quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Texto de Myriam Zaluar

Um dia, tudo isto terá passado. Um dia, todo o pesadelo que temos vivido será apenas uma recordação dolorosa que tentaremos encaixar numa lógica qualquer. Os historiadores estudarão, perplexos, os tempos em que a democracia foi suspensa e o Estado deixou de ser uma pessoa de bem para se tornar num escroque. Os nossos filhos, os nossos netos ouvirão, incrédulos, as histórias verdadeiras que lhes contaremos, sobre a forma como direitos já conquistados há décadas pelos nossos avós e bisavós e consagrados nas tábuas da lei fundamental tiveram de ser novamente disputados, arrancados a ferros de algozes disfarçados de economistas. De como, em pleno século XXI, fomos obrigados a ocupar escolas e hospitais e fábricas e padarias e supermercados e campos e casas, porque nos haviam tentado — e em muitos casos conseguido — roubar a paz, o pão, a habitação, a saúde, a educação. De como tivemos de deitar muros abaixo e de construir pontes onde já só restavam fossos. De como abolimos fronteiras e demos as mãos aos que, do outro lado, apenas aspiravam a uma vida digna. De como erigimos uma terra sem amos e resgatámos os nossos sonhos. E saberão que foi por eles que o fizemos, por eles e por nós, porque ansiávamos pelo sal e pelo mel, porque nos tinham tapado o sol e secado a terra, porque já não aguentávamos ver as nossas vidas por um canudo, por mil canudos, sem os quais afirmavam nada valermos, mas que, após dura obtenção, só nos garantiam o direito a emigrar, a exilar-nos.

Um dia, tudo isto que passamos será passado, marca, cicatriz. Não conseguirão fazer-nos esquecer, mas transformaremos as nossas dores em árvores de fortes raízes. Penduraremos os recibos verdes em paredes antiquíssimas de museu e contaremos aos nossos netos que um dia, há muito, muito tempo, os que mandavam neste país quiseram condenar-nos a pagar impostos sobre dinheiros que nem sequer ganhávamos. Que quiseram deixar-nos à míngua, fazer-nos pagar por bens que eram nossos, que depois de destruírem o que produzíamos nos fizeram comprar a outros todos os víveres de que precisávamos para sobreviver. Que nos quiseram matar à espera de tratamentos nos hospitais, que tornaram o saber num luxo incomportável, que afastaram as nossas crianças das escolas, que acabaram com os caminhos de ferro e com os comboios, que limitaram as redes de transportes públicos, enfim, que tudo fizeram para que deixássemos de nos divertir, de sair à noite, de ir ao teatro e ao cinema. Que puseram aqueles de nós que tinham empregos a trabalhar por dois, por três, por quatro e que despediram os outros, de forma a que os primeiros caíssem de exaustão e os segundos de frustração, de desânimo e de isolamento.

Contar-lhes-emos como um dia fomos obrigados a abolir pela segunda vez a escravatura, pois tentaram convencer-nos que era normal trabalharmos para aquecer, para fazer currículo, tendo de provar uma vez e outra e outra o nosso mérito, as nossas capacidades, enquanto outros tudo tinham, muito embora ninguém percebesse muito bem de onde lhes vinha a fortuna. Explicaremos aos nossos netos que aos pais deles foi roubada parte da infância, porque, sorrateiramente, um bando de malfeitores mascarados de especialistas nos conseguiram durante algum tempo persuadir que termos casa e carro e telemóvel e dinheiro para acampar no verão e ir ver a neve no inverno era um luxo ao qual não nos podíamos dar, porque éramos pecadores e criminosos, embora não nos conseguíssemos lembrar o que raios poderíamos ter feito de tão grave para que os nossos filhos merecessem tal castigo. E eles espantar-se-ão e perguntarão como foi possível que nos sujeitássemos, tão pouco tempo após a sua conquista, a perder direitos tão fundamentais como o direito a trabalhar e a viver no país onde nascemos. O direito a simplesmente querermos ser felizes.

