sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Texto de João Gustavo


Muda de vida

“Muda de vida, se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há Vida em ti a latejar”

António Variações

Perdoar-me-ão que neste texto não me refira à Troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia).
Nem ao grupo de pessoas que ocupa o lugar de governo deste país.
Nem à pessoa que ocupa o lugar de Presidente da República.
Nem aos poucos que, no seu ilusionismo especulativo, imoral e quantas vezes ilegal, lucram milhões enquanto a rapaziada anda a fazer pela vida, a descobrir novos limites de sobrevivência (ou mesmo não-vivência).
Como devem supor, considero tudo isso bastante relevante e muito há a dizer sobre estas matérias. Mas confio que os leitores deste texto estão suficientemente informados, e outros textos neste âmbito debruçam-se sobre estas temáticas (com qualidade, rigor e descrição aprofundada).

O meu contributo foca-se na seguinte questão: o que pode mudar a manifestação de 2 de Março?

Sairmos do isolamento, libertarmo-nos da culpa e da vergonha!
Quando estamos absorvidos nos nossos (legítimos e justificados) dramas pessoais, tendemos a fecharmo-nos em conchas. Vendo a vida a escoar-se sentimo-nos culpados. Sentindo-nos fracos temos vergonha de expressá-lo. E isso isola-nos cada vez mais.
É hora de nos vermos todos juntos, e sabermos que não estamos sozinhos. E libertar-nos de um sentimento de culpa e de vergonha (muitas vezes inconsciente) que nos faz sentir pequeninos. Não somos! E assumimos a nossa dignidade. Assumimos o direito a uma Vida digna, plena de condições para nos desenvolvermos (individual e colectivamente). O direito a Viver, trazendo o Sonho à realidade. É nosso, e como multidão assim o expressamos.

Superarmos uma sensação de impotência!
Sozinhos tendemos a sentir-nos impotentes para alterar coisas de uma grande dimensão. Só que somos muitos a querer mudar. E quando o afirmamos juntos, com a força da expressão de sermos muitos, sentimo-nos maiores.

Vencermos o medo!
O medo é fruto da impotência. Por pior que estejamos, temos (muitas vezes de forma inconsciente) o medo do que pode ainda piorar, e nada podermos fazer para evitá-lo (ou assim pensamos, mesmo que inconscientemente). Quando estamos juntos, em multidão, a afirmar a Vida que queremos transformar, lembramo-nos que somos Fortes. E quando estamos fortes não há nada que temamos.

Precisamos de uma mudança que vá à raiz, que traga à luz um novo “paradigma de Ser, em sociedade”! Não estou a falar de estruturas ou sistemas de organização da sociedade. Estou a falar da mudança de consciência, para um paradigma em que o Amor guia todas as decisões na gestão do Bem Comum. Um paradigma que, por isso, vela pela Verdade e pela Justiça, um paradigma que está em harmonia com o progresso, com a expansão na Vida de todos e de cada um. Um paradigma que permite, facilita e ajuda a História a andar para a frente.
Um paradigma assim não se decreta. Nem se muda por carregar num botão. Nem há fórmulas mágicas (quanto à sua estrutura ou sistema de organização). Nem será pelo surgimento de um qualquer indivíduo travestido de Messias. Nem tem alicerces para perdurar se não for sustentado por uma larguíssima maioria das pessoas.
Por isso, e indo à raiz da questão, a mudança está em nós, Povo. Em tomarmos em mãos o nosso destino colectivo. Em assumir o nosso Poder, a nossa Força e Determinação.
Um Povo forte não deixa lugar para que alguém dele abuse. E por isso se diz – e bem – “o Povo Unido jamais será vencido”. Portanto, o nosso primeiro e principal desafio é Unirmo-nos naquilo que nos é comum e é essencial. E isso, no contexto actual da nossa história colectiva, significa encontrarmo-nos na rua no dia 2 de Março. Muitos, muitos mesmo. Todos se for preciso. Vermo-nos nos olhos, abraçarmo-nos, sorrirmos. Porque eu sou tu e tu és eu. E nós, juntos, queremos mudar. E por isso nos juntamos. Na rua, a 2 de Março de 2013.

