quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Porque Odeio a Troika? (e que se Lixe a Troika e não as nossas Vidas!)
Não há dúvida que a TROIKA , a crise e a estagnação da economia também afetam bruscamente a vida das pessoas imigrantes, provocando o aumento das perseguições , xenofobia, racismo e desigualdade .
A TROIKA , espreme e escraviza, incita a culpa, que também é chamada de imigração! Migrante, imigrante, gente que logo torna-se r
esponsável pela escassez dos empregos e criminalidade, gente que muitas vezes está silenciada pelo medo e frágil estatuto de cidadania. E como se não fosse suficiente, Portugal também é forçado a sair da rota da imigração e do crescimento económico, todos e todas são chamados a sair, por isso, pode até parecer um sonho, mas todas/os nós estamos no mesmo barco e todos nós queremos nas nossas vidas, saúde, respeito e dignidade.
Por isso que no dia 15 de Setembro, uno-me a vocês pelo fim da TROIKA, antes de tudo!
Beijos e abraços, com enfrentar e resistir.
MAGDALA GUSMÃO
A TROIKA , espreme e escraviza, incita a culpa, que também é chamada de imigração! Migrante, imigrante, gente que logo torna-se r
esponsável pela escassez dos empregos e criminalidade, gente que muitas vezes está silenciada pelo medo e frágil estatuto de cidadania. E como se não fosse suficiente, Portugal também é forçado a sair da rota da imigração e do crescimento económico, todos e todas são chamados a sair, por isso, pode até parecer um sonho, mas todas/os nós estamos no mesmo barco e todos nós queremos nas nossas vidas, saúde, respeito e dignidade.
Por isso que no dia 15 de Setembro, uno-me a vocês pelo fim da TROIKA, antes de tudo!
Beijos e abraços, com enfrentar e resistir.
MAGDALA GUSMÃO
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Faço, logo Existo
Nunca acreditei no Fim da História. Nunca acreditei que existe um estádio terreno cuja meta, sendo alcançada, nos dispensa de pousar o livro e a caneta e viver o resto dos nossos dias de acordo com uma consciência amorfa e submissa. Tão pouco posso acreditar que me digam que para um determinado problema, existe uma solução. Uma solução? Ia julgar que existiam várias, no mesmo nú
mero de visões que encerra a experiência humana. Este é o ponto de partida que me leva à manifestação no dia 15 de Setembro: acredito que as minhas acções determinam a minha existência e o rumo dos acontecimentos. As minhas e as dos/as outros/as.
Não acredito, portanto, na inevitabilidade da Troika, assim como não acredito na marcha inexorável do neoliberalismo económico. Acredito sim que é impossível ficar sentado no sofá quando nos querem diminuir em direitos conquanto nos exigem todos os deveres e mais alguns. Acredito ainda que não podemos tentar sobreviver sozinhos/as e atomizados/as do mundo quando a realidade é dura de mais para ser negada. A nossa consciência, principalmente em sociedade, também necessita de outras para exprimir a nossa identidade. Talvez não partilhemos as mesmas relações com a sociedade, mas a verdade é só uma: somos oprimidos/as, o que varia é apenas o contexto em que essa opressão é exercida.
São oprimidos/as todos/as os/as jovens que estão a ser alvo de uma política elitista que quer mercantantilizar todo o ensino, retirar apoios sociais e condenar toda uma geração a seguir forçosamente para um mercado de trabalho onde a precariedade e a mão-de-obra barata fazem parte da estratégia da Troika para Portugal competir economicamente no contexto externo.
São oprimidos/as todos/as os/as imigrantes, vítimas de intrumentalização através da sua marginalização e clandestinidade para que possam ser explorados sem que possam reivindicar os seus direitos. Para não falar que os seus contributos para a sociedade têm como recompensa a desigualdade de direitos como o acesso à documentação, a certas prestações sociais como o RSI ou a omissão do direito de voto nas legislativas. Nenhum humano é ilegal e todos somos cidadãos íntegros desde que gozemos desse título com todo o esplendor.
Somos todos/as oprimidos/as porque pelo menos conhecemos um/a desempregado/a, um/a trabalhador/a precário/a, um/a professor/a despedido/a ou alguém atingido pelos cortes na saúde, educação, ou qualquer outra área.
A solução? Esta passa pelo aumento do rating da vida de todas as pessoas que não merecem ser um joguete nas mãos dos mercados, passa por reduzir o défice de participação cívica, proceder a reformas estruturais de mentalidade e, por fim, saldar a dívida para com as futuras gerações que têm o direito a sonhar com uma outra sociedade. Não existe fim da História e os próximos capítulos serão escritos por aqueles e aquelas que não se renderam à rotina e assumiram a sua existência e tiveram a coragem de fazer algo extraordinário.
FREDERICO ALEIXO - Licenciado e Desempregado (um dos 15%). Membro da SOS Racismo
mero de visões que encerra a experiência humana. Este é o ponto de partida que me leva à manifestação no dia 15 de Setembro: acredito que as minhas acções determinam a minha existência e o rumo dos acontecimentos. As minhas e as dos/as outros/as.
Não acredito, portanto, na inevitabilidade da Troika, assim como não acredito na marcha inexorável do neoliberalismo económico. Acredito sim que é impossível ficar sentado no sofá quando nos querem diminuir em direitos conquanto nos exigem todos os deveres e mais alguns. Acredito ainda que não podemos tentar sobreviver sozinhos/as e atomizados/as do mundo quando a realidade é dura de mais para ser negada. A nossa consciência, principalmente em sociedade, também necessita de outras para exprimir a nossa identidade. Talvez não partilhemos as mesmas relações com a sociedade, mas a verdade é só uma: somos oprimidos/as, o que varia é apenas o contexto em que essa opressão é exercida.
