quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Texto de Joaquim Paulo Nogueira


Salvar os países começa por ser salvar a Europa. 
 
Dia 2 de Março é mais um passo no percurso de fortalecimento da nossa participação cidadã que começámos a trilhar mais intensamente a partir do 12 de Março de 2011. Não será o último. A urgência deste percurso é ditada pela consciência de que vivemos uma rápida degeneração política da vida em democracia na Europa.
Não sei se há outra definição para a ideia do abismo político em que nos encontramos
: condicionados a escolher governantes que se apresentam a eleições com um determinado programa político, sabendo eles, e sabendo nós, que eles vão governar através de memorandos políticos firmados com o BCE, o FMI e a Comissão Europeia.
A política europeia foi sequestrada por um pensamento e uma doutrina onde a lei do mais forte é imperativa e substitui a ideia comunitária. Salvar os países começa por ser salvar a Europa.
Parece um objectivo inalcançável, não parece? Não foi assim que o pensaram aqueles que perceberam que para matar a Europa tinham de começar a destruir aquilo que era o elemento diferenciador da presença política europeia: a solidariedade, seja lá o nível ou o âmbito - local, nacional ou global – pelo qual a encaremos. É uma existência paradoxal, sempre: a força da Europa, a sua união politica e económica é também o ponto de partida para a sua imensa vulnerabilidade.
Face a esta verdadeira catástrofe política em que a Europa está mergulhada, e quando o sistema político parece só conseguir replicar a tragédia da política, a questão é de natureza cultural: como não nos encontrarmos? Como não descermos juntos as ruas? Como não enchermos connosco as nossas praças? A questão não será tanto em torno das razões que temos para sair à rua, elas multiplicar-se-ão exponencialmente por toda a nossa diversidade política, cultural, social, a questão é outra: como poderemos ficar em casa quando todo o nosso mundo está a ser destruído?
No dia 2 de Março descerei a Avenida da Liberdade com muitas pessoas que exigirão a demissão do Governo. Não sendo isso para mim uma questão essencial – este governo não me desiludiu em nada, infelizmente - não me incomoda nada dar as mãos a todos os que querem o seu fim. Este é um governo que perdeu toda a legitimidade política para poder governar e que já não estaria em funções se em Belém tivéssemos um Presidente que vigiasse o exercício governamental. Ou se tivéssemos já interiorizada uma cultura e uma ética política em que os governantes se sentissem responsáveis perante a comunidade. Em vez de exigir a demissão deste Governo, prefiro pensar que a rua irá dar àquele vasto campo político a que costumamos chamar Esquerda, forças, ideias e dinamismo para criar uma alternativa política.
Talvez haja condições muito particulares para isso: em primeiro lugar, a destruição do Estado Social, nos seus diferentes domínios, saúde, educação, justiça, cultura, já não se situa no plano da querela ideológica entre Esquerda e Direita, foi transposto para um plano tão descarado da pilhagem dos recursos públicos que até a base ideológica da direita cora de vergonha e desaprova o saque.
Depois, a destruição da economia está a ser feita através de uma subordinação cega a planos e programas económicos cuja legitimidade não decorre daquela credibilidade de natureza económica que a direita gosta de exigir como seu pergaminho político. Apenas se funda no uso férreo de um autoritarismo e poder discricionário do Estado no aumento da colecta de que tanto se envergonha o liberalismo económico. E ainda, pelas condições muito particulares em que o sonho de uma Europa se transformou rapidamente no pesadelo de um totalitarismo financeiro que — incompreensível ou paradoxalmente — parece basear o seu cerco, a sua tutela e a sua força na incapacidade de responder positivamente às questões existenciais das pessoas, das comunidades e dos povos.
Por isso também é tão importante sair à rua em 2 de Março, anunciando a primavera que aí vem: não há esquerda credível sem uma rua forte, sem uma rua em festa, sem uma rua participada e cidadã. E desde o 12 de Março muito tem sido feito para reacender esse fogo comunitário. Pese embora a verdadeira destruição de grande parte da nossa actividade cultural e artística nos últimos anos, o que em si é uma tragédia para o desenvolvimento da comunidade e também da nossa cidadania, tem sido nos movimentos de cidadãos — onde avulta para mim a Auditoria Cidadã à Dívida — que tem surgido uma dinâmica cultural e de participação política que fortalece a comunidade.
Porque o pesadelo que estamos a viver é também uma consequência da intensa manipulação ideológica em que mergulhámos e que é tão mais violenta quanto vive de um contexto em que o manipulador é também o manipulado. Criámos um paradigma mistificador que é o condicionador da nossa vida política: para nos encontrarmos temos de ter alternativas, temos de ter razões, temos de ter ideias. E deveria ser exactamente o contrário: deveríamos encontrarmo-nos para construirmos alternativas, para pormos em causa as nossas razões, para começarmos a pensar de outra maneira.
É essa vaga que este mar anónimo e manifestante que tem oposto à Europa dos jogos de títeres e da usurpação política a ideia de uma Europa das Pessoas tem trazido. É difícil assim encontrar razões para não sairmos de casa. Juntos temos menos medo, juntos metemos mais medo ao medo que por aí começa a querer andar descaradamente em forma de intimidação, de interrogatório, de inquietante perversão do uso dos meios públicos de segurança. Eles não sabem que o autoritarismo pode fazer da vida de cada um de nós um pequeno inferno existencial mas só consegue tirar de cada cidadão a sua liberdade se este já tiver, previamente, abdicado dela. É isso que a rua nos faz, é isso que nós fazemos na rua. O povo é quem mais ordena, dentro de ti, ó cidade.