Era o meu filho muito pequenino (aí uns 4 anos) e inventou uma canção que dizia “levanta e voa, levanta e voa, cada vez que chove”.
Sabemos o tamanho da nossa dor. A dor própria e a dor que sentimos por empatia solidária com quem sofre ao nosso lado (independentemente da distância física). O desemprego, os despejos, a pobreza, a fome, a miséria. Aqui, na Grécia, ou em qualquer parte do mundo. Mas também sabemos que o caminho é transformarmos essa dor numa poderosa vitamina anímica, capaz de mobilizar os nossos melhores recursos e forças para alterar a situação. Para nos levantarmos e voarmos, a cada vez que chova.

Texto de Tiago Rodrigues


À semelhança de tantos portugueses

Começo este texto com o objectivo de apelar à adesão a uma manifestação. Uma manifestação que mostre a indignação dos portugueses perante a opressão a que são sujeitos. Uma manifestação que mude o estado das coisas. Uma manifestação marcada para o dia 2 de Março de 2013.
Mas quem sou eu para apelar a uma manifestação? Já fui a algumas e até levei umas cacetadas da polícia, mas não fui a todas as que devia ter ido. À semelhança de tantos portugueses, às vezes deixo-me estar no meu canto, resignado, preguiçoso ou entregue ao meu trabalhinho. Nem sempre aderi às greves. À semelhança de tantos portugueses, às vezes desconfio da actuação dos sindicatos. Já protestei bastante, mas também houve alturas em que não protestei, mesmo estando indignado. À semelhança de tantos portugueses, às vezes gasto mais energia no queixume do que na acção. À semelhança de tantos portugueses, às vezes desisto.
Assim, se o caríssimo leitor precisa de ser convencido a ir a esta manifestação por alguém com superioridade moral, pode parar de ler este texto. Haverá outros mais indicados para o seu caso. No entanto, este texto continua. E a razão pela qual continua é que eu acredito que no dia 2 de Março, nem eu, nem nenhum português (independentemente da sua estatura moral) pode dar-se ao luxo de ficar calado. Porque no dia 2 de Março, ser «à semelhança de tantos portugueses» pode significar outra coisa: estarmos juntos a defender a democracia que ninguém defende por nós. No dia 2 de Março, vou estar na rua, porque acho que a democracia portuguesa está doente. A morte da democracia é a contradição total entre a acção dos governantes e a vontade do povo que os elegeu. No Portugal democrático nunca esta contradição foi tão transparente e tão violenta como hoje. Este governo rasga diariamente o contrato que assumiu com os portugueses quando foi eleito. E fá-lo para beneficiar interesses económicos privados, comprometendo o acesso da população à segurança social, à saúde, à educação, à justiça e à cultura. Isto é matar a democracia. A questão já não é o falhanço absoluto das políticas de austeridade, medidas ideológicas disfarçadas de inevitabilidades económicas, que apelavam ao sacrifício de todos em nome de nenhuma ideia de país. Isso foi apenas o princípio desta tragédia. Hoje, trata-se de opressão. Os portugueses são oprimidos pelo seu governo. Todos os dias nos é roubado um direito. Todos os dias nos é ameaçada uma liberdade. O título desta tragédia é «Opressão».
Já que falamos em tragédias, na «Antígona» de Sófocles há uma cena em que Hémon, filho do rei Creonte, diz ao pai que, se ele quer governar sozinho, devia governar uma cidade deserta. Quando os portugueses olham para o seu governo é isso que pensam: este governo merece um país deserto. É isso que pensa o meu irmão enquanto continua a procurar um primeiro emprego onde possa dar uso à licenciatura que conquistou. É isso que pensa a minha amiga que trabalha a recibos verdes há mais de uma década. É isso que pensa a minha mãe quando faz as contas e percebe que a reforma não vai chegar. É isso que pensam os meus primos que emigraram para Angola. É isso que pensam muitos colegas meus, sem trabalho e sem subsídio de desemprego. É isso que pensa a minha avó quando espera dias para ter assistência médica na sua aldeia. E isto são só as pessoas que estão à minha volta, bem pertinho de mim. Cada um dos que continuou a ler este texto terá a sua colecção de escândalos para enumerar. Sejam as crianças de Elvas que vão à escola só para poder almoçar ou os trabalhadores desesperados nos estaleiros de Viana do Castelo, são muitos os dramas que nos empurram para a rua. E por isso é que acredito que são milhões os portugueses que também pensam que este governo merece um país deserto.
Mas no dia 2 de Março podemos fazer alguma coisa. E temos que o fazer, porque a verdade é que ninguém o vai fazer por nós. É um desafio nosso. A oportunidade é nossa. No dia 2 de Março podemos habitar o país, em vez de o deixar deserto. Podemos fazer uma respiração boca a boca a esta democracia e salvá-la no último momento. No dia 2 de Março podemos erguer a voz por cada direito que nos é roubado, fazer um gesto por cada liberdade que é ameaçada. E é por tudo isto que, no dia 2 de Março, eu estarei na rua, mas não serei apenas um. Serei «à semelhança de tantos portugueses».