São oprimidos/as todos/as os/as jovens que estão a ser alvo de uma política elitista que quer mercantantilizar todo o ensino, retirar apoios sociais e condenar toda uma geração a seguir forçosamente para um mercado de trabalho onde a precariedade e a mão-de-obra barata fazem parte da estratégia da Troika para Portugal competir economicamente no contexto externo.
São oprimidos/as todos/as os/as imigrantes, vítimas de intrumentalização através da sua marginalização e clandestinidade para que possam ser explorados sem que possam reivindicar os seus direitos. Para não falar que os seus contributos para a sociedade têm como recompensa a desigualdade de direitos como o acesso à documentação, a certas prestações sociais como o RSI ou a omissão do direito de voto nas legislativas. Nenhum humano é ilegal e todos somos cidadãos íntegros desde que gozemos desse título com todo o esplendor.
Somos todos/as oprimidos/as porque pelo menos conhecemos um/a desempregado/a, um/a trabalhador/a precário/a, um/a professor/a despedido/a ou alguém atingido pelos cortes na saúde, educação, ou qualquer outra área.
A solução? Esta passa pelo aumento do rating da vida de todas as pessoas que não merecem ser um joguete nas mãos dos mercados, passa por reduzir o défice de participação cívica, proceder a reformas estruturais de mentalidade e, por fim, saldar a dívida para com as futuras gerações que têm o direito a sonhar com uma outra sociedade. Não existe fim da História e os próximos capítulos serão escritos por aqueles e aquelas que não se renderam à rotina e assumiram a sua existência e tiveram a coragem de fazer algo extraordinário.
FREDERICO ALEIXO - Licenciado e Desempregado (um dos 15%). Membro da SOS Racismo
Que se Lixe a Troika! Quero a minha Vida!
A manifestação de 15 de Setembro não é a primeira manifestação a que vou. Não será a última. Mas faz pouco tempo desde que comecei a ir a manifestações. Até há poucos anos atrás não participava em muitos protestos, mas o mundo acelerou muito desde então. Mudou. E o que nós aceitávamos como um mundo com muitas injustiças mas ainda assim relativamente digno já é uma miragem que começa a desvanecer-se. Nos últimos anos tudo mudou e as nossas vidas deixaram de contar para o que quer que seja. Para a economia, para os nossos governantes eleitos. E nós deixámos, enquanto povo, que assim fosse. Deixámos, individualmente, que assim fosse. Dividiram-nos e individualizaram-nos para que só olhássemos para nós mesmos, para os nossos mundos pequenos e isolados, débeis. Aceitámos baixar a cabeça quando nos impuseram cortar-nos os salários, comer e calar quando anunciaram o encerramento de maternidades e hospitais, resignar-nos quando anunciaram o fecho de escolas e o despedimento de professores, virar a cara para não ver quando destruiram os direitos no trabalho e impuseram a precariedade para toda a gente. Tardámos a reagir, tão forte era a avalanche de medidas, dia após dia, cada semana ficávamos boquiabertos com a desfaçatez com que se destruía por decreto tudo aquilo que demorou tanto tempo a construir. Tentámos, uma e outra vez, que se percebesse o que estava a acontecer. Que toda a gente percebesse. Mas a repetição constante de que era inevitável, de que tínhamos vivido acima das nossas possibilidades, de que não havia dinheiro, fez muita gente acreditar que era mesmo verdade. Era só ligar a televisão, ouvir o rádio, ler num jornal: "A culpa é vossa!". E nós comemos esta versão, herdámos pelos ouvidos e pelos olhos a culpa da crise. Ouvi pobres, que toda a vida viveram no desenrascanço e na penúria, dizer que tinham vivido acima das suas possibilidades. Ouvi de pessoas que nunca tiveram dinheiro de sobra ao fim do mês dizer que tinham gastado demais, que não deviam ter enviado os seus filhos para a escola, que tinha sido um luxo. Ouvi o homem mais rico do país dizer que não era rico e ouvi o segundo homem mais rico do país dizer que os seus próprios trabalhadores eram uns preguiçosos e que a sua fortuna, a tinha feito ele sozinho. Ouvi um governante eleito dizer que tínhamos todos de empobrecer e que quem tinha juventude e capacidades, deveria partir, ir embora. Herdámos o espírito da derrota, da submissão e do individualismo, com que nos querem domesticar e voltar a tornar um povo pobre, burro e miserável, arrastando-se nas sobras das fortunas das 5 ou 10 famílias ricas do país. Mas há uma coisa importante a saber acerca das heranças: não temos de aceitá-las. E por isso vi também milhares de pessoas mobilizar-se, vezes sem conta, tentanto novos modelos, novas organizações, novas articulações. Por vezes funcionou, outras não. Mas tentou-se, uma e outra vez, e enquanto houver vida e gente digna que fique em pé e que resista, a herança pode ser rechaçada.
Sou activista há poucos mas intensos anos na área da precariedade, e também tenho trabalhado na questão da dívida pública. São dois assuntos da maior relevância nos dias de hoje, e intimamente ligados com tudo o que se vem passando na degradação das nossas vidas, no desemprego à nossa volta, dos trabalhos presos por cordéis que encurralam as pessoas e lhes retiram a confiança e a dignidade, na justificação para impôr medidas de austeridade embora não se saiba o que estamos a pagar, apenas que é preciso pagá-lo. E os barões da moralidade vêm falar-nos do seu trono da nossa necessidade de aceitar em paz e tranquilidade que tenhamos que pagar o que eles se recusam a divulgar, e pagá-lo com juros através da destruição da nossa sociedade.
