terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Texto de Margarita Correia

Em 1900, Portugal era o país da Europa com maior taxa de analfabetismo e assim, vergonhosamente, chegámos a 1974.
Na primeira década deste século, começámos a saborear os primeiros frutos de Abril na educação. A taxa de analfabetismo caiu drasticamente e obtivemos, em 2009, nos testes do PISA, resultados que pela primeira vez nos colocaram na média europeia e nos fizeram acreditar que é possível acabar com o ancestral atraso educativo de Portugal. Temos hoje a maior taxa de pessoas com instrução superior da nossa longa história. Na ciência, fruto de um programa articulado, pudemos ter desenvolvimento científico de nível internacional e ver cientistas portugueses entre os melhores do mundo nas suas áreas. Com tudo isto reforçámos o nosso amor-próprio enquanto povo e criámos as bases para o desenvolvimento futuro.
A que assistimos hoje?
À ascensão de uma classe política revanchista e ignorante, ao ponto de ter orgulho da própria ignorância que, despudoradamente, nos vende ao desbarato e destrói tudo à sua passagem sob pretexto de uma pretensa racionalização financeira. Uma classe cuja motivação é meramente sustentada num egoísmo mesquinho: só impedindo o acesso de todos à educação, o chico-esperto garante o seu poder e a sua sobrevivência.
Porque me recuso a assistir impávida à destruição do meu país e do seu futuro, estarei presente no dia 2 de Março e espero que um mar de gente inunde as nossas cidades e limpe o país, devolvendo-lhe a dignidade.



Texto de Pedro Rocha


Podem-me cortar o cordão umbilical, mas a cicatriz ficará sempre!

Quem somos nós? A questão de fundo portuguesa é sobretudo uma questão de crise de identidade. Desde 1986, aquando da sua integração na Comunidade Económica Europeia, que Portugal faz de tudo para ser aceite num grupo de «amigos», como se estivesse numa escola, tanto que deu mais de si do que deveria, e neste «dar», muitas das suas características, como povo, foram absorvidas, esquecidas e transformadas, e a diversidade da sua singularidade perdeu-se num dito plural, económico. No fundo, tenta-se «ser europeu sem a má criação de nacionalidade» (Fernando Pessoa). Não foi por acaso que o 25 de Abril nos pôs a querer saber quem somos, o que fazemos aqui e a questionar quem nos abandonou.

Quem somos nós? Será que somos mesmo «especiais, diferentes, bastante giros, bem-educados, antigos, espertos, casos sérios» (Miguel Esteves Cardoso)? Aponta o mesmo que a «existência» de Portugal é uma surpresa para a maioria da população da Terra. Algo semelhante ao que Francisco da Cunha Leão afirmava ao referir que Portugal seria um dos mais espantosos casos de independência nacional que a história registou, «pela pertinácia e o rumo seguro das afirmações colectivas, pelo sentimento unitário que soube manter através da fluidez dos caminhos próprios».

Quem somos nós? Possuímos um espaço territorial que se espelha no ser das gentes que o ocupam, humildemente estranho por fora mas imenso por dentro. O povo português chega a projectar «toda a sua ansiedade psicológica e social, toda a sua aspiração religiosa e mítica a uma plenitude de ser, a algo que transcenda o querer e o ter, um desejo profundo e inominável de mais ser» (António Quadros). Mas o país Portugal é um mapa que ultrapassa as fronteiras políticas e geográficas, sendo uma das suas «terras» a língua portuguesa, como defendia Fernando Pessoa.

Quem somos nós? Portugal não é só as grandes metrópoles e toda a envolvência do seu hiper-realismo, que ilude e entretém as massas, o país é igualmente o seu interior rico em cultura e histórias, povoado de gentes que viraram costas à atracção da plenitude do mar, escolhendo viver perto dos seus afluentes e do conforto duma ecologia acolhedora. Portugal é um «quadro geográfico natal raro», que «oferece inóspitas asperezas ou dimensões esmagadoras do homem», e feito «quase sempre de paisagem humanizada ou afeiçoável ao homem» (Francisco da Cunha Leão). Mas Portugal é mais do que isto, é a expressão de um espelho de um «porto de abrigo» (Allis Ubbo, antigo nome fenício de Lisboa), assumida e psicologicamente para além de si próprio.

