terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Texto de Pedro Ribeiro


O Homem Livre

O desemprego galopa para os 17 %, a economia cai a pique, nove empresários da restauração suicidam-se no Porto e no Algarve por causa da crise. Eis o paraíso que Passos, Gaspar e a troika prometem. Eis o paraíso capitalista que traz depressões, suicídios, pobreza, miséria, tédio. Eis o paraíso dos especuladores e dos mercados que destrói o encontro, a amizade, a vida. Eis a «vida» que temos, feita de obediência cega ao deus-dinheiro, ao deus-mercado, eis a sociedade onde o medo impera, onde o homem «vive» diminuído, sem um rasgo, sem luz. Urge recuperar o homem inteiro, o homem afirmativo que ergue a voz, que não vai na conversa da propaganda. Urge ser o homem e a mulher que cantam a Grândola, que não vão aos cafés derrotados, que não fazem depender as suas vidas da bola. Urge o homem que quer destruir o capitalismo e restaurar a vida. Que não aceita mais a escravidão e o medo. Urge o homem que quer construir-se. Urge o homem livre.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Texto de Rui Zink

1
Acredito no poder do diálogo. Por isso vou à manifestação de 2 de Março.

2
Sou ou tento ser uma pessoa de diálogo. Acredito que o diálogo é a melhor das formas de confrontar pontos de vista sobre o bem colectivo. Que país queremos? Quais as prioridades? Como calibrar liberdade e responsabilidade? Onde investir? Que aspectos do Estado são essenciais e acessórios? São questões destas que interessam ao cidadão que sou — que tento ser. Sou dos que acreditam que «o poder não deve cair na rua». Mas os corredores do palácio também não me parecem melhor sítio para o poder cair. E nem se trata de cair ou fazer-cair, trata-se de construir: uma manifestação pode ser uma bela forma de construir. As manifestações de que gosto são tanto protesto como prova de vida. Ou seja, prova de esperança. Há neste momento uma discussão acesa (bem melhor que um monólogo apagado) acerca das prioridades para esse bem colectivo chamado Portugal. E dando de barato que no governo eleito — apesar de com outro programa — haverá tendências e pessoas que desejam de facto o bem comum, uma manifestação pública é a forma de outras tantas pessoas defenderem que há outras vias, quiçá mais eficientes, de atingir esse objectivo. Ninguém pode falar em nome de todos: mas se isto é verdade para quem vai à manifestação, mais verdade ainda é para quem (a meio do mandato) se divorcia até mesmo dos seus próprios eleitores. Não sei quantas vozes eu represento ao ir à manifestação, mas sei que tenho menos voz se não for.
Desta manifestação vai sair alguma coisa? Boa pergunta. Posso dizer uma coisa: quando nos manifestamos há a remota possibilidade de a nossa voz se fazer ouvir. De a outra parte saber que não detém o monopólio da razão, ainda que reclame para si o monopólio da força. E, a menos que a telepatia já tenha sido inventada, caladinhos é que não vamos a lado nenhum.
Ainda assim, é certo que, neste Portugal acinzentado «cada um sabe de si». Ora eu, pelo menos, sinto-me mais cidadão quando dou a voz ao manifesto, e uma vez por outra gosto de ter gente ao meu lado.