A nossa sociedade, como as outras sociedades do sul da Europa, têm muitos problemas, e muitos problemas comuns também. Mas hoje temos todos não um espinho no pé, mas uma pistola na boca, e ela chama-se troika. Meteram-na na nossa boca para - dizem - salvar-nos. Mas tudo o que aconteceu desde que ela veio foi piorar o que já estava mal. Diziam que não havia dinheiro - agora há muito menos. Diziam que não havia crescimento - agora há recessão. Diziam que não havia emprego - estaremos cada vez mais perto de dobrar o número de pessoas que não têm emprego. Diziam que a precariedade era um grave problema - e por isso decidiram torná-la regra. Diziam que tínhamos de cumprir os nossos compromissos - e por isso rasgaram um dos nossos compromissos mais antigos e mais consensuais, a Constituição da República e todas as leis que foi preciso ignorar para aprovar as medidas impostas pela troika. Diziam que era preciso pagar o que devíamos - e por isso foram pedir mais dinheiro emprestado, com mais juros, e foram buscar o dinheiro de quem trabalha todos os dias e de quem descontou a vida toda para poder ter uma velhice tranquila. Faz-nos ter que perguntar qual era verdadeiramente o objectivo da intervenção da troika, se tudo aquilo que era previsto tratar, piorou? O objectivo da troika era um e um só - impôr um novo regime - o regime da austeridade. Hoje temos um novo inimigo, comum e absoluto: chama-se austeridade, e o seu representante máximo é a troika. O governo português, como os seus congéneres mediterrânicos, apenas tem a força política para impôr a austeridade por ter a troika nas costas, a puxar cordéis e a dar direcções de fora. Temos um novo inimigo e é um inimigo comum e absoluto. É um inimigo para todas as lutas que se travam neste momento. É um inimigo para quem defende os direitos dos imigrantes, para quem luta contra a pobreza, contra a precariedade e o desemprego, contra o racismo, contra a destruição do SNS, para quem luta pela cultura, pela protecção do ambiente, pela liberdade de informação, pela justiça, pela liberdade, pela democracia e pela dignidade na sociedade. Todas as lutas são importantes. Todas têm de ser travadas. Encontramos na troika uma raíz para todos estes males. Não é a única mas é, neste momento, a mais importante. É tempo de enfrentá-la abertamente. Colectivamente. Façamos de dia 15 um dia em que novamente voltemos a enfrentar e a desafiar não só a troika e o governo como a nós mesmos e o nosso isolamento. Chega de silêncio. Já não se pode! Está na hora de virar o bico ao prego.
Não escolhemos o tempo em que vivemos. Só nos é dado a escolher o que fazer com esse tempo que temos. Queimemos as heranças de individualismo que leva à resignação, submissão e derrota. Reergamos o legado de desafio, de disputa, de solidariedade e de força para mais uma vez nos levantarmos, recusando ser guiados mansamente para o precipício.
Organizemo-nos para a dura luta que temos pela frente. Façamos algo de extraordinário.
Dividiram-nos para nos oprimir. Juntemo-nos para nos libertarmos.
JOÃO CAMARGO, Engº do Ambiente, Associação de Combate à Precariedade - Precários Inflexíveis, Auditoria Cidadã à Dívida
Sou activista há poucos mas intensos anos na área da precariedade, e também tenho trabalhado na questão da dívida pública. São dois assuntos da maior relevância nos dias de hoje, e intimamente ligados com tudo o que se vem passando na degradação das nossas vidas, no desemprego à nossa volta, dos trabalhos presos por cordéis que encurralam as pessoas e lhes retiram a confiança e a dignidade, na justificação para impôr medidas de austeridade embora não se saiba o que estamos a pagar, apenas que é preciso pagá-lo. E os barões da moralidade vêm falar-nos do seu trono da nossa necessidade de aceitar em paz e tranquilidade que tenhamos que pagar o que eles se recusam a divulgar, e pagá-lo com juros através da destruição da nossa sociedade.
A nossa sociedade, como as outras sociedades do sul da Europa, têm muitos problemas, e muitos problemas comuns também. Mas hoje temos todos não um espinho no pé, mas uma pistola na boca, e ela chama-se troika. Meteram-na na nossa boca para - dizem - salvar-nos. Mas tudo o que aconteceu desde que ela veio foi piorar o que já estava mal. Diziam que não havia dinheiro - agora há muito menos. Diziam que não havia crescimento - agora há recessão. Diziam que não havia emprego - estaremos cada vez mais perto de dobrar o número de pessoas que não têm emprego. Diziam que a precariedade era um grave problema - e por isso decidiram torná-la regra. Diziam que tínhamos de cumprir os nossos compromissos - e por isso rasgaram um dos nossos compromissos mais antigos e mais consensuais, a Constituição da República e todas as leis que foi preciso ignorar para aprovar as medidas impostas pela troika. Diziam que era preciso pagar o que devíamos - e por isso foram pedir mais dinheiro emprestado, com mais juros, e foram buscar o dinheiro de quem trabalha todos os dias e de quem descontou a vida toda para poder ter uma velhice tranquila. Faz-nos ter que perguntar qual era verdadeiramente o objectivo da intervenção da troika, se tudo aquilo que era previsto tratar, piorou? O objectivo da troika era um e um só - impôr um novo regime - o regime da austeridade. Hoje temos um novo inimigo, comum e absoluto: chama-se austeridade, e o seu representante máximo é a troika. O governo português, como os seus congéneres mediterrânicos, apenas tem a força política para impôr a austeridade por ter a troika nas costas, a puxar cordéis e a dar direcções de fora. Temos um novo inimigo e é um inimigo comum e absoluto. É um inimigo para todas as lutas que se travam neste momento. É um inimigo para quem defende os direitos dos imigrantes, para quem luta contra a pobreza, contra a precariedade e o desemprego, contra o racismo, contra a destruição do SNS, para quem luta pela cultura, pela protecção do ambiente, pela liberdade de informação, pela justiça, pela liberdade, pela democracia e pela dignidade na sociedade. Todas as lutas são importantes. Todas têm de ser travadas. Encontramos na troika uma raíz para todos estes males. Não é a única mas é, neste momento, a mais importante. É tempo de enfrentá-la abertamente. Colectivamente. Façamos de dia 15 um dia em que novamente voltemos a enfrentar e a desafiar não só a troika e o governo como a nós mesmos e o nosso isolamento. Chega de silêncio. Já não se pode! Está na hora de virar o bico ao prego.
