domingo, 10 de fevereiro de 2013

Texto de André Freire


Efeitos positivos da crise: o despertar da cidadania para a importância da política

Uma das poucas coisas positivas com a crise económica e financeira internacional, começada em 2008 nos EUA, é que muitas pessoas começaram a despertar para a importância da política e da cidadania. Isso é visível em manifestações, petições, abaixo-assinados, etc., sobretudo nas formas de mobilização que extravasam o controlo das organizações sociopolíticas tradicionais. E foi visível em manifestações como a de 12 de Março de 2011 ou a de 15 de Setembro de 2012, onde era possível encontrar gente de todas as idades e estratos sociais, bem como em iniciativas como as dos Indignados ou de vários grupos e tertúlias para o debate e a (in)formação políticas. Claro: nem tudo são rosas, seja porque será bom «não deitar o bebé fora com a água do banho» (as organizações sociopolíticas tradicionais são ainda os veículos centrais da representação política), seja porque falta muitas vezes capacidade propositiva a estas iniciativas mais inorgânicas, seja porque, por vezes, o criticismo anti-partidos e anti-classe política roça o populismo antidemocrático. Porém, globalmente, diria que o balanço geral é ainda bastante positivo.

Texto de Lúcia Gomes

Desta vez, mais uma que tomo as ruas, tomo-as por ti, pai.
Porque destruíram o SNS. Porque em nome da gestão e do lucro te recusaram tratamentos. Porque te tentaram prostrar e tu disseste sempre não. Mesmo sabendo que para eles és um «bem sem valor de mercado», impuseste a tua dignidade e a tua resistência. Não podes vir à manifestação, mas levo-te comigo.

Levo-te a ti também, irmã, doutorada, 12 anos de trabalho, sempre a recibo verde sem que soubesses o que é o direito ao subsídio de férias ou de natal, subsídio de desemprego, e porque a troika te obriga a procurar trabalho a milhares de quilómetros da tua família e te diz que aqui o teu conhecimento não tem lugar. E tu dizes que tem, e sais à rua comigo, unida, como os dedos da mão.

Levo-te a ti, meu pequeno ser. Minha irmã com 4 anos, para que saibas que o povo quando se junta é invencível. A maré de força, de luta, de convicção, de recusa firme às inevitabilidades e de resistência tudo move. E quero que vejas este povo lutar. E que saibas, querida irmã, o que é a liberdade de poderes manifestar-te e de poderes sonhar com o futuro e transformar o sonho em vida."

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Texto de Zé Pedro

Vivemos tempos difíceis, todos sabemos, e que continuam os abusos de poder também sabemos, que é uma injustiça diária o que vemos nas notícias, todos também sabemos. Por toda esta situação que tanto nos revolta, devemos gritar bem alto que BASTA, que JÁ CHEGA, que JÁ NÃO TOLERAMOS MAIS. Nestes tempos, como noutros, a nossa voz tem de ser ouvida.

Podemos pensar que não serve para nada, mas serve. Sou da opinião que eles estremecem de cada vez que saímos à rua, e eles não conseguem controlar ou atribuir a uma força política a reunião de tantas pessoas descontentes É a arma que temos, sair à rua e GRITAR JÁ CHEGA!

Texto de Helena Dias

Quando o mês de abril aqui chegou, encontrava-me eu a meio do curso, frequentando o sistema de ensino público: uma escola autoritária, acrítica e elitista, em que sempre me senti desajustada.

Quando o mês de maio começou, também eu acreditei que, enfim, tudo isso fazia parte de um sonho mau que já passara, e entre a reivindicação e a festa, foi nas ruas da minha cidade que soltei as inúmeras esperanças. No verão já colheríamos o pão, que tudo se passa à velocidade fácil do voluntarismo, quando se é jovem.

Mas com a minha filha mais velha já na escola, vi-me nos anos seguintes a sofrer as ziguezagueantes decisões de governos sucessivos, numa desorganização que às vezes tocava o intolerável. Tudo estava bem, no entanto, que o percurso era o que nos levaria, por fim, a uma escola nova.

