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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Precários nos querem, rebeldes nos terão - intervenção de Sara Simões, dos PI

Precários nos querem, rebeldes nos terão

Em 2011, uma música de Deolinda falava da “geração casinha dos pais”. A música “Parva que sou” levou a que milhares de pessoas, ouvindo musicada a sua história, ou solidarizando-se com a realidade de milhares de portugueses, enchesse as ruas no dia 12 de Março.
A troika chegou a Portugal em Maio de 2011 e encontrou um país onde há algumas décadas que os direitos no trabalho estavam a regredir, impondo-se a precariedade como uma condição dos tempos modernos.
Hoje, não restam dúvidas de que a precariedade é, na verdade, um plano intergeracional. Metade da população ativa em Portugal é precária ou está desempregada. Hoje, não há ninguém que não conheça de perto o rosto da precariedade e do desemprego. Deixou de haver uma “geração da casinha dos pais”, a geração da precariedade e da insegurança verticalizou-se e tornou-se regra. A geração precária são todas as gerações, somos todas e todos nós.
Diziam a direita e os partidos do centro que os jovens não queriam o mesmo trabalho para a vida toda, queriam mobilidade e evolução nas carreiras e que a legislação laboral era demasiado rígida, que a precariedade era também uma forma de aumentar a competitividade das empresas e aumentar o emprego.
A troika trouxe consigo a chantagem da dívida e a desculpa perfeita para acelerar a destruição dos direitos no trabalho e a implementação de todas as medidas de austeridade. Desde a sua chegada o desemprego passou de 13% para 25%, o desemprego jovem de 27% para 40% e mais de 200 mil pessoas emigraram, em especial os trabalhadores mais qualificados. Os funcionários públicos perderam 2 salários por ano e os privados perderam 1. Os apoios sociais às famílias mais pobres foram os primeiros a ser atacados e a maioria dos pensionistas já vivem na miséria. Serviços públicos como a educação, a saúde e os transportes, que representam uma forma de salário indirecto, estão a ser brutalmente destruídos para dar lugar a serviços privados.
O desmantelamento dos serviços públicos é justificado com a argumentação de que é preciso cortar nas despesas, em especial nas “gorduras do Estado”, e aumentar a sua eficiência, mas ao mesmo tempo que se despedem milhares de professores e se fecham escolas o Governo cria o cheque-ensino, uma forma de utilizar dinheiros públicos para financiar o ensino privado. Muitos jovens abandonaram o ensino superior porque deixaram de conseguir suportar os custos de um ensino a caminho da privatização, mas muitos mais são aqueles que já perderam a esperança e não se vão candidatar.
O Governo e a Troika engendraram o maior mecanismo de destruição de direitos e da própria economia que o país algum dia conheceu. Implementou-se um regime de austeridade e experienciamos hoje uma gigantesca transferência de valor do trabalho para o capital. As pensões e muitos serviços de apoio social estão comprometidos pela destruição do emprego mas também porque o Governo está a investir em dívida pública o dinheiro que estava destinado ao pagamento destes serviços e que foi acumulado através de impostos ao longo de gerações.
Perante este cenário de destruição massiva e de hegemonia de um discurso político que culpabiliza os trabalhadores afirmando que andámos durante anos a viver acima das nossas possibilidades, o movimento social conseguiu, ainda assim, contestar e encher as principais praças e ruas do país com gente em oposição às medidas de austeridade, exigindo a demissão do Governo e a recusa da política da troika. Desde a chegada da troika multiplicaram-se as manifestações e as greves. Geraram-se os maiores momentos de mobilização que a sociedade portuguesa conheceu nas últimas décadas, através da plataforma “Que se lixe a troika!”. A 15 de Setembro de 2012 e a 2 de Março de 2013, ao apelo lançado pela plataforma “Que se lixe a troika” para realização de 2 manifestações milhares de pessoas encheram as ruas. Apesar da força que se fez sentir, o Governo não caiu e o programa da troika continuou. 
O desprezo com que fingem ignorar a vontade do povo, é mais um artifício para nos desmoralizar. Mas hoje, mostramos mais uma vez que não desistimos. Queremos as nossas vidas e nada, nem ninguém, nos vai parar. O Governo só cai quando juntos nos levantarmos. E continuaremos a fazê-lo e a resistir, até que quem não tenha mais saída sejam eles a não ser demissão.
(também publicado no site dos Precários Inflexíveis)

