quinta-feira, 23 de maio de 2013

Reunião com Centrais Sindicais sobre Mobilizações Futuras


Uma delegação do “Que Se Lixe a Troika” reuniu ontem, dia 22 de Maio, com dirigentes da CGTP. Foi analisada a situação política e social do país e os presentes convergiram na necessidade de demitir o actual governo e de recusar o caminho que a troika quer impor as pessoas que vivem em Portugal. Foram abordadas as próximas manifestações de 25 de Maio da CGTP e a manifestação internacional "Povos Unidos Contra a Troika" do próximo dia 1 de Junho, que está a ser organizada por diversos coletivos e ativistas nacionais e internacionais. Houve a afirmação de reforço mútuo das duas iniciativas, que se orientam para os mesmos objectivos. Trocaram-se ainda informações sobre o calendário de acções previstas para os próximos meses. Neste âmbito, o Que Se Lixe a Troika anuncia o seu apoio a manifestação convocada pela CGTP para o próximo dia 25 de Maio em Belém e a sua reivindicação da necessidade de ser derrubado este governo.

Na manhã de hoje, 23 de Maio, outra delegação do “Que Se Lixe a Troika” foi recebida por dirigentes da UGT, tendo ficado clara a necessidade de uma maior convergência na acção de vários sectores sociais e organizações, com a sua diversidade, no sentido de acabar com a política que tem agravado as condições de vida da grande maioria do povo.

Estes contactos enquadram-se no trabalho de preparação da manifestação internacional do próximo dia 1 de Junho que hoje já conta com eventos em 10 países da Europa.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Associação de Estudantes do ISCTE apela à participação na manifestação de 1 de junho

A severa crise do Ensino Superior, os sucessivos cortes na Acção Social, as instituições em risco de fecharem e, inclusive, processos ilegais em que uma instituição de Ensino Superior pública recorre a empréstimos ao Estado para se manter aberta, estudantes que ficam endividados para continuar a poder estudar são consequência de políticas que desinvestem no Ensino Superior e no futuro.

O ISCTE-IUL não é excepção, cifrando-se o financiamento privado em mais de 60%, o que demonstra um desvincular do papel do Estado na gestão financeira deste instituto. Em consequência de medidas austeras o número de alunos do ISCTE-IUL diminuiu este ano, bem como o número de bolsas de acção social, tendo sido indeferido o processo a 1 em cada 3 estudantes.

Estas políticas, aplicadas pelo actual governo, são ordenadas e estipuladas pelo poder internacional que neles comanda: a troika. Assim, a troika é também culpada do estado actual e das políticas de devastação do Ensino Superior.

Queremos um Ensino diferente, um Ensino de qualidade, universal, democrático e tendencialmente gratuito. E sabemos que ele não pode coexistir com estas políticas nem com a troika. Por isso, apelamos a todos os estudantes que dia 1 de Junho saiam às ruas, que se juntem à manifestação "Povos Unidos Contra a Troika" e que venham demonstrar o seu descontentamento.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Até quando vamos tolerar isto?





Cada um de nós, em cada país, em cada cidade, em cada casa, com as suas especificidades, sente na pele as medidas que aniquilam direitos conquistados ao longo de décadas, medidas que agravam o desemprego, que privatizam tudo o que possa ser rentável e condicionam a soberania dos países sob a propaganda da “ajuda externa”. É urgente que unamos as nossas forças para melhor combatermos este ataque.

A 1 de Junho, de Norte a Sul da Europa, tomemos as ruas contra a austeridade!

quarta-feira, 15 de maio de 2013

QUE SE LIXE A LOUCURA FINANCEIRA!

"Que Se Lixe a Troika" interrompe Vítor Gaspar na apresentação do livro dos dois autores que são o fundamento teórico para a austeridade



Não poderia ter sido mais emblemático o convite feito por Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff para prefaciar e apresentar o seu livro ao Ministro das Finanças Vítor Gaspar. O livro, intitulado “Desta vez é Diferente – Oito Séculos de Loucura Financeira”, foi escrito por dois autores que recentemente se viram envolvidos numa grandíssima polémica porque as fórmulas que publicaram nos estudos que levaram a cabo, usadas como justificação por muitos governos e entidades para aplicar a austeridade sem fim nos seus países estariam, afinal, erradas. Nada que dissuadisse os autores, ex-funcionários do Fundo Monetário Internacional, a continuar a defender a austeridade e a destruição.