A realidade é, porém,  mais lenta que os nossos sonhos. As mazelas de décadas tinham criado um sistema resistente à mudança,  que afinal nunca tinha sido socialmente justo, pese embora algumas boas vontades e tentativas mais ou menos sérias de o garantir. Esta foi a razão que me levou, enquanto o meu filho frequentou as escolas básica e secundária, a envolver-me no movimento associativo dos pais e mães, em que me mantive até à sua entrada na universidade.

Todo este tempo, em tudo o que participei com outros companheiros e companheiras, em todas as ações que organizámos, discussões e reflexões que promovemos, era essa a preocupação que nos movia: construir uma escola pública inclusiva e de qualidade, com os meios adequados e diferenciados, que garantissem  as respostas certas a todos em geral e a cada um em particular. Nunca nos questionámos se valia a pena tanto crer. Sabíamos que o valia.


Chegou agora a vez de os meus netos entrarem para a escola e eu descubro todos os dias, tristemente, que nada do que tínhamos dado como adquirido o era. E embora às vezes me seja até difícil entender esta realidade deslizante, a grande velocidade, para um buraco negro que julgava arrumado no passado, vejo infelizmente como o sistema de ensino cada vez mais se parece com o que eu frequentei há décadas!

A falta de meios provoca, por cortes sucessivos,  ruturas no funcionamento das escolas; os professores, com um número de alunos ingerível,  tornaram-se desmotivados e tristes, vivendo um desespero quotidiano; os assistentes operacionais não conseguem cumprir, pelas mesmas razões, as tarefas de que os incumbem; os alunos e as suas famílias, no meio de preocupações da vida que se tornou muito mais difícil,  são ameaçados com uma gratuitidade a prazo, apesar de todas as garantias constitucionais.


Não posso pactuar com esta situação. Ficando calada e quieta, como  mais uma vez nos querem, estarei a ser cúmplice deste retrocesso civilizacional. Não ficarei! Nem calada, nem quieta.


No dia 2 de março, com estas razões e todas as outras que cada um de nós transporta, acredito que  encheremos, uma vez mais, todas as ruas da cidade, gritando a nossa revolta!

Texto de Raquel Varela

As manifestações são historicamente formas de «votar com os pés». Esta particularmente surge num momento em que a dívida pública se tornou um garrote sobre a vida de quem trabalha. Apoio-a pela suspensão do pagamento da dívida, que é uma renda privada, e a reboque da qual se está a destruir o Estado Social.

Texto de Vicente Alves do Ó

Saímos à rua para não dar em loucos. 

Saímos à rua para perceber se mais gente pensa como nós, se tudo aquilo que andamos a ler na imprensa, a ver na televisão, a ouvir nos cafés não é simplesmente uma fantasia triste e desapegada que a nossa cabeça inventou. 

Saímos à rua para acreditar ainda que podemos mudar as coisas, que a nossa vontade com a vontade dos outros faz sentido e que a vida nãoserá apenas uma soma de derrotas ou ilusões perdidas. 

Não vale a pena fazer de conta. Já não há dinheiro, nem tempo, nem ideias ou desculpas para fazer de conta. Há quem o faça, como se a vida de todos os dias pudesse esconder o inevitável. Como se a vida fosse programável tal e qual um comando da televisão: quando alguma coisa não nos agrada, mudamos de canal. Mas infelizmente ou felizmente, não podemos mudar de vida, ou pelo menos, se amamos o país em que vivemos e é aqui que queremos continuar a viver, não podemos mudar de vida. 

Podemos mudar a forma como pensamos, a forma como agimos, podemos estar onde estão os outros que pensam como nós e não estão loucos como pensamos que estamos. A solidão nas cidades é a maior inimiga do colectivo, da ideia de comunidade. Andamos fechados em agendas, compras, horários e esquecemo-nos da força que somos e da força que temos. O egoísmo e o consumismo, o prazer do dinheiro pelo prazer do dinheiro alteraram por completo os nossos comportamentos, os nossos princípios e as nossas condutas. Convenceram-nos de que o sucesso e a felicidade são uma mão cheia de coisas. Somos feitos de coisas: casas, carros, roupa, gadgets, restaurantes e ilhas paradisíacas onde nos dizem que podemos descansar e aproveitar a vida. Mas há uma vida na cidade e no país que precisa de nós: a vida de todos. E todos, apenas todos, podemos dizer que não estamos loucos, que não estamos ausentes, nem deslumbrados, nem fomos ainda comprados por tudo aquilo que nos dizem que devemos.