Um dia fui um ser humano - intervenção de Nelson Arraiolos

Um dia fui um ser humano

Trabalhei em muitas profissões diferentes, duma ponta à outra do país. Desde construção civil até call centers. Vivi sozinho em cidades estranhas. Nunca poderá ser dito que os sítios onde trabalhei se adaptaram a mim. Eu é que me adaptei ao trabalho.

Começou a guerra aberta aos trabalhadores à qual alguns, descaradamente, se atrevem a chamar “crise”. Vieram os gafanhotos dos bancos e vieram os credores. Veio um milhão e meio de desempregados, uma massa humana de famintos e desesperados, como os patrões gostam, para lhes poder dar trabalhos de 300€ e ainda se rir com soberba na cara deles; rir-se bêbados com o prazer mesquinho de quem põe e dispõe da vida alheia. 

Descobri que estava a ser despromovido. É que não me querem como ser humano, nem a mim nem a vocês: querem-nos como animais de carga. Eu nem para animal sirvo. Enviei milhares de currículos, mas... sou velho demais, doente demais. Foi assim que saltei directamente de ser humano para dano colateral. Um daqueles mortos que há nas guerras quando uma bomba falha o alvo e aterra num bloco de apartamentos cheio de famílias. Não há lugar para mim na economia da austeridade. “Morre, se faz favor, rapidinho e sem barulho.”

Por algum tempo o que resta do 25 de Abril permitiu-me ser um morto com alguma dignidade. Tive o meu subsídio de desemprego. Depois esse acabou. Não tive direito a subsídio subsequente ou de inserção social. Tal como eu, há outro meio milhão de mortos que vive neste país sem qualquer rendimento, sem qualquer esperança, alimentando-se da caridade da família e dos vizinhos. Ou acaba na rua a passar fome. Danos colaterais perante a vista de todos, destroços humanos da guerra económica a ser feita aos trabalhadores.

O Estado, que, nas mãos dos partidos dos patrões, não passa de um carrasco, continua a acossar-me. Pede-me o que não tenho. Manda as Finanças atrás da minha família. E eu descubro que só uma coisa me pode devolver a vida, ou pelo menos a dignidade: resistir.

Avisei o Presidente da República, a Ministra das Finanças e a repartição de Finanças do local onde resido, Bombarral. Avisei: Acabou-se. Enquanto me tomarem como um dano colateral das suas operações de resgate dos bancos, eu não tenho qualquer responsabilidade perante este Estado. Cessei qualquer pagamento de impostos.

O Estado tornou-se o instrumento da nossa destruição. Façamos então os possíveis por acelerar o fim dos nossos carrascos. Irei em breve lançar um apelo à desobediência civil e sei que conto com a vossa ajuda para o fazer propagar.
*Foto de Guilhotina.info

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Grândola - intervenção de Francisco Fanhais (sem texto)



Intervenção de António Mariano, do Sindicato dos Estivadores, Trabalhadores do Tráfego e Conferentes Marítimos do Centro e Sul de Portugal (sem texto)

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado - intervenção de André Albuquerque, do CENA

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado, um actor desempregado. Em Novembro volto à labuta. À bilheteira e sem direitos, que é para não pensar que desaperto o cinto das calças. Os humanos não passam sem pão e água e os países não existem sem Cultura. O Coelho gosta da Nini e do Lá Féria, o Costa dá praças ao Tony. Na Ajuda o cacilheiro está sempre primeiro. Portugal embarcado e emigrado. Portugal afundado e eu continuo desempregado.