O convite a Vítor Gaspar é coerente, pois também o ministro das Finanças, diariamente confrontado com as consequências destruidoras das políticas da troika e da austeridade que implementa, mantém a sua fé de que um dia os modelos falhados que usa funcionarão. O actual ministro das Finanças poderá no futuro estar entre as figuras máximas da loucura financeira.


Faz portanto todo o sentido que um livro sobre Loucura Financeira seja apresentado pelo maior especialista português vivo nesse tema. Mas sabemos bem que o erro da austeridade nada tem que ver com uma fórmula. A austeridade destruiu comprovadamente ao longo de décadas as economias, o emprego, os países, as pessoas, em países por todo o mundo. Ignorar isso não é apenas ser pouco rigoroso – é ser um apóstolo da loucura e da irracionalidade.


O “Que Se Lixe a Troika” esteve presente hoje na apresentação do livro em Lisboa para dizer a Vítor Gaspar e à sua inspiração ideológica (alegadamente fraudolenta) que a austeridade é a loucura financeira, e que aplicar a austeridade é acreditar na loucura e promovê-la, forçar as pessoas à miséria, ao desespero, à pobreza. Vítor Gaspar é o representante nacional máximo da Loucura Financeira e não tem qualquer legitimidade para estar frente a um ministério. Tal como o próprio disse, “não foi eleito coisíssima nenhuma”. Gaspar, como o governo que faz com que o país apodreça todos os dias para manter a loucura financeira e civilizacional da austeridade e da troika, tem que sair. A demissão deste governo é o único acto de sanidade que está neste momento em cima da mesa.


Dia 1 de Junho estaremos unidos com várias cidades em vários países europeus a transformar a Europa, a exigir a mudança total de rumo, sob o mesmo lema: Povos Unidos Contra a Troika.

Dia 20 de Maio estaremos em Belém, frente ao Conselho de Estado, a exigir a demissão deste governo que já há muito não tem legitimidade para continuar no poder.

Que se lixe a troika! O povo é quem mais ordena!

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Esclarecimento

Na sequência de algumas notícias que associam o QSLT a diferentes candidaturas a eleições autárquicas esclarece-se:

1. Os subscritores/participantes do QSLT têm todo o direito, a título individual, de intervir e participar na vida política do país, o que inclui integrar candidaturas autárquicas.

2. O QSLT não apoiará, formal ou informalmente, qualquer candidatura.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

1 de Junho | Protesto Internacional: Povos Unidos contra a troika!


A Europa está sob um violento ataque do capital financeiro que se faz representar pela troika (FMI, BCE, CE) e pelos sucessivos governos que aplicam as políticas concertadas com estas entidades desprezando as pessoas. Sabemos que esta ofensiva aposta em vergar os povos, tornando-os escravos da dívida e da austeridade. Atravessa a Europa e também deve ser derrotada pela luta internacional.

Cada um de nós, em cada país, em cada cidade, em cada casa, com as suas especificidades, sente na pele as medidas que aniquilam direitos conquistados ao longo de décadas, medidas que agravam o desemprego, que privatizam tudo o que possa ser rentável e condicionam a soberania dos países sob a propaganda da “ajuda externa”. É urgente que unamos as nossas forças para melhor combatermos este ataque.

O apelo que lançámos para uma manifestação internacional descentralizada circulou entre dezenas de movimentos em Espanha, França, Itália, Grécia, Chipre, Irlanda, Inglaterra, Escócia, Alemanha, Eslovénia… Na reunião de hoje, 26 de Abril, em Lisboa, estiveram presentes companheiros e companheiras de vários países da Europa, que discutiram em conjunto esta proposta.

Assim, hoje sai consensualizado a nível internacional que sairemos à rua no próximo dia 1 de Junho: Povos unidos contra a troika!

Este é o início de um processo que se quer descentralizado, inclusivo e participado. Queremos construí-lo colectivamente e juntando as nossas forças. A partir de hoje a data de 1 de Junho será divulgada à escala europeia e todos e todas estão convidados a juntarem-se num protesto internacional contra a troika e contra a austeridade, a favor de que sejam os povos a decidirem as suas vidas.

Apelamos a todos os cidadãos e cidadãs, com e sem partido, com e sem emprego, com e sem esperança, apelamos a que se juntem a nós. A todas as organizações políticas, movimentos cívicos, sindicatos, partidos, coletividades, grupos informais, apelamos a que se juntem a nós.

