quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Única Inevitabilidade É a Mudança


A injustiça diária a que os portugueses são sujeitos é apresentada como inevitável, mas os grandes momentos de crise são precisamente os momentos em que um país deve recordar os valores fundamentais da justiça, da solidariedade e da igualdade. O actual governo não compreende isso. É essa a razão pela qual acredito que este governo já não é deste país. Dia 15 de Setembro, sei que muitos portugueses vão sair à rua porque acreditam que a única inevitabilidade é a mudança.

TIAGO RODRIGUES

Rio de Multidāo Lutando com a História na Māo

Ontem à noite, o meu filho, antes de se deitar, veio ter comigo e disse-me, com aquele ar gozão que eu conheço tão bem e que ele usa sem se dar conta para atenuar emoções demasiado intensas: "Mãe, estou muito orgulhoso de ti e dos teus amigos marginais que passam a vida a tentar mudar o país.''
E eu, tantas vezes preguiçosa, tantas vezes displicente, eu que tantas vezes tenho vivido abaixo das mi
nhas capacidades, eu, que tantas vezes tenho deixado a cozinha por limpar e o carro por aspirar, que tenho deixado textospara escrever amanhã, que tenho até chegado a pensar que mais vale arrumar as botas, eu verifico que nesta simples frase está tudo. Tudo.
O orgulho do meu filho. Da minha filha. Tudo o que eu quero. Tudo o que eu preciso. É por eles que saio à rua. Por eles continuo a levantar-me todas as manhās para trabalhar de olhos fechados num emprego que detesto e que nada tem a ver comigo. Por eles adio o meu sonho vezes sem conta. Por eles cometo a incoerência de prosseguir alimentando um sistema que abomino e que nos está a destruir, a mim, a eles e a ti que me lês, talvez.
Mas ele tem orgulho em mim, muito, foi o que ele disse. E eu orgulho-me que ele se orgulhe de mim. Que mais pode querer uma māe?
Que mais pode querer? Pode querer muito. Pode querer tudo. Menos que isso é desistir do mundo. É desistir da vida. E eu nāo desisto. Há quem queira, quem tudo faça para que eu desisto, mas nāo, eu nāo. Os meus filhos merecem o mundo que eu sonhei. Eu mereço o mundo que sonhei. O que me foi prometido. Eles merecem crescer acreditando que vāo ser felizes, como eu cresci. Acreditando que vāo realizar os seus sonhos, como eu cresci. E para isso bater-me-ei todos os dias da minha vida.
Os meus amigos. O Luis que está na prateleira. O Joāo que foi despedido. O Miguel que queria ser actor e que todos os dias afoga a frustraçāo num mar de cerveja.
As minhas amigas. A Sara que está desempregada. A Rita que se mata a trabalhar. A Inês que queria montar um pequeno negócio. A Mariana que está doente e nāo pode parar para se tratar porque se o fizer nāo terá como dar de comer à filha.
Tanto talento, tanta energia desperdiçados. Tanta gente a viver abaixo, abaixo das suas expectativas, abaixo das suas necessidades, abaixo das promessas com que crescemos. Abaixo.
Marginais. É verdade. Somos marginais. Nāo queremos trabalhar. Nāo queremos trabalhar sem os direitos pelos quais morreram os nossos antepassados. Nāo queremos trabalhar até cairmos de exaustāo. Nāo queremos trabalhar até morrermos de velhos sem termos vivido. Nāo queremos trabalhar em ambientes podres, doentes, doentios, que nos cortam as asas, a criatividade, a motivaçāo. Nāo queremos trabalhar a troco de salários miseráveis, nem a troco de talões de supermercado. Nāo queremos trabalhar 60 horas por semana. Nāo queremos trabalhar para criar a riqueza com que os patrões se banqueteiam à nossa conta enquanto nós contamos os cêntimos. Nāo queremos só comida, queremos comida, diversāo e arte, queremos a imaginaçāo ao poder, queremos o descrescimento. Sim, somos marginais. Somos marginais porque pensamos à margem. Somos marginais porque somos mantidos à margem. Marginais porque as margens nos comprimem. Marginais mas nāo violentos. Apenas queremos mudar o país, disse ele. Mudar o mundo. Mudar.
Mudar. Mudar-nos. Mudar para dentro, mudar para fora. Mudar para melhor, porque para pior já basta assim. Mudar porque é possível. Porque é preciso. Porque é urgente. Porque é devido. Sábado saio à rua. Sábado começo a mudar o país. Sábado começo a mudar o mundo. Sábado reclamo a minha vida. A dos meus filhos. A dos meus pais. A dos meus amigos. A tua. Sábado deixo de ser marginal, deixo de ser margem, torno-me rio. Rio de multidāo lutando com a história na māo. Sábado quero encontrar-te. Vens?