De Bragança até Faro: corta na saúde, corta na educação, corta na cultura, corta na dança, corta no cinema, corta no teatro. E depois? Depois privatiza, privatiza filho. O Teatro S.Carlos Santander Totta apresenta! O Teatro Sonae S.João vai estrear! O D.Maria II BPN orgulha-se de apresentar: Duarte e Loureiro a caminho da Carregueira!...há coisas que só mesmo no teatro...

"Artigo 78.º, Fruição e criação cultural, ponto 1: Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural." Porra para a constituição...o que é que a constituição já fez por ti hoje? O que é que a porra da constituição já fez por ti alguma vez na vida? Queime-se a constituição, queime-se o código do trabalho, glória ao pai, ao filho e ao trabalho temporário!

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.

E quero ainda dizer, que isto aqui, que isto aqui, é uma cambada de activistas, uma cambada de sindicalistas e uma cambada de lambões! Vão trabalhar, porra! Vão p'rá estiva 80 horas por semana, vão lavar escadas às 5h da manhã, vão ter dois empregos que é bom p'rá tosse, vão chapar massa em cima de andaimes, trabalham e ainda vêem a vista, vão servir às mesas, ficam com varizes, mas trabalham os gémeos, estão desempregados? Apanhem o cacilheiro gondoleiro. E a Luísa? Continua a subir a calçada...

Deus no céu, Soares dos Santos na terra. Pingo Doce, venha cá! Venha cá ver como se destrói a produção nacional, venha cá ver como se faz uma fundação instrumental. Pingo Doce: um litro de vinho aliena e estupidifica um milhão de portugueses. O Pingo é mais doce com a sede na Holanda, o Pingo quer ir ser ainda mais doce para o meio da Colômbia, o Pingo já é doce na Polónia do Wojtila. Pingo Doce: erva, coca, igreja e exploração, e tudo sem custos de produção.

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.

E queria chamar para junto de mim Isaltino Afonso de Morais! E queria chamar para junto de mim Alberto João Jardim! E queria chamar para junto de mim Avelino Ferreira Torres! E queria chamar para junto de mim Valentim Loureiro! E queria chamar para junto de mim Oliveira e Costa! E queria chamar para junto de mim Alves dos Reis! E queria chamar para junto de mim Al Capone!

"Artigo 20.º, Acesso ao direito e tutela jurisdicional efectiva, ponto1: A todos é assegurado o acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos, não podendo a justiça ser denegada por insuficiência de meios económicos." Alguém tire a venda à Justiça, por amor da Constituição.

"Artigo 74.º, Ensino, ponto 1: Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar. Artigo 75.º, Ensino público, particular e cooperativo, ponto 1: O Estado criará uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população. Artigo 64.º, Saúde, ponto 1: Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover. Ponto 2: O direito à protecção da saúde é realizado: alínea a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito." Ah, maldito tendencialmente! À venda neste leilão temos também um artigo de grande valor económico, um maravilhoso contrato swap dirigido à sua PPP de estimação, esqueça a lei fundamental do seu país e governe-se com artigos financeiros do mais tóxicos que há. Sabe qual é o preço certo?

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.

“Faz-me um bocadinho de impressão que 15 pessoas por mais eminentes que sejam tenham o poder de condicionar a vida de milhões de pessoas da forma como têm”(1), a saber: O Ulrich dos aguentas, o Catroga dos pintelhos, o Ferreira do Amaral das pontes, o Luís e o Nuno Amado dos bancos, o Ulrich dos aguentas, o Salgado dos espíritos santos, o Belmiro dos carnavais, o Durão dos caldos entornados, o Pires de Lima das cautelas, o Seguro do qual é a pressa, o Ulrich dos aguentas, o Moedas dos especialistas adolescentes, o Portas dos submarinos e dos vices, o Passos Coelho das enxadinhas para trabalhar, o Cavaco dos muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito...e as pistolas do Buiça? Emigraram com ele para a Suíça. Foi ao Campo Pequeno não havia viv'alma, no Terreiro do Paço estavam umas pessoas a correr patrocinadas pela telefonia, pegou na mulher e nos filhos e toca de zarpar. Já não teve de dar o salto, mas as lágrimas caíram-lhe na mesma.

