sexta-feira, 26 de abril de 2013

1 de Junho | Protesto Internacional: Povos Unidos contra a troika!


A Europa está sob um violento ataque do capital financeiro que se faz representar pela troika (FMI, BCE, CE) e pelos sucessivos governos que aplicam as políticas concertadas com estas entidades desprezando as pessoas. Sabemos que esta ofensiva aposta em vergar os povos, tornando-os escravos da dívida e da austeridade. Atravessa a Europa e também deve ser derrotada pela luta internacional.

Cada um de nós, em cada país, em cada cidade, em cada casa, com as suas especificidades, sente na pele as medidas que aniquilam direitos conquistados ao longo de décadas, medidas que agravam o desemprego, que privatizam tudo o que possa ser rentável e condicionam a soberania dos países sob a propaganda da “ajuda externa”. É urgente que unamos as nossas forças para melhor combatermos este ataque.

O apelo que lançámos para uma manifestação internacional descentralizada circulou entre dezenas de movimentos em Espanha, França, Itália, Grécia, Chipre, Irlanda, Inglaterra, Escócia, Alemanha, Eslovénia… Na reunião de hoje, 26 de Abril, em Lisboa, estiveram presentes companheiros e companheiras de vários países da Europa, que discutiram em conjunto esta proposta.

Assim, hoje sai consensualizado a nível internacional que sairemos à rua no próximo dia 1 de Junho: Povos unidos contra a troika!

Este é o início de um processo que se quer descentralizado, inclusivo e participado. Queremos construí-lo colectivamente e juntando as nossas forças. A partir de hoje a data de 1 de Junho será divulgada à escala europeia e todos e todas estão convidados a juntarem-se num protesto internacional contra a troika e contra a austeridade, a favor de que sejam os povos a decidirem as suas vidas.

Apelamos a todos os cidadãos e cidadãs, com e sem partido, com e sem emprego, com e sem esperança, apelamos a que se juntem a nós. A todas as organizações políticas, movimentos cívicos, sindicatos, partidos, coletividades, grupos informais, apelamos a que se juntem a nós.

Queremos continuar a alargar os nossos contactos tanto nacionais como internacionais, porque estamos conscientes que será o somatório das nossas vozes que poderá travar a nova vaga de austeridade que está a ser preparada. Os povos da Europa têm vindo a demonstrar em vários momentos que não estão disponíveis para mais sacrifícios em nome de um futuro que nunca chegará. Por isso pensamos que é chegada a hora de uma grande demonstração da capacidade destes povos de se coordenarem na luta e
na recusa destas políticas.

De Norte a Sul da Europa, tomemos as ruas contra a austeridade!


domingo, 21 de abril de 2013

Subscrição da Moção de Censura Popular

O Lançamento da Moção de Censura Popular teve lugar em Grândola, com o objetivo simbólico de marcar o início, na cidade imortalizada pela canção de Zeca Afonso e senha da revolução de Abril, de uma recolha de assinaturas em todo o país, pela demissão do executivo governamental.

O site da moção de censura é http://mocaocensurapopular.net/

A subscrição pode ser feita emhttp://mocaocensurapopular.net/subscricao-mocao/

O download de folhas para recolha de assinaturas está disponível em http://mocaocensurapopular.net/venham-mais-cinco/


"Basta! Obviamente estão demitidos. Que o povo ordene!"


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Esclarecimento

O QSLT é um fenómeno novo em Portugal e a sua definição escapa à generalidade dos analistas e comentadores. O seu formato e os seus modos de acção não encaixam nos formatos tradicionais de organização política e a sua actividade colectiva não é marcada por lideranças que facilitem  mediatismos. Somos rostos comuns, de pessoas comuns que activamente decidiram participar, serem parte da solução rejeitando a acusação de que são parte do problema. Não somos membros de nenhuma seita ou irmandade secreta. Não lucrámos com os casos BPN, BPP, BCP, submarinos, Freeport ou Portucale. Não temos dinheiros em offshores. Não somos donos de jornais, rádios ou televisões.

1. Somos um grupo de pessoas que independentemente da sua filiação/simpatia ou independência partidária ou sindical decidiram que era urgente e necessário encontrar articulações e consensos em torno da análise política que se pode fazer do país sob intervenção da Troika. Este grupo diversificado e de geometria variável discute, reflecte, consensualiza ideias e propostas de acções cujo apelo se tem concentrado em algumas linhas de força: crítica das políticas de austeridade, demissão do governo, retirada da Troika do país no âmbito do cumprimento da Constituição, defesa das funções sociais do Estado e dos recursos estratégicos do país, concepção de uma economia para as pessoas.

