com qualidade, rigor e descrição aprofundada).

O meu contributo foca-se na seguinte questão: o que pode mudar a manifestação de 2 de Março?

Sairmos do isolamento, libertarmo-nos da culpa e da vergonha!
Quando estamos absorvidos nos nossos (legítimos e justificados) dramas pessoais, tendemos a fecharmo-nos em conchas. Vendo a vida a escoar-se sentimo-nos culpados. Sentindo-nos fracos temos vergonha de expressá-lo. E isso isola-nos cada vez mais.
É hora de nos vermos todos juntos, e sabermos que não estamos sozinhos. E libertar-nos de um sentimento de culpa e de vergonha (muitas vezes inconsciente) que nos faz sentir pequeninos. Não somos! E assumimos a nossa dignidade. Assumimos o direito a uma Vida digna, plena de condições para nos desenvolvermos (individual e colectivamente). O direito a Viver, trazendo o Sonho à realidade. É nosso, e como multidão assim o expressamos.

Superarmos uma sensação de impotência!
Sozinhos tendemos a sentir-nos impotentes para alterar coisas de uma grande dimensão. Só que somos muitos a querer mudar. E quando o afirmamos juntos, com a força da expressão de sermos muitos, sentimo-nos maiores.

Vencermos o medo!
O medo é fruto da impotência. Por pior que estejamos, temos (muitas vezes de forma inconsciente) o medo do que pode ainda piorar, e nada podermos fazer para evitá-lo (ou assim pensamos, mesmo que inconscientemente). Quando estamos juntos, em multidão, a afirmar a Vida que queremos transformar, lembramo-nos que somos Fortes. E quando estamos fortes não há nada que temamos.

Precisamos de uma mudança que vá à raiz, que traga à luz um novo “paradigma de Ser, em sociedade”! Não estou a falar de estruturas ou sistemas de organização da sociedade. Estou a falar da mudança de consciência, para um paradigma em que o Amor guia todas as decisões na gestão do Bem Comum. Um paradigma que, por isso, vela pela Verdade e pela Justiça, um paradigma que está em harmonia com o progresso, com a expansão na Vida de todos e de cada um. Um paradigma que permite, facilita e ajuda a História a andar para a frente.
Um paradigma assim não se decreta. Nem se muda por carregar num botão. Nem há fórmulas mágicas (quanto à sua estrutura ou sistema de organização). Nem será pelo surgimento de um qualquer indivíduo travestido de Messias. Nem tem alicerces para perdurar se não for sustentado por uma larguíssima maioria das pessoas.
Por isso, e indo à raiz da questão, a mudança está em nós, Povo. Em tomarmos em mãos o nosso destino colectivo. Em assumir o nosso Poder, a nossa Força e Determinação.
Um Povo forte não deixa lugar para que alguém dele abuse. E por isso se diz – e bem – “o Povo Unido jamais será vencido”. Portanto, o nosso primeiro e principal desafio é Unirmo-nos naquilo que nos é comum e é essencial. E isso, no contexto actual da nossa história colectiva, significa encontrarmo-nos na rua no dia 2 de Março. Muitos, muitos mesmo. Todos se for preciso. Vermo-nos nos olhos, abraçarmo-nos, sorrirmos. Porque eu sou tu e tu és eu. E nós, juntos, queremos mudar. E por isso nos juntamos. Na rua, a 2 de Março de 2013.

Era o meu filho muito pequenino (aí uns 4 anos) e inventou uma canção que dizia “levanta e voa, levanta e voa, cada vez que chove”.
Sabemos o tamanho da nossa dor. A dor própria e a dor que sentimos por empatia solidária com quem sofre ao nosso lado (independentemente da distância física). O desemprego, os despejos, a pobreza, a fome, a miséria. Aqui, na Grécia, ou em qualquer parte do mundo. Mas também sabemos que o caminho é transformarmos essa dor numa poderosa vitamina anímica, capaz de mobilizar os nossos melhores recursos e forças para alterar a situação. Para nos levantarmos e voarmos, a cada vez que chova.