Texto de Diogo Varela Silva

É imperioso que estejamos todos nas ruas dia 2 de Março. Temos que acabar com esta política cega antes que ela acabe connosco e com tudo o que foi feito desde 74 até agora. É imperioso que defendamos o estado social, é imperioso que o façamos, se não por nós pelos nossos filhos.Não é este o futuro que quero deixar aos meus filhos, não é este o país que lhes quero deixar de herança.

Que se lixe a troika e que se lixem estes governantes que nos asfixiam!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Texto de Maria Luísa Cabral


EU VOU À MANIFESTAÇÃO 2M

Aposentei-me há ano e meio, depois de quarenta anos de carreira contributiva, com a idade prevista na lei e, portanto, sem penalizações. Planeei a minha reforma sabendo que poderia gozar uns anos com alguma tranquilidade, confiante no contrato social estabelecido entre mim e o estado quarenta anos antes e confiando na assistência na saúde através da ADSE ou do SNS. Apenas vinte meses volvidos sobre a data da aposentação, a justa recompensa por uma vida de trabalho esvaiu-se. Fazem-me sentir culpada porque, diz o governo, no passado gastei (ou contribui para isso) mais do que ganhei; porque estou a receber uma reforma para a qual não contribui; porque me habituei a viver acima das minhas possibilidades. Ora eu nunca gastei mais do que tinha (em bom português, nunca dei um passo maior que a perna); eu sempre descontei o que o estado estipulou (quando entrei para o quadro da Administração Central do Estado a única coisa que me pediram foi que eu jurasse que não era comunista nem desenvolveria nenhuma acção contra a segurança do estado), nunca me perguntaram se eu queria descontar mais ou menos; como não contraí dívidas nem colaborei para o crédito mal parado, não notei ter vivido acima das minhas possibilidades. Habituei-me a fazer escolhas, levei sempre tudo bem equilibrado para não viver, efectivamente, acima das minhas possibilidades. De acordo com o que ganhava, gozei a vida, sim. Não me arrependo, nem carrego culpas mal disfarçadas, não tenho nem de pedir desculpa nem ser castigada.

