segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Texto de Ricardo Morte

Tenho pensado muito nisto. No tempo que vivemos. Sei que este é o tempo. Este é o nosso tempo. Tempo de assumir o combate, tempo da audácia, tempo de olhar para o lado e ver sempre mais um de nós, mais um que enfrenta esta engrenagem cínica com que nos procuram triturar e fazer desistir.
Desistir. Adormecemos e acordamos a pensar porque é que somos poucos nas ruas. Porquê? Não se justificaria outro tipo de resposta? Outra forma de estar? Talvez… Mas se o verbo é desistir, nós dizemos insistir. Se o verbo é abandonar, nós dizemos lutar. Dizemos persistir, abraçar, dizemos caminhar, lado a lado, ombro a ombro. Quantos seremos? Verdadeiramente não importa. Sim, são assim os homens e mulheres de esquerda.
Mas o medo. O medo. O medo é cancro… o medo germina… ganha raízes… medo que se espalha, que tudo contamina. Medo do futuro. Medo de não conseguir viver. Medo de não conseguirmos sustentar os nossos filhos. Medo de falhar a vida… deixá-la passar por nós. E ela corre. Corre rápido. Amanhã é tarde. Perder. Medo de lutar. Medo de dar a cara. O medo tira-nos das ruas. Medo de ficar sozinho na luta. Quantos seremos?
Coragem. A única coragem que nos pedem hoje é a coragem cínica de passarmos por cima do nosso vizinho e concorrente por aquele lugar, aquele trabalho, aquele ordenado… como vamos derrotar o medo? Onde vamos arranjar coragem para sermos dois? Bastam dois.
Voto. Votaste neles. Acontece. O embrulho seduz. A resposta está lá sempre, infalível, certa como a falácia. Não tenhas medo de o assumir! Não tenhas medo de o assumir! Mas hoje não tenhas medo de gritar bem alto que eles não te enganam de novo. Acabou. Nunca mais. Eles todos. Eles, os mesmos de sempre transmutados nesta safra imbecil de neoliberais penteados de risco ao lado que neste momento nos governam… No dia em que lhes virares as costas… em que fores milhões… eles vão olhar para ti.
Convocam-se. Convocam-se os «ajustados», os desesperados, os «consolidados». É urgente um novo sentido na vida. Resistência. Os «remodelados», os «emprateleirados», os que não têm comida para dar aos filhos. Os que não têm dinheiro para remédios, ou que aviam as receitas parcialmente… à medida da miséria em que vivem. Tantas palavras novas que entraram nas nossas vidas… palavras como a fome.
Perguntar. Tempo de perguntar. Qual é o vosso limite? Quantos mais desempregados serão precisos? Qual é o limite? Um milhão e quatrocentos mil não chegam? Quantos mais suicídios? Quantas mais empresas destruídas? Quantas mais vidas destruídas? Quantas mais depressões? Quantas mais crianças às quais é negada uma infância? Quantas? Quantas mais pessoas desesperadas, pessoas sujeitas a um recolher obrigatório cínico, que não existe formalmente, mas existe de facto, pois as pessoas não podem sair de casa, porque não têm dinheiro para sair de casa?
Nossos. Eles não são dos nossos. Em cada simples escolha, eles optarão sempre pela defesa dos interesses dos seus, do seu grupo, da sua casta. Quer seja banca, quer sejam grandes empresas, quer seja nas privatizações desenfreadas, na venda dos anéis e de parte dos dedos. Eles não são os nossos. Não são como nós. Não sofrem como nós. São uma casta à parte. Não bebem a vida da mesma forma que nós. São de plástico. São canalhas.
Limite. Quando vamos atingir o limite? Quando iremos ver o milhão de desempregados nas ruas? Quando iremos ver os desalojados de punho erguido? Os precários? Os que sentem que brevemente estarão sem tecto? Os pais e mães, hoje sós, de todos os jovens que tiveram que emigrar, pois Abril não se cumpriu para eles? Onde estão aqueles aos quais é negada a saúde?
Estamos, como país, à beira da tragédia. Esperam que nos deixemos dominar com mansidão… serenidade. Até porque o povo é sereno, dizem...
Vamos ser cúmplices, ou vamos mudar isto? É que, como Victor Hugo um dia disse, «entre um governo que faz o mal e o povo que o consente, há certa cumplicidade vergonhosa». O tempo é hoje. O nosso tempo é agora! Dia 2 estou na rua.