Texto de Tiago Rodrigues


À semelhança de tantos portugueses

Começo este texto com o objectivo de apelar à adesão a uma manifestação. Uma manifestação que mostre a indignação dos portugueses perante a opressão a que são sujeitos. Uma manifestação que mude o estado das coisas. Uma manifestação marcada para o dia 2 de Março de 2013.
Mas quem sou eu para apelar a uma manifestação? Já fui a algumas e até levei umas cacetadas da polícia, mas não fui a todas as que devia ter ido. À semelhança de tantos portugueses, às vezes deixo-me estar no meu canto, resignado, preguiçoso ou entregue ao meu trabalhinho. Nem sempre aderi às greves. À semelhança de tantos portugueses, às vezes desconfio da actuação dos sindicatos. Já protestei bastante, mas também houve alturas em que não protestei, mesmo estando indignado. À semelhança de tantos portugueses, às vezes gasto mais energia no queixume do que na acção. À semelhança de tantos portugueses, às vezes desisto.
Assim, se o caríssimo leitor precisa de ser convencido a ir a esta manifestação por alguém com superioridade moral, pode parar de ler este texto. Haverá outros mais indicados para o seu caso. No entanto, este texto continua. E a razão pela qual continua é que eu acredito que no dia 2 de Março, nem eu, nem nenhum português (independentemente da sua estatura moral) pode dar-se ao luxo de ficar calado. Porque no dia 2 de Março, ser «à semelhança de tantos portugueses» pode significar outra coisa: estarmos juntos a defender a democracia que ninguém defende por nós. No dia 2 de Março, vou estar na rua, porque acho que a democracia portuguesa está doente. A morte da democracia é a contradição total entre a acção dos governantes e a vontade do povo que os elegeu. No Portugal democrático nunca esta contradição foi tão transparente e tão violenta como hoje. Este governo rasga diariamente o contrato que assumiu com os portugueses quando foi eleito. E fá-lo para beneficiar interesses económicos privados, comprometendo o acesso da população à segurança social, à saúde, à educação, à justiça e à cultura. Isto é matar a democracia. A questão já não é o falhanço absoluto das políticas de austeridade, medidas ideológicas disfarçadas de inevitabilidades económicas, que apelavam ao sacrifício de todos em nome de nenhuma ideia de país. Isso foi apenas o princípio desta tragédia. Hoje, trata-se de opressão. Os portugueses são oprimidos pelo seu governo. Todos os dias nos é roubado um direito. Todos os dias nos é ameaçada uma liberdade. O título desta tragédia é «Opressão».
Já que falamos em tragédias, na «Antígona» de Sófocles há uma cena em que Hémon, filho do rei Creonte, diz ao pai que, se ele quer governar sozinho, devia governar uma cidade deserta. Quando os portugueses olham para o seu governo é isso que pensam: este governo merece um país deserto. É isso que pensa o meu irmão enquanto continua a procurar um primeiro emprego onde possa dar uso à licenciatura que conquistou. É isso que pensa a minha amiga que trabalha a recibos verdes há mais de uma década. É isso que pensa a minha mãe quando faz as contas e percebe que a reforma não vai chegar. É isso que pensam os meus primos que emigraram para Angola. É isso que pensam muitos colegas meus, sem trabalho e sem subsídio de desemprego. É isso que pensa a minha avó quando espera dias para ter assistência médica na sua aldeia. E isto são só as pessoas que estão à minha volta, bem pertinho de mim. Cada um dos que continuou a ler este texto terá a sua colecção de escândalos para enumerar. Sejam as crianças de Elvas que vão à escola só para poder almoçar ou os trabalhadores desesperados nos estaleiros de Viana do Castelo, são muitos os dramas que nos empurram para a rua. E por isso é que acredito que são milhões os portugueses que também pensam que este governo merece um país deserto.
Mas no dia 2 de Março podemos fazer alguma coisa. E temos que o fazer, porque a verdade é que ninguém o vai fazer por nós. É um desafio nosso. A oportunidade é nossa. No dia 2 de Março podemos habitar o país, em vez de o deixar deserto. Podemos fazer uma respiração boca a boca a esta democracia e salvá-la no último momento. No dia 2 de Março podemos erguer a voz por cada direito que nos é roubado, fazer um gesto por cada liberdade que é ameaçada. E é por tudo isto que, no dia 2 de Março, eu estarei na rua, mas não serei apenas um. Serei «à semelhança de tantos portugueses».

Texto de Diogo Varela Silva

É imperioso que estejamos todos nas ruas dia 2 de Março. Temos que acabar com esta política cega antes que ela acabe connosco e com tudo o que foi feito desde 74 até agora. É imperioso que defendamos o estado social, é imperioso que o façamos, se não por nós pelos nossos filhos.Não é este o futuro que quero deixar aos meus filhos, não é este o país que lhes quero deixar de herança.

Que se lixe a troika e que se lixem estes governantes que nos asfixiam!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Texto de Maria Luísa Cabral


EU VOU À MANIFESTAÇÃO 2M

Aposentei-me há ano e meio, depois de quarenta anos de carreira contributiva, com a idade prevista na lei e, portanto, sem penalizações. Planeei a minha reforma sabendo que poderia gozar uns anos com alguma tranquilidade, confiante no contrato social estabelecido entre mim e o estado quarenta anos antes e confiando na assistência na saúde através da ADSE ou do SNS. Apenas vinte meses volvidos sobre a data da aposentação, a justa recompensa por uma vida de trabalho esvaiu-se. Fazem-me sentir culpada porque, diz o governo, no passado gastei (ou contribui para isso) mais do que ganhei; porque estou a receber uma reforma para a qual não contribui; porque me habituei a viver acima das minhas possibilidades. Ora eu nunca gastei mais do que tinha (em bom português, nunca dei um passo maior que a perna); eu sempre descontei o que o estado estipulou (quando entrei para o quadro da Administração Central do Estado a única coisa que me pediram foi que eu jurasse que não era comunista nem desenvolveria nenhuma acção contra a segurança do estado), nunca me perguntaram se eu queria descontar mais ou menos; como não contraí dívidas nem colaborei para o crédito mal parado, não notei ter vivido acima das minhas possibilidades. Habituei-me a fazer escolhas, levei sempre tudo bem equilibrado para não viver, efectivamente, acima das minhas possibilidades. De acordo com o que ganhava, gozei a vida, sim. Não me arrependo, nem carrego culpas mal disfarçadas, não tenho nem de pedir desculpa nem ser castigada.