Texto de Ricardo Morte

Tenho pensado muito nisto. No tempo que vivemos. Sei que este é o tempo. Este é o nosso tempo. Tempo de assumir o combate, tempo da audácia, tempo de olhar para o lado e ver sempre mais um de nós, mais um que enfrenta esta engrenagem cínica com que nos procuram triturar e fazer desistir.
Desistir. Adormecemos e acordamos a pensar porque é que somos poucos nas ruas. Porquê? Não se justificaria outro tipo de resposta? Outra forma de estar? Talvez… Mas se o verbo é desistir, nós dizemos insistir. Se o verbo é abandonar, nós dizemos lutar. Dizemos persistir, abraçar, dizemos caminhar, lado a lado, ombro a ombro. Quantos seremos? Verdadeiramente não importa. Sim, são assim os homens e mulheres de esquerda.
Mas o medo. O medo. O medo é cancro… o medo germina… ganha raízes… medo que se espalha, que tudo contamina. Medo do futuro. Medo de não conseguir viver. Medo de não conseguirmos sustentar os nossos filhos. Medo de falhar a vida… deixá-la passar por nós. E ela corre. Corre rápido. Amanhã é tarde. Perder. Medo de lutar. Medo de dar a cara. O medo tira-nos das ruas. Medo de ficar sozinho na luta. Quantos seremos?
Coragem. A única coragem que nos pedem hoje é a coragem cínica de passarmos por cima do nosso vizinho e concorrente por aquele lugar, aquele trabalho, aquele ordenado… como vamos derrotar o medo? Onde vamos arranjar coragem para sermos dois? Bastam dois.
Voto. Votaste neles. Acontece. O embrulho seduz. A resposta está lá sempre, infalível, certa como a falácia. Não tenhas medo de o assumir! Não tenhas medo de o assumir! Mas hoje não tenhas medo de gritar bem alto que eles não te enganam de novo. Acabou. Nunca mais. Eles todos. Eles, os mesmos de sempre transmutados nesta safra imbecil de neoliberais penteados de risco ao lado que neste momento nos governam… No dia em que lhes virares as costas… em que fores milhões… eles vão olhar para ti.
Convocam-se. Convocam-se os «ajustados», os desesperados, os «consolidados». É urgente um novo sentido na vida. Resistência. Os «remodelados», os «emprateleirados», os que não têm comida para dar aos filhos. Os que não têm dinheiro para remédios, ou que aviam as receitas parcialmente… à medida da miséria em que vivem. Tantas palavras novas que entraram nas nossas vidas… palavras como a fome.
Perguntar. Tempo de perguntar. Qual é o vosso limite? Quantos mais desempregados serão precisos? Qual é o limite? Um milhão e quatrocentos mil não chegam? Quantos mais suicídios? Quantas mais empresas destruídas? Quantas mais vidas destruídas? Quantas mais depressões? Quantas mais crianças às quais é negada uma infância? Quantas? Quantas mais pessoas desesperadas, pessoas sujeitas a um recolher obrigatório cínico, que não existe formalmente, mas existe de facto, pois as pessoas não podem sair de casa, porque não têm dinheiro para sair de casa?
Nossos. Eles não são dos nossos. Em cada simples escolha, eles optarão sempre pela defesa dos interesses dos seus, do seu grupo, da sua casta. Quer seja banca, quer sejam grandes empresas, quer seja nas privatizações desenfreadas, na venda dos anéis e de parte dos dedos. Eles não são os nossos. Não são como nós. Não sofrem como nós. São uma casta à parte. Não bebem a vida da mesma forma que nós. São de plástico. São canalhas.
Limite. Quando vamos atingir o limite? Quando iremos ver o milhão de desempregados nas ruas? Quando iremos ver os desalojados de punho erguido? Os precários? Os que sentem que brevemente estarão sem tecto? Os pais e mães, hoje sós, de todos os jovens que tiveram que emigrar, pois Abril não se cumpriu para eles? Onde estão aqueles aos quais é negada a saúde?
Estamos, como país, à beira da tragédia. Esperam que nos deixemos dominar com mansidão… serenidade. Até porque o povo é sereno, dizem...
Vamos ser cúmplices, ou vamos mudar isto? É que, como Victor Hugo um dia disse, «entre um governo que faz o mal e o povo que o consente, há certa cumplicidade vergonhosa». O tempo é hoje. O nosso tempo é agora! Dia 2 estou na rua.

Texto de Mariana Avelãs

«Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho.»

Quando a fúria descamba em mera apatia, tudo fica na mesma. A culpa é dos filhos da puta dos políticos? Ficar em casa a apontar o dedinho é política em estado puro: a política de quem deixa acontecer. Se o que não te chega para o pão é migalha em fortunas de aldrabões que sustentas, se foste aos mercados mas continuas sem emprego, se já estás de malinha feita à laia de pontapé no cu, só tens duas hipóteses: agir em linha com as previsões do governo, nas fileiras do silêncio cúmplice ou… mandar a apatia à merda e sair à rua a 2 de Março. Já deu para perceber que sacrifícios só geram mais sacrifícios, não? Este círculo vicioso sobrevive à custa daqueles que confundem moral com o próprio cu (Eugénio dixit), e ficam em casa a dizer que as manifs não mudam nada. Filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos, não é?