"O que é que não temos? Satisfação! O que é que nós queremos? Revolução!"(2) Hoje é outra vez o primeiro dia do resto das nossas vidas, temos todos e todas um brilhozinho nos olhos. A austeridade não é inevitável. O pensamento não é único. Eu cruzei a ponte. Pára o porto, pára Coimbra, pára Braga, pára Viseu, pára o Funchal, pára Vila Real, pára Évora, pára tudo! O Alentejo é nosso outra vez. "A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir."(3) "Não nos venham com cantigas, não cantamos para esquecer, nós cantamos para lembrar que só muda esta vida, quando tiver o poder o que vive a trabalhar."(4) Se o ataque é brutal, a greve é geral. Salários e pensões não pagam dívidas, o empobrecimento não paga dívidas, a exploração não paga dívidas. Trabalhadores e trabalhadoras em luta contra a carestia de vida. A troika cheira mal dos pés, a troika é burra, morra a troika, morra pum! A troika é a velha, mas nós não somos nêsperas.

Spartacus morreu na cruz, a Revolução Francesa morreu na cruz, o 25 de Abril ainda está na cruz, é tempo de o resgatarmos.

"Artigo 1.º, República Portuguesa, Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular, e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária."

Liberdade, igualdade, fraternidade. Eu sou Spartacus. O povo, quando estiver unido, jamais será vencido.

"Artigo 21.º, Direito de resistência: Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública." A austeridade ofende os meus direitos, as minha liberdades e as minhas garantias.

Liberdade, igualdade, fraternidade. Eu sou Spartacus. Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado, mas resisto. A maré vai-se levantar. Eu cruzei a ponte. Não há becos sem saída. O Povo contra-ataca. Nós ou a troika?

(1) Fernando Ulrich, aqui há dias, demonstrando o carinho que tem pelos juízes do T.C.
(3) Sérgio Godinho, "Liberdade"
Todos os artigos retirados da Constituição da Repúblia Portuguesa
Publicado por André Albuquerque no blogue Serena o ser, aqui.

O direito à dignidade e à vida - intervenção de Jorge Falcato, dos (d)Eficientes Indignados

O direito à dignidade e à vida

Quem são as pessoas com deficiência?

São mais de 10% da população.
São pobres. 
49% das famílias que integram uma pessoa com deficiência têm rendimentos mensais que não ultrapassam os 600€. 
É nestas famílias que o estado delega a responsabilidade de assegurar a subsistência das pessoas com deficiência. 

A maioria vive de pensões que não ultrapassam os 212 euros mensais. São 7 euros por dia.
O estado gasta mais do que isto com cada cão da GNR.

Mas, atenção, estas pessoas perdem o direito a à pensão se tiverem qualquer outro rendimento superior a 178 euros. 
Se casarem com alguém que tenha mais de 250 euros mensais também perdem o direito à pensão. O Estado português acha que um casal pode viver com 125 euros cada um.

Se a pessoa com deficiência necessitar de apoio nas suas actividades da vida diária, tem direito a 88 euros mensais para pagar a quem lhe preste assistência.
Como este apoio só é concedido a quem necessita de pelo menos 30 horas semanais de assistência, o seu cuidador recebe a fantástica quantia de 49 cêntimos à hora.
O tratador do cão da GNR, como é evidente, recebe muito mais.

É esta a situação de grande parte das pessoas com deficiência em Portugal, a crise não é novidade para elas. Sempre foi assim. Nunca andaram a gastar acima das suas possibilidades. Sempre viveram em crise.

Mas a desculpa da crise serviu para agravar ainda mais as nossas condições de vida. 
Cortaram no transporte para tratamentos. Cortaram no apoio ao ensino especial. Dificultam a atribuição de produtos de apoio que são indispensáveis, obrigando muita gente a recorrer à caridade da recolha de tampinhas e festas de aldeia. Cortaram nos salários dos poucos que têm emprego e que têm despesas acrescidas para poderem trabalhar. 

Esta situação de discriminação, esta vida de exclusão não pode continuar.

Nós temos direito a viver. E viver não é só respirar.