Texto de Cristina Cavalinhos

47 anos de vida, 30 a ser actriz.
O meu pai sempre me disse que desde que eu corresse atrás dos meus sonhos, desde que batalhasse, ia conseguir.
Ele batalhou por este país, correu atrás de um futuro melhor. E eu assim fiz, batalhei, corri atrás, fiz teatro, televisão, cinema, dei aulas, trabalhei em bares, escritórios. Nunca tive subsídio de férias nem de Natal. Mas nada disso me demovia do meu sonho e da minha batalha.
E agora? De que me serve batalhar e sonhar num país sem futuro?
Não, Não!!! Eu vou continuar!

Texto de Tiago Torres da Silva


PORQUE É QUE EU VOU À MANIFESTAÇÃO DE 2 DE MARÇO

Porque é que eu vou à manifestação de dia 2 de Março?… Pela mesma razão que fui a todas as outras. Porque vejo um povo sem futuro, sem esperança, sem nenhuma possibilidade… Porque vejo a corrupção celebrada como uma fatalidade do destino e não acredito nisso… porque escuto os meus semelhantes… ouço-lhes os gritos, as revoltas… e sinto-me irmão deles, ainda que eu seja um privilegiado porque, apesar de pobre, ainda tenho um telhado sob o qual dormir e uma refeição à mesa… mas já não ligo os aquecedores quando está frio… já vou dormir mais cedo para poupar na conta da luz...
Todas as pessoas que conhecem o teatro que escrevo e enceno sabem que, mesmo quando eu falho, ele é sempre uma tentativa de dar voz a quem não tem voz. No meu teatro dei voz a prostitutas, travestis, sem-abrigo, actores sem trabalho, yuppies solitários, velhos, soldados deixados para trás em guerras que eles próprios desconheciam. Penso que a Arte é o lugar que pode existir como contraponto do poder instituído por governos feitos por políticos criados nas «jotinhas». Mete-me nojo saber que as próximas eleições, por fatalidade, serão ganhas pelo Partido Socialista e as que vierem a seguir serão ganhas pelo PSD. Alguma coisa terá de mudar e, no entanto, sei que bater nestes nossos governantes é quase como gritar com o caixa do supermercado por causa das políticas dos seus superiores. Quem manda nisto tudo, o nosso maior inimigo é o poder financeiro, as empresas de rating que colocam seus apoderados em lugares chave um pouco por todo o mundo. Vencê-los é a única vitória que poderá trazer um bocadinho de justiça e harmonia ao mundo. Nunca o valor da vida foi tão baixo. Nunca valemos tão pouco como agora e por isso é este o momento de bater nos caixas do supermercado para que estes levem o nosso protesto aos seus superiores e estes a outros e aí por diante até que todas as Goldmans & Sachs e quejandas tremam de medo.
Gosto muito de ver documentários sobre a natureza. Muitas vezes vejo ataques de três ou quatro leões contra uma manada de búfalos. Os búfalos, muito maiores, em maior número e mais fortes, fogem e, por isso, três ou quatro leões conseguem matar a presa que lhes parece melhor. Mas, algumas vezes, os búfalos unem-se e reagem. Na força de serem muitos, viram-se contra os leões e dizimam grupos inteiros. Vão fêmeas, machos, crias… Vai tudo pelos ares… e o rei da selva é aniquilado...