De repente, um tsunami. Somos culpados, sim. Temos de entrar na ordem (deles). Temos de fazer mea culpa, andar cabisbaixos, humilhados e sem esperança. Há no ar um certo tom justiceiro. Este governo acha que tem autoridade para nos punir porque ganhou as eleições. O que nunca ninguém lhe explicou é que ganhar eleições não é um cartão em branco para justificar o esbulho a que assistimos nem para a destruição do estado social. Os aposentados, pensionistas e reformados constituem um alvo preferencial sobre o qual se carrega facilmente. Com as medidas tomadas e as que espreitam apenas a aguardar uma desatenção da nossa parte, podemos afirmar que a carga sobre os reformados é particularmente injusta e dolorosa. Os aposentados são, na generalidade, uma faixa da sociedade que perdeu capacidade de mobilização e de reivindicação, está fragilizada e desmoralizada. No final da vida, resta-lhe um trilho minado a percorrer. Eu que escrevo estas linhas e vocês que as lêem teríamos vergonha de atirar os nossos velhos para uma situação destas, mas este governo não tem. Este governo sente-se iluminado. O governo sabe exactamente onde está o bem e o mal. O que diz, está dito. Não há contraditório. Pior, não há pudor. Nem nas políticas que executa, nem nos alvos que escolhe, nem nos executores que faz avançar qual pelotão. Tenta virar-nos uns contra os outros, jogando com os diferentes valores de reforma entre os da função pública e os do sector privado; tenta semear o azedume e a desconfiança repetindo que uns gozavam de um sistema de saúde melhor que os outros; insiste em afirmar que os funcionários públicos eram, e são, privilegiados relativamente aos do privado. Pior, faz crer que as nossas pensões são uma despesa e, portanto, um favor. É preciso de facto muita desfaçatez. Todos estes argumentos são mesquinhos, distorcem a realidade, generalizam e desvirtuam. Tudo em nome da reforma do estado. Mas qual reforma? O que está em marcha não é uma reforma; a reforma faz-se discutindo o que é necessário manter ou eliminar e depois, então, quantifica-se. É inaceitável o pensamento de que apertando e esmagando se conseguirá arrumar a sociedade portuguesa, limpando-a ao ponto de ter apenas os que não pesam. Esta é uma abordagem muito perigosa, percebe-se mal como estamos a entrar e desconhecemos completamente como vamos sair. Por mim, recuso-a liminarmente.

Não podemos embarcar neste jogo baixo. Primeiro porque somos todos trabalhadores; segundo porque todos sofremos este sistema corporativo a ver quem mais água ao seu moinho leva. Nós queremos soluções que atendam à nossa dignidade de pessoas e cidadãos e se a situação é catastrófica fica a dever-se a sucessivos governos e políticas que pouco atenderam aos valores humanos, porque o lucro foi sempre mais importante, porque nunca se pensou verdadeiramente num sistema económico que servisse os interesses gerais do país e da população, no presente e no futuro. Entre números e estatísticas, a nossa realidade saltou de secretária em secretária, deu azo a muitos estudos, a muitos gabinetes, alimentou muita teoria. Durante anos, assistimos à execução de políticas que favoreciam sempre os mesmos; aos poucos, a direita ganhou terreno, tornou-se confiante e atrevida; todos os dias ouvimos o impensável sobre os jovens, sobre os desempregados, sobre os aposentados. É preciso dizer basta; temos de inverter esta marcha que nos sufoca. Há valores que se prendem com a dignidade, com a solidariedade, com a fraternidade e pelos quais vale a pena lutar. Nós, aposentados como eu, temos um problema, sim; mas eu não vou à manifestação de 2 de Março por causa do meu problema em especial. Eu vou à manifestação de 2 de Março porque me é insuportável a situação dos meus compatriotas que não têm emprego; que emigram; que recebem pensões de miséria; que estão suspensos por uma lei das rendas vil; que não conseguem pagar a farmácia ou as taxas moderadoras do SNS. Eu vou à manifestação de 2 Março porque eu não quero ser governada por estrangeiros; porque eu quero participar no destino da minha terra; porque penso que é tempo de correr com este governo incompetente, insensível e cruel que nos empurra para o precipício. Eu vou à manifestação de 2 Março porque quero estar na rua e na companhia de outros portugueses como eu. Eu vou à manifestação de 2 de Março porque vou sentir que O POVO É QUEM MAIS ORDENA.