Texto de Mariana Avelãs

«Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho.»

Quando a fúria descamba em mera apatia, tudo fica na mesma. A culpa é dos filhos da puta dos políticos? Ficar em casa a apontar o dedinho é política em estado puro: a política de quem deixa acontecer. Se o que não te chega para o pão é migalha em fortunas de aldrabões que sustentas, se foste aos mercados mas continuas sem emprego, se já estás de malinha feita à laia de pontapé no cu, só tens duas hipóteses: agir em linha com as previsões do governo, nas fileiras do silêncio cúmplice ou… mandar a apatia à merda e sair à rua a 2 de Março. Já deu para perceber que sacrifícios só geram mais sacrifícios, não? Este círculo vicioso sobrevive à custa daqueles que confundem moral com o próprio cu (Eugénio dixit), e ficam em casa a dizer que as manifs não mudam nada. Filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos, não é?

Psssiu! O respeitinho é muito bonito. Pois é. E que respeito vais ter por ti se ficares em casa a 2 de Março?

Comunicado de Imprensa

Nestes últimos dias, centenas de pessoas lembraram ao governo que em democracia "O Povo É Quem Mais Ordena".
Passos Coelho, Miguel Relvas e Vítor Gaspar têm de saber que não é possível governar contra o povo. O executivo do PSD/CDS tem servido a troika, não tem servido as pessoas que vivem e trabalham em Portugal.

Não tem legitimidade democrática um governo que foi eleito a prometer que não aumentava os impostos, não cortava os subsídios de férias e de natal, não ia despedir funcionários públicos, nem tirar o dinheiro aos reformados, e que quando se viu eleito fez tudo aquilo que garantia que não ia fazer. Este é o governo que tirou dinheiro aos reformados, em vez de responsabilizar quem roubou o BPN. Preferiu dar milhares de milhões aos banqueiros, em vez de investir na criação de empregos. Cortou salários e subsídios a quem trabalha, em vez de cortar nos lucros chorudos dos agiotas que lucraram com as parcerias público-privadas.

Este governo não quer ouvir a Grândola Vila Morena, porque para ele a letra de uma canção não pode ter fraternidade nem igualdade; este é o executivo daqueles que cantam a marcha fúnebre dos portugueses, que reza que a troika é quem mais ordena.

Numa altura em que os senhores da troika vão sair por aquela porta para fazer a sétima avaliação do Memorando, é preciso que as pessoas que vivem em Portugal respondam a esses senhores com uma avaliação daquilo que o governo e eles fizeram.

Em 2011 havia 12,7% de desempregados, no final de 2013 prevê-se que este número atinja os 17,5%. Nessa altura, o desemprego real, que tem muitos milhares de pessoas que não cabem nas estatísticas, já terá passado os 25%. Mais de um milhão e quinhentos mil portugueses não terão trabalho.

A dívida pública estava em 108%, em 2011, em 2013 será superior a 122%.

Não há mês em que os salários e as reformas não desçam. Muitos já perderam mais de 20% dos seus rendimentos. Há milhares de pessoas que perderam as suas casas.

Desde que a troika chegou a Portugal, o produto nacional bruto já caiu cerca de 7%, e todos os anos são milhares as empresas que fecham. A queda do produto interno bruto para 2013 vai ser o dobro daquilo que o governo previu. O ministério das Finanças, para cobrir o buraco que ele próprio criou, já fala em ir buscar mais 1200 milhões ao bolso dos portugueses.

Um relógio parado acerta mais vezes nas horas do que o governo de Vítor Gaspar acerta nas previsões económicas. A política do governo e da troika só nos leva para o abismo. Chegou o tempo de dizer ao governo e à troika que é O POVO QUEM MAIS ORDENA.