Os poderosos deste mundo são meia dúzia e contam com o nosso medo para fugirmos cada um para seu lado e assim ficarmos à mercê do seu desejo de carnificina. Mas vai haver um dia em que nós vamos dar as mãos e vamos investir contra eles. Nesse dia, tenham cuidado, Senhores Leões, porque não vai haver dó ou misericórdia. Nós somos uma manada e uma manada em fuga é o mais fácil de dominar. Mas quando nós pararmos, olharmos uns para os outros e dissermos: «agora, vamos marrar!» não vai haver leões que nos parem.
Eu vou à manifestação de dia 2 de Março como fui a todas as outras. Sou presa nas mãos de predadores ferozes, ignóbeis e cruéis. Vou para olhar nos olhos das outras presas, para dar as mãos às outras presas. Quero estar presente no momento em que nos vamos entreolhar todos e, porque já não teremos nada a perder, perceberemos que chegou a hora de marrar!, marrar!, marrar mesmo sabendo que alguns de nós perecerão nesse momento, porque os leões têm muita força… alguns de nós ficarão… mas os leões ficarão todos caídos por terra, surpreendidos por as presas se terem tornado predadores de um momento para o outro.
Eu vou à manifestação do dia 2 de Marco porque sei que esse momento está a chegar.

Texto de João Paulo Cotrim

Entre 8 e 80

O meu pai tem mais de 80 anos, gastou a vida fazer casas, a conduzir gente, a semear e a colher. Não foi político, mas motorista, de um serviço que ele entendia como público mesmo antes de o ser. Não foi político, mas tem saudades do Diário de Lisboa, seu jornal de sempre, por junto com o Jornal do Fundão, onde aprendi a ler Drummond de Andrade. Há dias retiraram-lhe com simpatia o direito a circular sem pagar nos autocarros que conduziu anos a fio. Tentei suavizar a coisa, o preço não era assim tanto, podíamos pagar essa nova portagem. Com justa indignação, como se eu tivesse 8 anos, explicou-me: quando começou a ter salário de gente na cidade, a simples ideia de 8 horas de trabalho por dia, dias de folga ou de férias era coisa revolucionária e extravagante. Foram raivas, revoltas, greves e desobediências, com preço pago no corpo ao longo de uma vida (notem bem, tudo isto numa só vida!), que tornaram aquelas ideias mera banalidade. O passe de velho não era benesse, mas fronteira derrubada. Por momentos também eu , achando que eram apenas trocos. Sem valor, mas possuindo supremo valor. O meu pai, não sendo político, mas lendo jornais de antigamente, voltou a explicar-me o lugar da cidadania, algures 8 e 80: uma horta pode tornar-se castelo, um trovão a voz do indivíduo e a coluna vertebral um dos mais altos faróis. Continuará a olhar a adversidade nos olhos, sem que nada o cale ou lhe colha os frutos das árvores ou da terra. Entalado entre ele, de 80, e os outros, de 8, vou dizer cantando e dançando no dia 2 de Março que o povo é quem mais ordena dentro de ti, minha cidade.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Texto de Sara Gonçalves