Psssiu! O respeitinho é muito bonito. Pois é. E que respeito vais ter por ti se ficares em casa a 2 de Março?

Comunicado de Imprensa

Nestes últimos dias, centenas de pessoas lembraram ao governo que em democracia "O Povo É Quem Mais Ordena".
Passos Coelho, Miguel Relvas e Vítor Gaspar têm de saber que não é possível governar contra o povo. O executivo do PSD/CDS tem servido a troika, não tem servido as pessoas que vivem e trabalham em Portugal.

Não tem legitimidade democrática um governo que foi eleito a prometer que não aumentava os impostos, não cortava os subsídios de férias e de natal, não ia despedir funcionários públicos, nem tirar o dinheiro aos reformados, e que quando se viu eleito fez tudo aquilo que garantia que não ia fazer. Este é o governo que tirou dinheiro aos reformados, em vez de responsabilizar quem roubou o BPN. Preferiu dar milhares de milhões aos banqueiros, em vez de investir na criação de empregos. Cortou salários e subsídios a quem trabalha, em vez de cortar nos lucros chorudos dos agiotas que lucraram com as parcerias público-privadas.

Este governo não quer ouvir a Grândola Vila Morena, porque para ele a letra de uma canção não pode ter fraternidade nem igualdade; este é o executivo daqueles que cantam a marcha fúnebre dos portugueses, que reza que a troika é quem mais ordena.

Numa altura em que os senhores da troika vão sair por aquela porta para fazer a sétima avaliação do Memorando, é preciso que as pessoas que vivem em Portugal respondam a esses senhores com uma avaliação daquilo que o governo e eles fizeram.

Em 2011 havia 12,7% de desempregados, no final de 2013 prevê-se que este número atinja os 17,5%. Nessa altura, o desemprego real, que tem muitos milhares de pessoas que não cabem nas estatísticas, já terá passado os 25%. Mais de um milhão e quinhentos mil portugueses não terão trabalho.

A dívida pública estava em 108%, em 2011, em 2013 será superior a 122%.

Não há mês em que os salários e as reformas não desçam. Muitos já perderam mais de 20% dos seus rendimentos. Há milhares de pessoas que perderam as suas casas.

Desde que a troika chegou a Portugal, o produto nacional bruto já caiu cerca de 7%, e todos os anos são milhares as empresas que fecham. A queda do produto interno bruto para 2013 vai ser o dobro daquilo que o governo previu. O ministério das Finanças, para cobrir o buraco que ele próprio criou, já fala em ir buscar mais 1200 milhões ao bolso dos portugueses.

Um relógio parado acerta mais vezes nas horas do que o governo de Vítor Gaspar acerta nas previsões económicas. A política do governo e da troika só nos leva para o abismo. Chegou o tempo de dizer ao governo e à troika que é O POVO QUEM MAIS ORDENA.

No dia 2 de Março convidamos todos e todas que vivem em Portugal a irem para as ruas e a dizerem que este país é deles, e que o seu futuro está nas suas mãos. Que, para vencer a crise a que nos conduziram os governos incompetentes e os negócios escuros de muito poucos, é preciso dar a voz ao povo, e que em democracia é O POVO QUEM MAIS ORDENA.

DIA 2 DE MARÇO VAMOS COLOCAR NAS MÃOS DE TODOS O NOSSO FUTURO E VAMOS SAIR ÀS RUAS DE MAIS DE 40 CIDADES, EM PORTUGAL E NO ESTRANGEIRO.

Aeroconferência



No dia em que a troika chega a Portugal para a 7ª avaliação, membros do colectivo "Que Se Lixe a Troika" vão ao Aeroporto de Lisboa dar uma conferência de imprensa para apelo à manifestação do próximo sábado, dia 2 de Março.

QUE SE LIXE A TROIKA. O POVO É QUEM MAIS ORDENA!

Texto de Pedro Barroso


Santos Silva quer que «alguém envie para Belém» a canção Acordai.