No dia 2 de Março convidamos todos e todas que vivem em Portugal a irem para as ruas e a dizerem que este país é deles, e que o seu futuro está nas suas mãos. Que, para vencer a crise a que nos conduziram os governos incompetentes e os negócios escuros de muito poucos, é preciso dar a voz ao povo, e que em democracia é O POVO QUEM MAIS ORDENA.

DIA 2 DE MARÇO VAMOS COLOCAR NAS MÃOS DE TODOS O NOSSO FUTURO E VAMOS SAIR ÀS RUAS DE MAIS DE 40 CIDADES, EM PORTUGAL E NO ESTRANGEIRO.

Aeroconferência



No dia em que a troika chega a Portugal para a 7ª avaliação, membros do colectivo "Que Se Lixe a Troika" vão ao Aeroporto de Lisboa dar uma conferência de imprensa para apelo à manifestação do próximo sábado, dia 2 de Março.

QUE SE LIXE A TROIKA. O POVO É QUEM MAIS ORDENA!

Texto de Pedro Barroso


Santos Silva quer que «alguém envie para Belém» a canção Acordai.

...seja pela inconveniência, pela quebra de protocolo, seja até pela própria desafinação motivada pelos nervos dos contestantes, a Grândola tem sido de novo emblema e de novo musicalmente estropiada, por grupos de bem intencionadas pessoas, que com isso pretendem preparar o advento de uma-qualquer-coisa-que-não-sabemos mas vai ter que surgir. E vai acontecer, estamos certos.
Habituado a mandar por decreto, agora o sempre-ex-ministro-de-alguma-coisa dá recados urbi et orbi... e ordena-nos, muito revolucionário, que alguém o faça.
...pois bem. Na minha qualidade de músico veterano sugiro que ele próprio o faça. Que vá ele; e cante. Mal, mas cante.
Só que a vida está tão difícil aqui para este lado, com tanta falta de contratos decentes, que eu prontifico-me, mediante uma verba a combinar - de acordo com as suas modestas posses de profissional da política há 40 anos - a dar-lhe umas breves noções de colocação de voz e solfejo, pois a partitura do meu conterrâneo Graça é, como sempre, exigente. E o provecto presidente - coitado, provavelmente já falecido ou retirado, não sabemos... - pelo menos acordaria sem gritarias e desafinações desordenadas.
Mas se, com isto, V.ª Ex.ª julga que nós já esquecemos o autismo socrático com que fomos derrubados, pela triste realidade de os cofres estarem rapados e não haver taco nem para pagar à PSP, nós não esquecemos.
Vocês foram os distribuidores do vírus. Vocês puseram o país no chão. Pior. A pedir; no último degrau da esquina da Europa e de chapéu roto na mão. Um país com mil anos de História, viagens, cultura e pergaminhos!...
Vocês venderam Portugal.
Estes sujeitos de hoje - que muito justamente insultamos - são o braço violento da «esmoler» Europa financeira. Os troncos da cobrança. Odiamo-los. MUITO. Roubam-nos todos os dias.
Mas essa condição e essa dependência começou e foi imposta com o vosso descalabro, o vosso corporativismo a vossa complacência.
Constâncio não sabia o que estava a acontecer? Todo o país sabia e o Banco de Portugal não?! Claro que sabia, mas quem viesse atrás que fechasse a porta.
O nojo que me dão é o mesmo.
Portanto o Acordai deve ser cantado no PAÍS todo, de alto a baixo.
Quantos Jardins, quantos Loureiros serão ainda necessários para que isto rebente e o país finalmente aprenda todos os velhos cantos das novas lutas, e a gente acorde finalmente por nós próprios, sem que ninguém nos mande?
Quem precisa de acordar é o povo. Esse é que anda adormecido.