Quem somos nós? Francisco da Cunha Leão caracterizou o português como sendo individualista. O «individualismo e a diversidade da população põem constantemente em risco as obras colectivas, às quais tem faltado quase sempre o apoio unânime». E não menos «cioso em reivindicar o direito a opiniões próprias, sem que se vergue à autoridade como imposição», não seguindo «politicamente os intelectuais». Uma ainda grande parte desses portugueses representam um Portugal profundo e secular, que não ligam a pensamentos ideológicos políticos que nem chegaram a compreender, ligam isso sim a quem lhes dê a mão e lhes facilite a vida, são práticos no que fazem e desenrascam-se com o que os define na sua diversidade individual, não deixando de ser um só. Nas palavras de Jorge Dias são «um povo paradoxal e difícil de governar», cujos «defeitos podem ser as suas virtudes e as virtudes os seus defeitos conforme a égide do momento». Em suma, «o português compreende e age por comoção», resume Cunha Leão. De igual forma, o Padre António Vieira chegou a relevar que «mais fácil era antigamente conquistar dez reinos na Índia, que repartir duas comendas em Portugal».

Quem somos nós? Actualmente a nossa liberdade abrilista é ilusória, manietada e permitida por um governo não por nós mandatado. Aquele que o foi não respeita as premissas da sua campanha. No entanto, «Portugal foi livre, enquanto foi português nas suas obras; enquanto soube realizá-las, obedecendo apenas à sua vontade vitoriosa» (Teixeira de Pascoaes). Quer-se que Portugal seja tudo o que há de modernidade pretensiosa civilizacional, mas não se deixa espaço para que tenha oportunidade de ser Portugal. Isso faz com que o povo entre num corrupio de «esquizofrenia sublime» (Eduardo Lourenço) e se submeta a ideologias político-sociais sem questionar a sua implementação anacrónica. Talvez por um «excesso de consciencialização da própria condição», salienta o mesmo, o português não se reconhecerá nas visões de sociedade proclamadas pelas vigentes máquinas partidárias.

Quem somos nós? Como Miguel Esteves Cardoso concluiu, «ser português é difícil», por isso somos capazes de ter «algum medo de ser portugueses». É como se tivéssemos um destino e não coubéssemos «no berço onde o corpo nasceu» (Miguel Torga). Realmente, como diria Teixeira de Pascoaes, «ser português é uma arte». Salientou Jorge Dias que «a personalidade psico-social do povo português é complexa e envolve antinomias profundas», o português «é um misto de sonhador e homem de acção», que «possui grande fundo de solidariedade humana». Somos um «povo simultaneamente sonhador e muito realista» (Eduardo Lourenço). Temos uma «idealidade sonhadora», um «fundo instável de inquietação», uma «mundivisão saudosa» (Francisco da Cunha Leão). Sim, a saudade. Esta «saudade, fulcro de sensibilidade portuguesa, esperançoso apego à vida» que «impregna toda a vida sentimental e activa dos portugueses» como um irrequieto «sentimento de ansiedade», descrevia Cunha Leão.

Quem somos nós? Fomos aferrolhados a uma ilusão de um complexo de inferioridade instruído e instrumentalizado. Esquecemos o sentido da História. Esquecemos que a unidade subtil do Brasil presente no seu superego colectivo reflecte um monumento prodigioso à harmonia dos contrários antropológicos inerentes ao estar e ser português. Mas basta! Este povo, por analogia, aguentou uma fase de «vergastada», encontrar-se-á em pleno fim de «crucificação» e somente após tal suplício ressuscitará como um povo novo, um povo acordado? É altura de assumirmos aquilo que fomos e termos a coragem de ser. É o momento de sermos portugueses!


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Texto de Nuno Gomes dos Santos