2. Este colectivo de pessoas não tem fundadores, porta - vozes ou representantes. Tem membros que participam em discussões e em acções propostas em plenários, reuniões e pela net. A sua participação é paritária e, em regra,as decisões são tomadas por consenso ou, em alternativa, por maioria. Os membros que falam à comunicação social são rotativos. Existem formas de articulação com outros movimentos e com subscritores que estão em diversas partes do país e que nesses locais decidem e definem estratégias particulares de actuação.

3. Este colectivo não tem qualquer financiamento externo, quer de empresas, quer de partidos, sindicatos ou outros. Os apoios são resultado de cedências, parcerias e de decisões voluntárias de pessoas e colectivos envolvidos nas acções do QSLT. Por exemplo, o carro de som que fez a frente da manifestação de 2 de Março foi disponibilizado por um companheiro de nome António (a quem aproveitamos para agradecer), que chegou ao Marquês de Pombal três horas antes da manifestação e que nenhum dos subscritores conhecia anteriormente. Cartazes e folhetos são pagos pelos membros em colectas de valor reduzido, e o design e trabalho de artes finais são feitos por membros que são profissionais nessas áreas, tal como as filmagens, montagens e edições de vídeos, músicas, textos, imagens, etc são o resultado do trabalho de artistas e outros profissionais diversos (realizadores/produtores, músicos, actores, jornalistas,web designers, informáticos, etc...). Este é um espírito de colaboração, partilha de saberes e conhecimentos e de distribuição de competências que acreditamos ser de difícil compreensão para o poder actual. O resto é activismo e energia, redes de contactos, facilitação de colaborações, numa plataforma de diálogo e de interajuda.

segunda-feira, 4 de março de 2013

2M: O POVO É QUEM MAIS ORDENA!

O dia 2 de Março foi histórico. Em 40 cidades, um número nunca antes visto de pessoas saiu à rua para dizer "Que se Lixe a Troika, o Povo É Quem Mais Ordena", e para exigir a demissão imediata do governo.

O governo de Passos, Gaspar e Relvas ficará na história como aquele que conseguiu, num espaço de quatro meses, trazer para a rua manifestações quase diárias de contestação ao governo, assim como as duas maiores manifestações de que há memória em democracia - como se já não bastasse o registo de ser responsável pelos piores níveis de desemprego, pobreza e descalabro dos serviços básicos de sempre!

Mas a sede de bater recordes é insaciável, pelos vistos: nunca antes um governo ou uma maioria ignoraram tão completamente a expressão da indignação popular, mostrando o desprezo pelas pessoas que é já apanágio desta política. O mundo fala na indignação que tomou conta das ruas de Portugal, e o governo tem para oferecer apenas o silêncio em que se prepara para anunciar os cortes de 4 mil milhões de euros que teve medo de revelar antes de 2 de Março.

No meio deste silêncio ensurdecedor, que diz o Presidente da República? O mesmo que o governo: nada. Junta-se ao desprezo pela cidadania que o governo faz questão de exercer. No sábado, as ruas deste país (e não só) encheram-se de esperança. E essa esperança traduz-se, para já, numa exigência clara: Demissão! Quem não dá ouvidos a tamanha maré de vontades é cúmplice assumido destas políticas, e deve arcar com as consequências. Nós não nos esquecemos de que, em democracia, o povo é quem mais ordena.


[fotografia: ©Jorge Humberto, "filmes do ar"]