Temos direito a um rendimento digno.
Temos direito a não ser prisioneiros nas nossas próprias casas.
Temos direito a viver onde queremos e a não ser obrigados a viver em lares de idosos.
Temos direito a usar as cidades, a ir onde nos apetecer.
Temos direito aos transportes públicos.
Temos direito a uma educação e formação profissional inclusivas.
Temos direito a uma vida independente!

É por tudo isto e porque continuamos a ser vítimas de discriminação, que nós, (d)Eficientes Indignados, saímos à rua e voltaremos a sair as vezes que for preciso, apelamos a todas as pessoas com deficiência e suas famílias que se juntem a nós nesta luta.

Somos muitos e não estamos dispostos a continuar a ser cidadãos invisíveis.

ISTO PODE MUDAR. 

ISTO VAI MUDAR!

É tempo de agir. É tempo de aumentar a intensidade da nossa acção - Texto dos organizadores, lido no final da manifestação

É tempo de agir. É tempo de aumentar a intensidade da nossa acção.


A apresentação do Orçamento do Estado para 2014 reforça a ideia de que a austeridade tem dois objectivos: empobrecer-nos e desmantelar os serviços públicos que construímos. As mentiras do controlo do défice e da diminuição da dívida externa são artifícios para aumentar o desemprego, a pobreza e a miséria. Não nos querem apenas mais pobres, querem-nos cada vez mais dependentes.

Os sacrifícios que esmagaram a população do país no último ano e que forçaram à emigração centenas de milhares de pessoas não tiveram qualquer impacto no défice. O deste ano será exactamente igual ao de 2012. A dívida pública chegou, no final do 1.º trimestre de 2013, aos 131,4% do PIB. Quando a troika entrou em Portugal, essa dívida era de 97%. Durante mais de dois anos de troika, o desemprego disparou para os níveis mais altos de sempre e a dívida pública aumentou mais de trinta e quatro pontos percentuais. Esta dívida é impagável.

A gula dos especuladores não terminará no próximo ano, como nos pretendem fazer crer.

Passos Coelho anunciou esta semana um novo nome para o memorando: Programa Cautelar. Derrubar este governo é uma necessidade urgente. A denúncia da acção deste governo não nos deve fazer esquecer que estas mesmas medidas, com diferentes nomes, têm vindo a ser aplicadas por sucessivos governos. Do mesmo modo, também não nos podemos esquecer de que o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, é uma figura central, por um lado, na definição do estado a que o país chegou e, por outro, na aprovação de todos os ataques aos direitos sociais, à soberania, à Constituição.

Entre Educação para todos e Educação só para alguns, nós escolhemos Educação para todos. Hoje, aqui, afirmamos que erguemos uma barricada para defender a nossa Escola: a Escola Pública.

Entre Saúde pública e flagelo, nós escolhemos Saúde pública. Hoje, aqui, afirmamos que erguemos uma barricada para defender o Serviço Nacional de Saúde.

Entre transporte público e gueto, nós escolhemos transporte público. Hoje, aqui, afirmamos que erguemos uma barricada para defender o acesso de todos ao transporte público.

Entre a manutenção na esfera pública de sectores estratégicos e a sua privatização, nós escolhemos a manutenção da água, energia, transportes, florestas e correios na esfera pública. Hoje, aqui, afirmamos que erguemos uma barricada para lutar contra as privatizações.

Entre Cultura e ignorância, nós escolhemos Cultura. Hoje, aqui, afirmamos que erguemos uma barricada para defender o acesso de todos à Cultura.

Entre pensões e salários dignos e miséria permanente, nós escolhemos a Dignidade. Hoje, aqui, afirmamos que erguemos uma barricada não só para lutar contra a precariedade e contra o desemprego, mas, também, para defender os trabalhadores e os pensionistas, que, ano após ano, têm vindo a ser roubados nos seus direitos e rendimentos.

Entre a Constituição e o memorando, nós escolhemos a Constituição. Hoje, aqui, afirmamos que erguemos uma barricada para defender a Constituição da República Portuguesa em tudo aquilo que este governo a deseja aniquilar.