Dos fracos não reza a estória

Foi Hemingway que o disse: um homem pode ser destruído, mas não derrotado. Ponhamos no plural, tanto vale, o grande escritor não aventou outra coisa, apenas singularizou a tese. Um homem não seria aquele, único, o pescador Santiago que perseguia um peixe enorme, vencendo essa batalha, mas perdendo-a depois da vitória para os tubarões que, topando o ganho do homem à custa do enorme esforço feito, não fizeram mais do que, para proveito próprio, sacar, ia a dizer sem espinhas não fora o descabido da expressão no caso, o produto da faina justamente consumada.
A estória, que nos fala da lei da natureza se tivermos em conta o comportamento normal dos tubarões perante um repasto facilitado que não podiam desdenhar, lembra-nos acima de tudo a tenacidade e a força de quem, por muito que se adivinhe difícil, literalmente por mares nunca dantes navegados, alcançar o seu objectivo, o persegue com a vontade de quem sabe que o pode atingir, malgrado as ondas adversas que tenha de enfrentar. Porém, estes são os tubarões sem alcunha, assim chamados por ser esse o nome que lhes foi atribuído pelos homens. «O Velho e o Mar» conta-nos isso. Mas lembra-nos outra história, esta com agá, da qual são protagonistas homens e tubarões e que decorre assim: era uma vez o Homem, vestido com a letra grande com que se designa um aglomerado de gente a que se chama Povo. Esse Homem resolveu que a pobreza não tinha de ser um fado e, sendo Povo, descobriu o direito de ser Homem. Meteu-se no barco que pega o destino pelos cornos e elevou-se ao patamar onde a vida se derrama em palavras e actos que tratam por tu a justiça, a igualdade, a fraternidade, o trabalho, a solidariedade e a dignidade. Porém, no mar em que navegava essa gente de cabeça erguida, o Grande Tubarão, atento, foi esperando a sua oportunidade e, ao menor baixar de guarda, filou o Homem, primeiro roubando-lhe discretamente o peixe miúdo de uma jornada menor, depois atiçando-se contra pesca mais grossa que o Homem conquistara em anos e anos a lutar denodadamente contra as marés.
Estava o Homem convencido de que a vida passara a ser-lhe menos madrasta e vai daí o Grande Tubarão, sentindo que abalroara a contento a sua embarcação, afinal mais fraca do que julgara, decretou que o Homem teria direito à sua sobrevivência, navegando nos restos do seu barco agora jangada, isto se continuasse a pescar guardando para si o dízimo e ficando o grosso da pescaria para o Grande Peixe. Então o Homem protestou. E o Grande Tubarão riu-se do protesto. Depois o Homem reivindicou o produto da sua faina. E o Grande Tubarão armou peixes de grandes dentuças para retaliar a jangada e amedrontar os seus ocupantes. E o Homem disse «então não pesco». E o Grande Tubarão disse «ai, pescas, pescas!». Porém, a convicção dos indignados aumentou e, ao invés, a soberba do Peixão decresceu.
Não sei o resto da estória, melhor dizendo, da História. Mas, como se diz do Natal, o final dela há-de ser quando o Homem quiser.


Texto de Helena Romão

Somos explorados, insultados, escravizados, criminalizados.

Lei laboral, dizem-me que existe. Mas alguém a viu? Na verdade, somos destinados ao desemprego e à precariedade, sem qualquer possibilidade de superar o limiar da pobreza.
O nosso futuro é uma sucessão de estágios não remunerados ou, na melhor das hipóteses, o dumping laboral: trabalhar cada vez mais por cada vez menos. Por tão pouco, que ao somar o almoço da marmita e o passe à Segurança Social que pagamos por inteiro, estamos a pagar para poder trabalhar. A mesmo Segurança Social cujo incumprimento passou agora a ser equiparado a um crime de fraude. Dizem-nos os nossos representantes que é isso que somos: criminosos.
«Mais barato que a escravatura», dirão certamente os patrões nas reuniões à porta fechada.

Como somos tratados quando estamos desempregados? Com termo de identidade e residência, como qualquer criminoso. E na maioria dos casos sem direito a um subsídio: ainda que tenhamos a Segurança Social em dia.

Mas não basta. Temos ainda que ser insultados. Que somos piegas, que não temos noção da «realidade». Há mesmo gente para quem a «realidade» é uma cotação da bolsa, gente que não concebe que a realidade é «aguentar», pagar a renda de casa e poupar na comida. A mesma gente que de vez em quando encontra uns milhões não declarados esquecidos no bolso das calças, gente imediata e devidamente perdoada, claro. Criminoso é o sem-abrigo apanhado a roubar comida. Esse que, como criminoso, «ai, aguenta, aguenta».

Na verdade, está a cumprir-se um plano antigo. Foi Cavaco quem fez quase toda a preparação. Destruiu a indústria, as pescas, a agricultura. Preparou a principal legislação para privatizar e concessionar a saúde e o ensino. Estabeleceu numerus clausus e propinas, e as universidades privadas floresceram naqueles anos, sabemos hoje em que vergonhosos, por vezes criminosos, moldes.

Cavaco dizia, há alguns anos, sobre os funcionários públicos reformados: «resta-nos esperar que morram». Os mesmos que conheceram anteontem a ameaça que a troika o governo colaboracionista têm para lhes fazer: os cortes vão tornar-se permanentes. Uma imprudência, certamente. Não se terá lembrado que muitos desses reformados são excelentes clientes dos serviços de saúde privados que ele próprio incitou. A porta-voz da BES Saúde não tardou a esclarecer: «melhor que o negócio da saúde, só mesmo o das armas». Não, não é de pessoas que eles falam. É do lucro das empresas. Se as pessoas vivem ou morrem, depende apenas de como são mais lucrativas.

Desde Cavaco que os governos não têm feito mais que seguir o caminho apontado. O governo do país e das nossas vidas é usado para fomentar fortunas pessoais. As decisões do governo são tomadas como forma de estabelecer acordos com as empresas que os ministros irão dirigir mais tarde, não têm qualquer relação com o interesse comum.