Texto de António Mariano

Na manhã do «dia inicial inteiro e limpo», então com quinze anos, fui até ao Seminário de Almada dedicar-me a uma das minhas actividades favoritas: «dar uns toques» numas bolas de basquete, enquanto espreitava a saída da bela fragata do meu pai rumo a Itália. Surpreendido, assisti a algumas manobras para fundear ao largo, de frente para a Praça do Comércio. E por ali, imóvel, ficou. Naquela hora não percebi que estava a presenciar o momento mais importante das nossas gerações de portugueses. Desisti de tentar perceber e regressei a casa. Passada a incerteza inicial quanto ao que realmente se passava, escutados os comunicados e canções da rádio, uma alegria natural invadiu-nos a todos e viemos para as ruas festejar a liberdade. Ficavam para trás silêncios e sussurros inesperados e muitos dos tabus que por cá vagueavam, pesados. O meu pai, que nunca chegou a conhecer a Itália, contou-nos depois como a fragata quase podia ter deitado tudo a perder se tivesse varrido a ferro e fogo a nossa baixa pombalina, e todo aquele dia sem mácula tivesse acabado diferente. Mas um punhado de marinheiros decidiu não entrar em confronto com os seus irmãos, um punhado de homens valentes liderados por Salgueiro Maia. Naquele dia e seguintes, aprendi o valor supremo da liberdade, o direito à indignação que a conquistou e como um, vários, imensos grupos de mulheres e homens, conseguiram tomar nas mãos o rumo das suas vidas, nas cidades e nos campos, nas fábricas, nas minas, por todo o lado.

Meia década depois mergulhei no mundo da estiva e vivi toda a precariedade imposta pelas centenárias famílias de senhores feudais que dominavam os portos. Os esquemas humilhantes, de braço no ar, à espera do jeito do padrinho para conquistar o ganha-pão diário já estavam mitigados, mas a precariedade ainda era rainha. Meio ano passado, deu-se a nossa pequena grande revolução. Ganhámos estabilidade, segurança para constituir família, escolher os espaços de intimidade, almoçar nos mesmos restaurantes dos patrões. Porque nascemos no mesmo mundo e todos temos direito a usufruir dele. Decorreu uma década até que — no tempo do governo daquele que agora faz de Presidente — as condições laborais no mundo da estiva se começaram a degradar. Passados tão poucos anos de alguma estabilidade queriam fazer-nos regressar ao horror da incerteza. Queriam comprar os pais com promessas para que deixassem cair os filhos no passado de miséria de que tínhamos a memória bem fresca. Alguns «sindicalistas» aceitaram vender os filhos porque, diziam, «eles também vão desenrascar-se». Alguns de nós gritámos basta e cometemos um enorme crime. O crime de lutar contra as tendências, contra a fatalidade. Impusemos a dignidade, a segurança, acordámos regras sensatas, criámos condições para que filhos de professores, de militares, de desempregados, de estivadores — cerca de duzentos jovens — tivessem sido admitidos para substituir os mais velhos que iam descansar de uma vida dura. Nos últimos meses assistimos ao ajuste de contas dos mesmos senhores feudais com a nossa história recente. Perdemos uma primeira batalha, a da prepotência, da calúnia e da corrupção. Mas a guerra ainda não acabou porque os estivadores nunca desistem de lutar.

Ando e continuarei a andar nas ruas com todos os portugueses que protestam contra esta forma de governação excelliana, comandada pela alta finança. Recuso o pagamento dos desfalques do casino em que alguns tornaram o mundo, porque apenas nos estão a obrigar a pagar os desvios que muitos continuam a esconder nas Caimões. Combato este poder ilegítimo baseado em mentiras descaradas, repetidas até à exaustão, com desfaçatez, por profissionais na arte do logro. Mentiras escritas pelos consultores das agências de comunicação, a quem ainda por cima pagamos, para que a mentira seja melhor assimilada pelos nossos cérebros, bombardeados por notícias reproduzidas como serigrafias. Recuso ficar refém desta simulação de democracia, porque os portugueses delegaram o poder com base em promessas violadas diariamente e têm o direito exigir o fim desta vigarice, deste regime de terroristas sociais.

A desumanidade desta gentinha é o que mais me revolta. Por muito que estejam instruídos e convictos das maquinações que levam a cabo, como podem ficar indiferentes a toda as mortes que provocam à sua volta? A morte daqueles que se vêm obrigados a fugir do seu país para enfrentar um mundo desconhecido e em crise. E a morte das famílias e amigos que deixam para trás. A morte daqueles que diariamente, qual zombies, se encontram nas filas dos subsídios, que o tempo resolve matando-os de vez. A morte dos que sobrevivem com os restos dos caixotes do lixo dos outros. A morte dos idosos, e menos idosos, que se descobrem um dia no meio da rua, muitos deles sem perceberem o que lhes está a acontecer, porque não foi este o mundo que construíram. A morte daqueles que todos os dias são obrigados a fazer escolhas entre a comida ou os medicamentos, a sobrevivência ou a escola dos filhos, a energia dos radiadores ou a renda de casa, a dignidade ou a esmola. A morte dos que desistem. Ao mesmo tempo que os vampiros vão vendendo o país enquanto tratam do branqueamento dos milhões que desviaram, e que nos querem obrigar a pagar.