Queremos continuar a alargar os nossos contactos tanto nacionais como internacionais, porque estamos conscientes que será o somatório das nossas vozes que poderá travar a nova vaga de austeridade que está a ser preparada. Os povos da Europa têm vindo a demonstrar em vários momentos que não estão disponíveis para mais sacrifícios em nome de um futuro que nunca chegará. Por isso pensamos que é chegada a hora de uma grande demonstração da capacidade destes povos de se coordenarem na luta e
na recusa destas políticas.

De Norte a Sul da Europa, tomemos as ruas contra a austeridade!


domingo, 21 de abril de 2013

Subscrição da Moção de Censura Popular

O Lançamento da Moção de Censura Popular teve lugar em Grândola, com o objetivo simbólico de marcar o início, na cidade imortalizada pela canção de Zeca Afonso e senha da revolução de Abril, de uma recolha de assinaturas em todo o país, pela demissão do executivo governamental.

O site da moção de censura é http://mocaocensurapopular.net/

A subscrição pode ser feita emhttp://mocaocensurapopular.net/subscricao-mocao/

O download de folhas para recolha de assinaturas está disponível em http://mocaocensurapopular.net/venham-mais-cinco/


"Basta! Obviamente estão demitidos. Que o povo ordene!"


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Esclarecimento

O QSLT é um fenómeno novo em Portugal e a sua definição escapa à generalidade dos analistas e comentadores. O seu formato e os seus modos de acção não encaixam nos formatos tradicionais de organização política e a sua actividade colectiva não é marcada por lideranças que facilitem  mediatismos. Somos rostos comuns, de pessoas comuns que activamente decidiram participar, serem parte da solução rejeitando a acusação de que são parte do problema. Não somos membros de nenhuma seita ou irmandade secreta. Não lucrámos com os casos BPN, BPP, BCP, submarinos, Freeport ou Portucale. Não temos dinheiros em offshores. Não somos donos de jornais, rádios ou televisões.

1. Somos um grupo de pessoas que independentemente da sua filiação/simpatia ou independência partidária ou sindical decidiram que era urgente e necessário encontrar articulações e consensos em torno da análise política que se pode fazer do país sob intervenção da Troika. Este grupo diversificado e de geometria variável discute, reflecte, consensualiza ideias e propostas de acções cujo apelo se tem concentrado em algumas linhas de força: crítica das políticas de austeridade, demissão do governo, retirada da Troika do país no âmbito do cumprimento da Constituição, defesa das funções sociais do Estado e dos recursos estratégicos do país, concepção de uma economia para as pessoas.

2. Este colectivo de pessoas não tem fundadores, porta - vozes ou representantes. Tem membros que participam em discussões e em acções propostas em plenários, reuniões e pela net. A sua participação é paritária e, em regra,as decisões são tomadas por consenso ou, em alternativa, por maioria. Os membros que falam à comunicação social são rotativos. Existem formas de articulação com outros movimentos e com subscritores que estão em diversas partes do país e que nesses locais decidem e definem estratégias particulares de actuação.

3. Este colectivo não tem qualquer financiamento externo, quer de empresas, quer de partidos, sindicatos ou outros. Os apoios são resultado de cedências, parcerias e de decisões voluntárias de pessoas e colectivos envolvidos nas acções do QSLT. Por exemplo, o carro de som que fez a frente da manifestação de 2 de Março foi disponibilizado por um companheiro de nome António (a quem aproveitamos para agradecer), que chegou ao Marquês de Pombal três horas antes da manifestação e que nenhum dos subscritores conhecia anteriormente. Cartazes e folhetos são pagos pelos membros em colectas de valor reduzido, e o design e trabalho de artes finais são feitos por membros que são profissionais nessas áreas, tal como as filmagens, montagens e edições de vídeos, músicas, textos, imagens, etc são o resultado do trabalho de artistas e outros profissionais diversos (realizadores/produtores, músicos, actores, jornalistas,web designers, informáticos, etc...). Este é um espírito de colaboração, partilha de saberes e conhecimentos e de distribuição de competências que acreditamos ser de difícil compreensão para o poder actual. O resto é activismo e energia, redes de contactos, facilitação de colaborações, numa plataforma de diálogo e de interajuda.

segunda-feira, 4 de março de 2013

2M: O POVO É QUEM MAIS ORDENA!

O dia 2 de Março foi histórico. Em 40 cidades, um número nunca antes visto de pessoas saiu à rua para dizer "Que se Lixe a Troika, o Povo É Quem Mais Ordena", e para exigir a demissão imediata do governo.