Mas lutamos. Não nos rendemos. Distribuímos panfletos ou reunimo-nos numa rua. Por isso, somos também criminosos: acusados de manifestação ilegal («crime» inventado, mas muito em voga) ou o multi-facetado e «sempre à mão» crime de ofensa contra funcionário público. Levados para esquadras ilegais, sem direitos, ocultados à família e aos advogados, agredidos.

O sistema judicial foi deixado ao desleixo ao longo dos anos, de forma a que uns poucos corruptos sejam suficientes para que as fugas de informação e a burocracia paralisem todo o sistema e neutralizem os efeitos práticos. Os prazos de prescrição não se coadunam com a falta de pessoal e a quantidade de recursos e medidas possíveis para travar um processo, para quem possa pagar as custas. As decisões políticas determinaram, portanto, que a impunidade depende dos trocos que se trazem no bolso e da pressão que se possa exercer.

O FMI mata. Os suicídios aumentaram, as taxas de mortalidade infantil também. Sem dinheiro para superar a malnutrição, os doentes morrem mais cedo e com maior sofrimento do que a medicina permitiria. Morrem os reformados com pensões de 200 ou 300 euros. Como é que se sobrevive aos 80 anos com rendimentos assim?! A par com o desespero, aumentam os medos e voltam os velhos assassinos: o racismo, a homofobia, o machismo. O FMI mata mesmo. É um genocídio lento, sem campos de concentração nem valas comuns, mas é muito preciso: afecta só aqueles que não têm o que extorquir. É um mal necessário no caminho do lucro infinito: os «sobreviventes», os «mais fortes», aceitarão quaisquer condições de vida e de trabalho.

Agora é a nossa vez. Resgatamos a dignidade ao medo que nos fez eleger a mesma quadrilha vezes sem conta. Resgatamos as nossas vidas de volta. BASTA!

É a nossa vez de decidir o que queremos para nós e assumir a responsabilidade de o construir. É um trabalho de todos os dias e 2 de Março é só um dia, aquele em que saímos para nos encontrarmos.

O POVO É QUEM MAIS ORDENA!

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Oficinas Populares – Aqui e Agora

No dia 16 de Maio de 1968, alunos e professores ocuparam a Escola de Belas Artes de Paris e aí estabeleceram o Atelier Populaire, ou Oficina Popular. Ao longo de vários dias, e pela noite dentro, este colectivo informal criou, discutiu e imprimiu centenas de cartazes, originando uma vaga de imagens e palavras de ordem que ficaram para a história. 
Em Maio de 68, os instigadores do Atelier Populaire declararam que os seus cartazes eram “armas ao serviço da luta”, e que o lugar destes era “nos centros de conflito, ou seja, nas ruas e nas paredes das fábricas.” 45 anos depois, qual é o lugar dos cartazes e imagens de protesto nos centros de conflito actuais?
É precisamente isso que pedimos a designers, artistas, ilustradores e outros criadores de imagens que questionem, aqui e agora. 
Temos observado com entusiasmo a criação, por todo o país, de espaços e colectivos independentes de criação e distribuição de materiais impressos, além de makerspaces e hackerspaces. Juntamente com as escolas de arte e design – como aquela onde foi criada a primeira Oficina Popular – estes espaços concentram uma energia e potencial de criação e produção que urge canalizar para uma causa que nos interessa a todos.
Apelamos assim à criação de Oficinas Populares onde se possam criar, discutir e produzir imagens de protesto destinadas a serem distribuídas e afixadas em paredes, tanto físicas como digitais, por todo o país. 
Reproduzidas tanto em cartazes impressos como em rectângulos JPG, estas imagens terão ainda o poder de fazer da manifestação de 2 de Março um acontecimento memorável.



Guia Rápido para montar uma Oficina Popular 
1 Juntar um grupo de pessoas (estudantes, professores, colegas, amigos, desconhecidos). 
2 Encontrar um local apropriado de reunião e, se possível, produção/impressão.
3 Encontrar/criar meios e materiais de produção: serigrafia, gravura, tipografia, stencil + tinta de spray, etc.
4 Combinar local, dia e hora para a criação da Oficina.
5 Criar propostas de imagens que sejam facilmente reproduzidas e distribuídas.
6 Imprimir.
7 Distribuir: afixar, colar, partilhar (net).
8 Enviar imagens, ficheiros originais (pdf, jpg) ou uma fotografias dos cartazes afixados para  HYPERLINK "mailto:queselixetroika@gmail.com" queselixetroika@gmail.com, para que possamos partilhar numa galeria de imagens no nosso site e página de Facebook, para que outros possam não só ver como reproduzir/imprimir.
9 Quem tiver uma imagem/cartaz pronta a reproduzir e não tiver Oficina onde o fazer pode enviar-nos por email (pdf, jpg); nós trataremos de o partilhar e fazer chegar a quem possa.
10 Poderão também comunicar-nos o local, data e hora da vossa Oficina, que juntaremos a uma lista nacional. Assim, outros poderão juntar-se a vós.
11 De forma a comunicar a manifestação de forma consistente, apelamos a que cada um dos cartazes inclua a seguinte informação:

Que se lixe a troika
O povo é quem mais ordena
Manifestação
2 de Março 


Algumas regras e sugestões
1 Tudo isto pode ser feito num só dia (a colagem de cartazes faz-se preferencialmente à noite).
2 Se as imagens criadas forem destinadas a serem impressas em formato cartaz, deverão ter 1, 2 cores no máximo, para serem reproduzidos de forma fácil e barata.
3 Em honra do espírito dos Ateliers de ‘68, todos os cartazes/imagens criados nestas Oficinas devem permanecer anónimos. 
4 A manifestação de 2 de Março será pacífica. As armas que levamos são as nossas vozes e a nossa presença. Não serão assim bem vindos quaisquer apelos à violência ou mensagens notoriamente racistas, xenófobas ou fascistas.
5 Os cartazes feitos nas Oficinas podem ser vendidos para custear a sua produção, ficando ao critério de cada uma estabelecer o seu valor e tiragem.

Inspiração
Ateliers Populaires bit.ly/mlzFlx + bit.ly/zNkVAk
Oficina Arara (Porto) bit.ly/qOTCKq 
War is Over! (Yoko Ono) http://bit.ly/crKvN0


Texto de Ana Carla Gonçalves

Decides aflito deixar o quarto. Carregas contigo as noites iguais aos dias, o último despedimento que com bondade decidiste carregar como mais um falhanço teu com a vida. Carregas as noites em branco entre fumos, o cão, a tua música que compões como se não houvesse amanhã e já não sabes se é segunda-feira ou domingo. A universidade está cara e o trabalho já não procuras. A tua tristeza tem o peso da tua idade: 25 anos. Em menino tinhas luz dentro dos olhos e a vida era toda tua quando, cuidadosamente, agarravas nas mãos um escaravelho para observares de perto e aprenderes com ele os mecanismos da natureza. Depois tiraram-te a natureza, os escaravelhos esconderam-se debaixo do asfalto e a luz escureceu à volta de todo o teu rosto. O cerco apertou-se à tua volta e tu começaste a acreditar que se o mundo, o país, a cidade, não te davam a mão, era porque tu não merecias. As feridas do mundo tomaram todo o teu corpo e fechaste os olhos como quem acredita que sempre falhou e que já nada vale a pena. Com 25 anos apenas perdeste de vista o futuro e deixaste de acreditar.
Mas é o dia 2 do mês de Março e por isso  decides deixar o quarto. Não vais levar nenhum cartaz. Sem gritar vais estar a reivindicar a possibilidade de voltares a sonhar e de teres uma comunidade em quem podes confiar e que podes merecer. Estarás na rua pela possibilidade da luz voltar aos teus olhos libertando todos os escaravelhos presos debaixo do asfalto.
E eu vou estar contigo.
Decides deixar a casa. Estás ansiosa. Tens 35 anos e fizeste tudo como te mandaram: estudaste, trabalhas porque ainda tens trabalho, mas sabes que não será por muito tempo, e agora, com menos dinheiro porque te roubam no salário, vais talvez ter de deixar a casa. Desde menina adoeces, porque vês as coisas e as entendes e sonhas muito. E não há sonho que se realize. Não podes fazer teatro, porque não há maneira de pagar a casa e para a cultura não há dinheiro e os teatros fecham e a cultura adoece. O inimigo está por aí como sempre esteve, mas agora com menos pudor, a roubar, a destruir, a insultar a tua e todas as dignidades. Queres ir embora, pensas nisso todos os dias, mas as saudades apertam ainda antes da partida. E roubam-te o filho que querias ter. Porque para o teu filho tu querias árvores e uma escola com dignidade.  Porque para um filho é preciso ter um futuro.