Texto de Frederico Aleixo


Distopia ou democracia

Que mundo selvagem este onde nos querem impelir a aceitar uma condenação perpétua à plutocracia. O governo dos mercados e dos grandes interesses económicos. Um pesadelo assente na austeridade indefectível, inabalável e sem alternativas, onde a operacionalização do conceito de demos foi corrompida e transformada num enorme teatro onde o leque de escolhas parece agora limitado à barbárie dos números. Tudo vale, se a emissão de dívida comporta menos um ponto percentual, se o banco se mantém e se o regime vigente se eterniza. Tudo vale, como prova a crua realidade do mundo pós-subprime.
Na verdade, os factos falam por si. Será possível que a concepção de poder ascendente esteja de tal forma diluída nos anais da história, que aceitamos um triunvirato que governe e desgoverne a seu bel-prazer sem o mínimo de responsabilidade? Impingem-nos cortes, refundações e reformas sem legitimidade democrática e a sua solução é apresentada como a salvação para o busílis da dívida. Mas que dívida, se nem a apresentam? A nossa ou a do BPN, a do BPI, a do Banif e a do BCP, entre outros que verdadeiramente vivem acima das suas possibilidades e responsabilidades? Afinal de contas, quem mandatou estes burocratas do aparelho para optar por um modelo social e económico que somente origina desemprego, precariedade e pobreza? Foi assim em todas as intervenções externas que ocorreram e das quais há memória colectiva. Os beneficiários são aqueles que aparecem na lista FORBES e que aumentam as fortunas e as instituições ou organizações que duplicam o lucro com base na especulação, na crise das dívidas soberanas e nas oferendas de governos e troikas, quais deuses pagãos. Mesmo em tempo de depressão económica profunda, assinale-se.
A horizontalidade não serve só para a estrutura accionista e nenhum povo é lixo. Não houve um único cidadão nem uma única cidadã que tenham escolhido democraticamente uma sociedade onde a política se ajoelhe perante a soberba da finança privada. Temos de sair à rua no dia 2 de Março e provar a toda esta classe, qual chorrilho de ofensas à dignidade humana, que entre a distopia e a democracia há muito que fizemos uma escolha: o povo é quem mais ordena.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Texto de João Vasco Gama

Os efeitos das políticas que têm vindo a ser seguidas são conhecidos e desastrosos: o número de suicídios aumentou num ano em mais de uma centena; o desemprego, agora de 16,9%, voltou a ultrapassar o máximo histórico; a mortalidade infantil aumentou 24$; 65 mil jovens abandonaram o país no último ano, tantas vezes forçados pela falta de oportunidades; o número de falências aumentou 62%; nunca o crédito malparado das famílias foi tão elevado; a fome tem aumentado e tem atingido também a classe média, em particular as crianças.

Longe de terem sido sufragadas, estas políticas acontecem ao arrepio daquilo que foi uma campanha eleitoral em que os partidos vencedores se bateram contra os «sacrifícios» impostos aos portugueses, alegando intenções de fazer o contrário daquilo que hoje praticam. Fizeram pouco da Democracia, desrespeitaram impunemente o eleitorado.

Estas políticas também constituem um ataque permanente (e irreversível), não só contra a Constituição, mas contra as conquistas mais importantes da Revolução dos Cravos. Perfilham um regime onde os direitos fundamentais são subalternizados a uma visão autoritarista do poder político, como se tem verificado na forma como os jornalistas são ameaçados e agredidos, os movimentos sociais são perseguidos recorrendo a detenções ilegais, acusações infundadas, práticas intimidatórias e vexatórias, à recusa ilegal de assistência de advogado e a muitas outras formas.