Não escolhemos o tempo em que vivemos. Só nos é dado a escolher o que fazer com esse tempo que temos. Queimemos as heranças de individualismo que leva à resignação, submissão e derrota. Reergamos o legado de desafio, de disputa, de solidariedade e de força para mais uma vez nos levantarmos, recusando ser guiados mansamente para o precipício.
Organizemo-nos para a dura luta que temos pela frente. Façamos algo de extraordinário.
Dividiram-nos para nos oprimir. Juntemo-nos para nos libertarmos.
JOÃO CAMARGO, Engº do Ambiente, Associação de Combate à Precariedade - Precários Inflexíveis, Auditoria Cidadã à Dívida
Se a Vossa Alternativa Funcionasse, não Estávamos assim. Vão se Lixar.
O que é que há de extraordinário em querer o mínimo? Nada. Podemos perder horas infindáveis a discutir que mínimo é esse, mas o mais extraordinário é que não hesitamos em dizer, ou teclar, nos nossos circuitos mais íntimos, fechados e casuais, que há um mínimo dos mínimos que nos foge todos os dias: o trabalho que não temos ou
que não nos chega para viver, o médico a que deixámos de ir ou que deixámos de ter, a segurança de planear o futuro, o limiar de esperança de que as nossas vidas poderiam desaguar em novas vidas mais felizes, num quotidiano em que todas as gerações que somos se entreajudam, para que velhos e novos olhem para as suas vidas como algo que vale a pena viver e partilhar.
Aqui, na Grécia, ou em Espanha, ou em qualquer parte, quando há gente que se mata por desespero, e ainda nos acusam de viver acima das nossas possibilidades, a lengalenga é sempre a mesma. A austeridade só funciona para os abutres que enchem o bagulho da miséria alheia, como só não vê quem não quer. Mas quando nos dizem que é legítimo privatizar o que todos construímos para que o lucro seja a medida de todas as coisas, não são «eles» que nos roubam as nossas vidas: somos nós que as damos de mão-beijada. E isso é que é extraordinário. Quietos, mansos e isolados, somos carne para canhão no casino financeiro em que gente não muito diferente de nós (sim, «os mercados» são gente com nome, veias, desejos e pesadelos) transformou o mundo. E no mais íntimo dos seus pesadelos, esta gente sabe o quão extraordinariamente simples pode ser transformá-lo noutra coisa melhor — basta que deixemos de dar corpo à rede de resignação e apatia que lhes ampara os golpes especulativos com que expropriam todos os pilares da vida humana: o trabalho, a natureza, a água, os alimentos, os serviços públicos que garantem o acesso universal à saúde, à educação, ao transporte, à informação e à cultura.
É por tudo isto, e muito mais, que no dia 15 vou dizer à Troika & friends que se vão lixar. Quero a minha vida, uma entre tantas. No mínimo, exijo que saibam que destruírem-nos não é alternativa que eu esteja disposta a aceitar. Quero estar na rua com gente que pensa e age por muitas alternativas, diferentes e não necessariamente compatíveis, mas unida por uma vontade comum: a de não ser cúmplice neste processo extraordinariamente violento em que nos vão roubando a capacidade de querer muito mais do que o mínimo dos mínimos: as nossas vidas. Vamos fazer algo de extraordinário: resgatá-las. Dia 15, em Lisboa e Madrid. Para já.
MARIANA AVELÃS
que não nos chega para viver, o médico a que deixámos de ir ou que deixámos de ter, a segurança de planear o futuro, o limiar de esperança de que as nossas vidas poderiam desaguar em novas vidas mais felizes, num quotidiano em que todas as gerações que somos se entreajudam, para que velhos e novos olhem para as suas vidas como algo que vale a pena viver e partilhar.
Aqui, na Grécia, ou em Espanha, ou em qualquer parte, quando há gente que se mata por desespero, e ainda nos acusam de viver acima das nossas possibilidades, a lengalenga é sempre a mesma. A austeridade só funciona para os abutres que enchem o bagulho da miséria alheia, como só não vê quem não quer. Mas quando nos dizem que é legítimo privatizar o que todos construímos para que o lucro seja a medida de todas as coisas, não são «eles» que nos roubam as nossas vidas: somos nós que as damos de mão-beijada. E isso é que é extraordinário. Quietos, mansos e isolados, somos carne para canhão no casino financeiro em que gente não muito diferente de nós (sim, «os mercados» são gente com nome, veias, desejos e pesadelos) transformou o mundo. E no mais íntimo dos seus pesadelos, esta gente sabe o quão extraordinariamente simples pode ser transformá-lo noutra coisa melhor — basta que deixemos de dar corpo à rede de resignação e apatia que lhes ampara os golpes especulativos com que expropriam todos os pilares da vida humana: o trabalho, a natureza, a água, os alimentos, os serviços públicos que garantem o acesso universal à saúde, à educação, ao transporte, à informação e à cultura.