E não saberemos o que responder-lhes. Porque na verdade teremos nós próprios dificuldade em perceber como chegámos nós um dia ao ponto a que chegámos. Mas saberemos sim que um dia dissemos basta, que um dia, com toda a força e veemência da nossa razão e da nossa vontade exigimos o que é nosso. E nos erguemos, já não como rios, mas como marés, como mares, como oceanos de certeza.

Nesse dia, sairemos das nossas casas aquecidas e mostrar-lhes-emos os caminhos que desbravámos juntos: caminharemos pela República, da José Fontana à Praça de Espanha. Desfilaremos nas Avenidas que são da Liberdade e desembocaremos de novo nos Terreiros que são do Povo. Com eles, entoaremos Grândola Vila Morena, duas vezes senha, duas vezes sonho, e as lágrimas brilharão nas nossas vozes e os versos ecoarão nas nossas memórias como ecoaram um dia nas escadarias e corredores dos Passos Perdidos, sob o olhar embargado dos polícias que só desejavam poder connosco cantar. Recordaremos o 2 de Março, o 13 de Outubro, o 15 de Setembro, o 12 de Março e de novo o 1º de Maio e o 25 de Abril, uma vez e outra e outra ainda, um dia, a chorar de alegria, de alívio precoce e intranquilo, com a certeza de que todos os invernos vão dar à primavera e de que os homens que dormem acordam sempre um dia. Um dia...

Texto de Sérgio Godinho


Maré alta

Em 1971, para encerrar o meu primeiro disco, Os Sobreviventes, escrevi uma canção com uma das letras mais curtas:
«Aprende a nadar, companheiro, que a maré se vai levantar, que a liberdade está a passar por aqui. Maré alta maré alta maré alta». Às vezes o menos é mais.
Estávamos então em pleno marcelismo, e digo-o com letra pequena porque era uma versão já semi-inerte do fascismo. E no entanto, havia ainda uma polícia política, agora com três letrinhas apenas, DGS, que se dedicava às mesmas nobres actividades da PIDE sua mãe. Vigiar, prender, torturar, nada de novo. Havia uma guerra colonial que se arrastava pelos campos minados de África, campos imensos sem fim à vista nem esperança de solução. E muitos mortos e feridos e enlouquecidos. Havia censura de peneira fina, e havia a emigração dos pobres, uma peneira de furos largos a deixar fugir o melhor de nós.
E no entanto a liberdade estava a passar por aqui. «O solo que pisamos é livre, defendamo-lo» foi o que pensaram e fizeram muitos resistentes, novos e antigos.
Havia um velha adivinha que perguntava: «Qual é a altura do Salazar?» E respondia-se: «É a altura de se ir embora». O mesmo valia para a sua herança e os seus descendentes. Era altura de se irem embora.
Foi nesse conjunto de pensamentos e acções que se chegou à luminosa manhã do 25 de Abril. Vim então de longe, como muitos de nós, para ver e acreditar nos meus olhos e em todos os meus sentidos. E para cantar pela primeira vez no centro do redemoinho de uma maré alta onde todos pudemos vir à tona e navegar à vista longínqua.
Passados todos estes anos, sabemos como o país está em maré intencionalmente esvaziada e sangrada, e assim estará nos tempos mais próximos, aconteça o que acontecer.
Mas não interiorizemos o medo escuro nem o conformismo pardo. O presente tem «o acesso bloqueado»? Cabe a nós encontrarmos novas chaves, novos atalhos, novas formas activas de o usufruir. Queremos as nossas vidas, sim, por difícil que seja habitá-las neste presente sombrio.
O solo que pisamos é livre, e desde há muito terreno libertado. Defendamo-lo.
A liberdade está a passar por aqui.