MYRIAM ZALUAR

Não Quero Deixar aos Meus Filhos um País de Novos-ricos que Dão Trabalho a Novos Escravos

Herdei um país feito de suor, de alma, de luta, de sangue, um país que me foi deixado pelo meu pai. Pelos pais de nós todos.
Sou, hoje, pai. Não posso deixar um país pior aos meus filhos. Não posso nem quero, pelo amor que sinto por eles, pelo futuro que merecem ter, também por respeito à geração anterior.
Não quero deixar aos meus filhos um país de novos-ricos que dão trabalho a novos escravos.
Escravos calados, escravos medrosos, escravos que temem, que falam baixo, que olham para o chão. Um país do respeito medo, do calado medo, do medo identidade. Do medo. Um país da caridade, e não da resposta solidária. Um país em que as pessoas estendem a mão, e não onde as pessoas agarram o que é seu por direito, um direito conquistado como seres humanos que todos os dias se levantam para uma vida de luta e de trabalho.
O nosso País não pode mais ser visto lá fora com o desdém que se olha com os que se satisfazem e docilizam com o elogio fácil, o elogio que nos faz ficar em casa pois é o que os bem comportados fazem. Não foi por isso que fomos conhecidos antes, não é por isso que seremos conhecidos agora!
Temos um governo que nos está a desafiar para sair à rua. Um desafio para mostrarmos a massa de que somos feitos. Este governo desafia-nos, olhos nos olhos. Desafia-nos nas palavras e nos actos! Não podemos mais olhar para o lado. Está na hora de, também nós, os olharmos nos olhos. Olhar nos olhos um governo que se esconde atrás da troika. Um governo que se esconde atrás da culpa de outros, a liturgia gasta da pesada herança, nunca a culpa é deles. Um governo que falha, erra, mente, mas que nos quer convencer que sempre disse a verdade e nada mais do que a verdade.
Um Primeiro-ministro que às 7:20 da tarde “sofre” enquanto fala ao país, mas que às 8 já canta, não me merece respeito.
Abriram a porta do nosso país a uma quadrilha de agiotas que nos veio saquear e pilhar, não vieram ajudar.
O mais perigoso ladrão é o que entra em nossa casa pela porta de frente, convidado, como se fosse nosso amigo. Um amigo não cobra 34,4 mil milhões por um empréstimo de 78 mil milhões!! A agiotagem travestida de solidariedade. E é suposto agradecermos!
Pelo menos permitam-nos que chamemos os bois pelos nomes! E é isso que faremos no próximo dia 15 de Setembro. Recuperar a nossa dignidade, o nosso orgulho, as nossas vidas que estão sob sequestro, por parte desta gente sinistra que entrou em nossa casa, convidada por gente ainda mais sinistra.
Mudança? Talvez começar por eleger Portugueses que governem a pensar no bem estar de nós todos, e não governem no intereresse da oligarquia arrogante, parasita, mais ou menos oculta, que nos governa desde sempre. Seria, finalmente, um bom começo. Esse será o amanhã pelo qual todos teremos que lutar!
Não é hora de ficar em casa. Espero ter muita gente na rua no próximo dia 15. Mas mesmo que sejamos poucos, vamos insistir, insistir, insistir até ao dia em que seremos muitos, o dia em que eles não vão conseguir deixar de nos ver!
Olhei para o lado, e vi gente com alma, gente ao lado da qual me orgulho de caminhar. Junta-te a nós!

RICARDO MORTE

CHULLAGE: Que se Lixe a Troika

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Percurso / Troikistas / Tachos e buzinas

No próximo sábado seremos muitos milhares nas ruas e praças de todo o país. Acordámos e não mais os deixaremos descansar.