Devemos isto e aquilo, entre dívidas e deveres. Apenas isso. Uma espécie de aposta diabólica, troca por troca: dão-nos as coisas que nos convenceram a ter e em troca somos aquilo que eles precisam que sejamos. 

Eles. O fosso aumentou e estigmatizou-nos. A nós. Como se não pudéssemos ser mais nada senão o que somos e eles pudessem ser tudo porque são quem são. E quem são eles, senão uma parte nossa? E quem são eles, senão uma vontade nossa? É nisso que temos que acreditar duma vez por todas e é isso que lhes temos que dizer duma vez por todas. 

Saímos à rua porque a política somos nós.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Texto de Paula Nunes


ENCONTRAMO-NOS NA RUA!

É na qualidade de cidadã preocupada e indignada, sem partido nem sindicato, que subscrevo o manifesto e apelo à união para a convocatória de 2 de Março.

Entretanto, falemos de factos. Mais de 2,5 milhões de portugueses estão a viver em risco de pobreza ou exclusão social, entre os quais as crianças, mais de 418 mil, são as que correm maiores riscos; a privação material severa atinge cerca de 900 mil portugueses, sendo cada vez mais visível o aumento do distanciamento entre a população com mais e menos recursos; mais de 35 mil portugueses usufruem de um Rendimento Social de Inserção que poderá baixar de 189,50 € para 176,15 €; no final do ano transacto foram assinalados 870 mil desempregados e as previsões nada animadoras apontam para uma taxa de desemprego de 16,7 % em 2013 e 17 % em 2014, contrariando como sempre qualquer previsão desta ludibriosa desgovernação.

As medidas anunciadas são uma cilada miserável que conduzirá a um enorme retrocesso nas condições de vida da maioria dos portugueses. São medidas violentas, que atentam contra a dignidade de quem vive ou viveu do seu trabalho. E os profetas das folhas de cálculo, que só se interessam pelo regresso aos mercados financeiros, dizem que estamos no bom caminho. É por este caminho que queremos seguir? De mãos dadas, como se nada fosse, com milhares de desempregados, com a precariedade, com reformados a quem são extorquidos os seus diminutos rendimentos, com crianças esfomeadas, com a miséria que diariamente atira para a rua centenas de pessoas, com a morte das funções sociais consignadas na constituição?

Caminhamos sim, e a um ritmo alucinante, para o empobrecimento colectivo, retrocedendo décadas em todos os índices de desenvolvimento social. Dizem que é legítimo o roubo dos direitos conquistados e o desprezo pela constituição, sempre justificado pelos tempos difíceis em que vivemos. E a nossa liberdade, mais condicionada e desvalorizada, é tratada como uma regalia, um luxo acima das nossas possibilidades e da qual temos que nos livrar.

Não bastando, e para todos os problemas causados por este povo que viveu acima das suas possibilidades, a quadrilha oferece-nos dois bálsamos milagrosos: a emigração e o empreendedorismo. De facto, responsabiliza-nos pela criação de emprego ou pelo desemprego que enfrentamos, como se vivêssemos num país repleto de oportunidades. É difícil, diria eu, pensar em empreendedorismo quando moramos na rua ou chegamos a meio do mês sem dinheiro para comer: 4,488 milhões de portugueses auferem menos de 420 euros mensais.

E para os que acreditam que este caminho será frutuoso, convém estar atento às projecções do Banco de Portugal que, ao contrário das previsões dos economistas de serviço, revê em baixa o crescimento económico para 2013. Por enquanto não sabemos o que irá acontecer em 2014, mas já nos avisaram que é necessário arrecadar 4 mil milhões de euros e delinear medidas suplementares para cumprir objectivos orçamentais. Mas uma coisa sabemos. Nós continuamos a cair!

Não nos deixemos enganar com discursos agradáveis que não têm mais nenhuma finalidade que adormecer consciências e imprimir mentiras em prol da estabilidade política, como um valor que está acima de tudo e de todos.