Nós ou a troika? Hoje, aqui, afirmamos que escolhemos resistir para existir.

Que se lixe a troika, não há becos sem saída.

O ataque a que o nosso povo e todos os povos da Europa estão a ser sujeitos exige uma resistência dura, articulada, solidária, persistente e internacional. O nosso combate é pela democracia e pela liberdade — e é feito ao lado de todos os que as defendam. O nosso combate é pela necessidade de cada povo decidir sobre o seu destino. O nosso combate é contra a guerra entre povos para a qual nos querem conduzir.

Hoje, sabemos que, pelo país fora, há milhares de pessoas que se manifestam.

Hoje, sabemos também que milhares de pessoas pelo mundo fora olham para nós com a esperança de poderem regressar ao país em que querem viver. É por eles, e com eles, que contamos para construir o nosso futuro. Cá e lá, resistimos.

Hoje levantámos barricadas. 

A saída somos nós. O povo é quem mais ordena.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Texto lido na Conferência de Imprensa do movimento "Obrigado, Troika"


Boa tarde, senhoras repórteres, cavalheiros…

Antes de mais gostaríamos de dizer que o que finalmente espoletou esta nossa tomada de acção foi a convocatória de mais uma manifestação contra a troika no próximo dia 26 de Outubro, Sábado. Durante tempo demais assistimos na sombra enquanto essa gentinha, essa gentalha, insultava avulsamente os nossos credores, enquanto mandavam, perdoem-me a expressão, “lixar” organizações com o historial de sucesso e de credibilidade internacional do Fundo Monetário Internacional, da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu. Apelamos, antes de mais, a todos os portugueses a que não saiam de casa. Não saiam de casa no dia 26 de Outubro, não vão para o Rossio protestar contra a troika. Aqueles que já não têm casas, que fiquem debaixo das vossas caixas de cartão. Esse famigerado grupo “Que Se Lixe a Troika” é apenas mais um empecilho às brilhantes políticas que têm sido implementadas pelo governo do sr. Dr. economista Passos Coelho.

O movimento “Obrigado, Troika”, convocador desta manifestação, é uma plataforma de organizações como os Banqueiros Ultrajados, a Associação de Artes Especulativas, o Clube dos Senhorios “Despejos Verdadeiros, Já” e a Liga dos Empresários Empreendedores Competitivos. E estamos ultrajados pela quantidade de entraves que se estão a pôr à frente da política de austeridade. A austeridade está a funcionar perfeitamente. As nossas acções na bolsa estão cada vez mais cotadas. Os bancos foram resgatados e continuarão a sê-lo. Cada vez podemos despedir mais facilmente, baixar os salários por decisão unilateral, cada vez gastamos menos com IRC, com Segurança Social, com Saúde e escolas, com todos esses luxos que a maralha anda para aí a defender. A austeridade está a construir um país de futuro. Porque é que as pessoas hão-de poder viver até aos 80 anos? Trabalham até aos 67 e depois morrem. Poupamos uma fortuna em pensões e o país torna-se muitíssimo mais competitivo.

Estamos ultrajados por continuarem a existir protestos contra o nosso bravo governo. E apelamos a que o governo proíba também a próxima manifestação de sábado desse grupo de malfeitores do Que Se Lixe a Troika. Como é que é possível que essa maralha, essa gentalha, possa achar que tem alguma coisa a dizer sobre o país? Têm que trabalhar e calar-se. É esse o seu estatuto social, precários e desempregados preguiçosos sem nada de jeito para contribuir para a salvação nacional. Concordamos com o Dr. Paulo Portas: os pobres não se manifestam e não aparecem na televisão – e nem têm nada que se manifestar, e ainda menos que aparecer na televisão. Porque isso retira-nos credibilidade nos mercados. Onde é que já se viu? Cada vez que lhes tiram uma refeição estão a causar alvoroço? É preciso ser impiedoso com esses pobres. Porque se são pobres a culpa é deles e só deles. Nós, que conseguimos acumular os nossos pés de meia e que temos uma vida confortável, não é apenas porque os nossos pais e tios nos deixaram fortunas, é também porque soubemos bem organizar-nos para trazer a credibilidade da ajuda externa para o país. E é preciso mantê-los para termos credibilidade nos mercados e conseguirmos obter mais financiamento para a actividade bancária e financeira.