Percurso | A manifestação do em Lisboa partirá da Praça José Fontana, descendo a Avenida da República e passando pela representação permanente da troika, a meio da avenida. Seguiremos pela Avenida de Berna, terminando na Praça de Espanha. Esta praça, além do seu tamanho que permitirá receber em segurança as muitas pessoas esperadas, é onde se encontra a reisdência oficial do embaixador de Espanha, país em que, no mesmo dia, milhares se juntarão também nas principais cidades para contestar as medidas de austeridade e a troika, constituindo portanto esta data um protesto ibérico contra a troika, um protesto inédito quer pelas suas dimensões quer pelas suas características, e que tudo leva a crer será um ponto de viragem na nossa História recente.
Que se lixem os troikistas | A troika, sendo o principal motor de todas as medidas de austeridade, não está sozinha e utiliza os governos como o de Passos Coelho, Vítor Gaspar e Miguel Relvas para impor a nível nacional as medidas de destruição das nossas vidas. Estabelecemos uma linha. Que se lixe a troika mas que se lixem os troikistas também. Que se lixe a troika e qualquer governo que queira governar com a troika e a austeridade. Passos e Gaspar, mais troikistas que a troika, são fantoches bem-mandados que executam as ordens vindas do FMI, BCE e Comissão Europeia. Não servem.
Tachos e buzinas | Pedimos a todas e todos os participantes que no dia 15 tragam tachos e colheres de pau para a manifestação, para realizarmos a maior caçarolada da história do país e que a nossa indignação e a nossa força ecoem bem alto nas ruas do país. A quem não possa participar na manifestação apelamos a um buzinão nacional a partir das 17h, contra a troika, contra os troikistas e pelas recuperação das nossas vidas.
Dividiram-nos para nos oprimir. Juntamo-nos para nos libertarmos. Está na hora de algo extraordinário.

QUE SE LIXE A TROIKA! QUE SE LIXEM OS TROIKISTAS!
QUEREMOS AS NOSSAS VIDAS!

Extraordinariamente Convicta: Que se lixe a Troika , Queremos as nossas Vidas.