...seja pela inconveniência, pela quebra de protocolo, seja até pela própria desafinação motivada pelos nervos dos contestantes, a Grândola tem sido de novo emblema e de novo musicalmente estropiada, por grupos de bem intencionadas pessoas, que com isso pretendem preparar o advento de uma-qualquer-coisa-que-não-sabemos mas vai ter que surgir. E vai acontecer, estamos certos.
Habituado a mandar por decreto, agora o sempre-ex-ministro-de-alguma-coisa dá recados urbi et orbi... e ordena-nos, muito revolucionário, que alguém o faça.
...pois bem. Na minha qualidade de músico veterano sugiro que ele próprio o faça. Que vá ele; e cante. Mal, mas cante.
Só que a vida está tão difícil aqui para este lado, com tanta falta de contratos decentes, que eu prontifico-me, mediante uma verba a combinar - de acordo com as suas modestas posses de profissional da política há 40 anos - a dar-lhe umas breves noções de colocação de voz e solfejo, pois a partitura do meu conterrâneo Graça é, como sempre, exigente. E o provecto presidente - coitado, provavelmente já falecido ou retirado, não sabemos... - pelo menos acordaria sem gritarias e desafinações desordenadas.
Mas se, com isto, V.ª Ex.ª julga que nós já esquecemos o autismo socrático com que fomos derrubados, pela triste realidade de os cofres estarem rapados e não haver taco nem para pagar à PSP, nós não esquecemos.
Vocês foram os distribuidores do vírus. Vocês puseram o país no chão. Pior. A pedir; no último degrau da esquina da Europa e de chapéu roto na mão. Um país com mil anos de História, viagens, cultura e pergaminhos!...
Vocês venderam Portugal.
Estes sujeitos de hoje - que muito justamente insultamos - são o braço violento da «esmoler» Europa financeira. Os troncos da cobrança. Odiamo-los. MUITO. Roubam-nos todos os dias.
Mas essa condição e essa dependência começou e foi imposta com o vosso descalabro, o vosso corporativismo a vossa complacência.
Constâncio não sabia o que estava a acontecer? Todo o país sabia e o Banco de Portugal não?! Claro que sabia, mas quem viesse atrás que fechasse a porta.
O nojo que me dão é o mesmo.
Portanto o Acordai deve ser cantado no PAÍS todo, de alto a baixo.
Quantos Jardins, quantos Loureiros serão ainda necessários para que isto rebente e o país finalmente aprenda todos os velhos cantos das novas lutas, e a gente acorde finalmente por nós próprios, sem que ninguém nos mande?
Quem precisa de acordar é o povo. Esse é que anda adormecido.

Mural em Lisboa

Eram homens, mulheres e crianças, cada um com o seu rolo
"Isto aqui era uma orquestra, quem diz o contrário é tolo"

OBRIGADO a todas e a todos os que vieram ajudar.
QUE SE LIXE A TROIKA. O POVO É QUEM MAIS ORDENA!



(Rua Marquês da Fronteira, Campolide)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Texto de Rui Dinis