Estamos ultrajados contra todos os protestos, contra todas as leis, contra esses desafinados que cantam a Grândola, Vila Morena. Dia 26 de Outubro é preciso pôr um ponto final a isso. É preciso que os interesses nacionais que nós defendemos estejam acima de todos os outros interesses. As pessoas têm de perceber que isto acabou. Acabou a mama. Quem tem dinheiro para pagar um médico paga, quem não tem, lamentamos, mas não temos de ser nós que não pagamos impostos a sustentá-los. Nem têm de estar mais que 4 anos na escola – ler, escrever e fazer contas de matemática chega perfeitamente para a nossa nova sociedade! Este sábado, dia 26 de Outubro, a maralha vai tentar dizer que o Orçamento de Estado é mau. E em parte concordamos com eles, porque de facto podia haver muito mais cortes. Porque é que só hão de cortar os salários a partir dos 600€? Podiam cortar todos! E aliás podiam era acabar com o salário mínimo. Isso é tão século passado! Tão fora de moda! E só cortar 700 milhões de euros no Serviço Nacional de Saúde? Era cortar tudo de uma vez, que a área da saúde privada atrai investimento estrangeiro e aumenta a competitividade do país! E os velhos? Cortar só em algumas pensões? Era preciso era cortar-lhes o pio de vez!

Terminamos a nossa intervenção e damos por concluída esta manifestação afirmando o nosso empenho em manter a credibilidade do país e dos nossos credores internacionais. E assim apelamos desde já a que, quando terminar o memorando da troika, se assine imediatamente um programa cautelar que obrigue a manter exactamente essas mesmas políticas. E, se acabar esse programa cautelar, apelamos à realização de um programa de salvação nacional. E, se for mesmo urgente e necessário para recuperar a credibilidade nos mercados, que num grande esforço nacional façamos então um programa de salvação da salvação nacional. Sabemos que é necessário e que vai resolver todos os nossos problemas. E não se esqueçam de parar de ir às manifestações, de aceitar que não há outro caminho, de comer e calar. Porque a troika é que sabe. E se a troika diz que a democracia já não é competitiva, temos de aceitar e mais nada. Dia 26 de Outubro, todos em casa! Que ninguém saia à rua! A troika é quem mais ordena! Que Se Lixe o Povo!
(Centro Jean Monnet, Representação da Comissão Europeia em Lisboa, 21.10.2013)

Vídeos
(Ver em Media as diferentes notícias sobre o protesto)

E o comunicado de imprensa, enviado a informar que se ia realizar a manifestação:

Comunicado de Imprensa
OBRIGADO TROIKA!
Um grupo de cidadãos, reconhecendo tudo o que a troika está a fazer por Portugal, vai realizar uma manifestação no dia 21 de Outubro, 2ª feira, às 18.00 horas, de apoio ao Banco Central Europeu, à Comissão Europeia e ao FMI. O local de encontro será a Praça dos Restauradores e o percurso terminará no Centro Jean Monnet (Largo Jean Monnet).
PORTUGAL AGRADECIDO!
Para que Portugal cresça e possa, dignamente, pagar as suas dívidas reivindicamos:
- o fim dos contratos de trabalho, dos subsídios de desemprego e do RSI e gritamos:
Abaixo as reformas!
Abaixo a escola pública!
O SNS só atrapalha!
Privatize-se a água, privatizem-se os correios!
Rasguemos o código de trabalho e os direitos de quem trabalha, que decidam os empreendedores, que decida a troika!
Acabe-se com o tribunal constitucional!
Rasgue-se a constituição!
SE SENTES QUE ISTO É O QUE DESEJAS JUNTA-TE A NÓS PARA DIZERMOS A UMA SÓ VOZ:
OBRIGADO TROIKA!
Depois da manifestação, no Largo Jean Monnet, os cidadãos que convocam esta manifestação darão uma conferência de imprensa.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A troika mata - a reportagem que não fizeram




Por todo o lado se anunciava o regresso da troika a Portugal no dia 16 de Setembro. Mas, na verdade, ela nunca de cá sai. Da educação à saúde, dos salários às pensões, novos e velhos, todos sentimos na pele a sua presença, em cada momento das nossas vidas. 