É por tudo isto, e muito mais, que no dia 15 vou dizer à Troika & friends que se vão lixar. Quero a minha vida, uma entre tantas. No mínimo, exijo que saibam que destruírem-nos não é alternativa que eu esteja disposta a aceitar. Quero estar na rua com gente que pensa e age por muitas alternativas, diferentes e não necessariamente compatíveis, mas unida por uma vontade comum: a de não ser cúmplice neste processo extraordinariamente violento em que nos vão roubando a capacidade de querer muito mais do que o mínimo dos mínimos: as nossas vidas. Vamos fazer algo de extraordinário: resgatá-las. Dia 15, em Lisboa e Madrid. Para já.
MARIANA AVELÃS
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Que se Lixe a Troika! Queremos as nossas Vidas!
Esta manifestação é uma forte crítica à falta de controlo que temos internamente sobre a nossa economia e sobretudo sobre a nossa gestão. Como filho e neto de metalúrgicos da seriedade, de mestres de obra de humildade, de professores e professoras da liberdade, como humano em constante missão humanitária.. contribuo quotidianamente para tentar garan
tir que temos mais justiça neste mundo.. e foi por isso que em poucos segundos assinei este manifesto e fiquei lado a lado com todos os portugueses e portuguesas que exigem uma vida mais digna, um presente mais humano e um futuro mais sustentável. Todos os dias suamos nos nossos trabalhos para alimentar as máquinas que no final do mês nos pagam, máquinas que são controladas por mais máquinas, avaliadas por outras máquinas e auditadas por calculadoras (mais ou menos humanas) que nos dizem quanta gente se tem de despedir para aumentar o lucro da crise.. Quem é esta Troika que manda em nós? Quanta gente desta Troika já trabalhou numa linha de montagem, ou cultivou um campo, ou fez um poema a falar de amor? Que gente é esta? que medidas são estas? que medidas são estas que são tomadas por entidades que se baseiam em números, em tabelas, e não conhecem a realidade, as vivências, as dificuldades de quem está dentro de um sistema que continuamente é cego em relação às questões sociais ou humanas. Estamos todos os dias prontos e prontas para participar, para exigir tanto como exigem de nós, porque somos um coro de vontades numa maré imparável de esperanças. Queremos contribuir. Queremos participar nesta cidadania, mas que toda esta participação e esta contribuição seja justa, tenha uma base de igualdade e que nós, democraticamente sejamos donos e donas deste país e de todo o potencial que ele tem e que não é explorado.
A participação massiva só acontecerá se de facto as pessoas se sentirem afectadas.. por esta amálgama de afectos..
Dia 15 de Setembro só podemos ter o que quisermos ser. Somos cidadãos e cidadãs humanamente dispostos a lutar pela justiça, a lutar pela igualdade e a defender os interesses de todo este Portugal.
BRUNO G. M. NETO, Coordenador Incidência Política e Desenvolvimento Comunitário Médicos del Mundo
tir que temos mais justiça neste mundo.. e foi por isso que em poucos segundos assinei este manifesto e fiquei lado a lado com todos os portugueses e portuguesas que exigem uma vida mais digna, um presente mais humano e um futuro mais sustentável. Todos os dias suamos nos nossos trabalhos para alimentar as máquinas que no final do mês nos pagam, máquinas que são controladas por mais máquinas, avaliadas por outras máquinas e auditadas por calculadoras (mais ou menos humanas) que nos dizem quanta gente se tem de despedir para aumentar o lucro da crise.. Quem é esta Troika que manda em nós? Quanta gente desta Troika já trabalhou numa linha de montagem, ou cultivou um campo, ou fez um poema a falar de amor? Que gente é esta? que medidas são estas? que medidas são estas que são tomadas por entidades que se baseiam em números, em tabelas, e não conhecem a realidade, as vivências, as dificuldades de quem está dentro de um sistema que continuamente é cego em relação às questões sociais ou humanas. Estamos todos os dias prontos e prontas para participar, para exigir tanto como exigem de nós, porque somos um coro de vontades numa maré imparável de esperanças. Queremos contribuir. Queremos participar nesta cidadania, mas que toda esta participação e esta contribuição seja justa, tenha uma base de igualdade e que nós, democraticamente sejamos donos e donas deste país e de todo o potencial que ele tem e que não é explorado.
A participação massiva só acontecerá se de facto as pessoas se sentirem afectadas.. por esta amálgama de afectos..
Dia 15 de Setembro só podemos ter o que quisermos ser. Somos cidadãos e cidadãs humanamente dispostos a lutar pela justiça, a lutar pela igualdade e a defender os interesses de todo este Portugal.