Mural em Lisboa

Eram homens, mulheres e crianças, cada um com o seu rolo
"Isto aqui era uma orquestra, quem diz o contrário é tolo"

OBRIGADO a todas e a todos os que vieram ajudar.
QUE SE LIXE A TROIKA. O POVO É QUEM MAIS ORDENA!



(Rua Marquês da Fronteira, Campolide)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Texto de Rui Dinis

Vou sair à rua e irei contigo, com quem sempre tenho ido, mesmo que não vá mais ninguém.
Contigo também que, da última vez, sem saberes bem o que te empurrava porta fora, sem saberes bem que besta é esta, que nome lhe dar, essa mesmo que te vem sugando a vida, palmando a vontade, matando o desejo, comendo o pão e agora até a água te cobiça, foste à rua para te juntares. Para saberes afinal como é essa coisa de nos juntarmos a outras mulheres e a outros homens. Para saberes se o teu grito pode ou não ser o grito de outros.
Sairei à rua. Sairemos à rua.
Nos primeiros instantes seremos poucos. O Marquês será ainda rotunda quando olharmos os primeiros rostos. Meia dúzia de pessoas, ali de volta dum cartaz que estão a pintar, acenam a um carro que apitou enquanto gritam o que escreveram: «JAMAIS SEREMOS VENCIDOS!» Em volta não param de chegar. Vêm em grupos de dois, de três, muitos pela primeira vez como tu vieste também: sós. Uns com mochila às costas. Outros com os filhos. Tiveram de cortar o trânsito e agora ocupas a estrada, tu e as centenas que já não consegues contar. Já não cabemos nos passeios, grita alguém que não vês. Queres dar uma volta e subir a um banco ou a um poste, mas agora já não interessa, porque são muitos e vêm de todos os lados, porque ficas com medo de perder o grupo. «JAMAIS SEREMOS VENCIDOS». Mas entretanto vês outros com um cartaz a dizer «O POVO É QUEM MAIS ORDENA» e de novo perdes o medo. Por todo o lado há pontos de exclamação e desistes da investida, porque já não queres saber quantos são, contar às vezes é estúpido, pensas agora que os rostos estão mais perto, quase colados.
É Março, mas a luz faz lembrar a de Setembro, naquele dia, lembras-te? Sim, eu sei que escolheste ficar em casa nesse dia e ficaste a pensar «por que diabo é que não fui», mas não faz mal, porque eu sabia e foi como se lá estivesses estado e o ar estava febril antes de arrancarmos e depois éramos tantos que ninguém mais parecia saber onde tudo tinha começado. Então percebes que estás em Março, que afinal não sentes medo nenhum e que aquelas pessoas estão ali, porque só podem querer as coisas que tu queres e que portanto algum sentimento de justiça as move a elas também. E claro, claro que sim, é evidente agora o que logo nos primeiros instantes tinhas avistado nas expressões de todos os rostos com que te foste cruzando e te parecera, à chegada ao Marquês, novo e inesperado: os homens e mulheres desta terra conhecem a justiça e hão-de fazer ouvir a suas vozes. Desta terra que a cada um de nós pertence e que agora, a pretexto dum mercado onde nunca entraste, onde não tens banca, não podes vender nem comprar e muito menos discutir os preços, é queimada. Queimam esta terra como se fosse a terra deles, queimam a terra e dizem que é assim, que tem de ser, que é para o teu bem e para o bem do teu pai e da reforma que ele não vai ter, porque lha vão tirar antes de ele lá chegar e que há é que agradecer porque lá se vai mantendo o emprego, mas tu vês os outros à tua volta e vês a tua irmã mais velha que queria tanto ter um filho, mas aguarda colocação talvez para o ano.