Estes ataques à Liberdade acontecem num clima de corrupção, despesismo, nepotismo. Entre quem pratica estas políticas criminosas e quem as aceita passivamente existe uma cumplicidade que destrói o país, destrói as nossas vidas e contribui para um mundo pior.

Dia 2 de Março temos uma oportunidade para mostrar que não queremos fazer parte deste silêncio cúmplice. Vou aproveitá-la.

Texto de Paulo Guinote

Fui daqueles que quiseram ver terminada o quanto antes a governação anterior e que depositaram alguma esperança na mudança, numa mudança, quase em qualquer mudança da situação política, que permitisse travar a espiral de delírio que ia arrastando Portugal e os portugueses para o abismo.
Vinda a mudança, sabia-se que traria a necessidade de sacrifícios, mas esperava-se que trouxesse algo mais num prazo razoável. Mas… cedo se percebeu que, afinal, a mudança de caminho não nos afastava de um outro abismo e do risco de Portugal continuar prisioneiro de uma clique governativa solipsista e com evidente aversão à maioria da população governada.
É a percepção desse enorme fosso entre governantes e governados que me faz apelar à participação na manifestação de 2 de Março, no contexto global de um protesto nacional contra as actuais opções políticas, que são distorcidas nos seus princípios e falsas nas suas fundamentações.
No caso particular da educação, sector que sofreu de forma pioneira e continuada sucessivas vagas de cortes, sacrifícios e experimentações, há razões acrescidas para um enorme sentimento de revolta que traduza a necessidade de ultrapassar o desânimo e a apatia. As medidas vão muito para além do atropelo constante dos direitos profissionais e laborais da classe docente e do desprezo pelo destino de grande parte dos alunos.
Pais, alunos, funcionários não docentes e professores estão perante a iminência de mais uma vaga imensa de cortes, cuja origem é ideológica e cuja fundamentação empírica se baseia na truncagem e falseamento dos dados apresentados como indesmentíveis. Vaga de cortes que pode, em poucos anos, colocar em causa os ganhos conseguidos com décadas de esforço. O tempo para dizer BASTA já está há muito ultrapassado. Agora é apenas mais um momento para o repetir de modo bem audível e visível para que aqueles que governam percebam que a sua legitimidade não se pode construir contra os governados e que os seus interesses particulares não podem sobrepor-se ao verdadeiro interesse nacional.

Texto de Maria Bispo


Podem-me cortar o cordão umbilical, mas a cicatriz ficará sempre!

Eu vou porque aguento!

Aguento o insulto e a mentira.
Aguento a acusação de pertencer a um povo preguiçoso e a culpa de ter vivido acima das possibilidades.
Aguento o aumento dos transportes, da energia, das propinas e da saúde.
Aguento a redução dos salários, a perda dos subsídios e as dispendiosas privatizações.
Aguento todos os medos, a precariedade, o desemprego e a pobreza.
Aguento a banca e os seus prejuízos, a falta de ética e o vazio da justiça.
Aguento a impunidade, a arrogância e as novas servidões.
Aguento o político sem mérito, o economista de gabinete e o comentador encomendado.
Aguento a destruição do país, a perda sucessiva da soberania e o regresso ao passado.
Aguento a má-fé do estado, a propaganda e a indiferença social.
Aguento as parcerias público-privadas, as falsas nacionalizações e os offshores.
Aguento o fim da missão pública, a falta de pensamento e a ideologia aritmética.
Aguento a TROIKA!
Aguento!
Faço parte do grupo que vem sempre aguentando e integro o estorvo, o inconformismo e o obstáculo.
Aguento a mudança e a alternativa, todas as formas de unidade, todas as lutas e todos os processos de oposição.
Aguento! Aguento!
PORQUE AGUENTAR É RESISTIR E RESISTIR É MUDAR.
Por isso, no dia 2 de Março eu vou. E tu… vais?