A gravidade do momento exige um enorme sentido de responsabilidade e o processo não pode ser de transição, mas de ruptura com um modelo e uns gestores que não praticam nem a participação, nem a pluralidade e muito menos a transparência. Se queremos fazer parte de um valor universal que dê sentido à nossa presença neste espaço e neste tempo, deveremos responder a esta agressão contra as nossas crianças, os nossos pais e avós.

Então, o que fazemos? Aceitamos a pobreza e cada um defende a sua parcela, com a equívoca crença que salvará o seu barco ou juntamo-nos com a certeza de que podemos travar esta cadeia de irresponsabilidades?

Pela minha parte, não acredito na seriedade e lucidez desta gente que nunca acerta, nem mesmo quando se engana e levanto a voz pela demissão do governo, repudiando todas as medidas que resultam no roubo continuado e desigual dos rendimentos do trabalho e no ataque às funções sociais do estado.

Posso perder muita coisa, mas uma coisa é certa, há coisas que não se podem roubar e uma delas é a esperança. E essa não ma tiram. A esperança de que através de uma luta persistente, organizada e consequente é possível travar esta ofensiva, inverter o caminho e derrotar estas políticas. Se não perdermos a esperança haveremos sempre de derrotar a gente que não quer saber da sua gente.

A rua deixou de ser um espaço festivo para converter-se não só na casa de muitos, mas num espaço de luta, onde demonstraremos o nosso desacordo e reivindicaremos a nossa liberdade. E não há tempo de descanso.
E é nessa rua que me podem encontrar!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Texto de Paulo Raposo


Nada é impossível de mudar!

«Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.»

Estas são palavras do dramaturgo alemão Bertold Brecht. Vivia então a Europa tempos difíceis. Tempos igualmente difíceis como os que vivemos agora. Mas, como antes, como sempre, não necessariamente imutáveis.

Muito do que consideramos, sentimos ou vivemos como coisa natural não deve portanto parecer natural. Como antropólogo, aprendi a pensar que para entendermos melhor o mundo que nos rodeia devemos justamente desnaturalizar o que tomamos como natural, óbvio, habitual. Naturalizar significa atribuir qualidades essenciais ao que na verdade é fruto de actividades humanas, pelo contrário, desnaturalizar significa explicitar a artificialidade de construções sociais e culturais concebidas como naturais.

Esta é uma questão de natureza analítica para os cientistas sociais, mas é também uma questão política para todos nós. Uma questão política, porque implica procurar situar e explicitar os processos através dos quais tais naturalizações são construídas em sociedade. E muitas das naturalizações, como as referentes à diferença entre sexos, entre classes, entre culturas, etc. que se aceitam como naturais, são precisamente difundidas, ensinadas, transmitidas para produzir e sustentar certas desigualdades, que por sua vez também se tornam naturalizadas. Por isso pensamos que as pessoas são consideradas «normais» quando são consensualmente intelígiveis os seus modos de ser, os seus actos e discursos, o que quer dizer basicamente que consideramos esses modos de ser, actos e discursos como naturais e naturalmente adaptados ao que aprendemos e a que nos habituamos. Mas se queremos ser justos e profundos na forma de entender o mundo, então teremos de aceitar o exercício proposto por Brecht, todos os dias, em cada instante da nossa vida. E teremos ainda de procurar agir em conformidade: nada deve parecer natural, tudo é fruto de um contexto e de processos de construção particulares.

Quando após a madrugada de 24 para 25 de Abril de 1974 se abriu um imenso rio de possibilidades para este pequeno país, nada foi natural. Nada era aliás natural antes, no Fascismo, mas sim fruto de modelos e de concepções do mundo que procuravam naturalizar a pobreza (e a riqueza), o analfabetismo (e a literacia elitista), os brandos costumes (e o sacrifício colonial), o moralismo maniqueísta (e a perseguição à luta política), a autoridade do triângulo Deus/Pátria/Família (e a censura e repressão). E foi porque várias gerações de resistentes acreditaram que nada era natural, que o imenso rio de possibilidades se franqueou e contagiou um povo inteiro. Porque justamente nada foi tomado como inevitável e impossível de mudança. Mas obviamente nada tem sido natural em Democracia, nestes últimos quase 40 anos. Sou daqueles que herdaram esta conquista de possibilidades, a minha vida desenrolou-se fundamentalmente nestes anos de Democracia, não precisei de lutar para a conquistar, mas isso não a torna um coisa natural, um hábito.