De repente, um tsunami. Somos culpados, sim. Temos de entrar na ordem (deles). Temos de fazer mea culpa, andar cabisbaixos, humilhados e sem esperança. Há no ar um certo tom justiceiro. Este governo acha que tem autoridade para nos punir porque ganhou as eleições. O que nunca ninguém lhe explicou é que ganhar eleições não é um cartão em branco para justificar o esbulho a que assistimos nem para a destruição do estado social. Os aposentados, pensionistas e reformados constituem um alvo preferencial sobre o qual se carrega facilmente. Com as medidas tomadas e as que espreitam apenas a aguardar uma desatenção da nossa parte, podemos afirmar que a carga sobre os reformados é particularmente injusta e dolorosa. Os aposentados são, na generalidade, uma faixa da sociedade que perdeu capacidade de mobilização e de reivindicação, está fragilizada e desmoralizada. No final da vida, resta-lhe um trilho minado a percorrer. Eu que escrevo estas linhas e vocês que as lêem teríamos vergonha de atirar os nossos velhos para uma situação destas, mas este governo não tem. Este governo sente-se iluminado. O governo sabe exactamente onde está o bem e o mal. O que diz, está dito. Não há contraditório. Pior, não há pudor. Nem nas políticas que executa, nem nos alvos que escolhe, nem nos executores que faz avançar qual pelotão. Tenta virar-nos uns contra os outros, jogando com os diferentes valores de reforma entre os da função pública e os do sector privado; tenta semear o azedume e a desconfiança repetindo que uns gozavam de um sistema de saúde melhor que os outros; insiste em afirmar que os funcionários públicos eram, e são, privilegiados relativamente aos do privado. Pior, faz crer que as nossas pensões são uma despesa e, portanto, um favor. É preciso de facto muita desfaçatez. Todos estes argumentos são mesquinhos, distorcem a realidade, generalizam e desvirtuam. Tudo em nome da reforma do estado. Mas qual reforma? O que está em marcha não é uma reforma; a reforma faz-se discutindo o que é necessário manter ou eliminar e depois, então, quantifica-se. É inaceitável o pensamento de que apertando e esmagando se conseguirá arrumar a sociedade portuguesa, limpando-a ao ponto de ter apenas os que não pesam. Esta é uma abordagem muito perigosa, percebe-se mal como estamos a entrar e desconhecemos completamente como vamos sair. Por mim, recuso-a liminarmente.

Não podemos embarcar neste jogo baixo. Primeiro porque somos todos trabalhadores; segundo porque todos sofremos este sistema corporativo a ver quem mais água ao seu moinho leva. Nós queremos soluções que atendam à nossa dignidade de pessoas e cidadãos e se a situação é catastrófica fica a dever-se a sucessivos governos e políticas que pouco atenderam aos valores humanos, porque o lucro foi sempre mais importante, porque nunca se pensou verdadeiramente num sistema económico que servisse os interesses gerais do país e da população, no presente e no futuro. Entre números e estatísticas, a nossa realidade saltou de secretária em secretária, deu azo a muitos estudos, a muitos gabinetes, alimentou muita teoria. Durante anos, assistimos à execução de políticas que favoreciam sempre os mesmos; aos poucos, a direita ganhou terreno, tornou-se confiante e atrevida; todos os dias ouvimos o impensável sobre os jovens, sobre os desempregados, sobre os aposentados. É preciso dizer basta; temos de inverter esta marcha que nos sufoca. Há valores que se prendem com a dignidade, com a solidariedade, com a fraternidade e pelos quais vale a pena lutar. Nós, aposentados como eu, temos um problema, sim; mas eu não vou à manifestação de 2 de Março por causa do meu problema em especial. Eu vou à manifestação de 2 de Março porque me é insuportável a situação dos meus compatriotas que não têm emprego; que emigram; que recebem pensões de miséria; que estão suspensos por uma lei das rendas vil; que não conseguem pagar a farmácia ou as taxas moderadoras do SNS. Eu vou à manifestação de 2 Março porque eu não quero ser governada por estrangeiros; porque eu quero participar no destino da minha terra; porque penso que é tempo de correr com este governo incompetente, insensível e cruel que nos empurra para o precipício. Eu vou à manifestação de 2 Março porque quero estar na rua e na companhia de outros portugueses como eu. Eu vou à manifestação de 2 de Março porque vou sentir que O POVO É QUEM MAIS ORDENA.