Texto de Rita Red Shoes

O medo faz parte da minha vida.
Desde pequena que a falta de liberdade me assusta. O não ter espaço para a minha voz e para os meus movimentos. O medo do escuro no preconceito, na desilusão, na falta de harmonia. Na solidão. São medos que, com o tempo, tenho vindo a aceitar como condição para viver esta vida.
Mas ter medo do estado é coisa pouco bonita. É coisa feia. E é coisa que veio ocupar espaço a mais no meu lado negro, como uma inevitabilidade. É o que agora sinto. Não como menina pequenina mas como mulher que sonhou com uma vida aqui, onde há história dos meus pais, dos meus avós e dos meus amigos.
O medo que a bondade e a justiça não existam de todo e que a crueldade, a frieza e os números ditem os afazeres no meu país. O fazer desfazer. O desfazer pessoas.
Tenho medo que a tristeza nos assole de vez. Que as vozes esmoreçam por falta de forças. Que os movimentos se toldem por amarras perversas. Que nos isolemos e que o amor não chegue.
Que estado é este? Um vento forte que derruba as árvores e as casas, de Norte a Sul, que não pede licença e leva as sementes para fora dos campos? Que põe montanhas fora dos seus lugares e que tapa as vistas com destroços? Que estado é este? Para onde é que vai tão apressado? O que restará? E parece tão perdido. Vazio.
Este estado não me representa. Não me representa como cidadã e pessoa. Não tem o meu orgulho nem compreensão. Este estado envergonha-me porque os seus valores não se encontram com os meus. Este estado que se desculpa com o estado a que as coisas chegaram. O estado dos bons meninos cumpridores que eu não consigo desculpar.
O que me ilumina é saber que somos muitos. É perceber que a dor que, deste lado sentimos, é sentida na pele e não num papel. É real. Faz mossa e entristece. E isso faz com que se cante, que a voz soe e que os movimentos se libertem. Calar o medo. Calar o medo. Calar o medo.

Texto de Ana Nave

Dia 2 de Março vou para a rua juntar-me a todas as pessoas que, como eu, já não aguentam mais ser governadas por quem insiste em tratar-nos como se fossemos números.