Vivemos tempos difíceis mas não naturais, tempos que me fazem pensar agora no meu filho e na filha que se avizinha, provavelmente com a mesma preocupação e angústia com que meus avós e meus pais pensaram nos seus filhos e filhas. E por isso, não entendo como natural que portugueses, ou gregos, ou espanhóis, ou um qualquer povo, tenham de aceitar naturalmente a sua condição e o seu destino.

A crise e a austeridade não são naturais, a dívida e o empobrecimento não são naturais, o Memorando da Troika e os interesses financeiros e especuladores não são naturais, as políticas e os modelos governamentais não são naturais, o capitalismo sem freio não é natural, a destruição do bem comum e do planeta não é natural. Nada, em tempo de confusão sangrenta e desorganização organizada deve ser pensado como natural. Porque tudo isto é fruto de opções e decisões de alguns, de arbitrariedade consciente e de humanidade desumanizada de personagens que, como outrora, procuram a todo o custo, com meios poderosos e poder desmedido, naturalizar a miserável existência, o empobrecimento e a perda de direitos da larga maioria (os tais 99 %) e a inevitabilidade de políticas que servem apenas um pequena parte dos habitantes deste planeta.

Esta Democracia em que vivemos, refém de interesses económicos e especulativos, confeccionada e gerida por muito poucos e sobretudo por quem não nos representa, que limita a participação e a voz da cidadania e a multiplicidade de modelos e formas de organização social, tem de ser desnaturalizada. Tem de ser revelada na sua artificialidade.

E é por isso que a 2 de Março, como em tantas outras vezes nestes últimos anos, sairei à rua, ao lado de todos aqueles e de todas aquelas que entendem que nada é natural, e sobretudo que percebam que nada é impossível de mudar. 


Texto de Ângela Fernandes

Chamo-me Ângela, 35 anos, por agora lésbica, estudante, trabalhadora precária e nos tempos quase livres, quando o bichinho ataca, e ataca sempre, activista de rua, de pessoas e de causas. Sou uma das subscritoras desta moção. Estas simples frases iniciais estão carregadas de identidades mutantes de luta e em luta. Nelas ficam estampadas tramas de ânsias, de receios e de esperanças com que muita gente se identifica. Gente que como eu cedo se habituou a ouvir discursos cheios de verdades incontornáveis, inevitabilidades, insustentabilidades e infalibilidades. Primeiro, a verdade incontornável do domínio masculino, depois a insanável caixa da heterossexualidade imposta e universal, a seguir a inevitabilidade de uma identidade de género associada ao sexo biológico com que nascemos e por último a inevitabilidade dos comportamentos que se querem apropriados à condição de ser mulher.

Do mesmo modo que muitos como eu nunca encaixaram e nem aceitaram estas ditaduras sociais que nos foram impostas, também não estamos agora dispostos a cruzar os braços e a sucumbir perante esta suposta e inevitável ditadura financeira dos mercados e esta crise artificialmente criada. Se somos contra a discriminação somos contra qualquer tipo de discriminação, se lutamos contra uma ditadura, lutamos contra todos os tipos de ditadura. Como estava escrito num cartaz de protesto, não somos os filhos da democracia somos os pais da próxima revolução.