BRUNO G. M. NETO, Coordenador Incidência Política e Desenvolvimento Comunitário Médicos del Mundo
É Uma Coisa Tremenda o Que nos Está a Acontecer
E quando uma coisa tremenda acontece e essa coisa é mesmo a sério não choramos. Quando uma coisa tremendamente monstruosa nos acontece e essa coisa não é só nossa, mas arma silenciosa que dispara nas cabeças de tantos outros e outras como nós, não nos atiramos à noite de uma ponte para o fim do medo. Ficamos sim com muita vontade de não estarmos so
zinhos. Reaparecem-nos desejos antigos adormecidos que lentamente foram sendo amaldiçoados, roubados, achincalhados: o desejo de colectivo, de irmandade, de semelhança, como se saíssemos de um longo sono embalado na tranquilidade de uma vida feita à medida. Acumulando sonhos que nos foram vendendo, carros e casas, férias na República Dominicana, coisas inúteis como dez pares de sapatos mais a graxa para os sapatos, pílulas para emagrecer, pílulas para adormecer e licenciaturas e mestrados e doutoramentos e pílulas para enganar o vazio de cada uma destas vidas nunca desmedidas, fomos esquecendo (para este sistema de exploração de vidas a memória é comportamento perigoso). Fechámo-nos a sete chaves no cubículo-minha-casa e começámos a acreditar que este é o único modo de vida possível e que o nosso sistema é infalível e melhor do que todos os outros e que se calhar até é eterno, só pode ser, sempre houve bancos e companhias de seguros, ou não? E se existem é porque nos fazem falta e até nos ajudam, o que seria de nós sem eles? E quem não é como nós tem de ser, temos de os obrigar a serem felizes como nós nem que seja à bomba, que se lixem os danos colaterais. A paranóia do consumo sempre directamente proporcional à paranóia securitária e eu existo e o meu vizinho é estranho e tenho medo dele e se algum sentimento mais próximo posso ter será sempre o da inveja. Também o medo da diferença que, com habilidade e depressa se transforma em ódio. Aguçaram-nos o engenho de “descubra a diferença em 10 segundos”: diferença de cheiros, comidas e paladares, diferença da opção sexual, da música, da fala e a diferença passou a coisa estranha e o que é estranho é inimigo. E assim fomos ficando sozinhos, olhos abertos iluminados, não por aquela luz que vem de dentro e que atravessa as coisas e a história de trás para a frente, mas uma luz fria azulada que vem de fora e nos empalidece o corpo todo, a luz fria dos écrans da TV, do computador e uma única parte do corpo a desenvolver-se, ágil e cumpridora, o dedo indicador dos "like like like". Escravos do século XXI sem direito a cama e a comida. Sem direito sequer a deitarmo-nos no chão sobre a terra porque gente como deve ser tem de ter cama e é preciso uma cama e aquela do Ikea, viste? E o colchão? Tem de ser ortopédico… mas deixam pagar a prestações… eu usei o cartão de crédito… Escravos do século XXI sem direito a uma malga de arroz e couves arrancadas da terra porque nem terra já temos e é preciso a rúcula… e as fibras? Esse iogurte é grego?
Escravos do século XXI deambulando pelas ruas, olhos de fome, chão frio dos passeios cobertos de cartão e jornal, excluídos, não-gente, zeros-à-esquerda, eles não querem é trabalhar, merda de gente… Escravos do século XXI em filas adormecidas na esperança de um trabalho porque os miúdos começaram já a chorar à noite agarrados ao estômago, e aceito seja o que for, 400 euros já davam jeito, sem contrato? o que é que se há-de fazer? pode ser, há um ano que procuro. não há nada? Tiro solitário no meio da testa, corda pendurada no sobreiro, a planície sozinha, tu sozinho, os teus filhos sozinhos, a tua vida pequenina, sem nunca teres percebido que ela era grande e única e possível.
Uma coisa tremendamendamente monstruosa está há muito tempo a acontecer e é agora uma besta de dentes de fora e está mesmo à nossa frente. Uma besta com cara (muitas caras) e nome (muitos nomes) e com contas nas ilhas Caimão morde-nos há muito tempo a carne, dilacera-nos a vida: o capitalismo, o capitalismo financeiro travestido de FMI, BCE, GOLDMAN SACHS, etc. consoante a tática do roubo, da invasão, da expropriação, de uma guerra que não é nossa.
E oiço-te dizer: já não acredito em manifestações, não dá em nada. E eu quero dizer-te: tenho saudades de estar contigo e quero saber o teu nome. Esta multidão não é um punhado de gente, cada um, cada uma tem um nome. Esta multidão é um somatório de braços e mãos e vozes que pode realmente transformar quando todos e todas percebermos e declararmos com a fúria da razão que é nossa: as ruas, a terra, os rios são nossos. O serviço nacional de saúde, a televisão pública, a água, as escolas são nossos. Nós pagámo-los e ninguém pode, assim, só porque dá jeito a um bando de criminosos, destruir e fazer o que lhe apetecer com o que é meu, com o que é nosso. A força do trabalho é a minha força. Que se lixe a Troika!
É uma coisa tremenda o que está a acontecer e precisamos urgentemente de fazer qualquer coisa de extraordinário.
ANA C. GONÇALVES
zinhos. Reaparecem-nos desejos antigos adormecidos que lentamente foram sendo amaldiçoados, roubados, achincalhados: o desejo de colectivo, de irmandade, de semelhança, como se saíssemos de um longo sono embalado na tranquilidade de uma vida feita à medida. Acumulando sonhos que nos foram vendendo, carros e casas, férias na República Dominicana, coisas inúteis como dez pares de sapatos mais a graxa para os sapatos, pílulas para emagrecer, pílulas para adormecer e licenciaturas e mestrados e doutoramentos e pílulas para enganar o vazio de cada uma destas vidas nunca desmedidas, fomos esquecendo (para este sistema de exploração de vidas a memória é comportamento perigoso). Fechámo-nos a sete chaves no cubículo-minha-casa e começámos a acreditar que este é o único modo de vida possível e que o nosso sistema é infalível e melhor do que todos os outros e que se calhar até é eterno, só pode ser, sempre houve bancos e companhias de seguros, ou não? E se existem é porque nos fazem falta e até nos ajudam, o que seria de nós sem eles? E quem não é como nós tem de ser, temos de os obrigar a serem felizes como nós nem que seja à bomba, que se lixem os danos colaterais. A paranóia do consumo sempre directamente proporcional à paranóia securitária e eu existo e o meu vizinho é estranho e tenho medo dele e se algum sentimento mais próximo posso ter será sempre o da inveja. Também o medo da diferença que, com habilidade e depressa se transforma em ódio. Aguçaram-nos o engenho de “descubra a diferença em 10 segundos”: diferença de cheiros, comidas e paladares, diferença da opção sexual, da música, da fala e a diferença passou a coisa estranha e o que é estranho é inimigo. E assim fomos ficando sozinhos, olhos abertos iluminados, não por aquela luz que vem de dentro e que atravessa as coisas e a história de trás para a frente, mas uma luz fria azulada que vem de fora e nos empalidece o corpo todo, a luz fria dos écrans da TV, do computador e uma única parte do corpo a desenvolver-se, ágil e cumpridora, o dedo indicador dos "like like like". Escravos do século XXI sem direito a cama e a comida. Sem direito sequer a deitarmo-nos no chão sobre a terra porque gente como deve ser tem de ter cama e é preciso uma cama e aquela do Ikea, viste? E o colchão? Tem de ser ortopédico… mas deixam pagar a prestações… eu usei o cartão de crédito… Escravos do século XXI sem direito a uma malga de arroz e couves arrancadas da terra porque nem terra já temos e é preciso a rúcula… e as fibras? Esse iogurte é grego?