E porque hoje, 2 de Março, tanto nos faz o dia, tanto nos faz a cidade, porque somos todos do Porto e de Évora e também de Lisboa e de Grândola e somos de Fortaleza e de Londres e de Rabat e Boston e somos muitos, quase todos. Agora que erguemos a cabeça e vemos a dignidade na cara de cada um (essa que parecia termos esquecido), agora que deixámos todas as máscaras em casa e parece assim que podemos ter esperança, porque eu vejo, eu juro que vejo que juntos somos uma força enorme e que não tenho de ter medo. Quando chegar a casa será tarde e estarei muito cansado, mas ainda vou ligar a televisão e verei, verei que lá também estiveram na rua, em todas as cidades, noutros países, nem vou acreditar no que vejo, mas saberei, porque também lá estive e vi. Vou ver as imagens na televisão e surpreender-me-ei por serem insuficientes as imagens para contar como tinha sido, e agora eu sei, eu sei que jamais seremos vencidos. Sei , porque lá estive, que JAMAIS SEREMOS VENCIDOS!

Depois a televisão será desligada. No outro dia sairemos de novo. Iremos de novo para a fábrica, para a escola, rumaremos ao centro de emprego, ao escritório. Conduziremos de novo os táxis e os autocarros e os comboios. Sentar-nos-emos em bancos de jardim, no bar do hospital. Iremos a consultas e a reuniões que já estavam marcadas, mas nunca mais adiaremos, um dia que seja, a saída para a rua. Porque agora já sabes e voltarás as vezes que forem precisas. Porque agora já sabes e viste com os teus próprios olhos que «dentro de ti ó cidade, O POVO É QUEM MAIS ORDENA!»

Texto de Jorge Silva Melo

Não podemos deixar que nos matem, nos roubem esta felicidade de estarmos vivos e juntos, não podemos adiar a nossa vida, não queremos esta vida assim, queremos apenas ser amigos uns dos outros — e livremente pensarmos e livremente viver. É difícil. Mas queremos, e assim faremos tudo para deitar abaixo quem nos impede a vida e essa coisa a que chamamos amor.

Texto de Nuno Bio

Na televisão, depois do rol de novas medidas de austeridade, o Ministro das Equivalências recebe a sua enésima vaia, um senhor pensador resume a máxima do governo, «isto é privado, não há direitos!», enquanto expulsa os resistentes cantores.
A nossa inacção colectiva levou-nos ao estado a que isto chegou. Embriagados pelas acções de marketing político, fomos levados a acreditar que o estado gere mal, que os mercados são sábios, que o privatizado é que é bom e com vantagens e que o capitalismo é um paraíso na terra.
A nossa ignara parvoíce levou-nos a eleger representantes numa democracia de fachada que nos retira os valores e os direitos que são pilares da sociedade. Igualdade, Fraternidade e Liberdade são letra morta, apenas palavras bonitas. As promessas eleitorais são prontamente esquecidas e não cumpridas e as acções tomadas são o rigoroso oposto do prometido.
Conseguimos eleger duas vezes para presidente da república o primeiro-ministro que destruiu o nosso tecido produtivo na década de 90. Elegemos, numa estupidificadora alternância, os partidos plutocratas da mesmíssima política, a que nos deixa mais longe de uma comunidade avançada.

Fomos perdendo, um atrás de outro, os direitos que nos conduziam a uma sociedade mais igualitária e justa. A uma sociedade sustentável. Foi tão rápida a sua derrota, foi tão célere a destruição do pouco que tinha sido conquistado. Conquistado com luta, com greves, com manifestações, com sangue. Fomos precarizando a vida e deixando de ter futuro.

Parámos de pensar, deixámos de reflectir nas soluções alternativas que existem para alterar o estado de coisas. Aceitámos o inevitável e ignorámos quem nos dizia que era inviável. Quando o inevitável se torna evidentemente inviável, a nossa resposta de pânico é ameaçarmos voltar ao alterne costumeiro. A actual situação é fruto, em parte, do nosso alheamento e das nossa más decisões colectivas.

Chegámos a um impasse e os impasses são historicamente períodos curtos.

Dois caminhos se colocam à nossa frente: ou a resistência activa contra quem nos quer destruir consegue alterar este sistema caduco, ou a austeridade de ideias e políticas vai triunfar, apoiada no autoritarismo repressivo que já começou a mostrar as garras.