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Texto de Margarita Correia

Em 1900, Portugal era o país da Europa com maior taxa de analfabetismo e assim, vergonhosamente, chegámos a 1974.
Na primeira década deste século, começámos a saborear os primeiros frutos de Abril na educação. A taxa de analfabetismo caiu drasticamente e obtivemos, em 2009, nos testes do PISA, resultados que pela primeira vez nos colocaram na média europeia e nos fizeram acreditar que é possível acabar com o ancestral atraso educativo de Portugal. Temos hoje a maior taxa de pessoas com instrução superior da nossa longa história. Na ciência, fruto de um programa articulado, pudemos ter desenvolvimento científico de nível internacional e ver cientistas portugueses entre os melhores do mundo nas suas áreas. Com tudo isto reforçámos o nosso amor-próprio enquanto povo e criámos as bases para o desenvolvimento futuro.
A que assistimos hoje?
À ascensão de uma classe política revanchista e ignorante, ao ponto de ter orgulho da própria ignorância que, despudoradamente, nos vende ao desbarato e destrói tudo à sua passagem sob pretexto de uma pretensa racionalização financeira. Uma classe cuja motivação é meramente sustentada num egoísmo mesquinho: só impedindo o acesso de todos à educação, o chico-esperto garante o seu poder e a sua sobrevivência.
Porque me recuso a assistir impávida à destruição do meu país e do seu futuro, estarei presente no dia 2 de Março e espero que um mar de gente inunde as nossas cidades e limpe o país, devolvendo-lhe a dignidade.



Texto de Pedro Rocha


Podem-me cortar o cordão umbilical, mas a cicatriz ficará sempre!

Quem somos nós? A questão de fundo portuguesa é sobretudo uma questão de crise de identidade. Desde 1986, aquando da sua integração na Comunidade Económica Europeia, que Portugal faz de tudo para ser aceite num grupo de «amigos», como se estivesse numa escola, tanto que deu mais de si do que deveria, e neste «dar», muitas das suas características, como povo, foram absorvidas, esquecidas e transformadas, e a diversidade da sua singularidade perdeu-se num dito plural, económico. No fundo, tenta-se «ser europeu sem a má criação de nacionalidade» (Fernando Pessoa). Não foi por acaso que o 25 de Abril nos pôs a querer saber quem somos, o que fazemos aqui e a questionar quem nos abandonou.

Quem somos nós? Será que somos mesmo «especiais, diferentes, bastante giros, bem-educados, antigos, espertos, casos sérios» (Miguel Esteves Cardoso)? Aponta o mesmo que a «existência» de Portugal é uma surpresa para a maioria da população da Terra. Algo semelhante ao que Francisco da Cunha Leão afirmava ao referir que Portugal seria um dos mais espantosos casos de independência nacional que a história registou, «pela pertinácia e o rumo seguro das afirmações colectivas, pelo sentimento unitário que soube manter através da fluidez dos caminhos próprios».

Quem somos nós? Possuímos um espaço territorial que se espelha no ser das gentes que o ocupam, humildemente estranho por fora mas imenso por dentro. O povo português chega a projectar «toda a sua ansiedade psicológica e social, toda a sua aspiração religiosa e mítica a uma plenitude de ser, a algo que transcenda o querer e o ter, um desejo profundo e inominável de mais ser» (António Quadros). Mas o país Portugal é um mapa que ultrapassa as fronteiras políticas e geográficas, sendo uma das suas «terras» a língua portuguesa, como defendia Fernando Pessoa.

Quem somos nós? Portugal não é só as grandes metrópoles e toda a envolvência do seu hiper-realismo, que ilude e entretém as massas, o país é igualmente o seu interior rico em cultura e histórias, povoado de gentes que viraram costas à atracção da plenitude do mar, escolhendo viver perto dos seus afluentes e do conforto duma ecologia acolhedora. Portugal é um «quadro geográfico natal raro», que «oferece inóspitas asperezas ou dimensões esmagadoras do homem», e feito «quase sempre de paisagem humanizada ou afeiçoável ao homem» (Francisco da Cunha Leão). Mas Portugal é mais do que isto, é a expressão de um espelho de um «porto de abrigo» (Allis Ubbo, antigo nome fenício de Lisboa), assumida e psicologicamente para além de si próprio.