Há 2, 3 anos seria para mim quase impensável ser uma das pessoas que apela a uma manifestação com o lema “que se lixe a troika”, que fala em “saque”, “lei da selva” ou cujo texto de apelo termina com “Dividiram-nos para nos oprimir. Juntemo-nos para nos libertarmos”. Participaria, mas apelar e dar a cara por uma manife
stação com essa “retórica”? Muito dificilmente. Porque acharia que era um discurso demasiado forte, exagerado, contraproducente, talvez até demagógico. Hoje, não só não acho, como o acho fundamental, pura e simplesmente porque ele corresponde à verdade e a uma necessidade. Tudo o que fui lendo e questionando, aprendendo, partilhando, observando, vivendo mostra-me que ele é cruelmente certeiro e que deve, por isso mesmo, ser dito, sem meias tintas nem hesitações. Esta “crise” que estamos a viver não é mais do que parte integrante de um sistema que brinca com as nossas vidas, as vidas da grande maior parte de nós, e que pretende continuar a fazê-lo sem qualquer pudor ou vergonha. Se nós deixarmos.
Vim para Portugal há 11 anos. Não estava nada nos meus planos ficar por terras lusas mas acabei por ficar. Lembro-me de ter entrado para a Universidade de Coimbra em 2001 e de, na altura, ter ficado particularmente perplexa com o facto de o valor das propinas ser mais elevado do que aquele que pagava em França, país em que a média dos salários já era mais de duas vezes superiores aos portugueses. Propinas, custos relacionados com o acesso e a frequência do ensino superior para os quais os apoios sociais existentes ficavam, já então, muito abaixo dos existentes no país onde eu tinha nascido e vivido. Hoje, essa desigualdade agravou-se. E esta é apenas uma de entre muitas. Recorrentemente, pessoas da minha família e pessoas amigas residentes em França questionavam a minha decisão de optar por viver em Portugal, país diziam (e bem pois..) com “salários tão baixos”, com “poucas oportunidades no mercado de trabalho”, com um “baixo nível de vida”, com, com, com. Estranho. Ao que parece, pelo que nos andam constantemente a apregoar, essas realidades eram e são compatíveis com o termos “vivido acima das nossas (poucas) possibilidades”. Alguns viveram pois, mas não são com certeza a grande maioria daqueles e daquelas que estão a pagar, e muito caro, por uma crise que não criaram. Estranho. Agora é o Governo que me manda emigrar de novo.
Estranho. Se continuar a querer viver aqui é suposto, enquanto jovem, aceitar e achar natural, “inevitável”, que o meu presente e o meu futuro oscilem entre o desemprego, o sub emprego, a precariedade, os baixos salários, a desprotecção laboral e social, o não conseguir poupar o que quer que seja e ter de recorrer, ad eternum, ao meu pai e à minha mãe quando aparece uma factura maior ou uma despesa inesperada. Se continuar a querer viver aqui é suposto achar natural e “inevitável” um/a jovem ter de adiar constantemente o seu projecto de constituir família, adquirir a sua autonomia, resignar-se a trabalhar a qualquer custo e em qualquer lugar porque, já se sabe, “é melhor isso do que nada”.
Estranho. Enquanto mulher é suposto aceitar, achar natural e “inevitável” que me despeçam, me recusem um emprego ou o acesso a determinado posto por ser… mulher, poder vir a engravidar, ousar pensar em ter crianças ou ser mãe. É suposto aceitar, achar natural e “inevitável” ter, por ser mulher, muito mais probabilidades de aceder a um emprego precário, de trabalhar na economia informal, ou de receber um salário inferior ao que auferiria se fosse um homem. É suposto também tolerar que uma mulher que seja vítima de violência doméstica, e são muitas, não consiga sair de uma relação violenta por não ter autonomia económica, autonomia profundamente prejudicada pelas várias e consecutivas medidas de austeridade que foram e são tomadas. É suposto aceitar, achar natural e “inevitável” que às mulheres seja pedido para regressar ao lar, para serem mães, educadoras, cuidadoras da casa e que assegurem todos os serviços - a saúde , a educação, a protecção social - nos quais o Estado tem, brutalmente, cortado. E é suposto aceitar e achar natural e “inevitável” que, associado às políticas neoliberais, esteja um discurso profundamente conservador pretendendo novamente tutelar os nossos corpos e a nossa autodeterminação .
Estranho. Enquanto filha de emigrantes que saíram de Portugal e entraram ilegalmente em França para fugir da miséria à procura de oportunidades para as suas vidas, as vidas das suas famílias e as das crianças que queriam ter, é suposto aceitar, achar natural e “inevitável” que quem procure fazer o mesmo em Portugal, legal ou ilegalmente, seja tratado como descartável , pessoa a usar quando e para o que precisamos e que se despreza, se violenta, quando já não dá jeito - como estão aliás neste momento a ser tratados/as vários portugueses e portuguesas que emigraram com o eclodir desta “crise”.
Estranho é ter de tomar tudo isto, e muito mais, como inevitável. À excepção da morte - que muitas pessoas verão de resto antecipada com estas medidas que, como todos os indicadores o comprovam, só nos empobrecem, nos retiram direitos essenciais, nos afundam na recessão, nos empurram para um túnel sem luz à vista - nada é inevitável. É tudo fruto de relações de poder, relações de força, interesses, perspectivas, escolhas.
Enquanto jovem, filha de emigrantes, mulher, feminista, cidadã, pessoa: inevitável é denunciar e recusar o que nos apresentam como inevitável. A nós e ao povo grego, espanhol e à maioria das pessoas por esse mundo fora. “Inevitavelmente” tenho o dever de mandar lixar isso tudo e de querer e de exigir a minha , as nossas vidas.