Não aceitamos uma vida que não seja vivida. Não aceitamos uma vida não vivida e dividida em duodécimos, uma vida não vivida e alimentada com fome dos alunos que desmaiam a meio das aulas e que às escondidas vão encher a mochila para poderem jantar, uma vida não vivida e alimentada nas cantinas universitárias que fecham, uma vida não vivida e com fome dos estudantes com marmitas às costas, porque no orçamento familiar pesa a refeição na cantina. Uma vida não vivida e sedenta de água pública que se pretende privatizar, uma vida saudavelmente não vivida através de cuidados de saúde básicos que se tornam incomportáveis, uma vida renascida e não vivida através da maternidade que fecha, uma vida não vivida através dum programa de prevenção da sida cuja distribuição de preservativos é criminosamente interrompida. Uma vida não vivida em que os números de camas dos hospitais diminuem por causa do excesso de oferta. Uma vida não vivida, a trabalhar sem prazo para receber um salário miserável, uma vida não vivida, onde as mulheres ganham menos que os homens, uma vida não vivida à custa da ajuda financeira dos pais, uma vida não vivida, no meio de ginásticas de matemáticas domésticas para o pagamento das contas no fim do mês, uma vida não vivida, no meio de escalões de IRS mal calculados, uma vida não vivida «do piegas que emigra», uma vida não vivida daqueles que lutaram e contribuíram para o estado social, que está hoje a ser destruído e cujas pensões de miséria estão sujeitas ainda a mais cortes, uma vida não vivida daqueles que não conseguem pagar as rendas de casa e que por isso são desalojados. Uma vida não vivida sem apoio à cultura, que nos deixa de pés e mãos atadas para o pensamento crítico e para a liberdade de expressão e de emancipação.

Porque não me quero adaptar e aprender a sobreviver, vou sair para rua. Eu quero é viver, porque recuso verdades incontornáveis, inevitabilidades e tolerâncias. Porque recuso-me a ser espectadora da minha própria vida. Recuso-me a ver a liberdade de expressão e de protesto censuradas. Recuso-me a ver activistas perseguidos e criminalizados. Recuso-me a ver direitos sociais, laborais e humanos há tanto tempo conquistados serem agora retirados sob esta capa mágica multi-abragente, que todos os propósitos serve, por governos, por troikas, por FMI e bancos centrais europeus. Direitos esses que levarão décadas a ser recuperados. Por isso eu vou para a rua gritar. Porque ir para a rua não são só meros slogans que se gritam a plenos pulmões e peças de teatro mal encenadas que voltam ao vazio no dia seguinte. Ir para a rua é o antes, é o durante e é o rescaldo da manifestação. Ir para rua é o reclamar das nossas vidas, o reclamar dos nossos sentimentos, é o reclamar de identidades, é o reclamar do outro e é sobretudo o reclamar da nossa própria humanidade. Porque esta «austeridade» não só impede de construir o novo, como destrói o que já foi construído e impede que se façam planos para construir o que há-de vir. Não resisto: troika??? Troika só na cama! E 2 de Março é na rua!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Texto de Ana Margarida Esteves

Faz quinze anos que resido fora do país. Mas não é isso que faz de mim menos cidadã, nem menos comprometida com o futuro de Portugal. Nem menos interventiva. Não é a distância física do meu país que faz com que me importe menos com o que nele se passa. Pois os afectos não têm fronteiras. Nem a identidade, nem a esperança. E o desejo de voltar, de um dia poder ser feliz no país que é meu não diminui com os anos, nem com tudo o que se ganha e perde numa década e meia de emigração.

Embora não possa estar presente fisicamente na manifestação de 2 de Março, estarei lá em espírito e pensamento. E em voz. E em braços erguidos, em punhos cerrados. Em passos firmes e abraços dados. Estarei na voz, nos braços, nos punhos e nos passos das pessoas que amo que aí estarão. E que são muitas. Pessoas que dão sentido ao meu trabalho e à minha jornada pelo mundo. Pessoas às quais me quero juntar em breve, e definitivamente, para construirmos junt@s um Portugal que nos mereça. O Portugal que merecemos.

Pois não há «polvo» que resista ao poder da Solidariedade, da Esperança e de uma Vontade Firme. E não há «polvo» que resista também à Força de um Povo. De um Povo consciente do seu valor e das suas capacidades. Um Povo que não se deixa manipular pelo discurso da «inevitabilidade» nem pela verborreia orweliana que chama de «criação de oportunidades» à destruição dos fundamentos para uma vida digna, «empreendedorismo» à transformação de tudo aquilo que nos torna humanos em mercadorias.

É urgente voltar a encher as ruas. Pois não somos carne para canhão. Não somos ratos de laboratório. O nosso sentido de dignidade é mais do que suficiente para estarmos plenamente conscientes de que a construção de um país digno, onde valha a pena viver, onde se possa garantir a felicidade colectiva é objectivo supremo da nossa existência comum.