O governo de Passos, Gaspar e Relvas ficará na história como aquele que conseguiu, num espaço de quatro meses, trazer para a rua manifestações quase diárias de contestação ao governo, assim como as duas maiores manifestações de que há memória em democracia - como se já não bastasse o registo de ser responsável pelos piores níveis de desemprego, pobreza e descalabro dos serviços básicos de sempre!

Mas a sede de bater recordes é insaciável, pelos vistos: nunca antes um governo ou uma maioria ignoraram tão completamente a expressão da indignação popular, mostrando o desprezo pelas pessoas que é já apanágio desta política. O mundo fala na indignação que tomou conta das ruas de Portugal, e o governo tem para oferecer apenas o silêncio em que se prepara para anunciar os cortes de 4 mil milhões de euros que teve medo de revelar antes de 2 de Março.

No meio deste silêncio ensurdecedor, que diz o Presidente da República? O mesmo que o governo: nada. Junta-se ao desprezo pela cidadania que o governo faz questão de exercer. No sábado, as ruas deste país (e não só) encheram-se de esperança. E essa esperança traduz-se, para já, numa exigência clara: Demissão! Quem não dá ouvidos a tamanha maré de vontades é cúmplice assumido destas políticas, e deve arcar com as consequências. Nós não nos esquecemos de que, em democracia, o povo é quem mais ordena.


[fotografia: ©Jorge Humberto, "filmes do ar"]

Texto de António Mariano

Na manhã do «dia inicial inteiro e limpo», então com quinze anos, fui até ao Seminário de Almada dedicar-me a uma das minhas actividades favoritas: «dar uns toques» numas bolas de basquete, enquanto espreitava a saída da bela fragata do meu pai rumo a Itália. Surpreendido, assisti a algumas manobras para fundear ao largo, de frente para a Praça do Comércio. E por ali, imóvel, ficou. Naquela hora não percebi que estava a presenciar o momento mais importante das nossas gerações de portugueses. Desisti de tentar perceber e regressei a casa. Passada a incerteza inicial quanto ao que realmente se passava, escutados os comunicados e canções da rádio, uma alegria natural invadiu-nos a todos e viemos para as ruas festejar a liberdade. Ficavam para trás silêncios e sussurros inesperados e muitos dos tabus que por cá vagueavam, pesados. O meu pai, que nunca chegou a conhecer a Itália, contou-nos depois como a fragata quase podia ter deitado tudo a perder se tivesse varrido a ferro e fogo a nossa baixa pombalina, e todo aquele dia sem mácula tivesse acabado diferente. Mas um punhado de marinheiros decidiu não entrar em confronto com os seus irmãos, um punhado de homens valentes liderados por Salgueiro Maia. Naquele dia e seguintes, aprendi o valor supremo da liberdade, o direito à indignação que a conquistou e como um, vários, imensos grupos de mulheres e homens, conseguiram tomar nas mãos o rumo das suas vidas, nas cidades e nos campos, nas fábricas, nas minas, por todo o lado.

Meia década depois mergulhei no mundo da estiva e vivi toda a precariedade imposta pelas centenárias famílias de senhores feudais que dominavam os portos. Os esquemas humilhantes, de braço no ar, à espera do jeito do padrinho para conquistar o ganha-pão diário já estavam mitigados, mas a precariedade ainda era rainha. Meio ano passado, deu-se a nossa pequena grande revolução. Ganhámos estabilidade, segurança para constituir família, escolher os espaços de intimidade, almoçar nos mesmos restaurantes dos patrões. Porque nascemos no mesmo mundo e todos temos direito a usufruir dele. Decorreu uma década até que — no tempo do governo daquele que agora faz de Presidente — as condições laborais no mundo da estiva se começaram a degradar. Passados tão poucos anos de alguma estabilidade queriam fazer-nos regressar ao horror da incerteza. Queriam comprar os pais com promessas para que deixassem cair os filhos no passado de miséria de que tínhamos a memória bem fresca. Alguns «sindicalistas» aceitaram vender os filhos porque, diziam, «eles também vão desenrascar-se». Alguns de nós gritámos basta e cometemos um enorme crime. O crime de lutar contra as tendências, contra a fatalidade. Impusemos a dignidade, a segurança, acordámos regras sensatas, criámos condições para que filhos de professores, de militares, de desempregados, de estivadores — cerca de duzentos jovens — tivessem sido admitidos para substituir os mais velhos que iam descansar de uma vida dura. Nos últimos meses assistimos ao ajuste de contas dos mesmos senhores feudais com a nossa história recente. Perdemos uma primeira batalha, a da prepotência, da calúnia e da corrupção. Mas a guerra ainda não acabou porque os estivadores nunca desistem de lutar.