Os tempos desumanos que vivemos obrigam-me a reviver o passado. Eu já tinha estado naquela fragata, na base do Alfeite, quando íamos fazer companhia ao meu pai nalgum dos domingos em que ficava de serviço. Recordo um seu camarada que um dia, à mesa, disse que não iria ter filhos porque não lhes queria deixar um mundo pior do que aquele que lhe tinham deixado. A frase marcou-me, mas nessa altura só pensei que os meus pais eram uns heróis por nos terem dado a oportunidade de viver, a mim e ao meu irmão. Hoje compreendo melhor o que ele queria dizer, mas quero lutar para que ele não tenha razão. Matar o planeta é uma forma de matar a Humanidade, mas agora estão a matar humanos, de muitas formas e a sangue-frio. Impunemente.

Passados alguns anos, estive presente na estreia dos Capitães de Abril. Alguém afirmou que, sobre o 25 de Abril, poderiam ser feitas mil e uma histórias diferentes. Mas optaram por aquela. Amélia, uma criança de 6 anos, era a Maria de Medeiros daquele dia inicial. Para mim fiquei sempre a olhar aquela criança como um símbolo de Liberdade. A Liberdade que emerge em todos nós nos 25 de Abril. A Liberdade que, em nome de todas as Amélias que nós algum dia fomos, é urgente reconquistar. Estou a escrever estas linhas na minha viagem entre Lisboa e Atenas. Quero transmitir toda a nossa solidariedade ao povo grego nesta hora insuportável. A minha vida na estiva pesa muito quando se trata de solidariedade internacional. Por isso não vou estar nas ruas de Lisboa no dia 2 de Março, mas venho para as ruas de Atenas. Nas dezenas de cidades onde a nossa canção vai protestar, não interessa a língua, porque a Humanidade é só uma e quer fazer parte daquele Mundo-Grândola-Cidade onde O Povo É Quem Mais Ordena.

No próximo dia 3 quero imenso regressar a um País em festa porque a Maré Alta da Liberdade voltou a passar por aqui, por aí.

sábado, 2 de março de 2013

1 Milhão e Meio nas Ruas. 800 Mil em Lisboa

Temos dados de 30 cidades. Ainda faltam algumas, mas já podemos garantir que pelo menos um milhão e meio de pessoas se manifestou contra a troika e o governo neste dia histórico.

Angra do Heroismo 50 | Barcelona 30 | Beja 1000 | Braga 7000 | Caldas da Rainha 3000 | Castelo Branco 1000 | Chaves 200 | Coimbra 20000 | Entroncamento 300 | Estocolmo 15 | Faro 6000 | Guarda 1000 | Horta 160 | Lisboa 800000 | Londres 100 | Loulé 800 | Marinha Grande 3000 | Paris 100 | Ponta Delgada 500 | Portimão 5000 | Porto 400000 | Santarém 500 | Setúbal 7000 | Sines 120 | Tomar 200 | Torres Novas 250 | Viana do Castelo 1000 | Vila Real 1800 (em actualização).

Moção de Censura Popular

Esta Moção de Censura Popular expressa a vontade de um povo que quer tomar o presente e o futuro nas suas mãos. Em democracia, o povo é quem mais ordena.

Os diferentes governos da troika não nos representam. Este governo não nos representa. Este governo é ilegítimo. Foi eleito com base em promessas que não cumpriu. Prometeu que não subiria os impostos, mas aumentou-os até níveis insuportáveis. Garantiu que não extorquiria as pensões nem cortaria os subsídios de quem trabalha, mas não há dia em que não roube mais dinheiro aos trabalhadores e reformados. Jurou que não despediria funcionários públicos nem aumentaria o desemprego, mas a cada hora que passa há mais gente sem trabalho.

Esta Moção de Censura é a expressão do isolamento do governo. Pode cozinhar leis e cortes com a banca e a sua maioria parlamentar. O Presidente da República até pode aprovar tudo, mesmo o que subverte a Constituição que jurou fazer cumprir. Mas este governo já não tem legitimidade. Tem contra si a população, que exige, como ponto de partida, a demissão do governo, o fim da austeridade e do domínio da troika sobre o povo, que é soberano.