Vou sair à rua e irei contigo, com quem sempre tenho ido, mesmo que não vá mais ninguém.
Contigo também que, da última vez, sem saberes bem o que te empurrava porta fora, sem saberes bem que besta é esta, que nome lhe dar, essa mesmo que te vem sugando a vida, palmando a vontade, matando o desejo, comendo o pão e agora até a água te cobiça, foste à rua para te juntares. Para saberes afinal como é essa coisa de nos juntarmos a outras mulheres e a outros homens. Para saberes se o teu grito pode ou não ser o grito de outros.
Sairei à rua. Sairemos à rua.
Nos primeiros instantes seremos poucos. O Marquês será ainda rotunda quando olharmos os primeiros rostos. Meia dúzia de pessoas, ali de volta dum cartaz que estão a pintar, acenam a um carro que apitou enquanto gritam o que escreveram: «JAMAIS SEREMOS VENCIDOS!» Em volta não param de chegar. Vêm em grupos de dois, de três, muitos pela primeira vez como tu vieste também: sós. Uns com mochila às costas. Outros com os filhos. Tiveram de cortar o trânsito e agora ocupas a estrada, tu e as centenas que já não consegues contar. Já não cabemos nos passeios, grita alguém que não vês. Queres dar uma volta e subir a um banco ou a um poste, mas agora já não interessa, porque são muitos e vêm de todos os lados, porque ficas com medo de perder o grupo. «JAMAIS SEREMOS VENCIDOS». Mas entretanto vês outros com um cartaz a dizer «O POVO É QUEM MAIS ORDENA» e de novo perdes o medo. Por todo o lado há pontos de exclamação e desistes da investida, porque já não queres saber quantos são, contar às vezes é estúpido, pensas agora que os rostos estão mais perto, quase colados.
É Março, mas a luz faz lembrar a de Setembro, naquele dia, lembras-te? Sim, eu sei que escolheste ficar em casa nesse dia e ficaste a pensar «por que diabo é que não fui», mas não faz mal, porque eu sabia e foi como se lá estivesses estado e o ar estava febril antes de arrancarmos e depois éramos tantos que ninguém mais parecia saber onde tudo tinha começado. Então percebes que estás em Março, que afinal não sentes medo nenhum e que aquelas pessoas estão ali, porque só podem querer as coisas que tu queres e que portanto algum sentimento de justiça as move a elas também. E claro, claro que sim, é evidente agora o que logo nos primeiros instantes tinhas avistado nas expressões de todos os rostos com que te foste cruzando e te parecera, à chegada ao Marquês, novo e inesperado: os homens e mulheres desta terra conhecem a justiça e hão-de fazer ouvir a suas vozes. Desta terra que a cada um de nós pertence e que agora, a pretexto dum mercado onde nunca entraste, onde não tens banca, não podes vender nem comprar e muito menos discutir os preços, é queimada. Queimam esta terra como se fosse a terra deles, queimam a terra e dizem que é assim, que tem de ser, que é para o teu bem e para o bem do teu pai e da reforma que ele não vai ter, porque lha vão tirar antes de ele lá chegar e que há é que agradecer porque lá se vai mantendo o emprego, mas tu vês os outros à tua volta e vês a tua irmã mais velha que queria tanto ter um filho, mas aguarda colocação talvez para o ano.

E porque hoje, 2 de Março, tanto nos faz o dia, tanto nos faz a cidade, porque somos todos do Porto e de Évora e também de Lisboa e de Grândola e somos de Fortaleza e de Londres e de Rabat e Boston e somos muitos, quase todos. Agora que erguemos a cabeça e vemos a dignidade na cara de cada um (essa que parecia termos esquecido), agora que deixámos todas as máscaras em casa e parece assim que podemos ter esperança, porque eu vejo, eu juro que vejo que juntos somos uma força enorme e que não tenho de ter medo. Quando chegar a casa será tarde e estarei muito cansado, mas ainda vou ligar a televisão e verei, verei que lá também estiveram na rua, em todas as cidades, noutros países, nem vou acreditar no que vejo, mas saberei, porque também lá estive e vi. Vou ver as imagens na televisão e surpreender-me-ei por serem insuficientes as imagens para contar como tinha sido, e agora eu sei, eu sei que jamais seremos vencidos. Sei , porque lá estive, que JAMAIS SEREMOS VENCIDOS!

Depois a televisão será desligada. No outro dia sairemos de novo. Iremos de novo para a fábrica, para a escola, rumaremos ao centro de emprego, ao escritório. Conduziremos de novo os táxis e os autocarros e os comboios. Sentar-nos-emos em bancos de jardim, no bar do hospital. Iremos a consultas e a reuniões que já estavam marcadas, mas nunca mais adiaremos, um dia que seja, a saída para a rua. Porque agora já sabes e voltarás as vezes que forem precisas. Porque agora já sabes e viste com os teus próprios olhos que «dentro de ti ó cidade, O POVO É QUEM MAIS ORDENA!»

Texto de Jorge Silva Melo

Não podemos deixar que nos matem, nos roubem esta felicidade de estarmos vivos e juntos, não podemos adiar a nossa vida, não queremos esta vida assim, queremos apenas ser amigos uns dos outros — e livremente pensarmos e livremente viver. É difícil. Mas queremos, e assim faremos tudo para deitar abaixo quem nos impede a vida e essa coisa a que chamamos amor.