Escravos do século XXI deambulando pelas ruas, olhos de fome, chão frio dos passeios cobertos de cartão e jornal, excluídos, não-gente, zeros-à-esquerda, eles não querem é trabalhar, merda de gente… Escravos do século XXI em filas adormecidas na esperança de um trabalho porque os miúdos começaram já a chorar à noite agarrados ao estômago, e aceito seja o que for, 400 euros já davam jeito, sem contrato? o que é que se há-de fazer? pode ser, há um ano que procuro. não há nada? Tiro solitário no meio da testa, corda pendurada no sobreiro, a planície sozinha, tu sozinho, os teus filhos sozinhos, a tua vida pequenina, sem nunca teres percebido que ela era grande e única e possível.
Uma coisa tremendamendamente monstruosa está há muito tempo a acontecer e é agora uma besta de dentes de fora e está mesmo à nossa frente. Uma besta com cara (muitas caras) e nome (muitos nomes) e com contas nas ilhas Caimão morde-nos há muito tempo a carne, dilacera-nos a vida: o capitalismo, o capitalismo financeiro travestido de FMI, BCE, GOLDMAN SACHS, etc. consoante a tática do roubo, da invasão, da expropriação, de uma guerra que não é nossa.
E oiço-te dizer: já não acredito em manifestações, não dá em nada. E eu quero dizer-te: tenho saudades de estar contigo e quero saber o teu nome. Esta multidão não é um punhado de gente, cada um, cada uma tem um nome. Esta multidão é um somatório de braços e mãos e vozes que pode realmente transformar quando todos e todas percebermos e declararmos com a fúria da razão que é nossa: as ruas, a terra, os rios são nossos. O serviço nacional de saúde, a televisão pública, a água, as escolas são nossos. Nós pagámo-los e ninguém pode, assim, só porque dá jeito a um bando de criminosos, destruir e fazer o que lhe apetecer com o que é meu, com o que é nosso. A força do trabalho é a minha força. Que se lixe a Troika!
É uma coisa tremenda o que está a acontecer e precisamos urgentemente de fazer qualquer coisa de extraordinário.
ANA C. GONÇALVES
Não Temos Nada para nos Arrepender, a não Ser Termos Sido Complacentes com a nossa Própria Condenação
os
dias que correm, correm mal para a maioria das pessoas e por isso é
preciso fazer qualquer coisa de extraordinário e com carácter de
urgência. correm mal porque nem o verão soube a verão quando o
desemprego atinge 15% da população. falar de férias é mesmo um tema sem
sentido para muitos. e porque também para outros falar de férias é
lembrar expropriação de subsídios à margem dos acordos contrat
uais
e da constituição. correm mal porque diariamente as notícias são
verdadeiros arautos de uma guerra sem tréguas onde as pessoas parecem
ser apenas baixas necessárias para mercados desgovernados e governos
autistas. correm pior ainda os dias porque, entre privatizações
selvagens e negociatas mafiosas, na foto final ficam sempre os mesmos
rostos alinhados num sorriso cínico de tanta impunidade. e pior não
poderiam ser estes dias porque são igualmente maus e sombrios por onde
quer que o olhar se alinhe, tornando o planeta num lugar sem brilho, sem
vida, sem sentido. acresce que piores ficam os dias porque já nem a
arte e a cultura os pode iluminar, cansadas, encaixotadas e amarradas
que estão as mãos e o engenho que as podiam animar. e de mal em mal, nem
aos corpos é permitida a dor e o cansaço porque já não restam lugares -
que foram nossos, que são, na verdade, nossos - onde os corpos se
tratem, repousem, redimam. estes dias que correm, correm de facto mal
para a maioria, tão mal que nem parece possível evitar que corram tão
mal. que nem parece plausível que possam correr pior. mas sabemos que
tudo pode ainda correr pior. e é por isso que é preciso fazer algo de
extraordinário. algo que tem de ser feito porque não é possível estar
mais tempo neste inferno de cadáveres adiados. e algo de extraordinário
passa por conseguirmos sair das nossas feridas temporárias, das nossas
rixas domésticas, das nossas fraturas vicinais e acertarmos o passo na
caminhada que se impõe fazer sem demora. urgente é a vida. e urgente são
as coisas extraordinárias quando os dias correm mal. e essa urgência
não é a de voltarmos atrás, sob a ilusão de que antes estavamos bem, mas
antes a de avançarmos para uma outra coisa. essa coisa extraordinária
que é a repartição justa da riqueza, a partilha do comum, a garantia da
igualdade e da equidade e garantia da liberdade. por isso me junto aos
que sentem que é preciso dar um sinal firme, um sinal de indignação, um
sinal de criação de dias diferentes. que se lixe a Troika (e os governos
a seu mando). estes são apenas o carrasco desse abismo que se chama
capitalismo selvagem e que se acoitou numa democracia corrupta e
fragilizada…é preciso sobressaltá-la, agitá-la e trazê-la à superfície.