Que o povo tome a palavra! Porque o governo não pode e não consegue demitir o povo, mas o povo pode e consegue demitir o governo. Não há governo que sobreviva à oposição da população.
Esta Moção de Censura Popular é o grito de um povo que exige participar. É a afirmação pública de uma crescente vontade do povo para tomar nas suas mãos a condução do país, derrubando um poder corrupto que se arrasta ao longo de vários governos.

No dia 2 de Março, por todo o país e em diversas cidades pelo mundo fora, sob o lema "Que se lixe a troika! O povo é quem mais ordena", o povo manifestou uma clara vontade de ruptura com as políticas impostas pela troika e levadas a cabo por este governo.

Basta! Obviamente, estão demitidos. Que o povo ordene!

Texto de Sara Figueiredo Costa

A quem pergunta pelos motivos para sair à rua no dia 2 de Março apetece devolver a interrogação, mas com novos termos: que motivos não haverá para sair à rua no dia 2 de Março?

Se os mais cépticos precisam de números, demos-lhes números: diz o Jornal de Notícias de há poucos dias que «54 % da população activa estão sem trabalho, não constam nas listas dos centros de emprego mesmo estando desempregados, são subcontratados ou têm ligações precárias às entidades contratantes». Há outros números por onde escolher, do abandono escolar às crianças que passaram a ir para a escola de barriga vazia, dos doentes sem dinheiro para medicamentos aos velhos que deixaram de sair de casa porque já não podem pagar o passe. O problema dos números é que, por aparecerem todos os dias nos noticiários e por servirem de discórdia retórica no parlamento (onde há sempre um contraditório qualquer que os desmente parcialmente, deixando o resultado mais ou menos na mesma), começam a não produzir grande efeito. Lembrar que os números escondem pessoas de carne e osso é uma verdade de la palisse, mas ainda servirá para alguma coisa. Por cada pedaço dessas percentagens infames conhecemos alguns ou muitos rostos de gente sem trabalho, de gente com operações marcadas e sucessivamente adiadas, gente sem dinheiro para chegar ao fim do mês, gente que já prescindiu da electricidade e do gás e já não sabe onde cortar mais. E tudo isto enquanto banqueiros sem escrúpulos nos dizem que aguentamos, empresários que deslocaram os seus impostos para o estrangeiro nos dizem que devíamos ser empreendedores, governantes com pensões vitalícias nos dizem que os sacrifícios estão quase a valer a pena.

Sabemos o que dizem os cépticos: que as manifestações não servem para nada. E sabemos o que dizem os paladinos do respeitinho muito lindo: que este governo foi eleito democraticamente e que não faz sentido andar na rua a pedir a sua demissão. Será preciso lembrar que aquela viagem às urnas de quatro em quatro anos, que os cépticos acreditam ser a nossa única forma de participar na democracia, serve para votar um programa de governo e não o conjunto de rostos que o vai executar? E será preciso lembrar que o último programa de governo escrutinado não previa esta austeridade, estes impostos ou esta chacina dos serviços públicos, e muito menos a entrega das nossas vidas à troika em troca de mais empréstimos?

Nos autocarros e nos cafés há quem brade contra a política e os políticos, colocando-se naquele patamar de pureza ingénua que assegura ausência de responsabilidade pelo futuro, em troca de um bode expiatório, neste caso a política, o mesmo bode expiatório que tantas vezes abriu portas aos paizinhos de uma qualquer verdade absoluta para que viessem tomar conta, por nós, daquilo que a nós diz respeito. Talvez não valha a pena repetir. Estamos cá, temos cabeça para pensar, palavras para discutir e voz para levantar.

Se as ruas ocupadas por milhares de vozes não dizem nada ao governo e à troika, não será por isso que a eficácia da ocupação das ruas se torna menor. Milhares de vozes a gritarem juntas produzem sempre algum efeito. Se o efeito é uma dor de cabeça ministerial ou um pequeno desvio no eixo de rotação da terra, não temos como saber antes de sair à rua, mas creio que o resultado mais importante, aquele que os telejornais não têm como medir, é a certeza sobre o que podemos fazer quando nos organizamos. Com isso havemos de fazer mais do que uma enorme manifestação, mas para já, comecemos por algum lado.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Texto de Diana Andringa