Quem somos nós? Francisco da Cunha Leão caracterizou o português como sendo individualista. O «individualismo e a diversidade da população põem constantemente em risco as obras colectivas, às quais tem faltado quase sempre o apoio unânime». E não menos «cioso em reivindicar o direito a opiniões próprias, sem que se vergue à autoridade como imposição», não seguindo «politicamente os intelectuais». Uma ainda grande parte desses portugueses representam um Portugal profundo e secular, que não ligam a pensamentos ideológicos políticos que nem chegaram a compreender, ligam isso sim a quem lhes dê a mão e lhes facilite a vida, são práticos no que fazem e desenrascam-se com o que os define na sua diversidade individual, não deixando de ser um só. Nas palavras de Jorge Dias são «um povo paradoxal e difícil de governar», cujos «defeitos podem ser as suas virtudes e as virtudes os seus defeitos conforme a égide do momento». Em suma, «o português compreende e age por comoção», resume Cunha Leão. De igual forma, o Padre António Vieira chegou a relevar que «mais fácil era antigamente conquistar dez reinos na Índia, que repartir duas comendas em Portugal».

Quem somos nós? Actualmente a nossa liberdade abrilista é ilusória, manietada e permitida por um governo não por nós mandatado. Aquele que o foi não respeita as premissas da sua campanha. No entanto, «Portugal foi livre, enquanto foi português nas suas obras; enquanto soube realizá-las, obedecendo apenas à sua vontade vitoriosa» (Teixeira de Pascoaes). Quer-se que Portugal seja tudo o que há de modernidade pretensiosa civilizacional, mas não se deixa espaço para que tenha oportunidade de ser Portugal. Isso faz com que o povo entre num corrupio de «esquizofrenia sublime» (Eduardo Lourenço) e se submeta a ideologias político-sociais sem questionar a sua implementação anacrónica. Talvez por um «excesso de consciencialização da própria condição», salienta o mesmo, o português não se reconhecerá nas visões de sociedade proclamadas pelas vigentes máquinas partidárias.

Quem somos nós? Como Miguel Esteves Cardoso concluiu, «ser português é difícil», por isso somos capazes de ter «algum medo de ser portugueses». É como se tivéssemos um destino e não coubéssemos «no berço onde o corpo nasceu» (Miguel Torga). Realmente, como diria Teixeira de Pascoaes, «ser português é uma arte». Salientou Jorge Dias que «a personalidade psico-social do povo português é complexa e envolve antinomias profundas», o português «é um misto de sonhador e homem de acção», que «possui grande fundo de solidariedade humana». Somos um «povo simultaneamente sonhador e muito realista» (Eduardo Lourenço). Temos uma «idealidade sonhadora», um «fundo instável de inquietação», uma «mundivisão saudosa» (Francisco da Cunha Leão). Sim, a saudade. Esta «saudade, fulcro de sensibilidade portuguesa, esperançoso apego à vida» que «impregna toda a vida sentimental e activa dos portugueses» como um irrequieto «sentimento de ansiedade», descrevia Cunha Leão.

Quem somos nós? Fomos aferrolhados a uma ilusão de um complexo de inferioridade instruído e instrumentalizado. Esquecemos o sentido da História. Esquecemos que a unidade subtil do Brasil presente no seu superego colectivo reflecte um monumento prodigioso à harmonia dos contrários antropológicos inerentes ao estar e ser português. Mas basta! Este povo, por analogia, aguentou uma fase de «vergastada», encontrar-se-á em pleno fim de «crucificação» e somente após tal suplício ressuscitará como um povo novo, um povo acordado? É altura de assumirmos aquilo que fomos e termos a coragem de ser. É o momento de sermos portugueses!