No dia 2 de Março vais estar na rua. Com muita vontade de chorar. Pelo teu filho que tem de continuar à espera, pelo teu irmão, pelo teatro, pelo teu avô, pela água e pelas árvores, pelos medos e angústias que te enchem o peito, pelos meninos de todo o mundo da Palestina e da África e da Grécia e daqui.
E eu vou estar contigo.
Cresceste a olhar para a rua. Amas a cidade e sais com ela todos os dias, desde os 18 anos, para trabalhar. Sabes de cor o que é a vontade prepotente dos patrões e ganhas, de cabeça erguida, o salário pequeno para tantas horas de trabalho. Desde menino sonhas com a tua vida entre a música e a vontade de ficar absorto a olhar para o mar. Nove horas de trabalho por dia desde os 18 anos e os sonhos adiados. Amas demasiado a cidade e o país para poderes partir. Depois, a empresa fecha, e mudam-te de lugar e tu vais e mudam-te os horários e tu vais e trocam-te as funções e tu fazes. Perdes direitos, reviram-te a dignidade, a tua raiva cresce e já não sabes contra quem a atirar. Lês no comboio, na camioneta, uma hora até chegar, e o outro dia será igual e o dinheiro será menos e às vezes em casa tudo parece ruir à tua volta. Sempre acreditaste em comunidades. Aconchegas-te na esperança de a encontrar. Agitas-te, consomes-te, reivindicas. Tudo à tua volta está por um fio: o trabalho, a casa, a música.
No dia 2 de Março vais estar na rua. Queres reencontrar a dignidade nas caras como no dia 15 de Setembro viste. Queres estar de braço dado na comunidade que sonhas. E gritarás O POVO É QUEM MAIS ORDENA e terás lágrimas nos olhos, porque milhares gritarão contigo e porque poderás continuar a acreditar na mudança.
E eu vou estar contigo.
Eu vou estar na rua no dia 2 de Março porque uma tristeza enorme pesa sobre o mundo.
Vi , com 11 anos, o meu pai ser preso. Odiei a pide, o salazar, o marcelo, o colonialismo, o capitalismo, fui perseguida, quase expulsa da faculdade, escrevi, fugi à polícia, tive falsos nomes e identidades, lutei, vi África e a Palestina, roguei pragas e fui camarada e companheira e professora e vi a escola pública adoecer e vi os meus alunos com fome de pensamento e de pão e vi e tornei a ver gente a ser torturada e perseguida. E a besta ainda aí está travestida de FMI, BCE, Comissão Europeia, ulriches, passos e companhia e a guerra continua e as prisões devem abrir-se para que eles entrem, para que nos deixem respirar e beber a água que é de todos e para que os meus netos possam nascer ao pé das árvores, para que o meu filho saia do quarto a acreditar na sua vida e na Amazónia que também lhe pertence, para que não seja pecado o meu amor fazer música e mesmo assim viver e a minha filha fazer teatro e mesmo assim viver com dignidade, pão na mesa, serviço de saúde, direitos.
QUE SE LIXE A TROIKA! Que se lixem bancos e banqueiros, que se lixe o belmiro e o relvas, que se lixem todos os bem comportados que nunca viram o infinito.
Vou estar na rua para que eles oiçam e saibam e nunca esqueçam que O POVO É QUEM MAIS ORDENA!