Ando e continuarei a andar nas ruas com todos os portugueses que protestam contra esta forma de governação excelliana, comandada pela alta finança. Recuso o pagamento dos desfalques do casino em que alguns tornaram o mundo, porque apenas nos estão a obrigar a pagar os desvios que muitos continuam a esconder nas Caimões. Combato este poder ilegítimo baseado em mentiras descaradas, repetidas até à exaustão, com desfaçatez, por profissionais na arte do logro. Mentiras escritas pelos consultores das agências de comunicação, a quem ainda por cima pagamos, para que a mentira seja melhor assimilada pelos nossos cérebros, bombardeados por notícias reproduzidas como serigrafias. Recuso ficar refém desta simulação de democracia, porque os portugueses delegaram o poder com base em promessas violadas diariamente e têm o direito exigir o fim desta vigarice, deste regime de terroristas sociais.

A desumanidade desta gentinha é o que mais me revolta. Por muito que estejam instruídos e convictos das maquinações que levam a cabo, como podem ficar indiferentes a toda as mortes que provocam à sua volta? A morte daqueles que se vêm obrigados a fugir do seu país para enfrentar um mundo desconhecido e em crise. E a morte das famílias e amigos que deixam para trás. A morte daqueles que diariamente, qual zombies, se encontram nas filas dos subsídios, que o tempo resolve matando-os de vez. A morte dos que sobrevivem com os restos dos caixotes do lixo dos outros. A morte dos idosos, e menos idosos, que se descobrem um dia no meio da rua, muitos deles sem perceberem o que lhes está a acontecer, porque não foi este o mundo que construíram. A morte daqueles que todos os dias são obrigados a fazer escolhas entre a comida ou os medicamentos, a sobrevivência ou a escola dos filhos, a energia dos radiadores ou a renda de casa, a dignidade ou a esmola. A morte dos que desistem. Ao mesmo tempo que os vampiros vão vendendo o país enquanto tratam do branqueamento dos milhões que desviaram, e que nos querem obrigar a pagar.

Os tempos desumanos que vivemos obrigam-me a reviver o passado. Eu já tinha estado naquela fragata, na base do Alfeite, quando íamos fazer companhia ao meu pai nalgum dos domingos em que ficava de serviço. Recordo um seu camarada que um dia, à mesa, disse que não iria ter filhos porque não lhes queria deixar um mundo pior do que aquele que lhe tinham deixado. A frase marcou-me, mas nessa altura só pensei que os meus pais eram uns heróis por nos terem dado a oportunidade de viver, a mim e ao meu irmão. Hoje compreendo melhor o que ele queria dizer, mas quero lutar para que ele não tenha razão. Matar o planeta é uma forma de matar a Humanidade, mas agora estão a matar humanos, de muitas formas e a sangue-frio. Impunemente.

Passados alguns anos, estive presente na estreia dos Capitães de Abril. Alguém afirmou que, sobre o 25 de Abril, poderiam ser feitas mil e uma histórias diferentes. Mas optaram por aquela. Amélia, uma criança de 6 anos, era a Maria de Medeiros daquele dia inicial. Para mim fiquei sempre a olhar aquela criança como um símbolo de Liberdade. A Liberdade que emerge em todos nós nos 25 de Abril. A Liberdade que, em nome de todas as Amélias que nós algum dia fomos, é urgente reconquistar. Estou a escrever estas linhas na minha viagem entre Lisboa e Atenas. Quero transmitir toda a nossa solidariedade ao povo grego nesta hora insuportável. A minha vida na estiva pesa muito quando se trata de solidariedade internacional. Por isso não vou estar nas ruas de Lisboa no dia 2 de Março, mas venho para as ruas de Atenas. Nas dezenas de cidades onde a nossa canção vai protestar, não interessa a língua, porque a Humanidade é só uma e quer fazer parte daquele Mundo-Grândola-Cidade onde O Povo É Quem Mais Ordena.

No próximo dia 3 quero imenso regressar a um País em festa porque a Maré Alta da Liberdade voltou a passar por aqui, por aí.