MAGDA ALVES

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Destroika - MITOS E DESMITOS DA TROIKA Mito #2: Temos de Cumprir nos nossos Compromissos

É Preciso Gritar. No dia 15 de Setembro, quem Ficar Calado não Tem Razão

Assistir ao trabalho dos criados do capital é deprimente, mas a falta de esperança é irmã gémea da falta de coragem. As razões para a indignação são demasiadas. É preciso gritar. No dia 15 de setembro, quem ficar calado não tem razão. JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Democracia Concessionada

Em entrevista à TVI no passado dia 23 de Agosto, António Borges, conselheiro do governo para as privatizações, afirmou que considerava «muito atraente» a possibilidade de concessionar a RTP1 a investidores privados, cenário que seria acompanhado da extinção da RTP2. As declarações do ex-director do departamento para a Europa do Fundo Monetário Internacional (FMI) e ex-vic
e-presidente do Golman Sachs International tiverem o condão de trazer para o debate público e mediático questões que há muito deviam suscitar a atenção dos cidadãos.
Essas questões não se prendem apenas com o serviço público de rádio e televisão – ainda que a sua defesa seja urgente e exija um empenhamento de cidadania, que seja crítico e capaz de escrutinar a qualidade e a boa administração de um serviço que tem de assegurar o direito constitucional à informação. Com efeito, as declarações de António Borges, o mesmo que já nos disse que o desemprego é uma grande oportunidade e que é urgente baixar ainda mais os salários, vieram mostrar um quadro ideológico e de funcionamento que tem vindo a nortear a destruição de todos os serviços públicos. E vieram também ilustrar uma transformação que está a ocorrer ao nível da natureza do regime democrático, que parece ter sido, ele próprio, objecto de uma concessão a interesses privados. Em tempos de austeroliberalismo, a democracia converteu-se numa democracia concessionada.
Este será, sem dúvida, um regime «muito atraente». Mas não para a maioria da população. Com o desmantelamento dos serviços públicos, e seja qual for o regime jurídico que é encontrado para cada caso (privatização, concessão, parceria público-privado, etc.), o que está a acontecer é uma transferência sem precedentes de recursos públicos para um capitalismo de rentistas e especuladores financeiros que operam à escala nacional e global. E é também um desapossamento dos instrumentos imprescindíveis para servir a população e garantir o direito aos vários bens públicos (informação, água, saúde, educação, habitação, segurança social, etc.).
Esta transferência ocorre ao mesmo tempo que está a ser imposto ao mundo do trabalho um aumento brutal da exploração: diminuição de salários e das indemnizações em caso de despedimento, aumento e desregulação do tempo de trabalho, ataque à contratação colectiva e outras conquistas sindicais, crescente precariedade e desemprego, etc. E acontece a par da redução, senão supressão, de formas de protecção social (subsídios, abonos, etc.) sem as quais não pode haver coesão social.
Se conjugarmos todas estas transformações que se verificam na sociedade portuguesa – um dos mais nítidos balões de ensaio do projecto austeroliberal –, não é difícil perceber que, apesar de formalmente vigorar um regime que tem na soberania popular a sede da sua legitimidade, na verdade foram-lhe retirados os instrumentos para poder executar o que deviam ser as suas missões fundamentais. Quais são elas? Em primeiro lugar, combater a exploração, a qual é responsável (com as falhas nos serviços públicos e na fiscalidade progressiva) pela tragédia colectiva que são as desigualdades socioeconómicas. Em segundo lugar, criar, através da redistribuição e de um crescimento sustentável, as condições materiais e subjectivas que permitam a cada cidadão desenvolver-se como um sujeito autónomo, isto é, como um ser livre.
Como foi possível deixarmos que se concessionassem os instrumentos da democracia (administração de recursos, definição de políticas redistributivas, etc.), sem percebermos que o corolário disso seria a perda, no país e fora dele, do poder indispensável para prosseguir as finalidades substantivas da própria democracia? Entre outros factores, pesou certamente o modo como, colonizados pela ideologia do pensamento único e seus aparelhos, descurámos a dimensão conflitual das escolhas que constantemente ocorrem nas sociedades. Desvalorizámos o conhecimento aprofundado – que exige estudo e atenção aos detalhes – e adiámos o posicionamento activo e responsável de cada um de nós sobre as decisões tomadas em nosso nome. Perdemos a dimensão do antagonismo, muitas vezes irreconciliável, que existe entre interesses. Esses interesses contrários continuaram a dar origem a escolhas, mas delas esteve ausente o critério popular.
Herdeiros de gerações que instauraram a democracia, as férias, o salário mínimo ou o direito de todos à assistência médica, perdemos de vista – com a preciosa ajuda dos dispositivos postos em prática para apagar ou rever a memória histórica – o quanto todos estes direitos foram arrancados a poderes que tudo fizeram para se lhes oporem. E perdemos também de vista, no mesmo passo, todos os direitos que já deviam ter sido alargados a mais cidadãos, a contragosto dos poderosos. A fixação de um salário máximo é apenas um exemplo entre muitos.
Enquanto isso, o poder de fazer as escolhas que afectam as nossas vidas foi-se concentrando numa aliança formada entre dois pólos (intensamente porosos…). De um lado, figuras e instituições que são apresentadas aos cidadãos como «técnicas» e «neutrais», mas que as mais das vezes estão ligadas aos interesses dos mercados financeiros, e nem sequer são submetidas ao crivo democrático das eleições e da prestação de contas. Do outro lado, os poderes públicos que executam as políticas que beneficiam aqueles interesses privados, por identificação ideológica e porque dessa forma se transformam nos ricos e poderosos (mesmo que descartáveis) distribuidores de negócios, dinheiro e poder. Fora desta aliança, a maioria da população. Cada vez mais afastados da participação e da negociação democrática, os cidadãos são transformados em objectos, e já não sujeitos, de política.
A democracia concessionada ao «governo dos técnicos» produz uma objectificação e uma realidade social tão grave que atordoa, pelo menos temporariamente. Esse atordoamento assume várias formas, em vários rostos: para uns é difícil acreditar que uma situação tão grave e tão contrária às promessas da democracia possa ser algo mais do que passageira; outros convencem-se de que têm culpa, individual e colectiva, nas desgraças de que são vítimas; outros ainda perdem a esperança por não verem surgir um pólo aglutinador capaz de criar uma aliança alternativa àquela que detém o poder (com propostas políticas e força para as concretizar); muitos outros vivem consumidos pelo medo de não ultrapassar as dificuldades, gastando uma imensa parte de cada dia em estratégias e tarefas de sobrevivência individual.
Não há como negá-lo: recuperar os instrumentos da democracia que permitam uma nova, mais responsável e mais participada reorientação da comunidade para os combates pela igualdade e pela liberdade é algo que vai ser feito em condições extremamente difíceis. Mas os cidadãos não têm alternativa senão fazê-lo. Ou deixarão de ser cidadãos. Porque, em rigor, a democracia concessionada não é uma democracia.

