quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Texto de Tiago Mota Saraiva

Do julgamento do BPN, submarinos ou Freeport, o povo foi sempre o único condenado. Pensar que ficam por aqui é tão ingénuo quanto pensar que Franquelim Alves é apenas incompetente, não se tendo apercebido do carnaval bancário quando foi administrador da SLN. Mas, tal como não serão os banqueiros a decidir o que o povo aguenta, não serão os seus representantes que nos defenderão da sua gula.
As crises são o mais fiel instrumento de liquidação dos direitos dos povos. Urge demonstrar a decadência do sistema, denunciando as suas diferentes declinações genéticas, como a corrupção, o compadrio, a repressão ou a justiça de classe. Urge denunciar os sucessivos ataques à democracia, aos direitos dos trabalhadores, à Constituição e à soberania. Urge combater a venda dos bens naturais e públicos que a todos pertencem e que nenhum governo tem o direito de privatizar.
A política não se esgota de quatro em quatro anos colocando um voto numa urna. Faz-se todos os dias.
Com o aumentar da miséria e da violência, o seu território principal é a rua. Quanto mais tarde tomarmos as ruas para fazer esta batalha, mais difícil será o nosso futuro.
É preciso unir esforços. Multiplicar activistas, reforçar as ligações, construir pontes e aumentar a militância combativa para fazer frente a todos os ataques. Juntar cidadãos, movimentos e partidos que não acreditam que nos devamos restringir a pregar por uma exploração mais fofinha. Juntar quem se opõe às políticas da troika e todos os que se declaram intransigentes na defesa da liberdade, igualdade e democracia. Juntar quem está disponível para o choque e para o confronto. Juntar para lutar, resistir e construir uma democracia plena.
Tomemos as ruas. Rompamos o silêncio.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Texto de Margarida Vale de Gato, Jaime Rocha e José Mário Silva


Sobressalto

Desinclinadas as vozes

um peixe agoniza
no duro asfalto, é um país pequeno,
está virado para as casas e esquece
que tem uma sombra para o mar. Treme-se na rua

e há pessoas a quem acontece
querer terminar a sede do espaço na boca
e do pouco ar disponível
a um coro comum.
Onde se quer, que se torne, ao interior,
à inquieta vaga na orla,
à criança antes da manhã onde faz
ainda escuro, se atenda ao múrmuro peixe,
desmanchado mas aberto arranje-
-se Portugal futuro.


(Este poema iniciou-se num exercício em torno de «O Portugal Futuro» de Ruy Belo, com Jaime Rocha e José Mário Silva, no dia da manifestação de 15 de Setembro de 2012, e foi entretanto continuado)



Texto de Miguel Cardina

Ao contrário do que ouvimos dizer tantas vezes, acho que «isto vai lá com manifestações». Basta olharmos para o passado: quantas afrontas ao poder dominante foram precisas para que se vivesse num lugar menos injusto? Quantas palavras de ordem foram gritadas até que o direito à greve ou a um horário de trabalho menos penoso se pudesse tornar realidade? Quantos gestos de coragem foram necessários para que os escravos e as mulheres pudessem ser gente, para que povos pudessem ter direito à autodeterminação, para que caíssem ditadores e ditaduras?

Façamos um outro exercício: o que diremos a quem nos perguntar, num futuro qualquer, o que fizemos quando se cortava como nunca o rendimento de quem trabalha ou trabalhou uma vida? O que fizemos quando se preparava a privatização da saúde e se encolhia a escola pública? O que dissemos quando banqueiros que enriqueciam à conta do Estado e de todos nós nos mandavam aguentar à imagem de um sem-abrigo? O que propusemos quando a narrativa sobre a necessidade de «honrar os compromissos» mantinha a dívida impagável e servia para dar cabo do estado social? Diremos que a melhor forma de intervenção política em 2013 consistia em ficar em casa?

«Ir um dia para a rua não chega», dirão os cépticos. Talvez não chegue. Talvez o governo não caia a seguir a esta manifestação e sejam necessárias outras. Mas o golpe que lhe desferirmos depende da nossa força na rua. «Sair à rua não basta», dirão os sisudos. Talvez não baste. Talvez seja necessário fazer cruzar e interagir o plano dos protestos ao plano das propostas. Mas é preciso ter bem claro, a este respeito, que as boas propostas só se materializarão se tiverem a suportá-las a força do protesto.