CADA SEGUNDO CONTA, CADA TEMPO É VIDA, CADA ESCOLHA É DECISÃO

Qual é a atitude que mais estimo na vida? A honestidade. A honestidade nas conversas, no amor, no trabalho, nas compras, no condomínio, no autocarro, nos balcões das finanças, na política. A honestidade determina o nosso comportamento, configurando-se em ética.
É preciso coragem para a pôr em prática todos os dias e estar muito atento às armadilhas constantes que a nossa sociedade, pelo modo como está construída, nos coloca à frente dos pés em momentos que parecem inócuos, mas arrastando-nos para pequenas traições pessoais sem darmos conta. Muitas vezes as relevamos com um simples encolher de ombros, fazendo do que se passa com todos a desculpa pela ínfima parte que nos cabe. Quando o fazemos, não nos estamos a dar o devido valor, descaracterizando a nossa individualidade a uma série de produção mecânica, onde não cabe a natureza diferencial, em que cada um de nós contém em si a responsabilidade da sua acção diária, que se transforma em atitudes mais ou menos conscientes, e cuja força se reflecte em toda uma sociedade. Cada gesto nosso se repercute em todos com uma importância maior do que a que pensamos, porque somos pessoas e as reacções são feitas de maneira diferente da dos processos mecânicos ou simplesmente biológicos. Somos seres pensantes e sensitivos, com lógicas racionais, intuitivas e afectivas.
Para além da coragem, é preciso também clareza de pensamento e saber prever as consequências de cada atitude que tomamos, intuindo o caminho que iniciamos e reflectindo nele o que desejamos.
Eu exijo-me esta atenção no meu quotidiano e mereço dos outros esta responsabilidade de escolher a atitude que engloba o respeito por si e pelos outros. Para além de mim, exijo isso aos políticos, como em cada condutor de autocarro, como ao cidadão comum, que faz da correria a sua vida, como à avó que cuida da sua neta. É preciso cuidar, cuidar de si e dos outros sem o paternalismo e julgamento dos anseios íntimos e dos fantasmas privados, acolhendo simplesmente a diversidade de espectros de escolhas que faz de cada cidadão pessoa, e da diversificação de universos que faz de grupos de pessoas sociedades, países, continentes, o mundo e a humanidade.
É o poder consciente das nossas escolhas que nos faz ser adultos e emancipados, inteiros e plenos, harmoniosos e felizes. Porque está nas nossas mãos a possibilidade de enunciar o tempo da nossa felicidade!
Eu quero viver, ter uma família, realizar-me na minha vocação, contribuir para uma sociedade com o meu tempo, saber, dúvidas, desejos e coragens. Gostaria de abraçar o mundo com a disponibilidade de um coração inteiro, tendo sempre um sorriso à senhora que me serve o café na padaria da minha rua ou a reacção atempada de fazer parar a corrida de uma criança de três anos que corre para a estrada distraída na finta de uma bola. Gostaria de viver plenamente o poder de reivindicar uma ideia, de construir através de críticas e sugestões, projectos e espectáculos de teatro, de facilitar encontros familiares e convívios, como participar em conversas e debates, e a todas as minhas palavras dar-lhes o melhor uso possível, aliadas ao meu coração e à minha capacidade de ser honesta com ele e com os meus pensamentos que dele têm origem.
Gostaria que todos tivéssemos tempo para sentir e reflectir, para amar e para nos expressarmos com as emoções, e dos sentimentos fazer os planos de uma festa ou de um projecto de vida. Tempo para, em cada decisão, escolhermos a vida que queremos ser e que queremos viver.
Para poder ser mãe, para ter a possibilidade de dar netos aos meus pais e dos meus filhos terem os avós que eu, por fatalidades antecipadas, não tive. Porque quando a natureza tem razões que não explicamos, aceitamos a vida que nos é deixada, mas porque a política são os Homens que a fazem, não permito que me retirem a possibilidade de viver a vida com a intensidade dos desejos ao alcance da força dos meus braços!
Por isso, vou para a rua gritar, dizendo que não deixo que me tomem a vida dos filhos que ainda não tenho nos braços, que me arranquem do coração a paixão dos meus sonhos, que anulem o sorriso do fim de vida dos meus pais.
Por isso, dia 2 Março estou na rua. E não só!
Não estarei apenas na rua e sei também que não estou sozinha.
Porque queremos muito gozar as nossas infâncias, juventudes e velhices, vamos felizes e inteiros, de peito aberto e cheios de coragem enfrentar o que bloqueia o caminho das nossas vidas!
Que se lixe a troika, queremos as nossas vidas e o povo é quem mais ordena!