Dizem-nos por vezes: «não vale de nada fazer manifestações — “eles” não nos ouvem». Mas como certamente não nos ouvem é se ficarmos cada um em sua casa
(os que ainda a têm),
evitando as notícias que doem
(aquela família que não pode pagar a renda, a mãe que gostaria de dar leite ao seu filho, a operária que chora a fábrica deslocada — «fazíamos coisas tão bonitas, às vezes nem sabíamos como aquilo saía das nossas mãos» — o homem que se suicidou deixando uma nota a pedir desculpa aos seus credores)
esperando que nunca, nunca, sejamos nós ou os nossos a notícia, distraindo-nos com pequenas coisas para evitar pensar,
com medo de pensar, de dizer, de agir, divididos entre nós ao sabor da propaganda
(«a culpa é dos velhos, que recebem pensões que os novos já não vão poder receber; dos jovens, esses piegas que, em vez de irem trabalhar para as obras noutros países, querem ser úteis estudando no nosso; das mulheres, que por quererem estar na produção negligenciaram os filhos; dos imigrantes, que vieram disputar-nos empregos; dos médicos, que recomendam exames e medicamentos a pessoas descartáveis; dos trabalhadores, que ousam fazer greves»),
dormindo mal, esgotando ansiolíticos e maravilhando governantes e estrangeiros com a brandura dos nossos costumes.
Poupemos, pois, nos ansiolíticos:
gritar alto, cantar, unindo as diferentes vozes, é melhor para a saúde.
Até porque, como escreveu Gabriel Celaya, «as palavras que todos repetimos sentindo como nossas voam».
E, vindo tão a propósito, copio aqui esse poema:

LA POESÍA ES UN ARMA CARGADA DE FUTURO
Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmado,

como un pulso que golpea las tinieblas,
cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades:

las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.
Se dicen los poemas
que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
piden ser, piden ritmo,

piden ley para aquello que sienten excesivo.
Con la velocidad del instinto,
con el rayo del prodigio,
como mágica evidencia, lo real se nos convierte

en lo idéntico a sí mismo.
Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,

para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.
Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.

Estamos tocando el fondo.
Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.

Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.
Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.
Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas

personales, me ensancho.
Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso con técnica qué puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero

que trabaja con otros a España en sus aceros.
Tal es mi poesía: poesía-herramienta
a la vez que latido de lo unánime y ciego.
Tal es, arma cargada de futuro expansivo

con que te apunto al pecho.
No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es algo como el aire que todos respiramos

y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.
Son palabras que todos repetimos sintiendo
como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado.
Son lo más necesario: lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo, y en la tierra son actos.


Texto de João Reis

Conheço uma série de pessoas que têm medo. Têm medo de se comprometer. Umas porque não se revêem em determinado tipo de manifestações, outras porque preferem estar caladas e ver o que acontece, outras ainda porque encontram forma ou formas mais singulares e solitárias de manifestar o seu desagrado. Mas tudo isto somado é ainda muito pouco para entender esse medo. O comprometimento não configura nenhuma espécie de coragem participativa, nem nenhuma obsessão pelo insulto, nem tão pouco o desrespeito pela opinião dos outros. Haverá ainda muitos portugueses que não acordaram para uma espécie de morte anunciada da Europa e do país. Uns porque não acordaram mesmo e os outros porque sendo muito cépticos não acreditam em cenários alternativos e credíveis ao rumo que estamos a tomar. Em Itália, o cenário pós-eleições revelou o descrédito dos cidadãos em relação à classe política em geral e às suas políticas em particular. Como dizia um amigo meu, economista silencioso, políticas de "caixão à cova". Não se pense contudo que o cenário em Itália pode anunciar algo de profundamente esperançoso. Não. Pode aliás, e até, anunciar a catástrofe, a catástrofe que há-de vir. Uma das coisas maravilhosas da manifestação de 15 de Setembro, foi a transversalidade social e política que a caracterizou. Parecia que afinal nem andávamos a dormir e tínhamos todos (ou quase todos ) vontade própria e sentido de indignação e repulsa pelas políticas que antecipadamente nos empurram para a "cova". Isto ( e o isto aqui é muito grande) tem mesmo de acabar, tem mesmo de mudar. Mas não se pense que o que queremos ver transformado em mudança há-de acontecer por inspiração divina ou por acervo crítico em conversas de café. O que queremos mudar exige comprometimento e responsabilidade.Exige que possamos falar e dizer basta, na rua, livres de preconceitos! Porque o medo come a alma.