em todos os lugares porque é de todos os lugares esta podridão
instalada. é urgente tomar conta dos dias, que são afinal nossos,
sempre foram, apenas nos temos esquecido disso embalados pelo canto da
sereia que são os mercados, os ratings, os memorandos, as medidas
expecionais, as golpadas palacianas. e portanto, é preciso fazê-lo aqui,
em Lisboa, mas também ali no país, e acolá pela Europa, e lá longe, em
todo o planeta. é preciso fazer coisas extraordinárias globalmente.
porque é preciso interromper este tempo de coisa nenhuma, suspender o
malefício destes dias sombrios, abortar esta avalanche de futuro anulado
que a austeridade de políticos e a ganância de banqueiros e
especuladores nos trouxe para última refeição. sentença macabra
sustentada numa crise bem modelada por mãos sinistras e hábeis de
responsáveis escondidos em gabinetes por entre dolares, euros, guerras e
petróleos, defendidos por cacetetes e leis que só a eles obedecem, que
só a eles interessam. Mas quem é que foi aqui condenado?! Não cometemos
crime algum! Não temos nada para nos arrepender, a não ser termos sido
complacentes com a nossa própria condenação. E por isso, dia 15 de
Setembro estarei nas ruas para fazer coisas extraordinárias com todos
aqueles que desejam que os dias sejam diferentes. Extraordinariamente
diferentes.
PAULO RAPOSO, antropólogo, professor universitário e activista.
PAULO RAPOSO, antropólogo, professor universitário e activista.
Porque Saio à Rua no Dia 15 de Setembro?
É simples. Saio porque um país não é um redil de gente em saldo, mas um conjunto de cidadãos, e a rua é o primeiro espaço da sua expressão. Saio porque um técnico de discurso vagaroso que disserta sonolento sobre inevitabilidades não consegue fazer-me esquecer que uma sociedade humana é uma coisa política e que todas as escolhas nela e para ela feitas sãopolítica. Saio porque a democracia é um organismo vivo que precisa de mim para reagir às estocadas violentas e sucessivas que tem recebido desta União Europeia e destes governos que estranhamente continuamos a eleger. Saio porque a democracia é muito mais que um boletim de voto e umas meras formalidades. Saio porque o serviço público de televisão, a água, a energia, a estrutura social solidária que tanto nos custou a construir, o serviço de saúde imperfeito e ainda assim exemplar que conseguimos, a educação pública com seriedade e qualidade, a liberdade de expressão, o direito ao trabalho, a justiça fiscal e social, são parte de mim-cidadã e precisam que também eu os defenda. Saio porque sei que os países com mais “empreendedores” são precisamente Portugal, Espanha, Grécia, Itália, Irlanda, e eu não caio em contos da carochinha. Saio porque não preciso necessariamente de doutores nos cargos públicos, mas preciso de gente competente, honesta e inteligente, que me oiça e que governe para mim e comigo e não veja a coisa pública como um ponto privilegiado para o saque às populações. Saio porque sou anti-colonialista e o meu país está a ser tratado como um protectorado colonial, pronto a ser sugado e seco de gente e de vida. Saio porque um país não é o extracto bancário e os off-shores de meia-dúzia de famílias, mas as pessoas que lhe dão carne. Não carne para canhão, mas carne para viver e construir. Saio pela paz, pelo pão, pela habitação, a saúde e a educação. Saio porque não quero dizer aos meus filhos que foi pela minha inacção que eles não receberam um país para viver e respirar. Saio por mim. Porque não serei cúmplice desta destruição diária de vidas em nome da ganância, da falta de democracia do processo europeu, da ideologia de retrocesso e exploração que passa por ciência exacta e dogma ideológico. Saio porque a economia é política e uma economia que não serve os cidadãos não serve para nada. Saio porque quero fazer a minha parte. E a minha parte começa na rua.
JOANA MANUEL, actriz
É Realmente Preciso Agir – e cá por mim Vale Tudo, se no Respeito pela Democracia
Acredito em alternativas às medidas de austeridade repetitivas e empobrecedoras, mas aqueles que, na oposição, nos representam, conhecem-nas e parecem paralisados. Semeiam palavras gastas, numa semeadura desencontrada, sem rega nem colheita.
Demos, então, a voz a grupos de cidadãos.
Alguém me diz: «Este silêncio m
ata-nos. O ruído do sistema mediático dominante ecoa no silêncio, reproduz o silêncio, tece redes de mentiras. É preciso fazer qualquer coisa contra a submissão e a resignação, contra o afunilamento das ideias, contra a morte da vontade colectiva. Contra a inevitabilidade desta morte imposta e anunciada é preciso fazer qualquer coisa de extraordinário».
Fui permeável a estas vozes ao alto, no papel. Sem hesitar – porque confio nesta gente, num seu desalinho alinhado – vou com eles, na tarde de 15 de Setembro. Em manifestação, pois. Poderá não ser nada de extraordinário, mas eu já não consigo continuar sentada neste final de Verão, a ver a «Troika» passar.
HELENA PATO
Demos, então, a voz a grupos de cidadãos.
Alguém me diz: «Este silêncio m
ata-nos. O ruído do sistema mediático dominante ecoa no silêncio, reproduz o silêncio, tece redes de mentiras. É preciso fazer qualquer coisa contra a submissão e a resignação, contra o afunilamento das ideias, contra a morte da vontade colectiva. Contra a inevitabilidade desta morte imposta e anunciada é preciso fazer qualquer coisa de extraordinário».
Fui permeável a estas vozes ao alto, no papel. Sem hesitar – porque confio nesta gente, num seu desalinho alinhado – vou com eles, na tarde de 15 de Setembro. Em manifestação, pois. Poderá não ser nada de extraordinário, mas eu já não consigo continuar sentada neste final de Verão, a ver a «Troika» passar.
HELENA PATO
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