Temos que estar presentes nesta verdadeira luta e escolher se pretendemos ser marionetas dos famigerados mercados, se queremos ter vergonha de olhar a próxima geração nos olhos, ou se, pelo contrário, queremos poder controlar e gerir a nossa própria vida, construindo uma sociedade diferente: verdadeiramente democrática, participativa e representativa da sociedade.
Os nossos pais construíram Abril e os nossos filhos exigem-no, não os podemos desapontar. Temos de tomar a nossa felicidade e o nosso futuro de novo nas nossas mãos.

Se o povo é quem mais ordena, temos que sair à rua dia 2 Março e sempre que for necessário.
Este governo tem que ser demitido a bem ou a mal. Se este governo só sair à força, arranjemos a forma de o fazer. Temos que garantir que as troikas internacionais e o triunvirato de partidos nacionais deixam de servir os seus interesses, escravizando-nos pelo caminho, e que largam o poder.

Se o povo é quem mais ordena, que demonstremos no dia 2 Março e sempre que o possamos fazer, e pelos meios que consideremos mais correctos e eficazes: noutras manifestações, em paralisações, em greves, nas vaias e nos apupos, a cantar, a dançar, a desenhar, nas estruturas em que participamos, nas eleições, nas ruas, no trabalho, em casa...
Sempre que houver uma oportunidade devemos resistir activamente. Se nos matam uma sociedade, se nos destroem a comunidade, se tudo vale para nos escravizar, não temos direito de contra-atacar. Temos o dever.

Que seja refodam as Troikas!

Texto de Rita Veloso


Quousque Tandem Abutere Patientia Nostra?

Quando eu era criança, o meu pai vivia num forte que parecia um castelo.
E isso era normal — normal, quer dizer, era extraordinário! Mais ninguém tinha o pai a viver num castelo, rodeado de mar!
Era normal apanhar o comboio ou a camionete, de madrugada, aos fins de semana, para ir ao castelo visitar o meu pai. Ele enchia-me de prendas (que afinal era a minha mãe que levava), fazia-me desenhos, emoldurava os que eu fazia para ele e eu gostava. Era normal falar com ele através de um vidro com uma rede de metal e só raramente conquistar um colo, amansando com os meus lindos olhos de azul inocente o agente que vigiava a entrada do parlatório.
O meu pai era um preso político, o que queria dizer que não tinha sido preso por roubar bancos ou carros. Quando mais tarde prenderam um primo meu não percebi o alvoroço familiar: estar preso era normal.

Um dia houve uma revolução e eu percebi que afinal normal era as pessoas não estarem presas e os colos serem um direito.
A liberdade tornou-se normal e isso queria dizer que já podia cantar em todo o lado aquilo que dantes só podia cantar em surdina ou em casa. Já não era preciso baixar a voz quando chegava à parte do «ou vai-te embora, pulga fascista». Nessa altura, toda a gente saía à rua para participar na liberdade; reuniam, planeavam, decidiam, envolvendo-se naquilo que dantes era normal ser decidido por outros.
Passou a ser normal a política ser feita por todos, que todos tivessem os mesmos direitos e que a riqueza de um país fosse usufruída em igualdade; bastava ser-se humano, já não era preciso pertencer a elites. Fez-se uma constituição para garantir que seria assim.
Para nós, crianças, isso significava que o mundo deixaria de ter dois lados, um com «prédios bem altos e mais jardins floridos muita luz e muitas cores», outro com «barracas escuras feitas nem sabe de quê e miúdos a chorar e onde os brinquedos são pedras e a lama são os jardins», como o Zé Pimpão mostrou à Maria-dos-olhos-grandes. Só podia ser normal querer que houvesse apenas um lado do mundo, «com todos do mesmo lado», e que, se não houvesse jardins para todos, se dividissem os canteiros e, se os canteiros não chegassem, uma flor para cada um e, se as flores fossem poucas, haveria pétalas, enfim, cheiro, mas todos teriam igual. Fomos pelo sonho e o mundo tornou-se a nossa casa.