É este o segredo que será revelado a 2 de Março: o povo é quem mais ordena. Vítor Gaspar demonstrou-o de forma cristalina quando, na sequência da manifestação de 15 de Setembro, elogiou com cinismo o «melhor povo do mundo». Ele sabia que a rua faz qualquer governo tremer e que é sempre má política afrontar um rio de gente erguida. Sabia, no fundo, que isto pode ir lá com manifestações. E nisso tem razão.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Texto de Rui Borges

A 2 de Abril de 1976 era aprovada e decretada pela Assembleia Constituinte a Constituição da República Portuguesa.
Como dispositivo a ser utilizado em caso de emergência, como manual e palavra-passe para combater uma ameaça à persecução de um país mais justo, livre e fraterno por que lutamos, como salvo-conduto que a todos abra passagem, nesse dia, nessa primavera, ficou gravado na carta que nos rege enquanto comunidade, no seu Artigo 21.º, o direito de resistência:
«Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.»

Quase 37 anos passaram desde esse dia, quase 37 anos depois estamos perante um inimigo que se posicionou para submeter, à sua vontade, esta mesma carta, esta terra, esta gente e o seu bem comum.
Quase 37 anos depois, os pilares do edifício democracia, investida após investida, ameaçam ruir, sepultando sob os escombros a luta e a luz de gerações.
Quase 37 anos depois, quando um governo declara guerra a um povo, está assim legitimado o direito desse mesmo povo à resistência.

A força consagrada neste direito será a força da união deste povo, dos despojados do trabalho, das terras e dos mares, dos das vidas adiadas, dos que fazem as malas da partida, dos que, pela calada da noite, vão ao assalto do alimento da manhã seguinte, dos fardados e descamisados, dos operários e dos funcionários de um estado sitiado, dos bravos renegados disfuncionais de um estado que o não é, dos que calam, dos que rugem, dos que dormem, dos que, feridos de austeridade, resistem, dos que, perdendo o medo, recusam o inevitável.
Que nos chamem então vagabundos da utopia, porque é dos vagabundos o direito a contemplar a terra inteira, não meros espectadores, mas construtores deste tempo único, o tempo de tomar a paisagem, o tempo de, nesta Europa que se esvai, mostrarmos que estamos vivos, que há outro caminho e que estamos dispostos a percorrê-lo. Duro, de obstáculos feito, a rasgar, mas esse outro caminho É. Porque este povo É quem mais ordena.

Eu, pai, filho e neto, amigo, colega, vizinho, sonhador, cidadão, resistente, lá estarei, um afluente que se une a afluentes para, juntos, gerarmos o mar.

Texto de Fernando Mora Ramos


Pelo fim da ditadura da dívida, um 2 de Março gigante

O 15 de Setembro prometia, e penso que promete, como manifestação, em dois sentidos: como expressão de um desejo maioritário de mudança no país e como ocupação algo espontânea (sem tutela ordeira nem decibéis descontrolados de palavra única) do espaço público, sempre sujeito a regras funcionais sistémicas, isto é, como modo de escrever na cidade, com os corpos, uma outra possibilidade de sociedade, outra vida, a tal vida que queremos e que não é apenas aquela vida que já foi melhor e que tivemos.

As manifestações são relevantes por isso, porque são essa outra vida no tempo em que acontecem e são propulsoras dessa possibilidade alternativa de sociedade. E uma forma combativa de afirmar alternativa, alternativas. Há uma harmonia na diversidade ampla dos propósitos, que expressa sem ceder ao modo como o mercado compartimenta as pessoas, supostamente de acordo com as suas preferências «identitárias» ou mesmo de outro tipo, insignificantes, muitas vezes apenas simulacro de qualquer coisa, o mercado que nos diz que personaliza as suas soluções, mas que não resolve nem a questão do desemprego, nem a crescente desigualdade entre ricos e pobres, muito menos o exercício generalizado de um poder cuja legitimidade é só aparente e que no fundo é corrupto, ligado à alta finança especuladora globalizada e às ditaduras e organizações criminosas. Não esqueçamos que a experiência neoliberal de referência é o Chile de Pinochet, que não foi criticamente condenado do lado económico, como resultado do golpe político, e que teve o FMI comprometido, como se sabe.