Texto de José Reis Santos


Requiem for Portugal

When, on the dawn of April 25, 1974, Radio Renascença played Zeca Afonso’s Grândola Vila Morena, few knew that the song was the final password for the coup d’état that would overthrow Portugal’s 48 years long right wing authoritarian regime, and that we were listening to a last Mass of a defunct regime. That was the dawn Portugal waited for, “the initial and long day, which emerged from the night and the silence, to inhabit the substance of time” — as Sophia de Mello Breyner so brilliantly poeticized. It was the dawn of all hopes, all dreams and utopias. The dawn when the Portuguese people finally restored their rule, in their cities, seeing in every corner a friend, “in each person equality”. Portugal became, on that same dawn as the coup evolved to a social revolution, a “land of fraternity”, as Zeca Afonso wished, and a land of liberty, as everyone desired.
Within a generation we endowed the country with a political system suitable to fit the demands of last century’s formal democracies. We withdrew our people from a forced and obscure illiteracy and a rigid social stratification, built the most qualified generations of our history, and instilled the idea that we would enforce a culture of merit suitable to the demands of our contemporaneity. Likewise, we empowered our women and gave our minorities the rights of majorities, finally adding Equality to Freedom and Fraternity. We dreamed about a rainbow country, politically modern and economically and socially progressive, after 48 years of medievalism, painted in shades of black and dark greys.
We believed that the future would bring more equality, more equity and more social justice. For this, we tolerated the deterioration of our party system, widespread clienteles and nepotism, the return of our oligarchic and egocentric elites, the consecutive mismanagement of public affairs, and even the advent of an unprepared and ill-skilled political elite. We took it all, until our current right-wing (liberal) government, sheltered by the IMF and the Barroso Commission, cynically targeted labour rights, public services, the National Health Service and all that we built during 38 years of democracy; hitting hard our hearts, stomachs and wallets. As a result, our economy stagnated, unemployment grew, precariousness became social normality and emigration rampaged. Meanwhile, the government sponsored wild privatizations, dismantling the state and public sectors, while selling profitable public enterprises for a friendly penny. Their aim is to privatize our lives and reduce all labour costs in benefit of big companies and profits for the markets and their CEO’s.
Our livelihood and our dignity were taken away. Hope became a plane ticket or the belief that somehow we will survive this shock therapy designed by autistic economics professors obsessed with excel files — this collective coma induced by crazy Ivy League fanatics detached from social reality. Behind this treatment is the troika (and the Barroso Commission), an unelected government that decides our present and conditions our future; that condemns our dreams to death and our life to a pitiful and impoverished daily search for bread and ways to pay our rent. Troika’s aims are clear: to increase our debt, impoverish our country and the majority of our people, annihilate the economy, reduce common wages and acquired rights, destroy the social state, while enriching a minority of selected few. Their success depends on our misery.
As such, today we can no more believe in the ability of those who hold our key institutional positions. They sell our country cheap to a foreign economical occupation. Besides, our government consecutively lies and fails all targets, the President (who could dismiss the government) does nothing, and the opposition rests in its inefficiency. All we have left is the sheer force of our resistance, of our protest, of our indignation. Today, one way to preserve our dignity and fight for an alternative, progressive and fairer society, is through social protest and collective indignation.
It's not enough anymore to ask us to blindly trust the polls when mediocre elites are regularly elected. “Democracy” is not, and cannot be, an institutional excuse to convince us that the legitimizing value of the people exists only on a magic piece of paper. “Democracy” is to be lived every day, in every act of government, in each objection and counter-proposal by the opposition, in each protest or demonstration of civil society, organized or otherwise. And because Grândola Vila Morena gauges the quality of our civility, the essence of Portuguese progressiveness, we need to sing it daily, as this Mass cannot wait another four years to be sung.
The question of the day is: what to do when a government lies and deceives, when the opposition is ineffective and indecisive, when the system key holders don’t react? What are the alternatives to social indignation? Promote a riot or a general insurrection? Accept the inducted coma and lay down? Or wait for 2015, the date for Portugal’s next general elections? I do believe it is imperative to have some caution, to quickly detach us from the induced coma and demonstrate, singing with full lungs to our supreme magistrate (i.e. Portugal’s President of the Republic), that the regular working-mode of our (political) institutions are at risk, that the system is facing institutional meltdown. And therefore he needs to intervene. Urgently.
Meanwhile, I urge all European citizens, from all political spectrums, with or without political party, with or without employment, with or without hope, to join us on our peaceful protest, because what’s happening to us, in Portugal, it’s either happening to you as well, or soon will be.
And if we manage to take to the streets the noise and fervour of our indignity; if we demonstrate our unrest and just claims and display — through the strength of our numbers and the common sense of our proposals — that the boundary between bad government and institutional and social illegitimacy cannot be crossed, we will win this historical fight. We can tolerate bad governments, and vote them out when we have the chance. But governments that constantly lie, flip-flop on their electoral platform to install a minimalist, ideology-based program, annihilating our social welfare state (only to benefit the markets and their owners) — that, we cannot tolerate. Not anymore.
Civil society must then continue its noisy Requiems, this time for Portugal, critically intervening in public affairs, in order to force a regeneration of both the political and the party systems throughout Europe. That’s why you must hit the streets on March 2, and transform an announced Missa pro defunctis into an idea of the future — always to the sound of all the “Zeca Afonsos” existing throughout our indignant Europe.

 

Grande Oficina Popular

No sábado vamos fazer uma Grande Oficina Popular junto à estátua do Marquês, às 14h00.
Qualquer manifestante pode fazer, ou pedir aos designers e artistas que lá estarão, o seu cartaz, lona, faixa ou bandeira, com as frases e imagens que desejarem.
Se quiserem participar levem:
- cartões, cartolinas, lençóis, lonas
- Tintas de Spray, Marcadores, Tintas e pincéis, Fita-cola preta
- Paus de vassoura, de bandeira, madeiras para suportar cartazes
- Escantilhões de letras (daqueles antigos), "Stencil", recortes de imagens do Passos Coelho, Relvas, Portas, Cavaco....
e tudo o mais que a vossa imaginação se lembrar!