SANDRA MONTEIRO, Jornalista, Directora do Le Monde Diplomatique - edição portuguesa

Saio à Rua porque já não Posso mais

Saio à rua no dia 15 porque estou farto de estar em casa, a ver o telejornal, a indignar-me com as notícias, a ouvir bramar nos cafés, a saber que fulano ficou sem emprego, beltrano deixou de estudar, sicrano foi para os Alpes pastar caracóis, o Manel vendeu o carro, a Maria teve de largar a casa e foi viver com a mãe, o Joaquim passou à mobilidade, o sr.Gil não tem dinheiro para os remédios, a minha filha não foi à praia um dia que fosse neste Verão, e eu para aqui a ver telejornais e a denunciar alarvidades no facebook e a espantar-me com a lata destes tipos, que confundem governo com Estado, pessoas com acções, massa e arroz com fundos de investimento, e ainda me vêm dizer que vivi acima das minhas possibilidades e que temos de salvar os bancos e se calhar a Volkswagen, coitadinho do BPN e da Telefunken, a peninha que eu tenho deles, mais a Lehman Brothers e a puta que os pariu a todos mais ao Dow Jones e ao Psi20.
Saio à rua porque não tenho cara para ficar mais tempo em casa, a assistir à pouca vergonha e ao sacrifício deste povo, mesmo que ele continue a votar neles, mesmo que ele não saia para a rua comigo e ache normal que estes anormais vendam o que afinal é dele - nosso - para pagar dívidas que não são minhas - nossas.
Saio à rua porque já não posso mais. É escusado entrar em mais pormenores. Toda a gente percebe por que saímos à rua. Até eles percebem. Chega!

ANTÓNIO COSTA SANTOS