O que é comum, nesta manifestação do 2 de Março, sobrelevará os particularismos, e todos e cada um, no campo político, entenderão que a oposição comum a formas de autoritarismo e a formas existentes e já totalitárias de práticas sociais em instituições e fora delas são questões que nos unem para além das diferenças e que unem essas diferenças nessa riqueza de todos, que é um propósito de sociedade alternativa e verdadeiramente democrática.

O que me parece, entretanto, essencial e decisivo é que estas manifestações, e espero que o 2 de Março se agigante como o maior protesto de rua de sempre em Portugal, dêem lugar a formas organizadas de participação política, formas que não têm que cumprir o figurino partidário, mas que têm que ter sujeito e mecanismo organizativo em formação, não podem ser apenas pontuais e informais. Com a precariedade organizativa pode bem o poder instalado, as suas polícias e os seus serventuários em todas as frentes e instituições que dominam. Ao estado policial organizado não nos podemos opor pela via apenas da expressão pública do protesto na rua, ciclicamente, é necessário criar as condições de derrube da pandilha instalada, a quem nenhuma suposta legitimidade por via eleitoral resta. É necessário opor organização a organização, criar uma verdadeira capacidade de protesto e de criação de alternativa. O exercício da alternativa é mais que a expressão do desejo da alternativa. Olhemos o exemplo da Islândia e o modo como um pequeno povo, nem por isso perdendo a qualidade de ser referência, tomou em mãos as rédeas do seu próprio destino.

Texto de Belandina Vaz


QUE SE LIXE A TROIKA! O POVO É QUEM MAIS ORDENA!

Não falharam. Não correu mal. Simplesmente, mentiram sobre as causas, mentiram sobre o remédio, mentiram sobre os seus efeitos. No final de fevereiro, os responsáveis da troika vêm a Portugal para nos dizer que vamos no bom caminho. Eles sabem o que estão a fazer a Portugal.

A AVALIAÇÃO DA TROIKA É: MAIS DO MESMO E PIOR.

Atacar primeiro os indefesos, idosos e desempregados.
Tornar o trabalho mais barato e o trabalhador mais pobre.
Taxar até à ruína o trabalho, o comércio e as pequenas empresas.
Introduzir o racionamento nos hospitais.
Vandalizar escolas e universidades.
Convidar a arte ao silêncio e o povo à emigração.

A RIQUEZA ASSIM ROUBADA É ENTREGUE
Aos banqueiros podres que faliram os seus bancos.
Aos amigos que o estado trata como parceiros privados.
Aos bancos estrangeiros que nos destruíram a economia em troca de empréstimos.
Aos bancos nacionais intermediários desse negócio.
A todos os que passaram a pagar menos pelo trabalho dos outros.

TROIKA E GOVERNO, CONSIDEREM-SE AVALIADOS

O produto deste roubo não lhes pertence.
Sabemos que a ruína não nos salva.
Há alternativa, porque a destruição nunca é alternativa.
A alternativa chama-se liberdade, cultura, democracia, bem comum, saúde, educação.
Há alternativa.

O povo do 15 de Setembro, os que já se manifestaram e quem sai à rua pela primeira vez, diremos: estamos aqui!
Para uma aliança dos povos tomados como reféns pela especulação financeira, Grécia, Espanha, Itália, Irlanda, Portugal.
Para defender o que é nosso.

Multiplicaremos as iniciativas e as redes para a acção cidadã, contra a troika e as medidas ilegítimas contra o povo.
Dirigimo-nos a todas as pessoas e a todas as organizações, movimentos, partidos, associações, sindicatos, ONG.

E a 2 de março, quando a troika e o governo estiverem reunidos em Lisboa na «sétima avaliação» do memorando da troika, conspirando contra o estado social e as nossas vidas, vão ter de ouvir a nossa voz!


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Texto de Paula Cabeçadas


Que se lixe a Troika! Queremos as nossas vidas!