Texto de Jorge Palma

Meus amigos,
Braga também tem muita gente boa, é com eles que vou estar no dia 2 de Março. É bom centrarmo-nos e, sobretudo, citando o nosso maestro Victorino de Almeida, não deixarmos que Portugal se torne numa espécie de cão abandonado que lambe as mãos do primeiro que lhe der qualquer coisa para comer.
Merecemos ser muito mais que isso, haja dignidade, coragem, inteligência e solidariedade de facto. Isto está só a começar, o rumo da locomotiva está nas nossas mãos.
BOA VIAGEM!

Texto de Isabel do Carmo


O MEU AMIGO MATOU-SE

É um dos motivos porque vou à manifestação do dia 2 de Março.
Vou também em nome do meu amigo. No dia 18 de Fevereiro o meu amigo J. C. deu um tiro na cabeça. Já não vai a esta manifestação.
Era um indigente ou um faminto? Não. Era um exemplo da chamada classe média. Gostava da vida. De comer, de dançar, de ir à praia. Ele e a mulher comportavam-se como dois namorados, depois de todos estes anos. Gostava dos filhos, a quem era muito chegado, gostava da neta. Gostava do trabalho. Mas, a situação a que nos levaram criou um labirinto sem saída. De facto, sem saída para uma grande parte da população. Deixemo-nos de flores, de «há soluções para tudo», de «é preciso ter esperança» ou de «há-de correr bem». Há certas situações que não têm solução à vista. Tinha os pais em casa com oitenta e tal anos e tinham chegado ao ponto de não conseguirem tratar de si próprios. Solução? Um «lar» custa 1300 euros para cada um. Uma empregada permanente anda por aí.
Tinha empregados a quem tinha que pagar salários todos os meses. Tinha empréstimos ao banco, crédito a cumprir, letras. Tinha clientes que não pagavam, porque por sua vez não lhes pagavam a eles.
Os filhos trabalhavam, mas havia um apoio indispensável, por causa da precariedade e por causa de situações de doença.
O senhorio acabava de, em concordância com a nova lei das rendas, passar-lhe a renda para o dobro.
Tinha solução para esta espiral que todos os dias se agravava? Não tinha.
Declarava insolvência, renunciava a todos os pequenos bens, ia para a rua, abandonava pais e filhos ao destino? Claro, tudo é possível.
Mas a dignidade tem um preço.
Os amigos podiam ajudar? Muito pouco.