Texto de Paulo Varela Gomes


A lição de Gandhi

A mais conhecida frase de Gandhi é:
«Não há qualquer causa pela qual esteja disposto a matar. Mas há causas pelas quais estou pronto a morrer.»
Estas palavras resumem a perspectiva de luta com que hoje se defrontam centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, mas em especial no Ocidente (Europa e continente americano). Estamos na última das extremidades: está em jogo a vida das pessoas. Primeiro seremos reduzidos à pobreza. Depois farão de nós o que bem lhes aprouver.
A maioria das pessoas no Ocidente já há duas ou três décadas percebeu aquilo que a esquerda ocidental mostra extrema relutância em aceitar: que não vale a pena nem é possível combater apenas por meios legais o capitalismo sustentado parlamentarmente.
A maioria das pessoas pensa que os políticos são uns aldrabões ou corruptos, que o sistema judicial está ao serviço deles e que só os ricos e poderosos se safam. O chamado «descrédito do sistema político», assunto sobre o qual se têm tecido profundíssimas reflexões, é simples de explicar: o sistema está desacreditado porque não merece crédito. As pessoas já perceberam. Uma parte delas continua a votar por desfastio, a outra vota com os pés.
A esquerda parece estar convencida de que escapará entre as gotas desta bátega torrencial de desilusões recorrendo à luta dentro do sistema: o discurso parlamentar, as eleições, a ocasional coluna nos jornais ou prestação televisiva, etc. Triste engano. A maioria das pessoas não distingue um deputado do PCP de um do PSD, para referir casos portugueses. Estão todos no mesmo sistema. Dizer coisas como esta pode parecer o regresso a um dos mais velhos debates da esquerda ocidental: como combater o sistema capitalista e o seu parlamentarismo? A partir de dentro ou a partir de fora?
Parece, mas não é. Pela primeira vez desde o século XIX, o sistema não tem alternativa nem teórica nem prática, quer dizer, não pode ser substituído. Mas têm alternativa os seus governos e regimes mais injustos e corruptos. É indispensável resistir-lhes, desgastá-los, desregular-lhe os mecanismos de funcionamento, derrubá-los. Para resistir desta maneira não se pode agir apenas com os meios que o sistema permite. Quando se convoca a greve geral nº 354, a grande manifestação nº 1723, ou se assina o manifesto nº 10 655, só se está a desacreditar a greve geral, a manifestação e o manifesto, respectivamente.
Todavia, as greves e as manifestações podem atingir uma dimensão verdadeiramente surpreendente se pararem de facto o país, se encherem de facto as cidades. É por isso que vale a pena investir em manifestações como a de 15 de Setembro ou a de 2 de Março próximo. Para surpreender e assustar os poderosos. Deve pensar-se que a resistência armada ao sistema está sem qualquer dúvida na ordem do dia e será uma realidade mais cedo do que tarde. Todavia, é muito perigosa tanto do ponto de vista ético como político. O passado demonstrou-o muitas vezes.
Mais importante e efectiva é a resistência desarmada, a resistência passiva. É preciso seguir o lema de Gandhi.
Em vez de termos cinco mil pessoas em frente de S. Bento, é preciso ter cinquenta mil, deitadas nas escadas em levas sucessivas, sofrendo as cacetadas da polícia, aguentando os canhões de água, sendo presas.
Há cinquenta mil pessoas em Portugal dispostas a isto?
Não me parece. Nem sequer cinco mil.
E porquê?
Por muitas razões que todos conhecemos e uma que nos recusamos a reconhecer: porque a esquerda é vítima do seu servilismo parlamentar e acredita só poder existir enquanto tiver lugares no parlamento e aparecer na televisão ou nos jornais a apertar a mão do PR. De facto, a esquerda não promove e até condena a resistência passiva. A primeira coisa que diz um sindicalista ou dirigente da esquerda após convocar uma manifestação é que será «pacífica». A primeira exclamação que lhe sai da boca mal alguém se agita é «calma camaradas!»
Esta é a responsabilidades negativa da esquerda.
Olhemos agora para as suas responsabilidades positivas:
É sua estrita obrigação política e ética apoiar, promover e assumir o rosto da resistência passiva. Se o fizer dará o exemplo e a resistência poderá crescer. Para isso, os seus representantes, e com eles os intelectuais de esquerda e os independentes que estão contra o sistema, terão que estar prontos para resistir.
Se não há cinquenta mil pessoas dispostas a aguentar em frente do Parlamento, há dezenas de deputados que deveriam estar dispostos a: boicotar activamente sessões parlamentares, impedindo o Parlamento de funcionar; não pagar impostos e incitar ao não pagamento; sentar-se numa linha férrea em ocasião de greve dos comboios, etc., etc., etc.
Perdiam o mandato? Iam presos?
Nas presentes circunstâncias, vivendo nós sob um regime ilegítimo eticamente e tirânico politicamente, o lugar mais honroso onde podem estar Jerónimo de Sousa ou Catarina Martins é a prisão.
(Pessoalmente, sentir-me-ia muito mais contente comigo mesmo e com este texto se tivesse saúde para agir em conformidade com o que aqui escrevi.)

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Texto de Carlos Pereira

Eu participo na manifestação de 2 Março, porque estou indignado, revoltado roubado, assaltado e observo que os meus sonhos de jovem com as conquistas do 25 de Abril estão há muito a ser postos em causa!

Depois de uma vida de trabalho, em que durante 44 anos, e de acordo com as regras definidas pelo estado, quer eu, quer as minhas entidades patronais, entregámos através da Segurança Social as respectivas contribuições para a formação da minha pensão, que com base na lei tem de ser paga durante 14 meses, tendo sido estas contribuições seguramente capitalizadas ao longo dos anos.

Pensava eu que tinha reunido todas as condições e que o estado, como pessoa de bem, iria assumir os seus compromissos pagando a pensão que me é devida.

Contrariando esta minha anterior convicção, assisto ao desrespeito unilateral por parte do Estado das regras que ele próprio definiu e as quais eu e as minhas entidades patronais cumprimos na íntegra, o desrespeito é visível: cortaram 1,5 % na pensão no tempo do Sócrates e agora com o actual governo o roubo é total. Confisco dos subsídios de férias e de natal e ainda uma contribuição extraordinária de solidariedade de 3,5 %, para além obviamente do assalto fiscal no IRS, do aumento no IMI, do aumento no Imposto de Circulação Automóvel e da redução do meu poder de compra, porque vários serviços como a electricidade, a água e outros produtos aumentaram, além de que o relatório do FMI prevê novos cortes nas pensões!

As pensões não podem ser apenas consideradas como despesa do estado, pois tratam-se de obrigações assumidas pelo este, sendo que na minha opinião os reformados são credores do estado no valor da sua pensão.