No próximo dia 2 de março vou estar, mais uma vez, na rua, tal como em 15 de setembro passado.
A crise social, económica e política que o país e a Europa estão a viver não se compadece com «paninhos quentes».
É absolutamente necessário que os cidadãos se libertem das grilhetas da política partidária tradicional, que levantem a voz e digam a tod@s @s polític@s que a vida existe para além do parlamento e das sedes dos partidos.
É absolutamente necessário que o governo e o Presidente da República compreendam que o mundo existe para além dos seus discursos incompreensíveis.
É absolutamente necessário que a «Europa» e a sua comissão percebam que os cidadãos são pessoas e não números.
É absolutamente necessário que tod@s percebam que não é possível prosseguir com um projeto político e económico que tem como único objetivo o empobrecimento da população, para que a banca possa continuar a acumular lucros, que os países mais pobres continuem esmagados pela ditadura do neoliberalismo.
É absolutamente necessário defender os valores do estado social: a escola pública, o direito a um serviço nacional de saúde universal, o direito à justiça.
É absolutamente essencial a exigência de uma democracia mais participativa.
É absolutamente essencial que o contrato do estado com os cidadãos seja cumprido.
É absolutamente essencial que os corruptos vão para a cadeia.
É absolutamente essencial uma ética democrática e republicana que trate os cidadãos como iguais sem descriminações.
É absolutamente essencial que digamos NÃO! Isto não pode continuar!

Texto de António Avelãs

Claro que vou estar no 2 de março: QUE SE LIXE A TROIKA! O POVO É QUEM MAIS ORDENA. Quero fazer parte daqueles que vão gritar, que não se resignam a que as suas vidas sejam imoladas aos luxuriosos interesses dos mercados financeiros, numa frustração que só a coragem impede de ser depressiva.

Sou professor. Tenho sobre os meus ombros o dever de formar cidadãos exigentes para consigo próprios, cidadãos que não cedam um milímetro na sua dignidade, uma dignidade que desague em espaços de solidariedade de combate. E o 2 de MARÇO vai ser mesmo isso: um amplo espaço de combate solidário, um encontro de desejos que têm uma ponte comum: a de não desistir de ser pessoa, a de não aceitar ser trucidado por um governo desumano para quem o desemprego, a fome, a ausência de qualquer futuro são apenas «danos colaterais», dados sem valor, desde que se cumpra o objetivo de tudo subordinar ao poder do lucro, dos agiotas, dos poderosos.

2 de MARÇO: O COMBATE DE QUEM NÃO DESISTE DE SI PRÓPRIO.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Texto de André Freire


Efeitos positivos da crise: o despertar da cidadania para a importância da política

Uma das poucas coisas positivas com a crise económica e financeira internacional, começada em 2008 nos EUA, é que muitas pessoas começaram a despertar para a importância da política e da cidadania. Isso é visível em manifestações, petições, abaixo-assinados, etc., sobretudo nas formas de mobilização que extravasam o controlo das organizações sociopolíticas tradicionais. E foi visível em manifestações como a de 12 de Março de 2011 ou a de 15 de Setembro de 2012, onde era possível encontrar gente de todas as idades e estratos sociais, bem como em iniciativas como as dos Indignados ou de vários grupos e tertúlias para o debate e a (in)formação políticas. Claro: nem tudo são rosas, seja porque será bom «não deitar o bebé fora com a água do banho» (as organizações sociopolíticas tradicionais são ainda os veículos centrais da representação política), seja porque falta muitas vezes capacidade propositiva a estas iniciativas mais inorgânicas, seja porque, por vezes, o criticismo anti-partidos e anti-classe política roça o populismo antidemocrático. Porém, globalmente, diria que o balanço geral é ainda bastante positivo.

Texto de Lúcia Gomes

Desta vez, mais uma que tomo as ruas, tomo-as por ti, pai.
Porque destruíram o SNS. Porque em nome da gestão e do lucro te recusaram tratamentos. Porque te tentaram prostrar e tu disseste sempre não. Mesmo sabendo que para eles és um «bem sem valor de mercado», impuseste a tua dignidade e a tua resistência. Não podes vir à manifestação, mas levo-te comigo.

Levo-te a ti também, irmã, doutorada, 12 anos de trabalho, sempre a recibo verde sem que soubesses o que é o direito ao subsídio de férias ou de natal, subsídio de desemprego, e porque a troika te obriga a procurar trabalho a milhares de quilómetros da tua família e te diz que aqui o teu conhecimento não tem lugar. E tu dizes que tem, e sais à rua comigo, unida, como os dedos da mão.

Levo-te a ti, meu pequeno ser. Minha irmã com 4 anos, para que saibas que o povo quando se junta é invencível. A maré de força, de luta, de convicção, de recusa firme às inevitabilidades e de resistência tudo move. E quero que vejas este povo lutar. E que saibas, querida irmã, o que é a liberdade de poderes manifestar-te e de poderes sonhar com o futuro e transformar o sonho em vida."