Texto de Joaquim Paulo Nogueira


Salvar os países começa por ser salvar a Europa. 
 
Dia 2 de Março é mais um passo no percurso de fortalecimento da nossa participação cidadã que começámos a trilhar mais intensamente a partir do 12 de Março de 2011. Não será o último. A urgência deste percurso é ditada pela consciência de que vivemos uma rápida degeneração política da vida em democracia na Europa.
Não sei se há outra definição para a ideia do abismo político em que nos encontramos
: condicionados a escolher governantes que se apresentam a eleições com um determinado programa político, sabendo eles, e sabendo nós, que eles vão governar através de memorandos políticos firmados com o BCE, o FMI e a Comissão Europeia.
A política europeia foi sequestrada por um pensamento e uma doutrina onde a lei do mais forte é imperativa e substitui a ideia comunitária. Salvar os países começa por ser salvar a Europa.
Parece um objectivo inalcançável, não parece? Não foi assim que o pensaram aqueles que perceberam que para matar a Europa tinham de começar a destruir aquilo que era o elemento diferenciador da presença política europeia: a solidariedade, seja lá o nível ou o âmbito - local, nacional ou global – pelo qual a encaremos. É uma existência paradoxal, sempre: a força da Europa, a sua união politica e económica é também o ponto de partida para a sua imensa vulnerabilidade.
Face a esta verdadeira catástrofe política em que a Europa está mergulhada, e quando o sistema político parece só conseguir replicar a tragédia da política, a questão é de natureza cultural: como não nos encontrarmos? Como não descermos juntos as ruas? Como não enchermos connosco as nossas praças? A questão não será tanto em torno das razões que temos para sair à rua, elas multiplicar-se-ão exponencialmente por toda a nossa diversidade política, cultural, social, a questão é outra: como poderemos ficar em casa quando todo o nosso mundo está a ser destruído?
No dia 2 de Março descerei a Avenida da Liberdade com muitas pessoas que exigirão a demissão do Governo. Não sendo isso para mim uma questão essencial – este governo não me desiludiu em nada, infelizmente - não me incomoda nada dar as mãos a todos os que querem o seu fim. Este é um governo que perdeu toda a legitimidade política para poder governar e que já não estaria em funções se em Belém tivéssemos um Presidente que vigiasse o exercício governamental. Ou se tivéssemos já interiorizada uma cultura e uma ética política em que os governantes se sentissem responsáveis perante a comunidade. Em vez de exigir a demissão deste Governo, prefiro pensar que a rua irá dar àquele vasto campo político a que costumamos chamar Esquerda, forças, ideias e dinamismo para criar uma alternativa política.
Talvez haja condições muito particulares para isso: em primeiro lugar, a destruição do Estado Social, nos seus diferentes domínios, saúde, educação, justiça, cultura, já não se situa no plano da querela ideológica entre Esquerda e Direita, foi transposto para um plano tão descarado da pilhagem dos recursos públicos que até a base ideológica da direita cora de vergonha e desaprova o saque.
Depois, a destruição da economia está a ser feita através de uma subordinação cega a planos e programas económicos cuja legitimidade não decorre daquela credibilidade de natureza económica que a direita gosta de exigir como seu pergaminho político. Apenas se funda no uso férreo de um autoritarismo e poder discricionário do Estado no aumento da colecta de que tanto se envergonha o liberalismo económico. E ainda, pelas condições muito particulares em que o sonho de uma Europa se transformou rapidamente no pesadelo de um totalitarismo financeiro que — incompreensível ou paradoxalmente — parece basear o seu cerco, a sua tutela e a sua força na incapacidade de responder positivamente às questões existenciais das pessoas, das comunidades e dos povos.
Por isso também é tão importante sair à rua em 2 de Março, anunciando a primavera que aí vem: não há esquerda credível sem uma rua forte, sem uma rua em festa, sem uma rua participada e cidadã. E desde o 12 de Março muito tem sido feito para reacender esse fogo comunitário. Pese embora a verdadeira destruição de grande parte da nossa actividade cultural e artística nos últimos anos, o que em si é uma tragédia para o desenvolvimento da comunidade e também da nossa cidadania, tem sido nos movimentos de cidadãos — onde avulta para mim a Auditoria Cidadã à Dívida — que tem surgido uma dinâmica cultural e de participação política que fortalece a comunidade.
Porque o pesadelo que estamos a viver é também uma consequência da intensa manipulação ideológica em que mergulhámos e que é tão mais violenta quanto vive de um contexto em que o manipulador é também o manipulado. Criámos um paradigma mistificador que é o condicionador da nossa vida política: para nos encontrarmos temos de ter alternativas, temos de ter razões, temos de ter ideias. E deveria ser exactamente o contrário: deveríamos encontrarmo-nos para construirmos alternativas, para pormos em causa as nossas razões, para começarmos a pensar de outra maneira.
É essa vaga que este mar anónimo e manifestante que tem oposto à Europa dos jogos de títeres e da usurpação política a ideia de uma Europa das Pessoas tem trazido. É difícil assim encontrar razões para não sairmos de casa. Juntos temos menos medo, juntos metemos mais medo ao medo que por aí começa a querer andar descaradamente em forma de intimidação, de interrogatório, de inquietante perversão do uso dos meios públicos de segurança. Eles não sabem que o autoritarismo pode fazer da vida de cada um de nós um pequeno inferno existencial mas só consegue tirar de cada cidadão a sua liberdade se este já tiver, previamente, abdicado dela. É isso que a rua nos faz, é isso que nós fazemos na rua. O povo é quem mais ordena, dentro de ti, ó cidade.