Permanentemente troikados.


Na noite de 15 para 16 de Setembro, vários activistas antitroika prepararam a recepção à comitiva de representantes do FMI, do BCE e da Comissão Europeia. 

Em seis pontos da cidade - Rotunda do Aeroporto, Praça do Areeiro, Praça de Londres, Saldanha, Largo do Rato e Amoreiras -, apareceram enforcados a simbolizar o efeito nefasto que as políticas da troika e deste governo troikista têm sobre as nossas vidas. A troika mata.


A troika destrói as escolas, os hospitais e a cultura; faz subir o número de desempregados;  aumenta o desespero e obriga as pessoas a emigrar para sobreviver. A troika quer liquidar qualquer vida digna de ser vivida. Sabemos que é importante agir e mostrar que é o povo quem mais ordena. Exigimos decidir as nossas vidas e não as vermos hipotecadas aos interesses políticos, económicos e financeiros, que pouco têm que ver com o bem-estar das pessoas e do país.

No final de Outubro queremos voltar a ocupar as ruas das nossas cidades, como fizemos a 15 de Setembro de 2012 e a 2 de Março de 2013, para dizer à troika e ao governo que a serve que este país não é deles e lhes mostrar a força que todos temos. A força que trazemos nos braços.

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Ver mais:

Imagens

Preparação
Na rua


Vídeos

Preparação



Por aí

"Vítima" de austeridade enforcada no Rato - O Corvo
Boneco contra a troika junto a sede do Ps no Largo do Rato - Global Images
Querida «troika» - Entre as Brumas da Memória
A Bola:

sexta-feira, 31 de maio de 2013

1J | OS POVOS UNIDOS JAMAIS SERÃO VENCIDOS

Cada um de nós, em cada país, em cada cidade, em cada casa, com as suas especificidades, sente na pele as medidas que aniquilam direitos conquistados ao longo de décadas, medidas que agravam o desemprego, que privatizam tudo o que possa ser rentável e condicionam a soberania dos países sob a propaganda da "ajuda externa". É urgente que unamos as nossas forças para melhor combatermos este ataque.



Sairemos à rua, em vários países, Portugal, Espanha, Grécia, Itália, França, Eslovénia, Inglaterra, Alemanha e outros, no próximo dia 1 de Junho: Povos unidos contra a troika!
De Norte a Sul da Europa, tomemos as ruas contra a austeridade!

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Que se lixe a troika invade Banif no Porto




Para os bancos, milhões; o povo paga com a austeridade.
O BANIF já recebeu 1000 milhões de € dos nossos impostos, no total são 12 mil milhões de euros públicos destinados à banca. Pedro Passos Coelho e Vitor Gaspar foram entregar mais uma tranche de dinheiro público ao banco governado por Luís Amado.
A banca internacional recebe o dinheiro da troika internacional e dos estados que são destruídos para pagar a crise que eles criaram.
Sai à rua. É lá que vamos resolver isto!

1J | POVOS UNIDOS CONTRA A TROIKA!
É urgente que unamos as nossas forças para melhor combatermos este ataque.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Até quando vamos tolerar isto?





Cada um de nós, em cada país, em cada cidade, em cada casa, com as suas especificidades, sente na pele as medidas que aniquilam direitos conquistados ao longo de décadas, medidas que agravam o desemprego, que privatizam tudo o que possa ser rentável e condicionam a soberania dos países sob a propaganda da “ajuda externa”. É urgente que unamos as nossas forças para melhor combatermos este ataque.

A 1 de Junho, de Norte a Sul da Europa, tomemos as ruas contra a austeridade!