Foi com certeza em nome da dignidade que teve a coragem de acabar com a vida.
Nesse mesmo dia veio ter ao Serviço de Urgência do Hospital de Santa Maria uma senhora que se atirou para debaixo do comboio do Metro. Salvaram-na, mas ficou sem um braço. Dias antes atirara-se a professora e o filho de uma janela em Bragança. Na ponte da Arrábida são frequentes os ajuntamentos porque alguém se atirou.
Estamos a assistir a uma epidemia?
Como os nossos governantes e as estruturas internacionais e o poder financeiro mundial já não distinguem entre o Bem e o Mal, temos nós que desobedecer às leis do Mal, protestar, mas não só. Encontrar o caminho para derrubar este Poder. No dia 2 de Março o meu caminho começará na Maternidade Alfredo da Costa na Maré Branca e continuará com todos os outros, através de Lisboa.
Também em nome do meu amigo que NÃO AGUENTOU.

Texto de João Lavinha

Sou um cidadão sem partido, por enquanto com emprego, mas cuja esperança já viu melhores dias. Com esta bagagem, irei juntar a minha voz à de todos aqueles que, no dia 2 de Março, uma vez mais farão da rua a sua casa comum («Em cada esquina um amigo…»). Faço-o para demonstrar a minha radical recusa de que a troika* desrespeite os nossos direitos do trabalho, degrade os nossos serviços públicos universais (escola, saúde, segurança social, justiça, segurança), dificulte a produção e fruição dos bens culturais, inviabilizando o notável percurso de desenvolvimento em democracia, só tornado possível pela Revolução de Abril.
Uma das traves mestras desse processo — que é necessário retomar sem hesitações, sob pena de se arruinar a democracia e enterrar o país — foi a aposta na melhoria da qualificação dos nossos recursos humanos e na construção de uma comunidade científica com massa crítica, cosmopolita e servida por infra-estruturas e instituições adequadas, capaz de equacionar os nossos problemas e criar a base de conhecimento cientificamente validado, sobre a qual tomar as decisões políticas, administrativas ou técnicas. Com os actuais cortes no financiamento e as dificuldades crescentes na sua utilização e sem o suficiente esforço de recrutamento e retenção de talentosos jovens investigadores e técnicos de investigação, que vemos partir em número crescente para latitudes mais acolhedoras para o capital humano bem qualificado, perspectiva-se já a regressão de Portugal a uma situação de atraso científico e tecnológico que julgávamos para sempre ultrapassada.
Ficaremos, assim, menos capazes de identificar, explorar e valorizar de forma sustentável os nossos recursos naturais endógenos. Por outro lado, estaremos menos bem equipados para fazer face aos múltiplos perigos e riscos ambientais, alimentares, climáticos, sísmicos, sociais ou de saúde, que nos ameaçam e que precisamos de monitorizar para assim os prevenir ou minimizar os seus efeitos. O que não deixará de agravar a nossa dependência e o nosso endividamento. Urge, por isso, construir uma alternativa ao actual poder político, apoiada pela mais ampla base social possível. Como mais um passo nesse sentido, respondi com entusiasmo ao apelo do movimento «Que se lixe a troika! O povo é quem mais ordena!» participando civicamente na jornada do próximo 2 de Março.

* Um governo multinacional não eleito acolitado por um governo nacional que, prometendo o que sabia não ir fazer, colheu o voto de uma maioria dos portugueses justamente zangados com o governo anterior.

Texto de Manuel Jorge Marmelo

Foi Bertolt Brecht, servindo-se do seu alter-ego «Senhor Keuner», quem contou a história do desempregado que, em julgamento, quando lhe perguntaram se pretendia fazer um juramento laico ou religioso, respondeu que, na situação em que se encontrava, aquela questão tinha deixado de fazer sentido. Tinha, muito simplesmente, mais com que se preocupar.

Talvez os indivíduos que nos governam se fiem demasiado nesta lição e tenham entendido que, num país com um desemprego galopante como o nosso, as pessoas estão tão ocupadas em imaginar um modo de sobreviver que não terão tempo para se opor ao constante acosso de que vão sendo vítimas. Mais preocupados em assegurar, ao menos, o jantar do dia seguinte, queremos lá saber se, em 2015, ainda haverá alguma coisa a que possamos chamar nossa e que não tenha já sido entregue à grande roda dos amigalhaços instalados, a troco de férias no Copacabana Palace e lugares em conselhos de administração.