Depois vieram as eleições e afinal não era normal que todos quisessem partilhar as flores ou as enxadas. Não fazia mal, mais tarde ou mais cedo haveriam de perceber que a Maria-dos-olhos-grandes tinha razão.
Mas não. Pouco a pouco, começaram a convencer-nos de que a política se fazia apenas por quem percebia do assunto e o assunto era muito complicado. E as pessoas confiaram. Confiaram que podiam viver as suas vidas e que os partidos em que votavam se encarregavam da política. Para muitos, a política tornou-se uma chatice. A esquerda voltou a ser o bicho papão, que só queria virar o país do avesso, com essas ideias radicais de dividir jardins, canteiros, flores, pétalas, enfim, cheiros, por todos os seres humanos. E o PS e o PSD, com ou sem CDS, passaram a revezar-se no trono, como os únicos partidos que garantiam que o país não se virava do avesso e que quem tinha jardins os podia guardar só para si. E muitos deixaram de votar. Para quê, se já se sabe que eles só se interessam em ajudar os amiguinhos? Para quê, se nada muda?

Mas aos poucos muito ia mudando. De revisão constitucional em revisão constitucional, de lei em lei, de governo em governo, fomos perdendo direitos e ganhando obrigações, fomos passando de senhores a vassalos. As contribuições que fazíamos para garantir que todos vivêssemos com qualidade, em igualdade de direitos, foram-se transformado em rendas a pagar pelo privilégio de existir e viver neste país.
Aos poucos, o Estado tinha sido privatizado e as eleições serviam apenas para definir os accionistas-governo que iriam assegurar a gestão nos quatro anos seguintes. E os accionistas começaram a especular na bolsa com a riqueza que devia ser nossa — que é nossa! E sentiram-se impunes. Aliaram-se aos comparsas internacionais mais poderosos e, avidamente, decidiram estrangular a galinha dos ovos de ouro. Sofregamente, quiseram transformar os vassalos em servos. Em pouco mais de um ano empobreceram milhares para aumentar as fortunas de dezenas, transformaram direitos em favores, a serem usados com parcimónia. Começaram a vender bens públicos aos amigos para pagar as dívidas que contraíam ao jogo nos mercados. Como garantia, os amigos exigiam que nos reduzissem ainda mais os direitos, que tivéssemos de pagar os favores — o favor de estudarmos, de termos assistência na saúde, o favor de existimos. Em coro, asseguram-nos que é tudo normal e que os protestos são coisa de arruaceiros.

A mudança foi tão brutal que um dia olhámos em volta e não reconhecemos o país. O normal tornara-se absurdo. E o absurdo entra-nos em casa diariamente. Há nababos com riquezas pessoais de milhares de milhões de euros enquanto famílias são desalojadas, crianças passam fome, milhares de jovens são obrigados a emigrar e muitos, novos e velhos, ficam sem assistência médica. Perdoam-se distracções na declaração ao fisco de milhões de euros em rendimentos e perseguem-se aqueles que não têm dinheiro para pagar descontos obrigatórios mas injustos, já que não têm vínculos laborais nem rendimentos estáveis para assegurar a própria sobrevivência. Condena-se quem rouba duas latas de comida para animais e enaltece-se quem enriquece, de forma corrupta, à conta do estado.
Nada do que vemos é normal, mas até quando iremos esperar passivamente que tudo se resolva? Quando iremos perceber que temos de resistir e combater o absurdo, saindo à rua e defendendo os nossos direitos?
O que leva um povo massacrado a dizer «basta!»?
Quanto mais tempo passar, mais dolorosa será a nossa luta: a mesa do comércio, ainda posta e já gasta, poderá acabar como jangada para evacuar fugitivos da fogueira incendiada pelos outrora cativos.

Queremos fazer a luta com cravos, mas não deixaremos de a fazer se os cravos não forem eficazes. Os nossos pais não tiveram medo e mostraram-nos que vale a pena.

No dia 2 de Março sairemos à rua gritando «basta!» e exigiremos que nos devolvam o nosso país. Nesse dia, levaremos cravos.