Texto de Cristina Cavalinhos

47 anos de vida, 30 a ser actriz.
O meu pai sempre me disse que desde que eu corresse atrás dos meus sonhos, desde que batalhasse, ia conseguir.
Ele batalhou por este país, correu atrás de um futuro melhor. E eu assim fiz, batalhei, corri atrás, fiz teatro, televisão, cinema, dei aulas, trabalhei em bares, escritórios. Nunca tive subsídio de férias nem de Natal. Mas nada disso me demovia do meu sonho e da minha batalha.
E agora? De que me serve batalhar e sonhar num país sem futuro?
Não, Não!!! Eu vou continuar!

Texto de Tiago Torres da Silva


PORQUE É QUE EU VOU À MANIFESTAÇÃO DE 2 DE MARÇO

Porque é que eu vou à manifestação de dia 2 de Março?… Pela mesma razão que fui a todas as outras. Porque vejo um povo sem futuro, sem esperança, sem nenhuma possibilidade… Porque vejo a corrupção celebrada como uma fatalidade do destino e não acredito nisso… porque escuto os meus semelhantes… ouço-lhes os gritos, as revoltas… e sinto-me irmão deles, ainda que eu seja um privilegiado porque, apesar de pobre, ainda tenho um telhado sob o qual dormir e uma refeição à mesa… mas já não ligo os aquecedores quando está frio… já vou dormir mais cedo para poupar na conta da luz...
Todas as pessoas que conhecem o teatro que escrevo e enceno sabem que, mesmo quando eu falho, ele é sempre uma tentativa de dar voz a quem não tem voz. No meu teatro dei voz a prostitutas, travestis, sem-abrigo, actores sem trabalho, yuppies solitários, velhos, soldados deixados para trás em guerras que eles próprios desconheciam. Penso que a Arte é o lugar que pode existir como contraponto do poder instituído por governos feitos por políticos criados nas «jotinhas». Mete-me nojo saber que as próximas eleições, por fatalidade, serão ganhas pelo Partido Socialista e as que vierem a seguir serão ganhas pelo PSD. Alguma coisa terá de mudar e, no entanto, sei que bater nestes nossos governantes é quase como gritar com o caixa do supermercado por causa das políticas dos seus superiores. Quem manda nisto tudo, o nosso maior inimigo é o poder financeiro, as empresas de rating que colocam seus apoderados em lugares chave um pouco por todo o mundo. Vencê-los é a única vitória que poderá trazer um bocadinho de justiça e harmonia ao mundo. Nunca o valor da vida foi tão baixo. Nunca valemos tão pouco como agora e por isso é este o momento de bater nos caixas do supermercado para que estes levem o nosso protesto aos seus superiores e estes a outros e aí por diante até que todas as Goldmans & Sachs e quejandas tremam de medo.
Gosto muito de ver documentários sobre a natureza. Muitas vezes vejo ataques de três ou quatro leões contra uma manada de búfalos. Os búfalos, muito maiores, em maior número e mais fortes, fogem e, por isso, três ou quatro leões conseguem matar a presa que lhes parece melhor. Mas, algumas vezes, os búfalos unem-se e reagem. Na força de serem muitos, viram-se contra os leões e dizimam grupos inteiros. Vão fêmeas, machos, crias… Vai tudo pelos ares… e o rei da selva é aniquilado...