Quando, há dias, foi interrompido pela Grândola, Vila Morena num debate (chamemos-lhe assim por mera comodidade) em Vila Nova de Gaia, o urubu Miguel Relvas assinalou a saída dos manifestantes da sala com recurso ao velho adágio, segundo o qual «o povo é sereno». Menos de vinte e quatro horas depois, no ISCTE, em Lisboa, outros manifestantes conseguiram que Relvas se calasse e abandonasse o salão, recordando a quem por acaso não se lembre que, por muito sereno e paciente que seja o povo, também chega uma altura em que se lhe esgota a proverbial paciência.

A saída do rotweiller do governo do ISCTE com o rabo entre as pernas é uma coisa que dá que pensar. Desde há muito tempo que me parece claro que só existe uma forma de obrigar quem nos governa a ganhar decoro e vergonha na cara: impedindo que saiam à rua sem serem confrontados com o descontentamento daqueles que vão passando mal enquanto a banca recebe, de papo cheio, os milhões de recapitalização da troika. Se, de cada vez que põem o nariz fora da porta, escutassem a Grândola e aquele «o povo unido jamais será vencido», talvez Passos Coelho e os seus elfos vendilhões percebessem que se lhes está a acabar o tempo de saldar o que não lhes pertence.

É por isto que manifestações como a que está marcada para 2 de Março são importantes: para que a cáfila possa ver quantos somos e de que tamanho é a nossa determinação. Um dia atrás do outro, porém, é necessário que continuemos mobilizados e activos — para que, ao menos, não volte a suceder que grupos de cidadãos desçam à miséria de ir cantar as Janeiras ao indivíduo que cinicamente lhes assalta os bolsos, como servos da gleba indo prestar vassalagem ao senhor feudal.

Texto de Guadalupe Magalhães Portelinha

Amigo, amiga
a vida é tua, é tua a vida!

Levanta a cabeça e luta e voa como a gaivota

afasta todos os medos, vê mais longe a tua rota
Levanta a cabeça e luta pelo pão, trabalho e tecto
não deixes que te enganem com miragens de deserto!

Levanta a cabeça e luta com tuas mãos de razão
pelos Direitos Humanos pelo povo e p'lo teu chão
Levanta a cabeça e luta e constrói o teu destino
por um mundo melhor, pela paz canta o teu hino!

Amigo, amiga
a vida é tua, é tua a vida!

Levanta a cabeça e luta contra ratings e banqueiros
o povo é quem mais ordena, vai destruir os poleiros
Levanta a cabeça e luta, com ira e indignação
contra as leis desta TROIKA que nos levam a pedir pão!

Levanta a cabeça e luta, com a Grândola na voz
somos todos a muralha, juntos não estamos sós
Levanta a cabeça e luta, o povo está a mandar
gritando alto à TROIKA que se vá mesmo lixar!

Levanta a cabeça e luta com garra e com coragem
contra os destinos de fome, guerra à vergonhosa pilhagem
Levanta a cabeça e luta, vem para a rua gritar
o povo é quem mais ordena e vai Portugal acordar!

Amigo, amiga
a vida é tua, é tua a vida!

Levanta a cabeça e luta, sê borboleta colorida
que libertada da crisálida procura uma nova vida
Levanta a cabeça e luta, vai fundo como a toupeira
escava túneis de esperança e de justiça verdadeira!

Levanta a cabeça e luta, sê cigarra na alegria
nos cantos de resistência sob o signo da utopia
Levanta a cabeça e luta, sê formiga na convicção
e na certeza dos caminhos que levam à revolução!

Amigo, amiga
a vida é tua, é tua a vida!