Neste contexto reafirmo que me sinto roubado, razão pela qual luto contra o empobrecimento, por uma vida digna e pelo respeito dos direitos e interesses dos reformados.

Para alcançar este objectivo, aderi à APRe!, a voz dos aposentados, pensionistas e reformados.

Como cidadão estou inteiramente contra as políticas de austeridade que têm conduzido à quebra de rendimento das famílias e ao consequente desastre económico, com falências de empresas todos os dias e os despedimentos inerentes, os 4 000 milhões previstos cortar nas funções sociais do estado, que a acontecer vão seguramente destruir o estado social e dificultar o acesso à saúde e à educação, agravando a vida dos Portugueses em geral.

Estou preocupado com o futuro do país, dos portugueses em geral e dos reformados em particular!

Estou preocupado com o futuro dos meus filhos e netos!

Por todas estas razões, reafirmo que vou participar na manifestação de 2 de Março em Lisboa.
Que se lixe a troika! O Povo é quem mais ordena!

Texto de Tatiana Moutinho


Quero o meu direito a sonhar.

Sou uma das subscritoras da convocatória da manifestação do próximo dia 2 de março.
Muita gente tem já escrito, provavelmente melhor, acerca do que os leva a juntar-se ao protesto. Compreendo todas as razões. Solidarizo-me com todas. As minhas razões também são as mesmas.
O que me junta a todos os outros é precisamente uma questão de solidariedade. Não viemos todos do mesmo sítio e não pensávamos todos ir para o mesmo sítio. Mas, de repente, deixámos de pensar para onde poderíamos ir. Já não há espaço para pensar, muito menos para sonhar.
Passámos a viver o dia-a-dia, a tentar reduzir as perdas ao mínimo. Estamos em plena sobrevivência e isto não é vida para ninguém.

Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque vida só tenho esta. Tenho quarenta anos e mereço algum sossego.
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque tenho uma filha e ela merece uma vida.
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque tenho avós que, de lágrimas nos olhos, me dizem: «não foi para isto».
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque tenho uns pais que dedicaram uma vida inteira ao serviço nacional de saúde e me dizem: «estão a matar tudo».
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque diariamente há gente que perde o seu emprego.
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque diariamente há gente que perde as suas casas.
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque se amontoam as pessoas a dormir nas ruas.
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque há gente com fome.

Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque a democracia também se cumpre na rua.

Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque eu preciso de mais do que simplesmente chegar a casa e estar a escrever textos para serem publicados no site do «que se lixe a troika».
Sairei para a rua todas as vezes que for preciso, porque eu necessito de chegar a casa e sonhar.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Texto de Joana Manuel

Temos tudo já escrito e já dito. E no entanto somos nós agora que estamos vivos e temos de o continuar a dizer e a escrever. Temos tudo nas estantes, nos livros e nos discos e nos filmes, no legado de vivos e de mortos. E no entanto somos nós agora que estamos vivos e temos de continuar a viver. Temos os bairros negros e os brejos da cruz na nossa rua, temos ainda, ou voltámos a ter, meninos que comem luz. Não imaginávamos que ainda fosse possível, alguns de nós ainda duvidam que o seja, ainda se negam a ver o óbvio, que não estamos em guerra, mas que estão em guerra connosco. Temos filhos e sobrinhos e pais e amigos e novos e velhos a perguntar que tempo é este, que farsa é esta, em que a milenar escravatura da dívida nos é apresentada como novidade salvadora e redentora, que pelo nosso sacrifício vai enriquecer mais e mais os nossos carrascos. Um mecanismo de saque generalizado que se serve da política que deveria ser nossa para nos submeter a lógicas exploradoras que matámos uma e outra vez ao longo dos séculos, mas que sempre se regeneraram às costas da nossa indiferença, da nossa alienação, do nosso medo. Dos nossos medos.

Saio à rua mais uma vez no dia 2 de Março. Porque me orgulho de uma Constituição que me defende e portanto quero continuar a defendê-la. Porque não há política sem mim-cidadã, sem ti-cidadão. Porque só tenho medo de viver no medo e um dia descobrir que já não vivo, que só respiro, e a custo. Porque a água é minha e os ventos são meus e as escolas são minhas e a polícia é minha e os hospitais são meus, não me são dados, são feitos do meu esforço, do meu trabalho, da minha contribuição. E esta terra é minha e dos que a escolheram para ficar, habitar, construir, lutar. É minha como dos milhares que já se viram forçados a sair para poderem respirar melhor e que connosco sairão à rua também por todo o mundo onde há ecos deste chão. Saio à rua porque é a nossa vez de abater as quimeras do atraso, da injustiça social, do crime feito política, da política feita crime contra cada um de nós. Porque não sou cúmplice. Porque ombro a ombro, contigo quero começar em Março uma nova primavera. Uma nossa primavera.