Os poderosos deste mundo são meia dúzia e contam com o nosso medo para fugirmos cada um para seu lado e assim ficarmos à mercê do seu desejo de carnificina. Mas vai haver um dia em que nós vamos dar as mãos e vamos investir contra eles. Nesse dia, tenham cuidado, Senhores Leões, porque não vai haver dó ou misericórdia. Nós somos uma manada e uma manada em fuga é o mais fácil de dominar. Mas quando nós pararmos, olharmos uns para os outros e dissermos: «agora, vamos marrar!» não vai haver leões que nos parem.
Eu vou à manifestação de dia 2 de Março como fui a todas as outras. Sou presa nas mãos de predadores ferozes, ignóbeis e cruéis. Vou para olhar nos olhos das outras presas, para dar as mãos às outras presas. Quero estar presente no momento em que nos vamos entreolhar todos e, porque já não teremos nada a perder, perceberemos que chegou a hora de marrar!, marrar!, marrar mesmo sabendo que alguns de nós perecerão nesse momento, porque os leões têm muita força… alguns de nós ficarão… mas os leões ficarão todos caídos por terra, surpreendidos por as presas se terem tornado predadores de um momento para o outro.
Eu vou à manifestação do dia 2 de Marco porque sei que esse momento está a chegar.

Texto de João Paulo Cotrim

Entre 8 e 80

O meu pai tem mais de 80 anos, gastou a vida fazer casas, a conduzir gente, a semear e a colher. Não foi político, mas motorista, de um serviço que ele entendia como público mesmo antes de o ser. Não foi político, mas tem saudades do Diário de Lisboa, seu jornal de sempre, por junto com o Jornal do Fundão, onde aprendi a ler Drummond de Andrade. Há dias retiraram-lhe com simpatia o direito a circular sem pagar nos autocarros que conduziu anos a fio. Tentei suavizar a coisa, o preço não era assim tanto, podíamos pagar essa nova portagem. Com justa indignação, como se eu tivesse 8 anos, explicou-me: quando começou a ter salário de gente na cidade, a simples ideia de 8 horas de trabalho por dia, dias de folga ou de férias era coisa revolucionária e extravagante. Foram raivas, revoltas, greves e desobediências, com preço pago no corpo ao longo de uma vida (notem bem, tudo isto numa só vida!), que tornaram aquelas ideias mera banalidade. O passe de velho não era benesse, mas fronteira derrubada. Por momentos também eu , achando que eram apenas trocos. Sem valor, mas possuindo supremo valor. O meu pai, não sendo político, mas lendo jornais de antigamente, voltou a explicar-me o lugar da cidadania, algures 8 e 80: uma horta pode tornar-se castelo, um trovão a voz do indivíduo e a coluna vertebral um dos mais altos faróis. Continuará a olhar a adversidade nos olhos, sem que nada o cale ou lhe colha os frutos das árvores ou da terra. Entalado entre ele, de 80, e os outros, de 8, vou dizer cantando e dançando no dia 2 de Março que o povo é quem mais ordena dentro de ti, minha cidade.